Quarta-feira, Maio 14, 2008

Miguel Sousa Tavares - "Sr. Sócrates, chega de jogadas feitas na sombra"


Miguel Sousa Tavares (Expresso 10/05/2008)

Por favor, não governem mais!

«(...) E quem sentiu a necessidade urgente de mais auto-estradas a rasgar todo o interior já deserto, de um novo aeroporto para Lisboa, de um TGV de Lisboa para Madrid, outro do Porto para Vigo e de uma nova ponte sobre o Tejo para o servir? Quem foi que andou a gritar “gastem-me o dinheiro dos meus impostos a fazer auto-estradas, pontes, aeroportos e comboios de que não precisamos”? Porque razão, então, o lóbi das obras públicas, os engenheiros, projectistas, banqueiros e advogados que os assessoram, mais a ilusão keynesiana do primeiro-ministro, nos hão-de impingir o que não pedimos?

Fomos nós, porventura - ou os autarcas, os especuladores imobiliários e os empresários do turismo - que reclamámos a legislação de excepção dos Projectos PIN para dar cabo da costa alentejana e do que resta do Algarve? Foi nossa a decisão que a Comissão Europeia classificou como uma batota para contornar as normas de protecção ambiental e ordenamento do território?

Fomos nós que reclamámos a privatização da electricidade para depois a pagarmos muito mais cara ou que, inversamente, protegemos até ao limite o monopólio da PT nos telefones fixos, em troca de termos o pior e o mais caro serviço telefónico da Europa?

Fomos nós que nos revoltámos contra o queijo da Serra feito em mesas de mármore, a galinha de cabidela ou o medronho da Serra de Monchique? É em nome da nossa vontade e da nossa cultura que o «ayatollah» Nunes e a sua ASAE aterrorizam e enfurecem meio país?

Fomos nós que estabelecemos uma sociedade policial contra os fumadores, que quisemos encher Lisboa de radares para controlar velocidades impossíveis e ajudar a fazer da caça à multa o objectivo principal da prevenção rodoviária?

Fomos nós que concordámos em que os agricultores fossem pagos para não produzir, os pescadores para não pescar, as empresas para fazer cursos de formação fantasmas ou inúteis, alguns escritores para terem ‘bolsas de criação literária’ para escrever livros que ninguém lê, os privados para gerir hospitais públicos com o dobro dos custos?

Fomos nós que aceitámos pagar por caças para a Força Aérea que caem todos sem nunca entrar em combate, helicópteros que não voam por falta de sobressalentes, submarinos que não servem para nada, carros de combate que avariam ao atravessar uma poça de água?

Fomos nós que decretámos que o Euro-2004 era “um desígnio nacional” e, para tal, desatámos a construir estádios habitados por moscas, onde jogam clubes que vegetam na segunda divisão ou se aguentam na primeira sem pagar aos jogadores, ao fisco e à Segurança Social? E é a nossa vontade colectiva que anda a animar uns espíritos inspirados que já por aí andam a reclamar um Mundial de Futebol ou mesmo uns Jogos Olímpicos?

Ah, e a regionalização, essa eterna bandeira de almas ingénuas ou melífluas, que confundem descentralização com jardinização? Esse último disparate nacional que falta fazer e com o qual nos ameaçam ciclicamente com o argumento de que está na Constituição, embora nós já tenhamos respondido, clara e amplamente, que dispensamos a experiência, muito obrigado?

Será que não se pode acalmar um bocadinho os nossos esforçados governantes? Pedir-lhes que parem com os “projectos estruturantes”, os “desígnios nacionais”, os “surtos de desenvolvimento”, os PIN, os aeroportos, pontes e auto-estradas, que deixem de se preocupar tanto com o que comemos, o que fumamos, o que fazemos em privado e o que temos de fazer em público? Eu hoje já só suspiro por um governo que me prometa ocupar-se do essencial e prescindir do grandioso: um governo que prometa apenas tentar que os hospitais públicos funcionem em condições dignas e que não haja filas de espera de meses ou anos para operações urgentes, que os professores e alunos vão à escola e uns ensinem e outros aprendam, que os tribunais estejam ao serviço das pessoas e da sua legítima esperança na justiça e não ao serviço dos magistrados ou dos advogados, que as estradas não tenham buracos nem a sinalização errada, que as cidades sejam habitáveis, que a burocracia estatal não sirva para nos fazer desesperar todos os dias. Um governo que me sossegue quanto ao essencial, que jure que não haverá leis de excepção nem invocados “interesses nacionais” que atentem contra o nosso património: a língua, a paisagem, os recursos naturais.

Mas não há dia que passe que não veja o eng.º Sócrates a inaugurar ou a lançar a primeira pedra de qualquer coisa. E encolho-me de terror perante esta saraivada de pedras, que ora ajuda a roubar mais frente de rio a Lisboa, ora entrega mais uma praia a um empreendimento turístico absolutamente necessário para o “desenvolvimento”, ora lança mais uma obra pública inútil e faraónica destinada a aliviar-me ainda mais do meu dinheiro para o dar a quem não precisa. Vivo no terror dos sonhos, dos projectos, das iniciativas de governantes, autarcas e sábios de várias especialidades. Apetece dizer: “Parem lá um pouco, ao menos para pensar no que andam a fazer!”

Além de mais, já não percebo muito bem o que justifica tanto frenesim. Já temos tudo o que são vias de transporte concessionado para as próximas gerações: auto-estradas, pontes, portos, aeroportos (só falta o comboio, mas os privados não são parvos, vejam lá se eles querem ficar com o negócio prometidamente ruinoso do TGV!). Já temos tudo o que é essencial privatizado (só falta a água e palpita-me que não tarda aí mais esse ‘imperativo nacional’). É verdade que ainda faltam alguns Parques Naturais, Redes Natura e REN por urbanizar, mas é por falta de clientes, não por falta de vontade de quem governa. Já faltou mais para chegarmos ao ponto em que os governos já não terão mais nada para distribuir. Talvez então se queiram ocupar dos hospitais, das escolas, dos tribunais. Valha-nos essa esperança.»


Comentário: Mas é o próprio Miguel Sousa Tavares que, numa lógica desassombrada, assenta uma forte machadada na esperança de um período de obras menos faraónicas, menos inúteis e menos ruinosas:

Miguel Sousa Tavares (Expresso 07/01/2006): «Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos [Ota e TGV], [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita.»

«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»
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Sábado, Abril 12, 2008

Lá dentro, no «inner circle» do poder, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos




Miguel Sousa Tavares (Expresso 07/01/2006)

«Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos [Ota e TGV], [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita.»

«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»


TSF Online: Um estudo da consultora PriceWaterCoopers indica que o preço da ligação em alta velocidade Lisboa-Porto-Madrid disparou para os 11 mil milhões de euros, mais 40,6 por cento que os 8 mil milhões de euros previstos em 2004.



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Quarta-feira, Março 05, 2008

Belmiro de Azevedo - TGV para quê?


Agência Financeira - 26/02/2008

O «chairman» da Sonae, Belmiro de Azevedo, criticou esta terça-feira o projecto do comboio de alta velocidade (TGV), assumindo que o mesmo não é uma necessidade estrutural para o País e implica um investimento gerador de «desestabilização orçamental».

«Para quê passar a ir de Lisboa a Madrid em quatro horas se já o posso fazer em 50 minutos? A aposta devia ser era nas (companhias aéreas) low-cost», disse o empresário, que acompanhou o I Encontro PME Inovação Cotec, que decorreu em Lisboa.


Que importância tem que o TGV constitua para o país um investimento gerador de «desestabilização orçamental»? Sócrates não está lá para isso mesmo?

Não foi Sócrates o principal impulsionador de um «investimento» de centenas de milhões de contos em estádios de futebol que «estão às moscas»? E que tem o descaramento de afirmar que a construção dos dez estádios é um bem necessário ao país. Que "estamos perante um grande sucesso económico."

Os empresários de obras públicas e os banqueiros já afiam os dentes:


Dinheiro Digital - 05-03-2008

Dois consórcios constituem-se para concurso do TGV

Empresas portuguesas estão a constituir dois agrupamentos para participar no projecto da Alta Velocidade (TGV), que começará a dar os primeiros passados no último semestre deste ano, destaca o Jornal de Negócios esta quarta-feira. Um dos agrupamentos «será co-liderado pela Brisa e pela Soares da Costa, enquanto o outro integrará a Somague, Teixeira Duarte e Mota-Engil», detalha o jornal.


Miguel Sousa Tavares - Expresso 07/01/2006

«Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos [Ota e TGV], [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita

«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»
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Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

Até um idiota percebe que o TGV é um roubo


Diário Digital - 09-02-2008

«Já que houve o bom-senso de pensar o aeroporto e agora pensar a ponte, que haja também a sensatez de pensar globalmente o projecto de alta velocidade ferroviária», defendeu Luís Filipe Menezes.

Falando em Viana do Castelo, à margem da tomada de posse da nova Comissão Política Distrital, Menezes defendeu que um comboio de velocidade moderada, a 200 quilómetros por hora, «era mais do que suficiente» para a ligação Porto-Lisboa e significaria um investimento «muito menor».

Por isso, aconselhou o Governo a ponderar «um estudo independente» para aferir da necessidade de gastar «centenas de milhões de euros» numa ligação em alta velocidade para «retirar meia dúzia de minutos» ao tempo da viagem.

Para o líder do PSD, «está agora evidente que o Governo, do ponto de vista técnico, não consegue suportar uma decisão com base naquilo que é o seu 'staff' de acompanhamento. E os portugueses têm todas as razões para que, toda a vez que aparecer uma proposta, duvidarem da sua fiabilidade».


Comentário:

Meia dúzia de minutos poupados = Milhares de milhões de euros delapidados

Para Sócrates, tempo é dinheiro. Muito dinheiro...

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Sábado, Novembro 24, 2007

Chávez vs. Bush vs. Sócrates

Miguel Sousa Tavares - Expresso 24/11/2007

«Se as coisas, como as pessoas, fossem sempre lineares, não me custaria nada reconhecer que Hugo Chávez não é o tipo de democrata que eu recomendaria nem a Venezuela é o tipo de democracia em que eu mais gostaria de viver. Mas as coisas não são lineares: se o fossem, ninguém concederia a George Bush o epíteto de democrata. Aliás, na comparação, ele só sai a perder

«Chávez chegou ao poder por golpe de Estado, mas fez-se eleger e reeleger em eleições cuja credibilidade ninguém contestou, assim como ninguém pode seriamente contestar que ele tem o apoio efectivo de uma maioria consolidada de venezuelanos. É certo que vai fazer plebiscitar uma emenda constitucional que lhe permitirá fazer-se reeleger e perpetuar indefinidamente no poder - coisa que não é bonita, mesmo se plebiscitada, mas que tantos outros fazem, sem necessidade de emendas constitucionais: veja-se Alberto João Jardim na Madeira ou Jardim Gonçalves no BCP. Também é verdade que fez com se calasse uma televisão privada que lhe era politicamente desafecta (não a mandou calar, como os críticos gostam de dizer, limitou-se a não renovar a licença) e que domina amplamente os meios de informação venezuelanos. Mas ainda funciona uma estação de televisão, jornais e rádios da oposição e não consta que haja presos políticos

«Em contrapartida, Bush não chegou ao poder por golpe de Estado - pelo menos com armas na mão - mas chegou por batota eleitoral (a menos que se queira acreditar que os negros da Florida votaram maciçamente por ele, contra Al Gore). A seguir, fabricou uma guerra e todas as ‘provas’ necessárias a arrastar para ela os Estados Unidos e os aliados, de modo a fazer valer a tradição americana de que ‘um Presidente em guerra’ é sempre reeleito. Não fechou órgãos de informação, mas falsificou a informação sempre que isso lhe conveio para esconder a verdade e conduzir políticas ocultas do Congresso e da opinião pública. Também não tem presos políticos internos, mas tem-nos, de outras nacionalidades, mantidos em prisão em Guantánamo, sem quaisquer direitos, nem prazo, nem acusações, naquela que é uma das situações mais vergonhosas de direitos humanos em vigor no mundo de hoje e a mais vergonhosa em qualquer democracia

«Odiado pelos Estados Unidos e por meio mundo, Chávez tem feito mais pelo seu povo do que muitos dos seus antecessores, enquanto que George W. Bush o que fez foi gastar o dinheiro que Clinton lhe deixou nos cofres a financiar os ricos e a tirar aos pobres, fez os Estados Unidos regredirem em todos os capítulos económicos, científicos e ambientais, desprestigiou a América aos olhos do mundo e tornou este um lugar bem mais perigoso para viver graças à sua irredutível ignorância e arrogância. Até já o amigo Durão Barroso, que nos tempos épicos da cimeira das Lages gostava que se soubesse que o tratava por ‘George’, acha mais prudente agora cavar distâncias e dizer-se ‘enganado’. Só mesmo o director do ‘Público’ - que tão entusiasta foi da ‘justa’ guerra do Iraque e que conseguiu ver nas imagens da estátua derrubada de Saddam uma espécie de reinvenção das imagens dos marines a desembarcar em Omaha Beach, em nome da liberdade - é que pode achar agora que perigoso é “ficar à mercê de demagogos mediáticos” como Hugo Chávez.»

«É verdade que um demagogo é sempre perigoso, mas um demagogo no poder num país como a Venezuela, mesmo com o petróleo, não pode fazer grande mal ao mundo. Um mentiroso, no poder num país como os Estados Unidos, pode fazer e faz

«Por uma vez, a nossa habitual diplomacia de não fazer ondas com ninguém até teve razão de ser. Por que razão, de facto, haveríamos de ter Chávez como inimigo ou alvo a abater? Porque isso agradaria ao embaixador dos Estados Unidos em Lisboa? É ele que está em condições de garantir que, se hostilizássemos Chávez, em nome de uma estúpida solidariedade ocidental de espécie confusa, os Estados Unidos estariam de braços abertos para acolher a comunidade lusa de 400.000 almas que vive na Venezuela? E em nome de que coerência de princípios disse Luís Filipe Menezes esperar que Sócrates não deixasse de “abordar o tema dos direitos humanos” com Chávez? Será que espera o mesmo nas relações com Angola ou com a China - essas, sim, verdadeiras ditaduras - onde o bloco central dos empresários tem ou espera vir a ter negócios milionários, garantidos pela cobertura do Estado e por relações sem ondas com as nomenclaturas locais? O dr. Menezes sente-se capaz de explicar ao sr. Américo Amorim que, se um dia for primeiro-ministro, vai pôr o tema dos direitos humanos no topo da agenda das relações com Angola

«Eu prefiro Hugo Chávez a George W. Bush. Para começar, porque se fosse venezuelano ou latino-americano e se houvesse um Bush na Casa Branca, eu também seria ferozmente antiamericano. Depois, porque acho mais saudável alguém que diz a verdade que lhe vem à boca, ainda que muitas vezes disparatada e inconveniente, do que alguém que lê frases feitas no teleponto e por trás dos microfones faz o oposto do que diz e promete. E, finalmente e não menos importante, porque preferia mil vezes jantar com Chávez do que com Bush. Mesmo que, a certa altura e cansado de o ouvir, tivesse de o mandar calar, como fez, e bem, o rei de Espanha.»


Comentário:

Miguel Sousa Tavares diz que prefere Hugo Chávez a George W. Bush. Pois eu prefiro Bush a Sócrates.


É verdade que Bush chegou ao poder por batota eleitoral. É verdade que Bush fabricou uma guerra e todas as ‘provas’ necessárias a arrastar para ela os Estados Unidos e os aliados. É verdade que Bush falsificou a informação sempre que isso lhe conveio para esconder a verdade e conduzir políticas ocultas do Congresso e da opinião pública. É verdade que Bush tem presos políticos em Guantánamo, sem quaisquer direitos, nem prazo, nem acusações, naquela que é uma das situações mais vergonhosas de direitos humanos em vigor no mundo de hoje e a mais vergonhosa em qualquer democracia. E também é verdade que Bush engendrou o 11 de Setembro, que causou cerca de 3 mil mortos nos EUA, para justificar uma guerra infinita «ao terrorismo».

Mas Bush fez tudo isso às claras. Toda a gente percebeu que as três torres de Manhattan só podiam ter caído por demolição controlada. Toda a gente compreendeu que o NORAD (Comando de Defesa Aeroespacial Norte-americano) teve todo o tempo do mundo para interceptar os aviões sequestrados e só não o fez por ordens superiores. Toda a gente soube que no buraquito que apareceu na fachada do Pentágono não cabia um Boeing 757. Bush pode não o ter dito directamente, mas deixou os indícios necessários para que qualquer pessoa, por bronca que seja, percebesse de imediato que se tratava de um "inside job". Bush, praticamente, gritou-nos aos ouvidos que era um simples funcionário do complexo militar-industrial e que estava ali unicamente para encher os bolsos às indústrias da defesa e do petróleo. Bush, na sua malvadez, foi franco nas pistas que espalhou por todo o lado.

Sócrates é mais sinistro. Sendo, embora, um declarado funcionário do lobby bancário-betoneiro, o Primeiro-Ministro faz a coisa pela calada. A coberto dos dez úteis estádios de futebol que mandou erigir para o Euro 2004, Sócrates quer impingir-nos agora um megalómano aeroporto que o país não precisa e TGVs desmedidamente dispendiosos de que Portugal não tem necessidade.

Como afirmou Miguel Sousa Tavares (Expresso 07/01/2006):

«Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos da Ota e do TGV, [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita. [...] Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»



Não haja dúvida, entre a criminosa honestidade de Bush e a perversidade encapotada de Sócrates, prefiro de longe o primeiro.
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Domingo, Novembro 11, 2007

O pacto proposto por Menezes a Sócrates para a satisfação dos clientes e financiadores de ambos

Miguel Sousa Tavares - Expresso 11/11/2007

«Pacheco Pereira tem toda a razão: o pacto de dez anos proposto por Luís Filipe Menezes a José Sócrates, quanto às grandes obras públicas, é uma proposta indecorosa. Traduzida por miúdos, quer dizer o seguinte: “Independentemente de saber quem vai ganhar as eleições nos próximos dez anos, vamos pôr-nos de acordo em satisfazer os nossos comuns clientes e financiadores, para que eles tenham a segurança de saber que, seja quem for, os seus negócios estão seguros com qualquer um de nós”. Justamente o que seria de esperar de um partido que quer liderar a oposição e ser a principal alternativa de governo era que tivesse uma atitude diferente perante esse regabofe dos grandes negócios com o Estado. Se assim não for, as eleições servirão apenas para mudar o titular da conta no livro de cheques».



Sócrates – Menezes: uma dupla apostada em satisfazer os seus clientes e financiadores, para que estes tenham a segurança de saber que, seja com qual deles for (Sócrates ou Menezes), os seus negócios estarão sempre seguros.


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Quinta-feira, Novembro 08, 2007

O Sócrates do lado di lá, o Sócrates do lado di cá, e as jogadas feitas na sombra, tanto lá como cá

Miguel Sousa Tavares - Expresso 07/01/2006

«Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos da Ota e do TGV, [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita

«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»



CartaCapital - O Campeonato Mundial de futebol de 2014 foi atribuído ao Brasil. Eis o que o antigo internacional brasileiro Sócrates tem a dizer sobre a futura Copa do Mundo de 2014 no Brasil:

O ex-internacional brasileiro Sócrates

"Pelo que eu conheço de quem está organizando esse evento, a Copa no Brasil será um carnaval de um mês, com muitos gastos e sem sobrar nada que se aproveite", disse o ex-jogador. "Não dá para acreditar em nada muito diferente disso."

"Agora que o compromisso foi assumido, a Copa terá de ser realizada, seja com o dinheiro de quem for, e muito provavelmente será do contribuinte. Pode ter certeza que essa Copa vai tomar muito dinheiro de todos."

Sócrates também é contra a construção de novos estádios para receber as partidas do Campeonato Mundial de Futebol. Isso porque, para o ex-jogador, as novas arenas só serviriam como "mausoléus".

"Para quê construir mais estádios se nem os que estão aí são bem administrados?", questiona Sócrates. "Para desperdiçar mais dinheiro, para ficarmos com mais elefantes brancos, para termos mais campos abandonados e sem uso? Não faz sentido."



Do lado de cá do Atlântico, temos a sorte de ter um Sócrates com "vistas mais largas":

Público - 4 de Fevereiro de 2005

A 12 de Fevereiro de 2005 António José Seguro lembrou as responsabilidades de Sócrates na realização do Euro-2004: "Hoje, como no Euro-2004, houve um homem que lançou a semente, a semente de uma força que ninguém pode parar. Esse homem chama-se José Sócrates, futuro primeiro-ministro de Portugal", acentuou.


Contudo, depois de terminado o campeonato Europeu, a 21/05/2004, o Correio da Manhã avaliava o impacto do Euro 2004:

E o dinheiro investido neste espectáculo de grande escala também não teve grande retorno. Quase seis meses depois do Euro 2004, alguns estádios onde foram investidos milhões de euros para receber a prova estão «às moscas». Dos recintos do Euro2004, só os dos «três grandes» tiveram sucesso comercial.

Numa auditoria desenvolvida pelo Tribunal de Contas junto dos estádios de Guimarães, Braga, Leiria, Coimbra, Aveiro, Loulé e Faro, ficou claro que todos custaram mais do que o orçamentado, e que as autarquias se endividaram para os próximos 20 anos. As sete autarquias que receberam jogos do Euro 2004 contraíram empréstimos bancários no valor global de 290 milhões de euros para financiar obras relacionadas com o campeonato. Na sequência destes empréstimos, as câmaras terão que pagar juros no montante de 69,1 milhões de euros, nos próximos 20 anos, refere o relatório de auditoria do Tribunal de Contas.



O Estádio do Algarve, imagem de marca do Eng.º Sócrates, um mausoléu tão inútil como ruinoso, prenunciador das OTAS e dos TGVs em que o Primeiro Ministro português se mostra tão fortemente empenhado. Como diz Miguel Sousa Tavares, vai custar caro, muito caro, aos portugueses, enquanto o grande dinheiro agradece e aproveita.
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Terça-feira, Agosto 28, 2007

Mário Lino ao Expresso - “Não tenho opinião sobre a Ota”

Entrevista do jornalista Fernando Diogo ao ministro Mário Lino - Jornal Expresso – 25 de Agosto de 2007

Numa feroz entrevista realizada para o Expresso, o jornalista Fernando Diogo almoça no Pabe com o ministro Mário Lino. O ambiente, dada a controvérsia dos temas, foi de cortar à faca. O tom agressivo do jornalista Fernando Diogo para com Mário Lino é revelador da crispação de uma comunicação social interventiva. O ministro Mário Lino foi, por assim dizer, encostado à parede:


Fernando Diogo:

- «Mário Lino fala de si próprio, da Ota, do TGV, de Sócrates, das «gaffes» e do PCP. De coração nas mãos»

- "Um grande sorriso iluminava-lhe a cara redonda e os grandes olhos verdes brilhavam de genuína satisfação."

- «a provocação pelo nosso ligeiro atraso deu-lhe um gozo muito especial»

- «O ministro das Obras Públicas riu-se com gosto»

- «O ministro opta sem hesitações pelos pastelinhos de bacalhau»

- «À hora dos linguadinhos o ministro das Obras Públicas de José Sócrates já está às voltas com a Ota. Sem desculpas esfarrapadas nem subtilezas semânticas, assume que teve de mudar de opinião. "Sou capaz de mudar radicalmente de opinião"»

- «“É verdade que sou muito teimoso, mas não o sou ao ponto de teimar num caminho apenas porque é aquele que sempre defendi” - A confissão [do ministro] é feita num tom de sincera convicção»

- «Apesar do recuo na Ota e da continuação dos investimentos no aeroporto de Lisboa, Mário Lino não se converteu à opção Portela+1, devido em larga medida ao aumento dos custos operacionais e à incerta rentabilidade da operação

- «Aterramos e logo seguida apanhamos o TGV para uma curta viagem, durante a qual se percebe que o Governo não vai fazer alterações ao traçado. "Qualquer que seja o local do aeroporto teremos de fazer uma linha ferroviária dedicada. É óbvio que não iremos fazer qualquer estação de TGV na Ota ou em Alcochete".»

- «...mas o seu irreprimível bom-humor leva de vencida a desconfiança e quando completa a frase já o omnipresente sorriso lhe banha a face»

- «As Obras Públicas agradam-lhe, ele que é um executivo nato, um "homem a quem dá grande um gozo fazer coisas", ou não fosse ele um engenheiro»

- «O sentido prático distanciou-o da "esquerda proclamatória" e aproximou-o da esquerda que deixa marcas civilizacionais»


Comentário:

Até que enfim, um repórter consegue, graças a uma agressividade pouco habitual, obrigar um ministro a respostas concretas sobre assuntos vitais para todos nós. Ainda bem que tivemos um Fernando Diogo, ao invés de um Miguel Sousa Tavares (um reconhecido banana), a interpelar um homem do «inner circle» do poder.

Relembremos um inofensivo artigo de opinião neste jornal assinado por Miguel Sousa Tavares sobre os candentes problemas dos transportes do nosso rectângulo:


Miguel Sousa Tavares - Expresso 07/01/2006

«Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos [Ota e TGV], [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita

«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»
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Sábado, Junho 23, 2007

Estamos a ser «governados» por uma comissão liquidatária ao serviço da alta gatunagem?









Texto de Miguel Sousa Tavares - Expresso 23/06/2007

O desvario dos socialistas

(…) O que me custa a entender é que se queiram gastar biliões num aeroporto novo cuja necessidade está por provar, e mais uns biliões num TGV para o qual se desconfia que não haverá utilizadores que o justifiquem, ao mesmo tempo que há gente a viver como nos subúrbios de África e a tratar da saúde em hospitais que parecem saídos da Idade Média. Custa-me a aceitar a convivência entre o luxo e a miséria, entre um país pobre e um Estado esbanjador.

Os nossos socialistas ‘modernos’ têm dois fascínios fatais: as obras públicas e os interesses privados. A simbiose que daqui resulta é a pior possível. O Estado, empenhado em mostrar grande obra a qualquer preço, contrata com os grandes interesses privados tudo e mais alguma coisa: as estradas, as telecomunicações, o ensino, a saúde, a defesa. E dá de si tudo o que tem para dar: terrenos e dinheiros públicos, património e paisagem, empreitadas e fornecimentos, concessões e direitos de toda a espécie. A confusão de funções, de papéis e de interesses entre o público e o privado que daqui resulta é total e perturbante. Anteontem, na apresentação do TGV (e tal como já havia sucedido com a da Ota), o Governo falou, não para o país ou os seus representantes, mas para uma plateia seleccionada dos grandes clientes privados dos negócios públicos: bancos, seguradoras, construtoras, empresas de estudos, gabinetes de engenharia e escritórios de advocacia. E o discurso foi lapidar: “Meus amigos: temos aqui 600 quilómetros de TGV a construir e dez mil milhões de euros a gastar. Cheguem-se à frente e tratem de os ganhar!.

Dois dias antes, na Assembleia da República, o PS uniu-se como um todo para votar contra a proposta do PP, apoiada por toda a oposição, para que o estudo de uma alternativa à Ota contemplasse também aquela que é a solução que o bom-senso defende: a da chamada Portela±1. No dia seguinte, no ‘Público’, o americano do MIT Richard Neufville, uma autoridade mundial em aeroportuária, explicava por que razão a questão do aeroporto de Lisboa se resolveria melhor e infinitamente mais barato com o simples aproveitamento de uma pista já existente e a construção de infra-estruturas mínimas e eficazes para as «low-cost». Mas os deputados socialistas, representantes nominais do interesse público, não querem sequer que a solução seja considerada. Porquê? A resposta só pode ser uma: porque na Ota e no TGV estão em jogo muitos interesses, muitos biliões, que o Governo promove e protege e que o partido compreende.

Temos agora a questão do TGV. (...) ninguém sabe para que servirão. Não há estudos sobre a utilização prevista e a relação custo-benefício da sua construção. Depois de tranquilamente nos esclarecerem que, quanto aos custos de construção, a hipótese de a sua amortização ser realizada com as receitas de exploração é “totalmente para esquecer”, a própria secretária de Estado dos Transportes duvida de que, por exemplo, a linha para Madrid consiga ser auto-sustentável. Ou seja, depois de um investimento de dez mil milhões de euros a fundo perdido, preparam-se para aceitar tranquilamente um défice permanente de exploração. Quanto é que ele poderá vir a ser, ninguém sabe, porque não se estudou o mercado para saber se haverá passageiros que justifiquem três comboios diários para Madrid. Mas, para que os privados, que ficarão com a concessão por troços, não se assustem com a vulnerabilidade do negócio, o Governo garante-lhes antecipadamente o lucro, propondo-se pagar-lhes segundo a capacidade instalada e não segundo a capacidade utilizada. Isto é, se num comboio com trezentos lugares só trinta forem efectivamente ocupados, o Governo garante às concessionárias que lhes pagará pelos 270 lugares vazios. Todos os dias, três vezes ao dia para Madrid e eternamente, até eles estarem pagos e bem pagos. Eis o que os socialistas entendem por ‘obras públicas’ e ‘iniciativa privada’!

Alguma coisa deve estar tremendamente confusa na cabeça dos socialistas e do engenheiro José Sócrates. Eles não perceberam que não são nenhuma comissão liquidatária dos dinheiros e património públicos em nome dos ‘superiores interesses da economia’ (agora, vai a ria de Alvor, em projecto PIN...). Eles não perceberam que o interesse público não é construir aeroportos e comboios de luxo de que o país não precisa, para ‘estimular a economia’ e encher de dinheiro fácil empresários que não sobrevivem sem o Estado; que não é entregar todo o património natural e a paisagem protegida a especuladores imobiliários sem valor nem qualificação; que não é ‘emprestadar’ o CCB ao comendador Berardo para lhe resolver o problema de armazenamento da sua colecção de arte. Se isto é a esquerda, que venha a direita!


Comentário:

Isto não é a esquerda, nem o centro nem a direita. Isto é uma comissão liquidatária ao serviço da alta gatunagem. A propósito, eis alguns dos grandes clientes privados dos escandalosos negócios públicos:


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