
Em 1995, José Sócrates tornou-se membro do Primeiro Governo de António Guterres,

ocupando o cargo de secretário de Estado-adjunto do Ministro do Ambiente. Dois anos depois, tornou-se ministro-adjunto do primeiro-ministro, com a
tutela do Desporto. Foi, nessa qualidade, que
Sócrates se tornou no principal impulsionador da realização, em Portugal, do EURO 2004. Por ter sido um dos governantes com a tutela do Euro 2004 - quando foi ministro-adjunto do primeiro-ministro, durante o I Governo de António Guterres -,
Sócrates foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
Público (4/2/2005) - A 12 de Fevereiro de 2005 António José Seguro lembrou
as responsabilidades de Sócrates na realização do Euro-2004: "
Hoje, como no Euro-2004, houve um homem que lançou a semente, a semente de uma força que ninguém pode parar.
Esse homem chama-se José Sócrates, futuro primeiro-ministro de Portugal", acentuou.
Despesismo desportivo, desígnio nacional - No blogue Anti-TugaCarta do cidadão Fernando Conceição publicada pelo PÚBLICO de 7 Novembro 2005"Já lá vai um ano depois do que se profetizava ser um desígnio nacional para mostrar ao mundo a modernidade de Portugal -
o Euro 2004. Desde então é inequívoco, em jogos normais da SuperLiga e amigáveis, que
muitos dos lugares ficam por preencher e não terão a mínima rendibilidade no futuro. De todos os estádios, só os de Lisboa e Porto apresentam níveis minimamente satisfatórios.
O estádio de Leiria custou 80 milhões de euros, mas os próximos 20 anos serão marcados por
uma dívida de 600 mil euros, a que acresce um milhão de euros só em custos de manutenção anuais. Mesmo junto ao estádio existe uma pequeníssima escola que, pelo excesso de alunos, tem de ter dois turnos, e muitas aldeias, circundantes ainda não sabem o que é saneamento básico.
O estádio de Aveiro, cujo clube está na divisão de honra,
recebe semanalmente três mil pessoas, quando muitas famílias vivem ainda no limiar da pobreza.
Em Guimarães, o antigo presidente da câmara utilizava o estádio em cartazes de campanha eleitoral - o estádio, em si, só tem utilidade para um único clube, com
16 mil espectadores de média.
Em Coimbra, também o estádio será pago nos próximos20 anos,
em tranches nada suaves de dois milhões de euros.
O estádio de Braga, com um custo real 100 por cento acima do incialmente previsto, só tem capacidade para futebol e o clube apenas paga mil euros de renda, enquanto abunda a poluição no rio da cidade.

Como é do conhecimento geral,
o estádio do Algarve é o exemplo geral mais destrambelhado de todos:
custou 66 milhões, com duas equipas do escalão mais baixo do futebol a jogar e
600 mil euros anuais de dívida à banca. Para além de se encontrar no meio de um descampado, só encheu cinco vezes (Euro incluído), enquanto as populações do Algarve esperam por um hospital central.
Depois de um nacionalismo fingido (alguém viu mais alguma bandeira hasteada após o torneio?),
criaram-se verdadeiros buracos negros na economia nacional. E a verosímil candidatura de Portugal à realização dos Olímpicos de 2016 roça o escandaloso, porque à excepção dos estádios de Leiria e Coimbra, nenhum dos outros dispõe de pista junto ao relvado.
O mesmo José Sócrates que agora pede sacrifícios e garante que "o pior ainda não passou", foi o mesmo que impulsionou esta candidatura ao Euro, que se torna ainda mais incompreensível quando se sabe que
quatro estádios seriam suficientes. Onde está o estádio municipal de Lisboa e do Porto? Foram as rivalidades que ditaram estádios diferentes ou a teimosia e o despesismo terceiro-mundistas?
Porquê tanta falta de planeamento?
E convém lembrar que foram José Sócrates, Gilberto Madaíl, Carlos Cruz, entre outros, que contribuíram para esta cruz pesada que carregaremos até 2025. Certo é que suaremos mais que Sócrates numa qualquer maratona, mas podemos sempre pedir asilo, fugir pelo aeroporto da Ota ou por uma estação de TGV, porque quando chegarmos podemos sempre anunciar uma candidatura autárquica na esquadra mais próxima."
Miguel Sousa Tavares (Público - 09 Dez 2005)"Por que é que
a Holanda e a Bélgica, bem mais prósperos que Portugal,
organizaram em conjunto o Euro 2000 e apenas precisaram de sete estádios, dos quais dois novos, e nós, organizando sozinhos, precisámos de dez estádios, dos quais oito novos?"
Com efeito,
O Euro 2000, o anterior Campeonato Europeu de Futebol, realizado no ano de 2000, teve como anfitriões a
Bélgica e a Holanda, responsabilidade esta que foi, pela primeira vez,
partilhada por duas nações. O campeonato foi disputado em 8 cidades diferentes, 4 na Holanda e 4 na Bélgica.
E quanto ao
Euro 2008, o futuro Campeonato Europeu de Futebol, a realizar no ano de 2008, os organizadores,
Áustria e Suíça, anunciaram que o torneio será disputado em
apenas sete estádios, três na Suíça e quatro na Áustria.
Por que é que a
Holanda e a Bélgica, bem mais prósperos que Portugal,
organizaram em conjunto o Euro 2000 e apenas precisaram de sete estádios, dos quais dois novos,
e Portugal, organizando sozinho o Euro 2004,
precisou de dez estádios, dos quais oito novos? E porque é que a
Áustria e Suíça, igualmente bem mais prósperos que Portugal,
vão organizar também em conjunto o Euro 2008, aproveitando estádios existentes?
No
Diário de Notícias e no
Correio da Manhã:
-
Mais de mil milhões de euros de investimento público total (no Euro 2004).
- Tribunal de Contas (TC) questiona se o elevado montante de apoios públicos ao campeonato organizado por Portugal no Verão de 2004 não poderia ter tido uma utilização mais eficiente noutras áreas de relevante interesse e carência pública.
- Tribunal de Contas refere que os novos estádios do Euro 2004 estão sobredimensionados, o que pode ser constatado pelas baixas taxas de ocupação, da ordem dos 20 a 35%.
- O dinheiro investido neste espectáculo de grande escala não teve grande retorno. Quase seis meses depois do Euro 2004, alguns estádios onde foram investidos milhões de euros para receber a prova estão «às moscas». Dos recintos do Euro2004, só os dos «três grandes» tiveram sucesso comercial.
- Numa auditoria desenvolvida pelo Tribunal de Contas junto dos estádios de Guimarães, Braga, Leiria, Coimbra, Aveiro, Loulé e Faro, ficou claro que as autarquias se endividaram para os próximos 20 anos.
- As sete autarquias que receberam jogos do Euro 2004 contraíram empréstimos bancários no valor global de 290 milhões de euros para financiar obras relacionadas com o campeonato.
- Na sequência destes empréstimos, as câmaras terão que pagar juros no montante de 69,1 milhões de euros, nos próximos 20 anos, refere o relatório de auditoria do Tribunal de Contas.Excertos de uma entrevista a Sócrates pelo Acção Socialista (19/5/2004):
Sócrates - "O Governo aprendeu. Começou por ter as maiores dúvidas e reservas quanto ao Euro 2004, a fazer-lhe críticas muito pueris, próprias de quem não percebeu nada do que estava em causa. O Euro 2004 não é um torneio de futebol, é muito mais do que isso.
É um grande acontecimento que projecta internacionalmente o nosso país".
Sócrates - "Nós definimos como orientação que Portugal devia ser um país
capaz de realizar grandes eventos desportivos internacionais".
Sócrates - "
Pois, mas a construção dos dez estádios não um odioso, é bem necessário ao país. Portugal tinha que fazer este trabalho. É também uma das críticas mais infantis que tenho visto, a ideia de que se Portugal não tivesse o Euro não tinha gasto dinheiro nos estádios. Isso é uma argumentação própria de quem é ignorante.
Sócrates - "Ouvi recentemente responsáveis pelo Euro dizerem que é já claro, em relação ao que o Estado gastou e ao que recebeu, que
estamos perante um grande sucesso económico."
Comentário:
Será aceitável que num país, dos mais pobres da Europa,
se invistam centenas de milhões de contos e se endividem câmaras por dezenas de anos
em estádios de futebol que «estão às moscas», quando existe tanta pobreza, tanto desemprego, tanta precariedade entre a juventude e tanta falta de infra-estruturas ao nível mais básico?
Países consideravelmente mais ricos que o nosso unem-se para organizar campeonatos conjuntos e limitam-se a fazer obras de remodelação em estádios existentes. Portugal, bastante mais pobre,
constrói de raiz oito estádios de futebol e organiza sozinho um europeu de futebol.
Não há ninguém que mereça responder em tribunal por este crime terrívelmente lesivo do Estado?
Não há ninguém que deva ser preso?
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