domingo, maio 17, 2009

A Guerra das Cruzes de 1998 em Auschwitz ou de quem é o Holocausto, afinal?

Na sequência da actual «guerra» entre a comunidade judaica e o Vaticano, vale a pena relembrar a «Guerra das Cruzes», começada em 1998, entre polacos católicos e judeus de todo o mundo:

Artigo no Scrapbookpages

[Tradução minha]


Cruzes colocadas em 1998 em frente ao Bloco 11 de Auschwitz

Em 1998, nacionalistas polacos decidiram colocar 152 cruzes cristãs em honra dos combatentes católicos polacos da resistência que foram executados pelos nazis numa vala de cascalho atrás do Bloco 11, no principal campo de concentração de Auschwitz. Foi esta a sua forma de protesto contra a exigência judaica, durante os dez anos anteriores, para que uma cruz de 8 metros de altura que recordava uma missa dita pelo Papa em Birkenau fosse removida. A atitude dos polacos foi "este é o nosso país. Vocês têm o vosso país e nós temos o nosso. Se queremos colocar uma cruz católica no nosso país, fazemo-lo".

As 152 cruzes que foram colocadas em 1998, foram depois removidas e a paz foi restabelecida.

Em 1998, grafitis nas placas indicadoras ao longo da estrada que conduz ao campo de Auschwitz alertavam os visitantes para a Guerra das Cruzes ainda antes de chegarem ao campo. Os grafitis eram bem-dispostos e brincavam acerca da controvérsia. Em Outubro de 1998, a Guerra das Cruzes tinha subido de tom ao ponto dos católicos polacos estarem a ameaçar colocar 1000 cruzes, ou uma por cada ano em que a Polónia tinha sido um país católico. Durante os anos em que a Polónia esteve sob domínio estrangeiro, foi a igreja católica que manteve vivo o espírito do nacionalismo polaco.

Os protestos judeus contra os símbolos cristãos estavam a aumentar em 1998, e houve uma nova exigência para que a igreja católica no edifício da ex-administração SS em Birkenau fosse removida, porque não era apropriado num lugar onde mais de um milhão de judeus morreram nas câmaras de gás.

Em Outubro de 2005, quando a foto em baixo foi tirada, a igreja católica ainda estava neste edifício:

Igreja católica no edifício da ex-administração SS em Birkenau

A Guerra das Cruzes foi o culminar de anos de tensão entre polacos e judeus. Os judeus ainda estão ressentidos por alguns polacos terem colaborado com os nazis durante a Segunda Guerra Mundial, e, pior do que isso, depois da Guerra, em 1946, houve progroms nos quais mais judeus foram mortos por polacos civis. Os judeus afirmam que os nazis mataram os judeus no cumprimento de ordens, mas os polacos mataram os judeus de livre vontade. Em 1968 houve violência contra os judeus na Polónia, e mesmo hoje, memoriais judeus e sinagogas em Varsóvia têm de ser constantemente guardadas contra vandalismos e fogos postos.

O desejo dos judeus é fazerem de Auschwitz um lugar internacional, em vez de um lugar sob controlo do governo polaco. Estudantes judeus vêm de Israel e de países de todo o mundo, para um evento bianual chamado "A Marcha dos Vivos", e nesta altura, eles encontram-se e falam informalmente com judeus polacos numa tentativa de compreender o passado e prevenir derramamentos de sangue futuros.

Auschwitz é o maior cemitério judeu do mundo. Foi aqui que mais de um milhão de judeus inocentes perderam a vida às mãos dos nazis. O próprio termo Auschwitz é sinónimo de sofrimento judeu e genocídio. Então, porque é que alguém haveria de querer colocar cruzes cristãs mesmo junto dos terrenos do memorial do holocausto, donde podem ser vistas por judeus enlutados a orar?

A fotografia abaixo mostra o Bloco 11, o edifício prisão no campo principal de Auschwitz como o muro das execuções, chamado "o muro preto", à esquerda. Uma pessoa que estivesse aqui em Outubro de 1998 não seria capaz de ver as cruzes que foram erigidas na vala de cascalho do outro lado deste edifício.

O outro lado do edifício do Bloco 11, visto do lado de dentro do campo

Na verdade, o local onde a maior parte dos judeus morreu no Holocausto não foi no campo principal de Auschwitz, chamado Auschwitz I, do lado de fora do qual foram colocadas as cruzes em 1998, mas em Auschwitz II, um enorme campo subsidiário, a três quilómetros do campo Auschwitz I. Auschwitz II é mais conhecido como Birkenau, e todo o complexo é agora conhecido por Auschwitz-Birkenau.

Todas as crianças nas escolas americanas sabem do Holocausto e do destino de Anne Frank, que morreu de tifo em Bergen-Belsen, para onde foi transferida depois de ter sido prisioneira em Auschwitz-Birkenau. Anne Frank esteve em Auschwitz II, agora chamado Birkenau. Birkenau é o nome alemão para a vila de Brzezinka onde o campo para prisioneiros judeus, trazidos de toda a Europa, foi instalado. Foi em Birkenau que o genocídio dos judeus foi levado a cabo, não no campo principal onde as cruzes foram colocadas.

Para compreender a Guerra das Cruzes, do ponto dos nacionalistas polacos, temos de compreender que o ex-campo de concentração nazi de Auschwitz I, que foi transformado num museu, é denominado o museu do martírio. Quando o campo principal de Auschwitz foi transformado num museu, em 1947, o decreto oficial dizia: "No lugar do ex-campo de concentração nazi, um monumento ao martírio da nação polaca e de outras nações vai ser erigido para todo o sempre". Não havia nenhuma menção aos judeus ou ao Holocausto em nenhum dos folhetos do museu oficial desse tempo. O museu tinha um propósito estritamente político, um monumento à luta dos comunistas contra os fascistas. O museu era oficialmente descrito como um "Monumento Internacional às Vítimas do Fascismo".

Foi apenas depois da queda do comunismo em 1998 que o genocídio dos judeus foi mencionado no monumento do ex-campo de Birkenau. Antes de 1998, poucas pessoas fora da Polónia tinham alguma vez visto Auschwitz-Birkenau, mas existiam mais visitantes durante o regime comunista do que em 1998, porque todos os cidadãos polacos eram encorajados a ir em excursões em grupo ao campo e a maior parte destes visitantes era católica. Em 1998, o maior grupo de visitantes foram estudantes universitários católicos polacos que estavam a cumprir um requisito educacional a visitar Auschwitz onde tantos dos seus católicos avós sofreram e morreram bravamente durante a resistência polaca à invasão nazi.

Desde o primeiro dia em que o campo principal de concentração de Auschwitz abriu, em Junho de 1940, foi o lugar para onde foram enviados os prisioneiros políticos polacos. Foram imagens religiosas católicas que foram arduamente desenhadas com as unhas das mãos nas paredes de concreto numa cela de prisão numa cave em Auschwitz por resistentes polacos que estavam lá presos. Foram sobretudo prisioneiros políticos católicos que foram encostados nus ao muro preto de Auschwitz e executados com um tiro no pescoço. Foram as fotografias de prisioneiros políticos polacos que forraram as paredes dos corredores em 1998 dos edifícios de Auschwitz que foram convertidos num museu.

Para o povo polaco, que era 98% católico, Auschwitz-Birkenau é um lugar onde não um, mas dois dos seus santos católicos morreram como mártires. Tanto o padre Maksymilian Kolbe, um sacerdote católico, como a freira carmelita Edith Stein encontraram a morte em Auschwitz-Birkenau e foram canonizados como santos católicos. A cela prisional no Bloco 11, no campo principal de Auschwitz, que esteve ocupada pelo padre Kolbe que se voluntariou para morrer para salvar a vida a um companheiro prisioneiro, é um local sagrado católico importante. Em 1998, as controversas cruzes foram colocadas em frnte do muro do edifício do Bloco 11, onde o padre Kolbe esteve preso numa "cela da fome".

Na imagem abaixo vê-se o interior da cela na cave onde o padre Kolbe foi deixado a morrer à fome. Na parede está uma placa memorial. Esta cela está sempre decorada com flores, mas note-se que não estão lá nenhuma cruz, porque este edifício está dentro do campo principal de Auschwitz , que é agora um museu.

Foto de 2005 da cela prisional nº 18, a cela do padre Kolbe

Edith Stein nasceu judia e era ateia, mas converteu-se à religião católica e tornou-se numa freira carmelita sob o nome de irmã Benedicta da Cruz. Por ser judia, foi gaseada na câmara de gás na pequena casa rural conhecida como Bunker 2 em Birkenau a 9 de Agosto de 1942. Foi canonizada como santa numa igreja católica em Outubro de 1998.

A original Guerra das Cruzes começou em 1979 depois de católicos piedosos terem erigido uma cruz cristã nas ruínas do Bunker 2, a seguir ao anúncio do Papa de que a igreja estava a iniciar o processo de beatificação, o primeiro passo para a santidade. Então os judeus erigiram um símbolo da Estrela de David e pouco depois já havia uma proliferação de cruzes e estrelas: a guerra tinha começado.

Foto de 2005 das ruínas do Bunker 2

Foram as freiras carmelitas que colocaram a primeira cruz no campo principal de Auschwitz em 1988, próxima do seu convento que era próximo das paredes do campo. O convento carmelita foi estabelecido em 1984 num edifício de tijolo que fora usado pelos nazis para guardar o Zyclon que foi usado para gasear os judeus. Existe também um convento carmelita mesmo junto ao antigo campo de concentração de Dachau, e a cruz cristã no seu topo está à vista e a poucos metros do memorial judeu que foi construído mais tarde. O convento de Dachau tem uma entrada por uma das ex-torres de guarda do campo e está aberta aos turistas que visitam o antigo campo de concentração.

Os judeus também protestaram contra este convento, mas em vão. Ele continua lá, assim como uma capela memorial protestante e uma capela memorial católica nos terrenos do antigo campo. Não existem cruzes ou símbolos cristãos de qualquer tipo no cimo das capelas memoriais em Dachau, embora o memorial judeu ali próximo tenha um Menorah no topo e uma Estrela de David no portão de entrada.

Os protestos contra o convento de Auschwitz foram mais eficazes e por fim a hierarquia da igreja católica concordou em despejar as freiras do edifício. A controvérsia tornou-se ainda mais acesa no Verão de 1989 quando as freiras, já depois de terminado o prazo que lhes fora dado para saírem, ainda não o tinham feito. Habitantes locais reagiram furiosamente quando activistas judeus dos Estados Unidos e de Israel dirigiram uma série de protestos no local. Os polacos interpretaram os protestos como uma intrusão hostil estrangeira e um assalto à soberania da nação polaca por governos de outros países. As freiras finalmente mudaram-se para novas instalações do outro lado da rua, em 1993, mas deixaram a cruz evocativa da missa do Papa, que tinham erigido próximo do convento.

A Polónia tornou-se o país principal para os católicos do mundo porque foi o lugar de nascimento de Karol Wojtyla, o cardeal-arcebispo de Cracóvia, que foi eleito em 1978 o primeiro Papa polaco e o primeiro Papa não italiano em 450 anos. O lugar de nascimento de João Paulo II fica apenas a 30 quilómetros de Auschwitz, em Wadowice, uma pequena e em tempos obscura cidade que se tornou num local popular de peregrinações para católicos. Wadowice possui hoje um aeroporto internacional para receber os muitos visitantes da cidade.

A 7 de Juho de 1979, o Cardeal Wojtyla voltou à Polónia, como Papa João Paulo II, e honrou o seu país natal dando uma missa no antigo campo de concentração nazi de Auschwitz II ou Birkenau. Birkenau foi escolhido porque é o sítio mais próximo da cidade natal do Papa e que era suficientemente amplo para albergar a multidão de 500 mil pessoas que assistiram a este acontecimento único na história da Polónia católica.

A cruz de 8 metros do altar dessa missa é a mesma que foi erigida pelas freiras carmelitas em 1988 no seu convento num edifício junto aos terrenos do Museu do Martírio em Auschwitz I. O edifício para onde as freiras se mudaram tinha sido um antigo teatro antes da Segunda Guerra Mundial.

As imagens abaixo, tiradas em 1998, representam uma vista panorâmica do local da controvérsia sobre as cruzes. A primeira imagem começa na zona esquerda do local e mostra o antigo edifício ocupado pelas freiras católicas carmelitas; as outras fotos foram sendo tiradas da esquerda para a direita.

Edifício que foi o antigo convento das carmelitas católicas


Bandeira polaca e flores em honra dos 152 polacos católicos executados neste local


Algumas das mais de 200 cruzes erigidas fora do campo principal de Auschwitz. Ao centro está a cruz de oito metros usada pelo Papa João Paulo II na sua Missa em Birkenau

Como mostra a fotografia acima, as cruzes foram colocadas nos três lados da antiga vala de cascalho, rodeando a cruz de oito metros da Missa dita pela Papa em 1979 que foi erigida no meio da vala, agora coberta de erva. Na altura em que estas fotos foram tiradas, a 1 de Outubro de 1998, o número de cruzes será superior a 200. A exposição está feita de forma harmoniosa e não caótica ou desrespeitosa como dava a entender o jornal Los Angeles Times referindo-se à controvérsia.

A placa amarela na cerca, mostrada na primeira imagem, pedia o regresso das freiras carmelitas ao belo edifício de tijolo. As freiras mudaram-se para novas instalações em 1993 em resposta a protestos judeus liderados pelo Rabi Weiss em Nova Iorque, mas deixaram ficar a cruz de oito metros que fora erigida em 1988.

A 28 de Maio de 2006, o Papa Bento XVI, o líder da igreja católica, visitou o antigo campo de Auschwitz, que fora principalmente uma prisão para prisioneiros políticos, e o campo de Birkenau onde 1,5 milhões de pessoas, a maior parte judias, foram assassinadas.

A foto abaixo mostra o Papa a entrar no campo principal de Auschwitz através do infame portão "Arbeit Macht Frei" [O Trabalho Liberta], seguido pela sua comitiva de bispos e cardeais católicos.


A foto abaixo mostra o Papa Bento XVI junto ao Monumento Internacional em Birkenau onde presta homenagem às vítimas que foram gaseadas nos crematórios II e III, as ruínas que estão apenas a poucos metros do outro lado do monumento.


A visita do Papa em nada contribuiu para sarar o conflito entre católicos e judeus. Apesar do Papa Bento XVI ter mostrado reverência aos judeus que foram assassinados e tenha baixado a cabeça em sinal de vergonha, ele foi muito criticado nos meios de comunicação por não ter mencionado o anti-semitismo da igreja católica que contribuiu para o ódio aos judeus na Europa, e por não ter referido a falha de Pio XII em não ter feito tudo ao seu alcance para evitar a deportação de judeus para os campos da morte. O Papa Bento XVI não pediu desculpa aos judeus por Auschwitz.

O Papa falou em italiano, para não ofender os polacos e os judeus, ao falar na odiada língua alemã, mas mesmo assim conseguiu insultar os judeus com estas palavras:

"Num lugar como este, as palavras faltam; no fim só pode haver um silêncio de temor, um silêncio que é um sincero apelo a Deus: Porquê, senhor, ficaste em silêncio? Como pudeste tolerar isto?"

Não foi Deus, mas antes milhões de católicos na Europa que ficaram em silêncio, e não foi Deus, mas os vulgares alemães que toleraram o genocídio dos judeus, segundo os críticos dos meios de comunicação.

No seu discurso em Auschwitz, O Papa Bento XVI culpou os criminosos do regime nazi pelo Holocausto e não reconheceu a culpa colectiva do povo alemão que entusiasticamente apoiou Hitler. O Papa também se esqueceu de reconhecer o seu próprio passado nazi como um involuntário membro da juventude hitleriana e um soldado obrigado a combater no exército alemão.

O Papa visitou o Muro Preto no Bloco 11 e acendeu uma vela em honra dos presos políticos que aí foram executados, mas evitou sensatamente o outro lado do Bloco 11 onde a cruz usada na missa dita pelo Papa João Paulo II ainda se mantém. Bento XVI visitou a cela onde o padre Kolbe morreu, mas manteve-se longe da igreja católica no antigo edifício administrativo de Birkenau e evitou o edifício vazio onde as freiras carmelitas viveram.

O consenso geral dos meios de comunicação foi que o Papa fez o seu melhor, mas o seu melhor não foi o suficiente.


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Comentário:

A controvérsia da Guerra das Cruzes de 1998 é posterior à controvérsia sobre o número de vítimas de Auschwitz-Birkenau:


Em 1988, as placas de Auschwitz, que o Papa João Paulo II abençoou em 1979, e que indicavam terem morrido 4 milhões de pessoas naquele campo de concentração, foram substituídas em 1995 por outras placas que indicam que em Auschwitz morreram aproximadamente 1.5 milhões de pessoas. As novas placas foram abençoadas pelo Papa Bento XVI:

quinta-feira, maio 14, 2009

Mário Soares no "Prós e Contras" – Toda a comunicação social está concentrada nas mãos de meia dúzia de grupos económicos

Mário Soares: [...] E realmente isso mostra que há aí um conúbio... nem é com os jornalistas em si, mas com os directores. Uma das coisas que sucedeu é que formar um jornal, que era fácil logo a seguir ao 25 de Abril, não era difícil, formava-se um jornal, quatro jornalistas e tal, o papel, tudo aquilo era fácil de conseguir. Pois bem, agora um jornal, não há! Uma pessoa não pode formar um jornal, precisa de milhares de contos para formar hoje um jornal e, então, para uma rádio ou uma televisão, muito mais. Quer dizer, toda a concentração da comunicação social foi feita e está na mão de meia dúzia de pessoas, não mais do que meia dúzia de pessoas.

Fátima Campos Ferreira: Grupos económicos, é?

Mário Soares: Grupos económicos, claro, grupos económicos. Bem, e isso é complicado, porque os jornalistas têm medo. Os jornalistas fazem o que lhes mandam, duma maneira geral. Não quer dizer que não haja muitas excepções e honrosas mas, a verdade é que fazem o que lhes mandam, porque sabem que se não fizerem aquilo que lhe mandam, por uma razão ou por outra, são despedidos, e não têm depois para onde ir. É difícil, porque há muito pouca... é por isso que nós vimos muitos jornalistas, dos mais notáveis que apareceram depois do 25 de Abril, já deixaram de ser jornalistas. Fazem outras coisas, são professores de jornalismo, são professores de outras coisas. Bem, há aqui portanto um conúbio.

Fátima Campos Ferreira: Sr. Dr., mas então onde fica aí a liberdade de expressão?

Mário Soares: Ah, fica mal, fica mal, como nós sabemos.

Fátima Campos Ferreira: Mas não é também ao abrigo do chapéu da liberdade de expressão que o jornalismo ainda trabalha?

Mário Soares: Evidentemente que os jornais e os jornalistas e mesmo as televisões têm o cuidado de pôr umas florzinhas para um artigo ou outro. Uma vinda à televisão ou outra, etc., para disfarçar um pouco as coisas, mas não é isso o normal. Se a senhora se der ao trabalho, como eu tenho feito, de apreciar o que é, de uma maneira objectiva e isenta, a comunicação social, e como todos se repetem, ou quase todos os grupos se repetem a dizer as mesmas coisas, uns piores que outros, outros melhores, outros mais... mas todos se repetem, incluindo a televisão oficial, bem, a senhora perceberá...

Fátima Campos Ferreira: A televisão pública?

Mário Soares: A televisão pública! A senhora percebe que a comunicação social está nesta situação. Não culpo os jornalistas. Pelo contrário, os jornalistas são as primeiras vítimas...


Comentário:

Não nutro qualquer simpatia por Mário Soares. Reconheço, contudo, que, graças ao curriculum vitae que acumulou aquando da formação da Emaudio S.A., Sociedade de Empreendimentos AudioVisuais, «para aproveitar os recursos de algumas fundações partidárias que lhe eram afectas na participação da tão falada privatização dos meios de comunicação social e abertura da TV ao sector privado», o ex-Presidente da República deve possuir um conhecimento profundo dos mecanismos de propaganda da «Comunicação Social».

Posto isto, quantos dos seguintes jornalistas-comentadores-analistas, e tantos outros que surgem regularmente nos ecrãs das televisões e nas colunas dos jornais, se limitam a papaguear linearmente o que meia dúzia de grupos económicos lhes dita? Ou farão parte das honrosas excepções – as tais florzinhas, como lhes chama Soares, que servem apenas para dar a aparência de liberdade informativa?

Serviçais ou Florzinhas?

quarta-feira, maio 13, 2009

Nahum Goldmann - Sem as indemnizações alemãs do Holocausto, Israel não teria metade da sua infra-estrutura actual


Alguns excertos da entrevista de Nahum Goldmann ao jornal «Le Nouvel Observateur», de 25 de Outubro de 1976:

«Na sua grande maioria, a opinião judaica era hostil a qualquer contacto com os Alemães. Compreendo bastante bem essa atitude e disse muitas vezes que, se o povo judeu tivesse aceitado unanimemente a ideia de negociar indemnizações em dinheiro com os alemães, teria tido vergonha de ser judeu. O povo judeu devia por isso manifestar a sua oposição mas não era necessário que os seus líderes a tivessem em conta; é isto a política».

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«Sem as indemnizações alemãs, que começaram a chegar durante os primeiros dez anos da existência como Estado, Israel não teria metade da sua infra-estrutura actual: todos os comboios de Israel são alemães, os barcos são alemães, assim com a electricidade, uma grande parte da indústria... já sem falar das pensões individuais destinadas aos sobreviventes. Hoje [1976], Israel recebe ainda, anualmente, centenas de milhões de dólares em moeda alemã».

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«Não compreendo o teu optimismo, disse-me Ben Gourion. Porque é que os Árabes haveriam de fazer a paz? Se eu fosse um líder árabe, jamais assinaria a paz com Israel. É normal, nós tomámos conta do seu país. É certo que Deus no-lo prometeu, mas o que é que isso lhes interessa? O nosso deus não é o deles. Nós somos originários de Israel, é verdade, mas isso foi há dois mil anos: o que é que eles têm a ver com isso? Houve o antisemitismo, os nazis, Hitler, Auschwitz, mas foi culpa deles? Eles não vêem senão uma coisa: nós chegámos e roubámos o seu país. Porque é que eles o iriam aceitar? Talvez eles o esqueçam numa ou duas gerações mas, por ora, não existe essa possibilidade. Portanto, é simples: devemos manter-nos fortes, ter um exército poderoso. Toda a política está aí. Doutra forma, os Árabes destruíam-nos».

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Nahum Goldmann orgulha-se de duas grandes coisas: a fundação do estado de Israel – na qual participou – e as reparações [indemnizações] alemãs após a guerra – que ele negociou. É a história dessas difíceis negociações com Adenauer que expõe aqui aquele que é, aos 82 anos, o mais inconformista dos sionistas, ao mesmo tempo Presidente do Congresso judaico mundial e apoiante de paz com os Árabes.

Pai fundador de Israel – da mesma maneira que um Weizmann ou um Ben Gourion – Nahum Goldmann escolheu a Diáspora. Presidente do Congresso judaico mundial, tomou muitas vezes posições em contradição com a política oficial de Jerusalém. Chefe de Estado sem Estado, é, há mais de sessenta anos – em primeiro plano ou nos bastidores -, um dos personagens principais da história judaica contemporânea. Lituano de origem, alemão de cultura, americano de nacionalidade, Nahum Goldmann é, aos oitenta e um anos, o mais desconcertante dos sionistas. Amigo de Nasser, negociador junto de Adenauer das reparações [indemnizações] alemãs, apoiante de paz com os Árabes, ele não poderia encontrar melhor definição de si próprio que aquela que serve de título ao seu último livro: «le Paradoxe juif» [o Paradoxo judeu], que será lançado em Novembro nas edições Stock.

Ben Gourion com Konrad Adenauer, a 14 de Março de 1960. Poucos sabem que a Alemanha continua a pagar indemnizações a Israel [Foto - Nouvel Observateur].

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A entrevista completa de Nahum Goldmann ao jornal «Le Nouvel Observateur», de 25 de Outubro de 1976:

[Tradução minha]

A obtenção de indemnizações alemãs depois da última guerra [Segunda Guerra Mundial] constitui uma longa história e, talvez, o acontecimento da minha vida ao qual eu estou mais ligado. Creio ter dito que fiquei sobretudo alemão pela minha cultura, sendo sempre judeu, e cosmopolita no sentido «universal» do termo. Antes do hitlerismo, durante um curto século, a Alemanha deu aos judeus todos os direitos e, em troca, os judeus enriqueceram este país em todos os domínios: literário, filosófico, musical, político, financeiro… Certamente, o hitlerismo varreu os judeus alemães mas não conseguiu nada contra esta contribuição múltipla e incomparável.

A grande falha, que novamente sublinho, dos judeus alemães foi de não terem medido a tempo os riscos terríveis da aventura hitleriana. Já afirmei muitas vezes que, se não tivéssemos pertencido à geração que criou o Estado de Israel, teríamos ficado numa das mais dolorosas situações da história judaica em virtude da nossa falta de previsão e da nossa ausência de solidariedade anterior ao período nazi. Com alguns amigos, nunca deixei jamais pessoalmente de lançar gritos de alarme mas não pude, ou não soube, fazer-me entender.

Como eu representava o Congresso judaico mundial e a Agência judaica em Genebra, encontrava regularmente os líderes do judaísmo alemão. Estes encontros eram clandestinos porque lhes era interdito ter contactos com um homem desnaturalizado por alta traição. Tentámos fazer o máximo possível mas o povo judeu não nos ajudou muito. As democracias tiveram, também elas, a sua culpa mas, antes de acusar os não judeus, acusemo-nos a nós próprios. Mais tarde, quando os judeus começaram a compreender o horror da situação, a Alemanha era já tão forte que nada já era possível.

Se não contar com os meus encontros com os sobreviventes dos campos de concentração aquando da libertação, não regressei oficialmente à Alemanha senão para me encontrar com o chanceler Adenauer e empreender as negociações sobre as indemnizações. Estas indemnizações constituem uma inovação extraordinária em matéria de direito internacional. Até então, com efeito, quando um país perdia uma guerra, pagava os prejuízos ao vencedor, mas isso passava-se de Estado para Estado, de governo para governo. Ora, pela primeira vez, uma nação ia indemnizar ou simples indivíduos ou Israel, o que não existia juridicamente na altura dos crimes de Hitler. De resto, devo reconhecer que a ideia não partiu de mim.

Durante a guerra, o Congresso judaico mundial tinha criado em Nova Iorque um Instituto de Assuntos judaicos cuja sede é hoje em Londres. Os directores eram dois grandes juristas judeus lituanos, Jacob e Nehemiah Robinson. Graças a eles, o Instituto formulou duas ideias completamente revolucionárias: o tribunal de Nuremberga e as indemnizações alemãs.

É difícil avaliar a importância que revestiu o tribunal internacional que se instalou em Nuremberga. Segundo a lei internacional, era de facto impossível sancionar os militares por terem obedecido a ordens. Foi Jacob Robinson que teve a ideia extravagante e sensacional. Quando ele começou a falar disso aos juristas do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, tomaram-no por um louco «que fizeram então de extraordinário esses oficiais nazis? perguntaram. Podia-se imaginar que Hitler fosse a julgamento, Goering também, mas não simples militares que executaram ordens e que se comportaram como soldados leais.» Nós tínhamos portanto a maior dificuldade em persuadir os Aliados; os Britânicos eram à partida contra, os Franceses não estavam nada interessados e, se tivessem participado, não teriam desempenhado um papel importante. O êxito resultou do facto de Robinson ter conseguido convencer Robert Jackson, juiz do Supremo Tribunal americano.

A outra ideia do Instituto era que a Alemanha nazi devia pagar depois da sua derrota. Faltava ainda acreditar nessa derrota mas, na altura em que cada um podia supor que a guerra estava perdida para os Aliados, como Churchill, de Gaulle..., eu mantive a esperança. Em nenhum instante duvidei, porque sabia que Hitler não se conseguia moderar e que os seus exageros levariam os Aliados a entrar no conflito. No seguimento das conclusões do Instituto, as indemnizações alemãs deveriam ser dirigidas em primeiro lugar às pessoas que tinham perdido os seus bens por causa dos nazis. Por outro lado, se, como esperávamos, o Estado judeu fosse criado, os Alemães pagar-lhe-ia compensações para permitir aos sobreviventes estabelecerem-se lá. A primeira vez que esta ideia foi expressa, aconteceu durante a guerra, no decurso de uma conferência em Baltimore.

Um vez terminado o processo de Nuremberga, considerámos de novo o problema das indemnizações. Vários líderes judeus tentaram então estabelecer relações com Adenauer mas os seus propósitos eram a maior parte das vezes ridículos. Uma organização sugeriu-lhe pagar vinte milhões de marcos alemães; ora, no fim dos acordos que obtive, serão oitenta mil milhões de marcos que os Alemães deverão pagar no total!

Os nossos «contactos» eram Walter Hallstein, então sub-secretário de Estado, que veio a ser mais tarde presidente da CEE e o diplomata Herbert Blankenhorn, director do departamento político do ministério dos Assuntos exteriores e braço direito de Adenauer. Estes dois homens ficaram meus amigos íntimos.

Aquando da reunião do Congresso judaico mundial em Londres, um judeu russo, Noah Barou, um homem maravilhoso, grande idealista, cuja morte prematura nos deixou abalados, impeliu-me a entrar no jogo e a ter um encontro com Adenauer. No meu íntimo, eu estava muito hesitante porque falar novamente com os Alemães não me era fácil. Foi finalmente o meu cérebro que me decidiu a negociar, não o coração. Mas colocava uma condição prévia: antes de encontrar o chanceler para estabelecer as negociações, era preciso que Adenauer fizesse uma declaração solene no Bundestag [Parlamento alemão]; ele tinha de dizer que a Alemanha de hoje não era certamente aquela que quis Auschwitz (o próprio Adenauer tinha estado preso durante o governo de Hitler, e depois escondeu-se num mosteiro porque o Gestapo o procurava), mas que ela [a Alemanha] herdava a responsabilidade dos nazis e que lhe incumbiam as indemnizações; deveria acrescentar que as indemnizações materiais não iriam apagar o mal feito aos judeus pelos Alemães.

Quis-se por diversas vezes arranjar uma entrevista entre nós mas recusei ver o chanceler enquanto o discurso não fosse pronunciado. Eu estava de férias com a minha mulher no lago suíço dos Quatro-Cantões. Adenauer estava de férias a meia hora de lá, em Burgenstock. Blankenhorn veio-me ver para me dizer: «Adenauer está de férias aqui perto; se você tiver um encontro com ele ninguém o saberá. Ora, ele deseja muito a sua visita.» Eu não cedi.

Um pouco mais tarde, em Paris, mais exactamente no hotel Raphael, que era um estabelecimento excelente onde ficava também Eisenhower (eu fico sempre em hotéis frequentados por generais: eles escolhem os melhores porque não pagam), veio ter comigo um membro do primeiro parlamento alemão, um judeu socialista de nome Jacob Altmaier. Era um dos conselheiros de Adenauer para as questões judaicas. «O chanceler decidiu fazer-lhe a vontade, disse-me; ele vai apresentar uma declaração solene no Bundestag daqui a um dia ou dois e desejava que você a lesse antes para acrescentar possivelmente alguns comentários.» Fiz algumas correcções, que Adenauer levou em conta, e, dois dias mais tarde, fez o seu discurso. Todo o parlamento alemão se levantou e observou, de pé, cinco minutos de silêncio em memória das vítimas judias do nazismo.

Desse lado, as coisas tinham tomado o rumo que eu desejava e doravante podia estabelecer as conversações. Mas restava um grande problema: na sua grande maioria, a opinião judaica era hostil a qualquer contacto com os Alemães. Compreendo bastante bem essa atitude e disse muitas vezes que, se o povo judeu tivesse aceitado unanimemente a ideia de negociar indemnizações em dinheiro com os alemães, teria tido vergonha de ser judeu. O povo judeu devia por isso manifestar a sua oposição mas não era necessário que os seus líderes a tivessem em conta; é isto a política.

Adenauer enviou-me uma mensagem na qual se dizia disposto a negociar com um único representante dos judeus da Diáspora. Quanto às negociações com Israel, ele queria resolver a questão com uma delegação diferente. Inicialmente, o governo israelita tinha enviado notas diplomáticas aos quatro aliados: Soviéticos, Franceses, Britânicos e Americanos. Nelas explicava que o "custo de absorção de meio milhão de refugiados judeus sobreviventes dos campos de concentração era de mil e quinhentos milhões de dólares"; Israel queria que a Alemanha Ocidental pagasse dois terços dessa soma e a Alemanha de Leste um terço. Se Telavive se dirigia ainda aos aliados, era para não falar directamente com os alemães.

Até hoje, os Russos não responderam a esta nota. Quanto aos três outros aliados, disseram que estavam de acordo que a Alemanha pagasse, mas que não podiam negociar em nome dos judeus; eles tinham os seus próprios problemas com os Alemães: negociar as questões da ocupação e da soberania. O governo israelita estava por isso numa situação de constrangimento. Ben Gourion e Moshe Sharett convocaram-me então para me dizer: «O essencial das negociações deve ser feita em nome do povo judeu porque as vítimas do nazismo foram-no na condição de judeus e não na condição de Israelitas. Pessoalmente, não nos podemos expor demasiado porque o Herut fez deste caso um cavalo de batalha político». Haviam de facto grandes manifestações de rua em Israel; atiravam-se pedras a Ben Gourion mesmo no interior do Knesset, a Assembleia nacional israelita.

Mais uma vez eu compreendo esta reacção; compreendo a cólera e a indignação daqueles que tanto sofreram. É um pouco a mesma coisa hoje com os judeus da U.R.S.S., esses que conheceram as prisões e as penitenciárias soviéticas são os mais anti-russos. É preciso respeitá-los, admirá-los, mas sobretudo não fazer o que eles querem. Sem as indemnizações alemãs, que começaram a chegar durante os primeiros dez anos da existência como Estado, Israel não teria metade da sua infra-estrutura actual: todos os comboios de Israel são alemães, os barcos são alemães, assim como a electricidade, uma grande parte da indústria... já sem falar das pensões individuais destinadas aos sobreviventes. Hoje, Israel recebe ainda, anualmente, centenas de milhões de dólares em moeda alemã. Quando Pinhas Sapir fez um grande discurso para me defender diante do Conselho judaico mundial, afirmou: «Goldmann trouxe para Israel oito mil milhões de dólares». Em determinados anos, as somas de dinheiro que Israel recebia da Alemanha ultrapassavam as colectas do judaísmo internacional – multiplicando-as às vezes por dois ou três. Hoje, já ninguém está contra este princípio; mesmo certos membros do Herut entendem as indemnizações.

Convoquei portanto a Nova Iorque 0 Claims Conference [Conferência de Reivindicações] (mais precisamente Conferência das Reivindicações Materiais dos Judeus à Alemanha), representando todas as organizações judaicas. Em frente do hotel onde ficámos, a multidão manifestava a sua cólera e tive de sair sob a protecção da polícia. Em subida de tom, existiam violentas discussões no seio da Conferência porque ninguém estava de acordo sobre a designação dos membros do executivo. A discussão já durava há meio dia, sem resultado, quando um membro do American Jewish Labour Committee [Comité Americano dos Trabalhistas Judeus] se levantou e disse: «só há uma solução, demos plenos poderes a Goldmann para escolher os seus membros e nomeemo-lo presidente!» Fui desta forma nomeado por unanimidade – coisa inimaginável tanto no congresso sionista quanto no Congresso judaico mundial.

A minha primeira entrevista com Adenauer devia ter lugar sem que ninguém o soubesse. O chanceler informou-me então de um dia que iria estar em Londres para dar uma conferência e que nessa ocasião podia-me encontrar no hotel Claridge. Pediu-me para entrar em contacto com Blakenhorn para preparar esta conversa e discutir as modalidades. A Blankenhorn, que eu vi com Barou, pedi imediatamente, como condição preliminar à abertura das negociações propriamente ditas, que a Alemanha aceitasse o pedido de Israel – a saber, mil milhões de dólares não como meta mas como um ponto de partida.

Blankenhorn protestou: «Mas é completamente impossível! Como é que o chanceler poderia tomar um tal compromisso sem consultar os membros do seu governo – e, à partida, o seu ministro das finanças, Fritz Schgeffer, que é uma personalidade tão forte? Você tem de esperar». É bom lembrar que esta cena se passou muito antes do famoso «milagre económico» alemão e que, nos anos 1950, a Alemanha era muito pobre. Mas eu mantive-me inflexível: «sem uma tal promessa, retomei, não aconselharei nem aos meus colegas do Claims [Reivindicações] nem a Ben Gourion a aceitar o princípio da negociação». Chegada a altura, encaminhei-me para o Claridge para ter uma das conversas mais impressionantes da minha vida política. A atmosfera era glacial. Reparem: eu tinha à minha frente o primeiro chanceler da Alemanha depois de Hitler. Então, de repente, entrei directamente no assunto: «Senhor chanceler», disse a Adenauer, este momento é histórico. Normalmente, não gosto de grandes frases mas o momento em que o representante do povo judeu encontra o líder da nação alemã que massacrou seis milhões de judeus é necessariamente histórico, e vou-lhe explicar porquê. «Só lhe peço que me deixe falar vinte minutos sem me interromper». E Adenauer, com a sua figura venerável de estátua medieval, escutou o meu discurso sem abandonar a sua impassibilidade.

E terminei dizendo-lhe: «senhor chanceler, não vou brincar aos diplomatas porque o nosso problema não é um problema de diplomacia mas de moralidade. Se decidir agir, fica empenhado num dever moral. Se decidir abordar o debate em termos diplomáticos, será melhor que não nos tornemos a ver. Os Israelitas pedem mil milhões de dólares e eu pedi que esta soma fosse considerada como base de partida. O Sr. Mankenhorn disse-me que, segundo a vossa constituição, era completamente impossível. Respondi-lhe que não podia esperar porque o povo judeu está numa grande efervescência e na sua maioria opõe-se a todas as negociações susceptíveis de lavar os crimes da Alemanha. Mas agora que isto já é do seu conhecimento, sinto que você tem uma personalidade suficientemente forte para esquecer por um instante os rigores da vossa constituição – quando se trata de um tal assunto.».

Adenauer observou-me antes de responder: «Sr. Goldmann, nunca tive o prazer de o encontrar antes». E, de facto, tal teria sido possível porque ele tinha sido membro do comité pró-palestiniano antes de Hitler subir ao poder. «Você conhece-me à meia hora e devo dizer ao meu amigo Blankenhor, que, a quem eu conheço há tantos anos, - que você me compreende melhor do que ele. Queira passar ao escritório ao lado; vou-lhe enviar a minha secretária: dite-lhe a carta e eu assino-a».

Ditei a carta, à qual Adenauer introduziu uma única alteração; eu tinha escrito que os mil milhões de dólares seria «die Basis», a base, e ele substituiu esta palavra por «die Grundlage», o princípio, o que ia dar ao mesmo. E ele conclui a entrevista com estas palavras: «envie-me o Sr. Barou esta tarde; eu entregar-lhe-ei a carta assinada».

Nenhum outro homem de Estado teria ousado fazer semelhante coisa. Depois desta assinatura, ele teve grandes dificuldades com o seu gabinete que o censurou por se comportar como um ditador, de ter prometido estes mil milhões de dólares sem ter pedido a opinião de ninguém. Mas era Adenauer, um verdadeiro líder, e todos acabaram por aceitar. É muitas vezes assim que é necessário conduzir uma democracia. Esta conversa permaneceu durante muito tempo ignorada porque tínhamos decidido que, se os jornalistas tivessem vindo, ambos negaríamos que alguma vez nos tivéssemos encontrado. De resto, eu tinha feito bem em ter multiplicado as precauções e ter entrado no Claridge pela entrada de serviço, porque muitos sentiram que se passava alguma coisa e mesmo o Times falou em rumores.

Munido da carta, dirigi-me de seguida à Claims Conference onde o comité aprovou por unanimidade a abertura das negociações. Paralelamente, Ben Gourion enfrentou o Knesset onde a oposição vociferava contra os negociadores. A maioria dos líderes do Mapai, com excepção de Golda Meir e alguns outros, eram pelas negociações; os liberais também. Mas o Herut e o Mapam opunham-se a elas. Se Israel tivesse recusado, eu não teria podido negociar: era-me impossível arcar com tais responsabilidades. Finalmente, o knesset designou um grupo dirigido por Giora Josephtal e Felix Shinnar; Israel tinha então a sua delegação e o Claims a sua.

É sabido que as duas delegações negociaram cada uma por seu lado com a delegação alemã, à cabeça da qual se encontravam dois homens lendários: o eminente jurista Otto Küster e o professor Franz Boehm, que festejou recentemente o seu octogésimo aniversário. Ben Gourion disse um dia que, se Israel tivesse dez pessoas com a honestidade de Boehm, a vida nesse país seria melhor. É um exagero típico de Ben Gourion mas é verdade que Franz Boehm é um personagem verdadeiramente extraordinário moralmente e intelectualmente.

Os alemães discutiam então, de manhã, as indemnizações colectivas com a delegação israelita e, de tarde, os direitos do indivíduo com a delegação do Claims Conference. Quando surgia uma dificuldade, preveniam-me e eu ia resolver o assunto com Adenauer. As negociações desenrolavam-se perto de Haia, onde jamais capitulei. Duraram seis meses e não posso entrar aqui em detalhes: está a ser preparado um livro em três volumes!

Uma vez que Adenauer me entregou a famosa carta, tive de me encontrar, mais tarde, com o ministro alemão das finanças, Fritz Schaeffer. Este católico de direita, antinazi desde sempre, duma integridade total, foi um dos melhores ministros das Finanças que a Alemanha jamais teve. Disse-me logo: «Escute, meu caro Goldmann, você não pode exercer nenhuma chantagem sobre mim; nunca fui nazi e Hitler meteu-me na prisão. Isto dá-me liberdade para me opor a si, o que antigos nazis não ousariam fazer».

E continuou: «o que você pede é correctíssimo e tem todo o direito moral do mundo. Simplesmente, repare, não sou um moralista nem um rabi, mas o ministro das finanças de um país actualmente pobre. Portanto, como se diz em Yiddish [língua judaico-alemã], indique-me o valor final da soma [das indemnizações]. Quanto é que isso tudo custará?

- Ignoro ainda os pormenores», respondi-lhe. E era verdade: só os soube recentemente. Digo sempre que um presidente é um homem que assina um acordo mas que não o conhece. Eu sou um negociante por grosso e não tenho nenhuma paciência para examinar os parágrafos um a um. Schaeffer porém insistiu. «O nosso especialista Robinson, disse-lhe, calculou que o total andará pelos seis mil milhões de marcos.

- Mas os nossos especialistas chegaram ao valor de oito mil milhões de marcos e isso é demasiado», replicou.

Na realidade, a Alemanha pagou até hoje sessenta mil milhões de marcos e o total chegará a oitenta mil milhões – doze a catorze vezes mais do que nós tínhamos calculado na altura… não poderíamos portanto censurar os alemães por terem sido mesquinhos e de não terem cumprido as suas promessas. Pelo contrário, desde que as leis foram votadas, Schaeffer desbloqueou imediatamente os fundos e, em várias ocasiões, concedeu-nos mesmo adiantamentos – o que não era fácil, como testemunha uma anedota que vou contar.

A Alemanha tinha contraído dívidas colossais, herdadas tanto de Hitler como da República de Weimar. Para se reabilitar aos olhos do mundo e recomeçar a concluir os pagamentos, precisava primeiro de os fixar. Neste domínio, o director das negociações era o maior financeiro alemão: Hermann Abs. Director do Banco Central Alemão, discutiu ponto por ponto com os Aliados as modalidades de reembolso e defendia que a Alemanha não podia pagar senão uma pequena parte.

Tendo conhecimento das nossas próprias negociações com o governo alemão, Hermann Abs foi-se queixar a Adenauer: «No momento em que eu digo aos Aliados que estamos na bancarrota, o Sr. oferece milhões a Goldmann sem qualquer contrato jurídico. A minha situação é insustentável. Adie as negociações com os judeus para quando eu tiver terminado de negociar com os aliados». Adenauer aceitou a sugestão e enviou-me um recado por intermédio de Blankenhorn que me telefonou para que eu recebesse Abs em Londres.

Abs veio então explicar-se a sua posição: «Sr. Goldmann, aceitei as suas exigências em princípio. Entretanto, terá de esperar seis meses porque, se souberem das suas exigências, os Aliados vão-me fazer a vida difícil. Sugeri, portanto, ao chanceler que vos pague um adiantamento de duzentos ou trezentos milhões de marcos. Dentro de seis meses, poderão retomar as vossas negociações».

- Lamento, mas é impossível, respondi-lhe. Trata-se com efeito de um problema emocional. O povo judeu está agitado até ao fundo da sua alma. Não podemos meter esta questão no congelador e dizer às vítimas do nazismo: «Adiem a vossa agitação. Dentro de seis meses, podem recomeçar a protestar». Ou resolvemos o problema agora, ou não será resolvido jamais.»

Disseram-me mais tarde que Abs ficou muito agastado com a minha resposta, mas, alguns anos depois, ele chegou à conclusão que eu tinha razão. Tal não impedia que Adenauer já não soubesse o que havia de fazer: toda a indústria alemã e a alta finança eram contra as nossas reivindicações. Paralelamente, Shaeffer defendia que o governo de Israel aceitaria muito menos do que aquilo que eu pedia. De facto, ele conhecia a fundo o orçamento israelita que, na época, estava em falência total. Quando eu era presidente do Executivo sionista em Nova Iorque, o representante financeiro de Israel, Martin Rosenblueth, vinha muitas vezes a minha casa, cerca das dez horas da manhã, para me dizer: «Nahum, o que é que tu fazes tranquilamente sentado, quando os bancos fecham à uma da tarde e temos uma factura a pagar?»

Tinha então de telefonar «à pressa» às organizações sionistas para arranjar com urgência cem mil dólares. Schaeffer estava ao corrente desta situação e dizia-nos, tanto a Adenauer como a mim: «Como? Os Srs. Julgam que Israel recusaria metade ou mesmo um terço desta soma? Um país falido?» Estou a revelar isto aqui pela primeira vez: era ele que tinha razão.

Quando Adenauer nos informou finalmente que a Alemanha não nos podia oferecer nessa altura mais do que duzentos a trezentos milhões de marcos, escrevi-lhe uma carta para romper as negociações. Recebi um telegrama de Ben Gourion pedindo-me para o ir ver.

Quando cheguei a Israel ninguém podia descer do avião antes de mim e um automóvel esperava-me ao pé do aparelho para me levar directamente a casa de Ben Gourion que me repreendeu imediatamente: «Nahum, não sejas demasiado ambicioso. Disseram-me que tu conseguias obter imediatamente trezentos milhões de marcos. Israel pedia mil milhões mas tu conheces a situação…

- Escuta, Ben Gourion, respondi-lhe, se os alemães se ficarem pelos trezentos milhões, eu não assino. Mas, a ti, aconselhar-te-ia a assinar.

- Qual é a diferença entre ti e mim?

- É simples: eu represento o povo judeu, que é demasiado rico para o meu gosto. Tu representas um Estado em situação de falência. Eu posso permitir-me recusar; tu não o podes fazer...

- Desta maneira, tu serás o herói e eu o cobarde! Pois bem, já que tu não assinas, eu também não o faço.»

Depois, Ben Gourion perguntou-me qual era o meu mínimo. Respondi-lhe que com menos de quinhentos milhões de dólares, eu não aceitaria qualquer acordo, mas que esperava obter entre seiscentos a setecentos milhões. Acabei por obter finalmente três mil milhões de marcos, ou seja oitocentos e vinte e três milhões de dólares; partindo de uma base de mil milhões de dólares, receber 82% não se pode considerar um mau negócio [...].

Se David Ben Gourion e eu fomos muitas vezes adversários, foi essencialmente a propósito dos árabes. Quanto ao resto, sentíamo-nos muito próximos, e mesmo sobre a partilha da Palestina, desde as negociações com a Alemanha pós-nazi, ele ficou do meu lado. Na sua concepção fundamental do carácter do movimento sionista e do Estado de Israel, Ben Gourion estava completamente de acordo comigo; estávamos os dois convencidos de que se Israel se tornasse um Estado como os outros, não sobreviria

Nós tínhamos um amigo comum – um homem extraordinário que, se não tivesse morrido tão jovem, ter-se-ia tornado sem dúvida um Primeiro-ministro – que se chamava Giora Josephtal. Era um judeu alemão, pertencendo a uma família assimilada, que representava oficialmente Israel nas negociações com Adenauer. Depois disso, foi durante vários anos secretário geral do Mapai, o partido socialista israelita.

Membro do Executivo sionista, do qual eu era então presidente, Josephtal tinha uma grande ligação com Ben Gourion, que tinha por ele uma grande admiração, e ele queria a qualquer preço que eu fosse nomeado presidente do Movimento sionista mundial. Acabou por convencer Ben Gourion a influenciar-me.

Este último convidou-me um dia para me apressar a aceitar o lugar de presidente. Ao princípio fiquei muito surpreendido porque sabia que ele era bastante crítico em relação à organização sionista. «Ainda por cima, disse-lhe, nós temos tido conflitos públicos; não percebo portanto porque me estás a impelir em ir em frente. Não será uma jogada da tua parte?» Então, respondeu-me: «Vou-te pedir duas coisas. A primeira, é que me deixes falar vinte minutos sem me interromper; a segunda é que te vires para a parede: quero-te ver de costas

Julgando que ele tinha ficado louco, disse-lhe que não percebia onde é que ele queria chegar. Mas ele explicou-me: «Quero-te falar durante vinte minutos cara a cara, mais francamente do que alguma vez fiz, mas devo-te também elogiar bastante. Agora, tu já me conheces e sabes que eu não gosto de fazer elogios. Também te conheço e sei que não gostas disso. A situação será muito embaraçosa para os dois se tu estiveres a olhar para mim: portanto vira-te para a parede!»

Virei-me então para a parede, como um idiota, e ele falou acerca de mim durante vinte minutos. Eis o que era muito característico de Ben Gourion: este homem que podia ser muito violento, até mesmo cruel, era capaz deste tipo de gentilezas. Não posso relatar aqui todo o seu discurso mas, no geral, disse-me isto: «Tenho a certeza que no fundo do teu coração tens uma censura a fazer-me, e essa censura é justificada. Tivemos terríveis derrotas; seis milhões de judeus foram exterminados. Mas também obtivemos duas imensas vitórias históricas: a criação do Estado de Israel e as indemnizações da Alemanha. Sempre estive convencido que haveríamos de ter um Estado mas duvidei muito de receber um cêntimo dos Alemães. Tu és o arquitecto dessas indemnizações e nós em conjunto somos os arquitectos da partilha da Palestina e da criação de Israel. Aos dois triunfos da nossa geração, a tua contribuição foi essencial. Portanto, tens o direito de perguntar porque é que eu não te incumbo do problema que vai decidir o futuro do Estado de Israel: a paz com os árabes. Vou-te explicar as razões.

«Porque é que tu convenceste Acheson e os outros membros do Comité para a Palestina designados pelo presidente Truman? Porque tu és outro Acheson. Tu podias perfeitamente ter sido um secretário de Estado [ministro] americano, tens o mesmo talento, a mesma cultura, o mesmo charme e os mesmos dons de persuasão que Dean Acheson. Porque é que convenceste Adenauer, de quem te tornaste amigo, que ele tinha de dar indemnizações ao povo judeu? Porque tu és outro Adenauer, e podias ter-te tornado Chanceler da Alemanha. A estes homens, falaste de igual para igual porque vocês partilham as mesmas qualidades. Mas com os Árabes, que são bárbaros, todos os talentos não têm valor nenhum. Nem a tua cultura, nem o teu charme, nem a tua arte de persuasão teriam efeito sobre eles. Eles só compreendem a força, e a mão de ferro sou eu, não tu. É esta a explicação. Podes-te voltar para mim agora.

- Compreendo-te perfeitamente. Respondi-lhe, e penso mesmo que existe muita verdade naquilo que disseste. Nasser não é de facto nem Acheson nem Adenauer. Mas porque não utilizar desde logo a política da mão de ferro com luva de veludo? Tu serás a mão e eu serei a luva.

- O momento chegará certamente, reconheceu ele, em que te chamarei. Mas não ainda, não imediatamente…»

Nas minhas numerosas discussões com Ben Gourion, dizia-lhe que as nossas análises eram diferentes sobretudo porque eu estava persuadido que o tempo jogava contra Israel. Repeti-lhe uma centena de vezes: «Faz concessões, faz a paz o mais depressa possível porque a cada ano que passa as coisas tornam-se mais difíceis para nós. Chegará mesmo o momento em que os Árabes não quererão mais ouvir falar de paz, porque o tempo joga a favor deles.» Depois, a crise do petróleo fortaleceu ainda mais o meu argumento.

Mas Ben Gourion manteve as suas posições: «Ao contrário, dizia ele, a distância intelectual e tecnológica entre os Árabes e nós continuará a alargar-se.» E o seu outro leitmotiv [ideia dominante] era que a geração árabe que sofreu as derrotas da guerra de 1948-1949 e a guerra do Sinai não podia fazer a paz com Israel por razões psicológicas. Ele defendia que a geração seguinte teria provavelmente esquecido estas derrotas e, com elas, a vergonha e a humilhação que um pequeno povo infligiu aos exércitos árabes, dez vezes mais numerosos que o seu. Era naturalmente uma análise aberrante porque a nova geração árabe é mais patriota e extremista que a dos seus pais; ela é também menos corrupta [...].

Chaim Weizmann, que, já no fim da sua vida, detestava Ben Gourion ao ponto de se tornar seu inimigo, dizia-lhe: «Ben Gourion criará o Estado de Israel e depois irá arruiná-lo com a sua política.» E, se Israel continua a seguir os preceitos políticos de Ben Gourion, receio que Weizmann acabe por ter razão. Perguntei-me muitas vezes porque é que este homem inteligente, brilhante, que não era um provinciano como tantos dos líderes israelitas, que tinha uma perspectiva de homem de Estado, que um de Gaulle admirava, porque é que um tal homem não via que, sem um acordo com os Árabes, Israel não conheceria o futuro a longo prazo.

Só posso explicar esta atitude pelo seu carácter. Com efeito, pareceu-me muitas vezes que nos homens de Estado, o carácter é mais importante que a inteligência. Muitos deles compreendem com o seu cérebro o que é conveniente fazer, mas o seu carácter impede-os de o realizar. Este comportamento é típico de Ben Gourion; vou dar um exemplo que nunca esquecerei.

Um dia, ou antes, uma noite de 1956, tivemos uma conversa franca sobre o problema árabe. «Não compreendo o teu optimismo, disse-me Ben Gourion. Porque é que os Árabes haveriam de fazer a paz? Se eu fosse um líder árabe, jamais assinaria a paz com Israel. É normal, nós tomámos conta do seu país. É certo que Deus no-lo prometeu, mas o que é que isso lhes interessa? O nosso deus não é o deles. Nós somos originários de Israel, é verdade, mas isso foi há dois mil anos: o que é que eles têm a ver com isso? Houve o antisemitismo, os nazis, Hitler, Auschwitz, mas foi culpa deles? Eles não vêem senão uma coisa: nós chegámos e roubámos o seu país. Porque é que eles o iriam aceitar? Talvez eles o esqueçam numa ou duas gerações mas, por ora, não existe essa possibilidade. Portanto, é simples: devemos manter-nos fortes, ter um exército poderoso. Toda a política está aí. Doutra forma, os Árabes destruíam-nos.»

Fiquei perturbado com este pessimismo mas ele continuou: «Daqui a pouco terei setenta anos. E, Nahum, se me perguntares se quando eu morrer se serei enterrado num Estado judeu responder-te-ei que sim: dentro de dez anos, dentro de quinze anos, creio que ainda existirá um Estado judeu. Mas se me perguntares se o meu filho Amos, que fará cinquenta anos no fim deste ano, terá hipóteses de morrer e de ser enterrado num Estado judeu, responder-te-ei: cinquenta por cento.

- Mas enfim, interrompi-o, como é que tu consegues dormir com a ideia de uma tal perspectiva sendo Primeiro-ministro de Israel? Quem é que te disse que eu durmo?», respondeu-me simplesmente.

Este era o verdadeiro Ben Gourion: tinha-me dito tudo isto para me mostrar que, no seu espírito, Israel não podia existir sem a paz com os Árabes. Mas o seu carácter obstinado, agressivo, incapaz de fazer concessões impedia-o de seguir os conselhos da sua inteligência. A melhor prova é que uma vez afastado do poder, a inteligência retomou os seus direitos: ele tornou-se mesmo «goldmannista» declarando que era necessário entregar todos os territórios ocupados excepto Jerusalém. Neste ponto estou de acordo com ele: Israel devia manter Jerusalém. Tal não impede que em minha opinião Ben Gourion tenha sido o grande responsável da política anti-árabe […].

Ben Gourion teve sucessores e, entre eles, Golda Meir, que tinha os seus defeitos sem possuir a sua grandeza. Golda tem uma personalidade muito forte mas falta-lhe subtileza. A grande fraqueza dos intelectuais é que são demasiado intelectuais para serem fortes. O primitivismo dava-lhe a segurança e a força! Golda esteve sempre totalmente convencida que tinha razão […].

A propósito de Palestinianos, Golda teve sempre posições muito vincadas, em oposição às de Weizmann que dizia: «O conflito entre nós e os Palestinianos não é um conflito de direitos nem de justiça contra a injustiça. É um conflito entre dois direitos iguais.» Quanto a mim, penso que o nosso direito é superior porque a Palestina é para os judeus uma questão de vida ou de morte, enquanto que para os Árabes ela não representa senão 1% dos seus imensos territórios.

Mas Golda Meir não se atrapalhava com este tipo de subtilezas – o que explica por sua vez a sua autoridade e a sua completa ruína: durante os quatro em que foi Primeira-ministra, a política israelita não se alterou; a guerra do Kippour e o isolamento completo de Israel foram as consequências deste imobilismo.

Mais uma vez passámos ao lado da solução. O governo repetia que não era necessário fazer nenhuma concessão, manter um super-armamento, não dar aos Árabes a impressão que Israel era fraco e que tinha medo. Tudo deriva desta teoria: a aliança informal com os Estados Unidos, a hostilidade da União Soviética, o perigo de que esta jogasse a carta árabe, etc. Em política, nunca podemos ter a certeza mas tenho a impressão que em várias ocasiões podíamos ter obtido a paz.

Desde as negociações do primeiro armistício com o Egipto, a 24 de Fevereiro de 1949, em Rodes, alguns participantes israelitas afirmaram-me que podíamos ter transformado o armistício em paz verdadeira. Não sei dizer porque é que não estive presente mas, e disto estou seguro, nós perdemos uma nova ocasião em 1967, depois da vitória estrondosa israelita que pôs termo à guerra dos Seis-Dias. Dois dias antes do ataque, Levi Eshkol tinha declarado solenemente: «Não temos nenhuma ambição territorial.» Por isso, depois desta vitória miraculosa – sobre a qual Dayan me disse várias vezes que ele não conseguia explicar -, se Israel tivesse dito aos Árabes: «Assinem a paz amanhã, e nós entregamos-vos todos os territórios excepto Jerusalém», talvez tivesse havido paz. Muitos especialistas árabes confirmam hoje esta hipótese, mas as pessoas querem manter o que conquistaram; é assim a natureza humana. E esta falsa política que consiste em manter o status quo, o não mudar, que era a técnica preferida de Golda Meir, conduziu ao impasse de hoje.

Notem que em relação a este assunto eu culpo sobretudo os Estados Unidos da responsabilidade desta situação, antes mesmo de Israel. A guerra do Yom Kippour foi por culpa dos Americanos que, por razões de política interna (Nixon, os judeus americanos, a opinião anti-soviética) que não vou analisar aqui em detalhe, não fizeram nada durante anos. Quando tentaram alguma coisa, fizeram-no muito timidamente: os Israelitas sabotaram a missão Rogers bem como terminaram a missão Jarring. Acusaram-se então os Egípcios mas eu tive depois acesso a informações segundo as quais eles estavam prestes a negociar. Israel, não obstante, insistia em falar aos Árabes directamente, sem intermediário, exigindo negociações cara a cara – que teriam anulado uma das famosas «recusas de Cartum [capital do Sudão]» dos governos árabes – mas não tenho a certeza de que isso não seria senão um pretexto para não negociar de todo.
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sábado, maio 09, 2009

E se Hitler tivesse ganho a Segunda Guerra Mundial?

Eis um curto e bem conseguido vídeo em jeito de documentário, feito com muita ironia, que pretende demonstrar como a História é normalmente escrita pelos vencedores:

Excertos:

«1951 – Celebramos com o nosso amado Fuhrer o décimo aniversário da conquista da Grã-Bretanha. É uma ocasião para recordar e honrar os feitos da pátria, os homens da Wehrmacht , da LuftWaffe e da Kriegsmarine que derramaram o seu sangue por uma Europa Unida, grande e livre do jugo de imperialistas, comunistas, judeus e maçons.»

«O nosso Fuhrer foi aclamado pela multidão inglesa que recordava feliz a sua libertação da corrupta monarquia britânica… Adolf Hitler teve tempo para visitar a Universidade de Oxford onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa. Aí, deu uma conferência intitulada «Os crimes das democracias» aos estudantes de ciências políticas…»

«Os inspectores de armamento da União das Nações continuam com as inspecções aos Estados Unidos da América, enquanto o ditador McCarthur nega estar a desenvolver armas de destruição massiva

«O marechal Rommel que, há algumas semanas, apresentou perante o Conselho de Segurança provas categóricas de ligações entre o Governo de Washington e os terroristas, assim como do seu programa secreto nuclear e de guerra bacteriológica, entregará aos governos de Espanha e de Itália uma nova e última resolução com carácter de ultimato aos Estados Unidos. O Reich exercerá o seu direito de legítima defesa e, como garante da paz e da liberdade mundial, usará as suas armas nucleares para erradicar da face da terra o último vestígio de imperialismo terrorista, assassino e cobarde que resta no mundo.»



Vídeo falado em espanhol - (5:25m):


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quarta-feira, maio 06, 2009

Jon Stewart – Num mês apenas, a CIA efectuou 183 simulações de afogamento a um único terrorista da Al-Qaeda

Water-boarding


Jon Stewart, do Daily Show, fala-nos na aplicação da tortura pelos EUA na «Guerra ao Terrorismo», e da divulgação aos quatro ventos dos suplícios infligidos aos terroristas:


Jon Stewart: Vamos directos ao assunto. A América onde estamos, é um país simples, governado por regras simples. Aliás, quanto mais simples, melhor.

George Bush: Não torturamos.

Jon Stewart: Não torturamos! Duas palavras que não são suficientemente repetidas, que simbolizam a América, como "amo-te" ou "onde está a carne?"

É completamente claro. Mesmo que as coisas se compliquem, mesmo que os nossos inimigos sejam impiedosos, não torturamos. A questão não é se a declaração é verdadeira ou não. A questão é que esta m… é preocupante. Claro que nada disto faz diferença aos admiradores do Sr. Sim, Podemos Mudar [Barack Obama].


Canal de TV: O presidente Obama divulgou os memorandos do governo Bush, expondo o seu manual de tortura.

Jon Stewart: Boa! Agora em vez de apreciar o facto de não torturarmos, temos de ver uma lista das coisas que não fazemos, numa tentativa gritante de magoar os nossos cérebros.


Sucessão de flashes televisivos:

CNN: Os métodos usados incluem simulação de afogamento…

Canal de TV: A face era regada com água de jarros ou mangueiras…

CNN: Tinham de ficar ajoelhados, enquanto eram forçados a inclinar-se direitos para trás…

Canal de TV: Confinavam os suspeitos numa caixa apertada com um insecto…

Canal de TV: Qualquer coisa como uma lagarta…


Jon Stewart: sendo mais específico, um prisioneiro da Al-Qaeda passou pela simulação de afogamento 183 vezes num mês, e esta é a pior parte: 185 simulações e recebe-se pão de alho de graça. É preciso passar pela simulação de afogamento 183 vezes? O grau de eficácia não diminui? Presumo que, depois de 90 simulações, ele pense: "Não me vão mesmo afogar, pois não?"

Michael Hayden, director da CIA na era de Bush, defendeu a utilização dessas tácticas contra sujeitos que já tinham dito tudo o que sabiam.


Pivot do um Canal de TV: Toda a informação que [Abu Zubaydah] revelou, surgiu antes de ter sido sujeito a simulações de afogamento, antes de ser esbofeteado, antes de ser atirado contra uma parede.

Michael Hayden da CIA: Devo corrigi-lo. Foi atirado contra uma parede falsa e flexível, com uma protecção no pescoço para que não se magoasse.

Jon Stewart: E, para sermos justos, se me permite, a água que usámos para as simulações era tépida e tinha um pH equilibrado. E as algemas das posições de tensão eram sempre as peludas da Spencer Gifts. Não somos nenhuns selvagens!

And goes on and on...


VÍDEO legendado em português:


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terça-feira, maio 05, 2009

La gripe porcina, la gripe aviar, el TAMIFLU y el negocio del miedo

Extracto de la Editorial del número 81 (Abril-2006) la revista DSALUD por José Antonio Campoy:

Sabes que el virus de la gripe aviar fue descubierto hace 9 años en Vietnam?

Sabes que desde entonces han muerto apenas 100 personas EN TODO EL MUNDO TODOS ESTOS AÑOS?

Sabes que los norteamericanos fueron los que alertaron de la eficacia del TAMIFLU (antiviral humano) como preventivo?

Sabes que el TAMIFLU apenas alivia algunos síntomas de la gripe común?

Sabes que su eficacia ante la gripe común está cuestionada por gran parte de la comunidad científica?

Sabes que ante un SUPUESTO virus mutante como el H5N1 el TAMIFLU apenas aliviara la enfermedad?

Sabes que la gripe aviar hasta la fecha solo afecta a las aves?

Sabes quien comercializa el TAMIFLU? LABORATORIOS ROCHE.

¿Sabes a quien compró ROCHE la patente del TAMIFLU en 1996? a GILEAD SCIENCES INC.

Sabes quien era el Presidente de GILEAD SCIENCES INC y aun hoy principal accionista? DONALD RUMSFELD, (ex) actual Secretario de Defensa de USA:

Sabes que la base del TAMIFLU es el anís estrellado?

Sabes quien se ha quedado con el 90% de la producción mundial de este árbol? ROCHE.

Sabes que las ventas del TAMIFLU pasaron de 254 millones en el 2004 a mas de 1000 millones en el 2005?

Sabes cuantos millones más puede ganar ROCHE en los próximos meses si sigue este negocio del miedo?

O sea que el resumen del cuento es el siguiente: Los amigos de Bush deciden que un fármaco como el TAMIFLU es la solución para una pandemia que aún no se ha producido y que ha causado en todo el mundo 100 muertos en 9 años. Este fármaco no cura ni la gripe común.

El virus no afecta al hombre en condiciones normales. Rumsfeld vende la patente del TAMIFLU a ROCHE y este le paga una fortuna. Roche adquiere el 90% de la producción del anís estrellado, base del antivírico. Los Gobiernos de todo el Mundo amenazan con una pandemia y compran a ROCHE cantidades industriales del producto. Nosotros acabamos pagando el medicamento y Rumsfeld, Cheney y Bush hacen el negocio...


ESTAMOS LOCOS, O SOMOS IDIOTAS?


Dr.Eneko LANDABURU PITARQUE - enekolan@arrakis.es
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domingo, maio 03, 2009

Barack Obama prometeu confrontar os negacionistas do Holocausto sem dar conta que estava sentado ao lado de um


Associated Free Press - 23 de Abril de 2009

WASHINGTON (AFP) – Numa cerimónia na quinta-feira que lembrou os seis milhões de judeus massacrados durante a Segunda Guerra Mundial, o presidente Barack Obama reafirmou os fortes laços que unem os Estados Unidos a Israel e prometeu confrontar os negacionistas do Holocausto.

"Existem aqueles que insistem que o Holocausto nunca ocorreu, aqueles que praticam todas as formas de intolerância – racismo, anti-semitismo, homofobia, xenofobia, sexismo e outras", disse Obama durante uma cerimónia no Plenário do Capitólio organizado pelo Museu Memorial dos Estados Unidos.

"Temos uma oportunidade e um dever de confrontar estes flagelos", afirmou Obama.

"Temos a oportunidade ... de nos comprometer-mos em resistir à injustiça, à intolerância e à indiferença sob qualquer forma que assuma, ou confrontando aqueles que dizem mentiras acerca da história ou fazendo tudo ao nosso alcance para impedir e acabar com as atrocidades como aquela que teve lugar no Ruanda, ou aquelas que estão a acontecer no Darfur", disse.

[...]

"A nação de Israel erguendo-se a partir da destruição do Holocausto", foi uma fonte de esperança para todos os que estão empenhados em combater a intolerância, afirmou Obama.

[...]

O Prémio Nobel da Paz Elie Wiesel, que sobreviveu aos campos de concentração nazis em Auschwitz e Buchenwald, utilizou o seu tempo no pódio do Plenário do Capitólio para criticar Ahmadinejad.

O líder iraniano é "o maior negacionista do Holocausto do mundo", disse Wiesel, cuja mãe e irmã morreram em Auschwitz, e o pai em Buchenwald.

"Ele utilizou novamente uma sessão solene das Nações Unidas para insultar o Estado de Israel duma forma que nenhuma pessoa civilizada nunca deveria fazer", afirmou Wiesel, agradecendo aos Estados Unidos por terem boicotado a sessão das Nações Unidas em Genebra.



O presidente Barack Obama e o prémio Nobel da Paz Elie Wiesel


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Se Barack Obama deseja, de facto, confrontar os negacionistas do Holocausto judeu, perdeu uma excelente oportunidade ao não ter colocado algumas questões pertinentes ao seu companheiro de pódio, Elie Wiesel.

Porque o Nobel da Paz Elie Wiesel, paladino da luta contra a intolerância e o anti-semitismo, no seu livro autobiográfico «Noite», onde descreve os dez meses em que esteve prisioneiro em Auschwitz, não refere uma única vez nenhuma das cinco enormes câmaras de gás que funcionaram em Auschwitz-Birkenau. Ele diz, realmente, que os Alemães executaram Judeus, mas... com fogo; atirando-os vivos para as chamas incandescentes, perante muitos olhos de deportados.

Excerto do livro «Noite» de Elie Wiesel:

«Não muito longe de nós, chamas elevavam-se dum fosso, gigantescas chamas. Eles estavam a queimar algo. Um camião aproximou-se da cova e descarregou a sua carga – crianças pequenas. Bebés! Sim, eu vi – vi-o com os meus próprios olhos... Aquelas crianças nas chamas. (É surpreendente que eu não tivesse conseguido dormir depois daquilo? Dormir era fugir dos meus olhos.)»

«Um pouco mais longe dali estava outra fogueira com chamas gigantescas onde as vítimas sofriam “uma lenta agonia nas chamas”. A coluna de Wiesel foi conduzida pelos Alemães a "três passos" da cova, depois a "dois passos." "A dois passos da cova foi-nos ordenado para virar à esquerda e ir-mos em direcção aos barracões."»


E quando os Russos estavam prestes a tomar conta de Auschwitz em Janeiro de 1945, Elie e o seu pai "escolheram" ir para ocidente com os Nazis e os SS em retirada em vez de serem "libertados" pelo maior aliado de América. Eles poderiam ter contado ao mundo inteiro tudo sobre Auschwitz dentro de poucos dias - mas, Elie e o pai escolheram, em vez disso, viajar para oeste com os Nazis, a pé, de noite, num Inverno particularmente frio e consequentemente continuarem a trabalhar para a defesa do Reich.

Outro excerto do livro «Noite» de Elie Wiesel:

- O que é fazemos, pai?
Ele estava perdido nos seus pensamentos. A escolha estava nas nossas mãos. Por uma vez, podíamos ser nós a decidir o nosso destino: ficarmos os dois no hospital, onde podia fazer com que ele desse entrada como doente ou como enfermeiro, graças ao meu médico, ou, então, seguir os outros.
Tinha decidido acompanhar o meu pai para onde quer que fosse.
- E então, o que é que fazemos pai?
Ele calou-se.
- Deixemo-nos ser evacuados juntamente com os outros – disse-lhe eu.
Ele não respondeu. Olhava para o meu pé.
- Achas que consegues andar?
- Sim, acho que sim.
- Espero que não nos arrependamos, Elizer!


As escolhas aqui feitas em Auschwitz por Elie Wiesel e o pai, em Janeiro de 1945, são extremamente importantes. Em toda a história do sofrimento judeu às mãos de gentios, que altura poderia ser mais dramática do que o precioso momento em que um judeu podia escolher, por um lado, a libertação pelos Soviéticos com a possibilidade de contar a todo o mundo sobre as malfeitorias Nazis e ajudar à sua derrota - ou então fugir com os assassinos em massa Nazis, continuando a trabalhar para eles e ajudando-os a preservar o seu regime demoníaco?


Não obstante as surpreendentes contradições entre o livro autobiográfico «Noite» e a versão oficial do Holocausto, o Prémio Nobel da Paz, Elie Wiesel, deixa-nos algumas palavras de fraternidade e de esperança:

«Todo o Judeu, algures no seu ser, deve separar uma zona de ódio – saudável, ódio viril – para aquilo que os Alemães personificam e para o que persiste na Alemanha. Fazer o contrário, é trair os mortos.»

(Wikiquote: Original inglês: "Every Jew, somewhere in his being, should set apart a zone of hate - healthy, virile hate - for what the German personifies and for what persists in the German. To do otherwise would be a betrayal of the dead.")
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