
João Duque - Professor Catedrático do ISEG
Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro de 2010
Duques e cenas tristes
Meu caro António de Almeida, Que esta o vá encontrar de melhor saúde são os meus mais sinceros desejos.
Por cá tudo na mesma: cada vez menos duques, cada vez mais cenas tristes...
Ainda andamos às voltas com o Orçamento e com a novidade de que o programa de obras públicas foi, ou melhor, vai ser revisto, em particular o TGV. Porém, desde que reli o recente estudo sobre a Alta Velocidade (AV) que a RAVE publicou em Setembro passado, que acho que a medida recentemente anunciada não faz qualquer sentido. Vejamos. Nos estudos iniciais, a RAVE projectava um tráfego de 1,8 milhões passageiros, para o início de exploração da linha de AV entre Lisboa e Madrid, processados no troço entre Lisboa e o Caia. Mais tarde provou-se que, para a obtenção de um VAL [Valor Actual Líquido] positivo do investimento, o número mínimo de passageiros neste percurso no primeiro ano de operação da linha era de 6,7 milhões passageiros (só 3,6 vezes mais). Claro que agora a previsão da RAVE é a de uma procura de 6,7 milhões em 2015...
Antes, já se valorizava uma hora poupada por um passageiro numa deslocação entre Lisboa e o Caia em 11,93 euros. Agora, o novo estudo assenta num valor/ hora poupada em viagem na casa dos 26 euros... Antes, a previsão do Valor Actual Líquido do investimento, já depois de se considerarem todos os efeitos económicos e sociais directos e indirectos do projecto, era negativo e da ordem dos -1.097,3 milhões de euros. Agora já é positivo e da ordem dos 383 milhões... Antes, dizia-se que o projecto seria ruinoso para qualquer operador que tentasse explorar a linha, uma vez que a diferença entre as receitas recebidas e os pagamentos realizados era negativa e da ordem dos 6372 milhões de euros. Agora diz-se que com a "... separação entre a operação e a gestão das infra-estruturas verifica-se que um operador independente obteria uma rentabilidade financeira positiva".
Por cá tudo na mesma: cada vez menos duques, cada vez mais cenas tristes...
Ainda andamos às voltas com o Orçamento e com a novidade de que o programa de obras públicas foi, ou melhor, vai ser revisto, em particular o TGV. Porém, desde que reli o recente estudo sobre a Alta Velocidade (AV) que a RAVE publicou em Setembro passado, que acho que a medida recentemente anunciada não faz qualquer sentido. Vejamos. Nos estudos iniciais, a RAVE projectava um tráfego de 1,8 milhões passageiros, para o início de exploração da linha de AV entre Lisboa e Madrid, processados no troço entre Lisboa e o Caia. Mais tarde provou-se que, para a obtenção de um VAL [Valor Actual Líquido] positivo do investimento, o número mínimo de passageiros neste percurso no primeiro ano de operação da linha era de 6,7 milhões passageiros (só 3,6 vezes mais). Claro que agora a previsão da RAVE é a de uma procura de 6,7 milhões em 2015...
Antes, já se valorizava uma hora poupada por um passageiro numa deslocação entre Lisboa e o Caia em 11,93 euros. Agora, o novo estudo assenta num valor/ hora poupada em viagem na casa dos 26 euros... Antes, a previsão do Valor Actual Líquido do investimento, já depois de se considerarem todos os efeitos económicos e sociais directos e indirectos do projecto, era negativo e da ordem dos -1.097,3 milhões de euros. Agora já é positivo e da ordem dos 383 milhões... Antes, dizia-se que o projecto seria ruinoso para qualquer operador que tentasse explorar a linha, uma vez que a diferença entre as receitas recebidas e os pagamentos realizados era negativa e da ordem dos 6372 milhões de euros. Agora diz-se que com a "... separação entre a operação e a gestão das infra-estruturas verifica-se que um operador independente obteria uma rentabilidade financeira positiva".
Claro que hoje a TIR [taxa interna de rendibilidade] cresceu! Passou de negativa para os +5,75%, muito embora tenham esquecido que o Estado ainda exige uma taxa real de 4% e uma taxa de inflação de 2% que se deve colocar sobre aquela... (Pst! Dá mais de 6%, cuidado!...). Mas a delícia final é a estimativa feita no novo estudo para a receita fiscal. Então não é que "este estudo concluiu que, ao fim de 30 anos, a receita fiscal do Estado tenha, em termos acumulados, aumentado 63,6 mil milhões de euros"? Agarrem-me o ministro das Finanças e não o deixem beliscar um centímetro, arrancar uma cavilha que seja ao TGV! Estava eu e as agências de rating preocupados com o saldo da dívida pública portuguesa! É simples! Só o TGV paga metade da dívida pública directa actual, e a coisa é de tal ordem que quase nem é preciso pôr o país a fazer mais nada! Já reparou, António, como será bom? Pomos uns banquinhos ao longo da linha e ficamos a ver passar os comboios! Se tivessem um pouco mais de coragem, estou certo de que ainda seriam capazes de fazer melhor...
.
