terça-feira, novembro 28, 2006

Litvinenko assassinado? Foi Putin, acusa resoluto José Manuel Fernandes

José Manuel Fernandes – Jornal Público, 28 de Novembro de 2006

José Manuel Fernandes, naturalmente preocupado com a excessiva aproximação da União Europeia a Moscovo, frisa que "é preciso, de uma maneira ou de outra, deixar muito claro a Putin os limites do seu poder".

E discorre, sem ilusões, sobre o assassínio de Litvinenko:

«Curiosamente, o Presidente ucraniano Viktor Iushcenko venceu nessa altura as eleições e o braço-de-ferro com Putin com a cara desfigurada por uma estranha "doença" que veio a saber-se ser o resultado de envenenamento por tálio. Foi esta a primeira suspeita dos médicos britânicos quando receberam o ex-espião do KGB Alexander Litvinenko num hospital de Londres para assistirem à sua lenta mas inexorável agonia. Desta vez, contudo, o método de envenenamento foi aparentemente mais sofisticado: polónio - 210, segundo os peritos apenas acessível a instituições muito poderosas e de vastíssimos recursos. Ninguém pode apontar o dedo directamente ao Kremlin. Mas vale a pena ler o relato do colunista do The Observer, Henry Porter, da última vez que ouviu o ex-espião russo falar em Londres, no Frontline Club, perante muitos jornalistas. "Anna veio ter comigo para perguntar-me coisas sobre o FSB (Serviço Federal de Segurança). Depois do seu livro A Rússia de Putin ter sido publicado, recebeu várias ameaças directamente do Kremlin. Perguntou-me: eles podem matar-me? E eu respondi-lhe com toda a franqueza: podem. E aconselhei-a a sair do país, pelo menos durante algum tempo. Putin fez-lhe chegar ameaças através de um dos seus amigos (...). Estou absolutamente convencido de que só uma pessoa na Rússia podia mandar matar Anna, com toda a sua fama e o seu estatuto: Putin."»

«São simples alegações. Outras haverá igualmente procedentes. Mas, como diz Porter, a verdade é simples: dois dos mais veementes críticos de Putin foram assassinados no último mês. E isto diz muitíssimo sobre o que é a Rússia hoje


Comentário:

A responsabilidade pelo assassinato de Litvinenko, que contribuiu, a par do veto polaco, para o fracasso da cimeira União Europeia - Rússia em Helsínquia, parece não deixar dúvidas a ninguém:

Pesquisa do Google Notícias (26/11/2006): Litvinenko

O POVO Online - 16 horas atrás
Mario Scaramella, um dos contatos italianos de Alexander Litvinenko e uma das últimas pessoas a encontrá-lo antes de sua morte, confirmou que o Kremlin ...

Último Segundo - 24 Nov 2006
Seguem os principais trechos da carta atribuída ao ex-agente russo Alexandre Litvinenko, falecido nesta quinta-feira e que acusa o presidente russo Vladimir ...

Último Segundo - 24 Nov 2006
O ex-espião russo Alexander Litvinenko, crítico do presidente Vladimir Putin, qualificou de "brutal" e "impiedoso" o responsável por sua morte, em ...

Euronews - 25 Nov 2006
Os investigadores encontraram traços de radioactividade no hotel onde Litvinenko tomou chá com dois russos; no bar onde comeu sushi com um italiano e no seu ...

Euronews - 21 horas atrás
Londres investiga morte de Litvinenko e pede a Putin para ...

Último Segundo - 24 Nov 2006
O polônio, uma substância com a qual teriam envenenado em Londres o ex-espião russo Alexander Litvinenko, é um material altamente radioativo, utilizado (nos veículos espaciais, portanto pertencente a um país com programas espaciais) ...

segunda-feira, novembro 27, 2006

A teologia teo-conservadora de Bento XVI

Benedict XVI - Obscurum per obscurius

Milhares de muçulmanos pedem que o Papa não visite a Turquia.

A visita de quatro dias é apontada como uma oportunidade para cicatrizar as mágoas com o mundo muçulmano após o papa ter citado um imperador bizantino dizendo que o Islão era violento e irracional.

Falando no Vaticano neste domingo, Bento XVI disse que queria que a visita mostrasse a sua "sincera amizade e estima" pela Turquia e pelo seu povo.

Terá esta animosidade do mundo islâmico pelo Papa Bento XVI alguma razão de ser?


Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

A Exactidão do Erro

Publicado na Revista Visão em 28 de Setembro de 2006


O comentário no Ocidente ao discurso do papa alinhou-se pelas seguintes ideias: não foi um discurso do papa, foi um discurso do professor; talvez o papa tenha cometido um erro ao escolher a citação do Imperador de Bizâncio, mas isso não justifica as violentas reacções no mundo islâmico; o enfoque central do discurso foi a relação entre a razão e a fé, e a crítica do moderno secularismo ocidental.

Por que razão nenhum destes argumentos é convincente? O papa falou como papa e escolheu o contexto que lhe permitisse romper mais claramente com a doutrina papal até agora vigente. Essa doutrina, vinda do Concílio Vaticano II e continuada pelo Papa João Paulo II, era a do ecumenismo e do diálogo entre religiões, no pressuposto de que todas são um caminho para Deus e têm, por isso, de ser tratadas com igual respeito, mesmo que cada uma reclame uma relação privilegiada com a Revelação. O ecumenismo obrigava a considerar como desvios ou adulterações o uso da violência como arma de afirmação religiosa. Esta posição é desde há muito questionada pelo actual papa, para quem a superioridade da religião cristã está na sua capacidade única de compatibilizar a fé e a razão: agir irracionalmente contradiz a natureza de Deus, uma verdade perene que decorre da filiação do Cristianismo na filosofia grega. Ao contrário, no Islão o serviço de Deus está para além da racionalidade. Por isso, a violência islâmica não é um desvio, antes é inerente ao Islão, o que faz do Islamismo uma religião inferior. Esta doutrina está bem documentada na sua condenação dos teólogos mais avançados no diálogo ecuménico, na sua recusa em designar o Islão como uma religião de paz, na sua posição contrária à entrada da Turquia na União Europeia, dada a incompatibilidade essencial entre Islamismo e Cristianismo e ainda na sua convicção de que o Islão é incompatível com a democracia.

É, pois, claro que o papa não cometeu um erro. Foi exacto no modo como formulou a sua provocação. Aliás, se o seu discurso pretendesse ser uma lição de teologia, ela seria de péssima qualidade. Porque não referiu o contexto da conversa entre o imperador e o persa e ocultou o passado beligerante e cruzadista do primeiro? Porque não citou outras opiniões contemporâneas totalmente contrárias à que preferiu? Porque não referiu que em qualquer das religiões abraâmicas há preceitos que podem justificar o recurso à violência, assim tendo sucedido em nome de todas elas? Perante estas interrogações, é necessário analisar o discurso do papa pelos seus reais objectivos políticos. O primeiro e o mais óbvio é o de apor o selo do Vaticano na guerra de Bush contra o Islão e na guerra de civilizações mais vasta que a fundamenta. Tal como João Paulo II alinhara o Vaticano com os EUA na luta contra o comunismo, Bento XVI pretende o mesmo alinhamento, agora na luta contra o Islamismo. Em seu entender, perante o avanço do Islão a resposta tem de ser mais dura, e precisa do poder temporal para se concretizar. Tal como aconteceu com as Cruzadas ou a Inquisição. Trata-se, pois, de uma teologia de vencedores, uma teologia teo-conservadora, paralela à política neoconservadora.

O segundo objectivo é muito mais vasto. Ao defender uma relação privilegiada entre o Cristianismo e a racionalidade grega, o papa visa estabelecer o Cristianismo como a única religião moderna. Só no âmbito dela é possível conceber "actos irracionais" (a perseguição dos judeus, as guerras religiosas, a violenta evangelização dos índios) como desvios ou excepções, por mais recorrentes que sejam. Por outro lado, visa fazer uma crítica radical a um dos pilares da modernidade: o secularismo. O papa questiona a distinção entre o espaço público e o espaço privado, e acha "irracional" que a religião tenha sido relegada para o espaço privado. Dessa "irracionalidade" decorrerão todas as outras que atormentam as sociedades contemporâneas. Daí a urgência de trazer a mensagem cristã para a vida pública, para a educação e a saúde, para a política e a cultura. O perigo desta crítica do secularismo está em que ela coincide com a posição dos clérigos islâmicos mais extremistas para quem, em vez de modernizar o Islão, há que islamizar a modernidade. Os opostos tocam-se, e não se tocam para dialogarem, senão para se confrontarem. A irracionalidade deste choque reside nas concepções estreitas de racionalidade de que se parte. De um lado, uma racionalidade que transforma a fé numa crença racional ocidental; do outro, uma racionalidade que transforma a razão na manifestação transparente da intensidade da fé islâmica. A luta contra estes extremismos é mais urgente do que nunca, pois sabemos que eles foram no passado os incubadores de guerras e genocídios devastadores. Mas pode o Ocidente lutar contra o extremismo do Oriente do mesmo passo em que reforça o seu?

domingo, novembro 26, 2006

A falsa insurgência no Iraque



Em relação aos alegados assassinatos sectários no Iraque que o governo Americano e os media se esforçam para tribuir à "Al-Qaeda":

Já foi exposto que os assassinatos e os atentados bombistas são o trabalho dos “esquadrões da morte” sob as ordens do ministério do interior iraquiano, o qual é inteiramente controlado pela CIA. Em todas as guerras conduzidas por governos americanos contra nações estrangeiras, uma operação de contra-insurgência é imediatamente implementada. As operações de contra-insurgência são necessárias nessas circunstâncias porque quando um país é invadido, uma insurgência de algum tipo surge para defender o país. Estes insurgentes são muito difíceis de combater para um exército invasor dado o grande suporte e colaboração que gozam da população em geral.

Basicamente, um exército invasor encontra-se em guerra mais contra a população do país que estão a invadir do que contra uma insurgência separada e independente. Estratégias desenvolvidas durante anos para lidar com situações deste tipo tornaram-se conhecidas como contra-insurgências, e incluem a identificação de divisões dentro da sociedade, normalmente religiosas, políticas ou étnicas, por insignificantes que sejam, e um esforço para provocar divisões. Claro que, num cenário no qual um país é invadido por forças militares estrangeiras, tais divisões internas tornam-se quase inexistentes porque a população une-se para se opor aos invasores, como é o caso do Iraque. Por esta razão, as tácticas da contra-insurgência projectadas para semear discórdia têm de ser fabricadas e envolvem geralmente a criação de uma insurgência falsa pelo serviço de inteligência militar da força invasora.

Esta insurgência falsa é composta por grupos de milícias armadas que são pagos pelas forças invasoras para atingir e assassinar grupos distintos entre a população, mais uma vez, segundo critérios religiosos, étnicos ou políticos. No caso do Iraque, vemos ataques dos esquadrões da morte tanto a grupos Sunitas como Xiitas da população iraquiana, sendo estes grupos apontados como culpados da verdadeira insurgência ou da Al-Qaeda no Iraque. O objectivo destes ataques brutais é desmoralizar e confundir a verdadeira insurgência e a população que a suporta, para as levar a entrar num conflito mutuamente destrutivo, e, no caso específico do Iraque, para promover as alegações do governo americano de que a Al-Qaeda está ainda activa e constitui uma ameaça mortal para sociedades civilizadas em todo o mundo.

sábado, novembro 25, 2006

A ingenuidade de Jaime Nogueira Pinto sobre o envolvimento do Irão na resolução do problema iraquiano

No Expresso de 25/11/2006, Jaime Nogueira Pinto teme uma saída à pressão dos militares americanos do Iraque e implora uma oportunidade para a "política" envolvendo a Síria e o Irão.

Give politics a chance!

(...) No Iraque, há 150.000 militares americanos, mais rapazes que homens, mais da ‘América profunda’ que das grandes cidades, na maioria soldados da ‘fiel infantaria’ e dos marines de que ninguém quer saber, desde que a ‘guerra’ se tornou ‘perdida’. Das centenas de correspondentes de há três anos, restam uma dúzia... Os oficiais vão, uma vez mais, ser os portadores das más novas e dos «body bags». Não há colonos: mas se a saída for à pressão, sunitas e shiitas vão bater-se ao carro armadilhado, à ‘kalash’, à faca, no caos das milícias meio-sectárias meio-crime organizado, pouco religiosas! Fora os ‘duros’ vão fazer esquecer a manipulação da «intelligence», a caução dada a charlatães e burlões como o sr. Chalabi. O Iraque, esse, ou vai reduzir-se a uma área fragmentada, uma espécie de super-Líbano dos anos 80, ou, mal menor, verá a ascensão de um dos generais do NIA - New Iraquian Army, (parece que há algumas brigadas capazes e Alá as conserve!) que conseguirá restaurar a ordem e segurança no que restar do país, repetindo um modelo ‘cesarista’; solução menos má mas nos antípodas da utopia do ‘novo Médio-Oriente’!

Será a altura de ‘dar’ à política uma «chance»? Por uma razão simples: os ‘argumentos’ dos Estados Unidos são mais poderosos perante os governos de Damasco, Teerão e Ramallah, que face a ‘guerrilheiros’ no terreno, no Iraque ou na Palestina. Foi assim na Guerra Fria com a União Soviética, patrono e patrão dos ‘terroristas’ de então e que os ‘controlou’ quando foi preciso. Agora pode resultar ou não, mas não há muitos mais caminhos.


Comentário:

Não obstante o ponderado optimismo de Jaime Nogueira Pinto, é de recear que a ocupação americana no Iraque se prolongue por décadas, e que a tentativa de chamar o Irão e a Síria para a mesa das negociações (que os EUA providenciarão para que se revele um fracasso), seja apenas um pretexto para invadir e ocupar também estes dois países.

No discurso do "Estado da União", Bush afirmou que as forças armadas americanas retirariam do Iraque à medida que as forças iraquianas se aguentassem sozinhas. Contudo esta afirmação é candidamente contrariada pelas bilionárias despesas do Pentágono na construção de 106 bases permanentes – incluindo seis super-bases de alta tecnologia – dentro do Iraque.

Haverá alguma razão para que os media dominantes norte-americanos não falem destas 106 bases, e porque é que o Congresso não debate os projectos de construção do Pentágono? A resposta mais simples é que o complexo mediático do governo considerou o assunto tabu porque revela a intenção dos EUA de ocupar o Iraque militarmente durante décadas.

Na realidade, a retórica de retirada de Bush é apenas propaganda. Estas super-bases militares têm outro objectivo que passa por lançar e supervisionar a próxima guerra contra o Irão, o vizinho mais rico em petróleo do Iraque.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Boaventura de Sousa Santos - o intenso debate em curso sobre o 11 de Setembro

Boaventura de Sousa Santos é doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

Os Governos Mentem

Publicado na Revista Visão em 12 de Outubro de 2006


(...) Acresce que as possibilidades de manipulação dos media nunca foram tão grandes (a politização dos media) como contrapartida do imenso mercado mediático em que a política se transformou (a mediatização da política). Nestas circunstâncias tornou-se mais fácil e mais necessário mentir sempre que a manutenção do poder está em causa. E, pelas mesmas razões, tornou-se cada vez mais difícil encontrar jornalistas e órgãos de comunicação social dispostos a fazer investigação séria que contrarie com fundamento as versões oficiais.

Um dos países em que este problema tem hoje mais acuidade são os EUA. Neste país, as versões oficiais têm tradicionalmente um enorme peso e tendem a ser reproduzidas como verdadeiras sem mais averiguações pelos grandes media. Os jornalistas que as questionam têm sido marginalizados, como aconteceu a I. F. Stone. A verdade é que ao longo dos últimos cem anos foram muitos os casos em que o governo mentiu, como se veio mais tarde a verificar, muitas vezes a partir de... fontes oficiais. As mentiras envolveram quase sempre decisões importantes que justificaram intervenções militares em países estrangeiros.
Assim, continua hoje por esclarecer a causa da explosão no navio de guerra Maine em 1898 no porto de Havana que mobilizou o país para a guerra contra a Espanha com o objectivo de libertar Cuba (saiu a Espanha entrou a United Fruit Company). Sabe-se hoje que o segundo ataque norte-vietnamita no Golfo de Tokin em 1964 foi, de facto, forjado pelos serviços secretos com o fim de justificar a escalada da guerra no Vietname; que o ataque à fábrica de produtos farmacêuticos do Sudão em 1998 foi ordenado por Clinton sabendo que ela não produzia armas químicas; que o FBI nunca teve provas que ligassem a Al Quaeda a Saddam Hussein; que o governo teve conhecimento detalhado do ataque em preparação às Torres Gémeas e nada fez para o impedir; que à data da invasão do Iraque o governo sabia que não havia armas de destruição maciça; que a luta contra o terrorismo, longe de estar a ter êxito, está a provocar mais terrorismo, estando hoje o país menos seguro que em 2001.

A acumulação recente de mentiras e a revolução nas tecnologias da informação e da comunicação explica o que, à primeira vista, seria impensável: o intenso debate em curso sobre a verdadeira causa do ataque às Torres Gémeas (estaria o governo envolvido?), sobre o colapso das Torres (resultado do impacto ou de explosivos pré-posicionados nos andares inferiores?) sobre o ataque ao Pentágono (avião ou míssil?). O debate envolve cientistas credíveis e cidadãos do "movimento para a verdade do 11 de Setembro", e ocorre quase totalmente fora dos grandes media e sem a participacao de jornalistas. Será que a internet, os vídeos e os telemóveis tornam a mentira dos governos mais difícil?


Comentário:

«tornou-se cada vez mais difícil encontrar jornalistas e órgãos de comunicação social dispostos a fazer investigação séria que contrarie com fundamento as versões oficiais»

É difícil encontrar uma descrição tão fidedigna de homens como Henrique Monteiro, Pacheco Pereira, Vasco Graça Moura, José António Saraiva, etc.

Vicente Jorge Silva - O triunfo das teorias da conspiração

O triunfo das teorias da conspiração

Diário de notícias - Quarta, 27 de Setembro de 2006

Segundo o respeitável The New York Times, um relatório confidencial dos 16 serviços secretos dos Estados Unidos, produzido ao longo dos últimos dois anos, conclui que a invasão do Iraque provocou um alastramento do fundamentalismo islâmico, do terrorismo internacional e das ameaças à segurança interna da América. Há duas ou três coisas verdadeiramente extraordinárias nessa conclusão.

A primeira é que uma rede tão extensa de entidades secretas levou dois anos a diagnosticar o que um qualquer observador sensato e não padecendo de cegueira ideológica aguda já se apercebera há, pelo menos, dois anos atrás. A segunda é o contraste demasiado flagrante entre a conclusão dos 16 serviços secretos e a doutrina oficial vigente na Casa Branca, o que suscita infinitas perplexidades sobre como é possível que o eixo principal da política externa dos Estados Unidos assente num equívoco de tal magnitude sem precedentes. Daí decorre uma terceira coisa extraordinária: se a comunidade dos serviços secretos conclui exactamente o contrário do que é defendido pela Administração da única superpotência planetária, esse divórcio ameaça conduzir a uma situação catastrófica de descrédito e erosão global da autoridade americana.

Face a tudo isto, é possível colocar hipóteses mais ou menos loucas: admitir, por exemplo, que os serviços secretos -16, ainda por cima - não servem rigorosamente para nada, ou que a política de segurança e hegemonia imperial americana pode prescindir, contra toda a evidência, das actividades, informações ou diagnósticos desses serviços - e fazer o oposto do que eles concluem. A partir daqui, a Casa Branca domesticaria radicalmente a CIA e demais agências, transformando-as em meros apêndices propagandísticos da sua política e mergulhando-as no mesmo autismo suicidário que levou a KGB a não pressentir a implosão do império soviético. Resta um cenário alternativo, à medida das célebres teorias da conspiração: os serviços secretos aparecem como uma espécie de quinta coluna ou inimigo interno, apostados em derrubar o poder político legítimo (como já se viu, aliás, em tantas ficções cinematográficas e televisivas).

As especulações delirantes fazem parte do imaginário americano, como são as de um recente e muito impressionante documentário "conspirativo" sobre o 11 de Setembro: Loose Change, de Dylan Avery, exibido há dias na 2 Mas, para já, a Casa Branca encarregou-se de desvalorizar o relatório dos serviços secretos ou a forma "tendenciosa" e "truncada" como foi publicitado pelo The New York Times. Depois, é sempre possível atribuir subrepticiamente às secretas a velha responsabilidade por grosseiros erros de análise e falta de perspectiva política (invocando até as falhas clamorosas que a CIA e outras agências evidenciaram antes e depois do 11 de Setembro).

Só que, desta vez, as costas largas das secretas já não parecem ser tão largas como eram para carregar sobre elas o aventureirismo missionário da Administração Bush. Em todo o caso, se o conjunto dos serviços de informações subscreve em peso um relatório que põe radicalmente em xeque a intervenção no Iraque - considerando-a responsável pela expansão do terrorismo -, isso não pode deixar de provocar um curto-circuito mortífero na credibilidade da Casa Branca. Quando os índices de confiança da população americana em George W. Bush caíram para níveis históricos a dois meses de eleições cruciais, esta revelação ameaça converter definitivamente Bush naquele pato coxo a que se referia, há tempos, The Economist.

Se a política iraquiana dos Estados Unidos acabou - conforme reconhecem os 16 serviços secretos americanos - por funcionar como aliada objectiva da irradiação do terrorismo, não é de surpreender que o terreno seja hoje particularmente propício às teorias conspirativas. É o caso, precisamente, de Loose Change, onde se manipulam as perturbadoras incongruências oficiais, os fios misteriosos e os buracos inexplicados do 11 de Setembro (e eles não faltam, aliás, no ataque ao Pentágono e no próprio desabamento das Torres Gémeas) para "demonstrar" que tudo não passou de uma tenebrosa conspiração da América contra si própria - como se a Al-Qaeda ou Ben Laden nunca tivessem existido ou fossem criações virtuais dos sinistros poderes ocultos americanos.

No entanto, depois da fantasia grosseira das "armas de destruição maciça" no Iraque e do palco que ali foi oferecido ao terrorismo, não será compreensível o fascínio mórbido por conspirações loucas e absurdas? Não serão elas eventualmente mais imaginativas e excitantes do que as mentiras toscas, a imbecilidade ideológica ou a incompetência militar e política - tão inverosímil que parece "conspirativa" - da Administração Bush?


Comentário:

«...as perturbadoras incongruências oficiais, os fios misteriosos e os buracos inexplicados do 11 de Setembro (e eles não faltam, aliás, no ataque ao Pentágono e no próprio desabamento das Torres Gémeas)...»

«... as mentiras toscas, a imbecilidade ideológica ou a incompetência militar e política - tão inverosímil que parece "conspirativa" - da Administração Bush?»

É perceptível a vontade de Vicente Jorge Silva em gritar o óbvio a plenos pulmões. Já faltou mais.

terça-feira, novembro 21, 2006

Target: USA – Alvo: Estados Unidos

Durante um dia inteiro, a CNN fez um levantamento de todas as situações em que poderiam ocorrer ataques terroristas nos Estados Unidos, programa a que deu o nome de: «Target – America». Jon Stewart, do Daily Show, com um humor excepcional dá-nos os pormenores.

Jon Stewart:
- Portanto o que a CNN nos está a dizer é que somos vulneráveis em todo o lado. O perigo está circunscrito a localizações geográficas. Vocês sabem: lugares.


Vídeo – 4:32m:

DS - CNN Fear Factor legendado

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segunda-feira, novembro 20, 2006

Marcha para a guerra: NATO - SCO

Formação de uma Aliança Militar na Eurásia?

Desde Agosto de 2006 que a Rússia, a China, o Casaquistão, o Uzbequistão, o Tajiquistão e o Quirguistão têm efectuado conjuntamente manobras militares e exercícios anti-terrorismo. Estas operações foram supervisionadas pela Shanghai Cooperation Organisation (SCO) e/ou Organização do Tratado de Segurança Colectiva (CSTO) (com o envolvimento da Comunidade de Estados Independentes (CIS). Estas manobras militares foram efectuadas na mesma altura em que o Irão esteve também envolvido em importantes manobras militares.

A expansão da SCO e a total inclusão do Irão como membro de pleno direito foi contestada pela Comissão de Helsínquia (a Comissão de Segurança e Cooperação na Europa) num inquérito (em 26 de Setembro de 2006) quanto ao impacto da SCO sobre os objectivos anglo-americanos e a influência dos EUA na Ásia Central.

Afirmou-se que a expansão da SCO seria pouco provável porque a "missão económica da SCO parece estar mal definida" e que a organização não parece disposta a admitir novos membros que podem acabar por competir com a Rússia e a China pelo controlo da Ásia Central. Também foi assinalado durante as audiências da Comissão de Helsínquia que "eles [os membros da SCO] estão interligados por um conjunto partilhado de interesses de segurança e um conjunto partilhado de riscos previstos".

"Interesses de segurança e riscos previstos" são subentendidos para a crescente ameaça de intrusão anglo-americana nas ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central.

As manobras militares efectuadas na ex-União Soviética e na Ásia Central foram dominadas pela Rússia e pela China. Foram efectuadas sob o disfarce de combate ao "terrorismo, ao extremismo e ao separatismo". O terrorismo, o extremismo e o separatismo são áreas críticas de cooperação para todos os estados membros. Qual é a agenda oculta? Estarão estas manobras militares relacionadas com os preparativos dos EUA para a guerra?

O terrorismo, o extremismo e o separatismo são alimentados pelas operações dos serviços secretos anglo-americanos, que incluem sabotagem e ataques terroristas feitos por Forças Especiais. O incitamento de tensões étnicas, ideológicas e sectárias e as movimentações separatistas têm sido uma marca tradicional da estratégia anglo-americana no Médio Oriente, nos Balcãs, na Índia, no Sudeste Asiático, na ex-União Soviética e em África.

Quanto à manipulação e criação do extremismo, o Afeganistão é testemunho desta estratégia. Foi no Afeganistão que os ISI paquistaneses e os Estados Unidos ajudaram a criar os talibãs para lutar contra a União Soviética. Os Estados Unidos, o Paquistão e a Arábia Saudita também contribuiram para apoiar movimentos extremistas na ex-União Soviética. Esta é uma das razões por que o governo iraniano se manteve silencioso quanto à ajuda ou ao reconhecimento de movimentos separatistas ou ideológicos baseados na religião no Cáucaso e na ex-União Soviética, incluindo a Tchechénia.

sábado, novembro 18, 2006

Ossama? Quero lá saber do Ossama para alguma coisa!

George W. Bush numa conferência de imprensa na Casa Branca, em Março de 2002:


Jornalista: Mas não acha que a ameaça que bin Laden coloca não será completamente eliminada enquanto ele não for encontrado morto ou vivo?

Bush: Bom, como eu disse, não temos ouvido falar muito dele e eu não sei onde é que ele está...

Bush: Repito o que disse, não estou verdadeiramente muito preocupado com ele...


Vídeo – 51 segundos:

Bosh not concerned

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sexta-feira, novembro 17, 2006

Pacheco Pereira, o indomável marinheiro da mentira, navega corajosamente pelas águas turvas da propaganda

José Pacheco Pereira – Jornal Público 16/11/2006

As minhas razões pró-americanas


«Para lá da ganga espessíssima de hostilidade em que está envolvido tudo o que diga respeito a Bush, o problema que subsiste desde o 11 de Setembro é o mesmo: estamos ou não em guerra, qual a natureza dessa guerra, como é que ela se pode ganhar. (...)»

«Voltemos à origem, aos dias seguintes ao 11 de Setembro. Os americanos, povo, partidos republicano e democrata, e Administração Bush consideram-se em guerra. Guerra contra quem? Contra o fenómeno do radicalismo muçulmano no conjunto de todas as suas ramificações, não apenas o fundamentalismo da Al-Qaeda, mas todo o arco de extremismo antiamericano (e de passagem anti-israelita) que geravam um pano de fundo de instabilidade intratável no Médio Oriente. Esta percepção de que seria necessário defrontar todo o radicalismo islâmico e não apenas um grupo fundamentalista foi uma consequência do impacto do 11 de Setembro. (...)»

«Para mim, o cerne racional que conduziu à invasão do Iraque encontra-se na conjugação desta série de decisões: considerar como um acto de guerra os eventos do 11 de Setembro; resolver ir mais longe do que uma resposta antiterrorismo, acrescentando a disposição de intervir com forças militares, incluindo a invasão de países estrangeiros, de modo a actuar-se de forma suficientemente drástica para alterar a relação de forças no Médio Oriente a favor dos moderados. (...)»

«Seja o que for o que aconteça, as raízes do problema do radicalismo islâmico e os seus efeitos não mudam com o "diálogo", mudam só pela força ou pelo receio da força. Os atentados fundamentalistas não vão parar e podem, com o novo armamento biológico disponível, assumir um carácter de perturbação social sem paralelo no passado. (...)»

«(...) Churchill [Pacheco traça um paralelo com Bush] foi duramente atacado, mas, por muitos erros que cometesse, aquele era o lado, porque numa guerra há lados, mesmo quando Deus não parece estar em nenhum lado. Fica esta prevenção para que se perceba que este é um barco de que não tenho nenhuma intenção de sair, em particular quando ele atravessa os seus mais perigosos estreitos.»



Comentário:

Pacheco, num rasgo de bravura, afirma não ter intenções de sair do barco onde decidiu destemidamente embarcar. No entanto, quando as vagas alterosas da verdade o enviarem, como cúmplice pago de uma administração genocida, para o banco dos réus de um tribunal internacional, Pacheco vai ter de responder a várias questões:

Porque caiu o Edifício nº 7 do World Trade Center se não sofreu o embate de nenhum avião?

Porque é que a Força aéra não reagiu e não interceptou os aviões sequestrados?

O que é que realmente aconteceu a 11 e Setembro de 2001?

E finalmente, quanto é que lhe foi pago para mentir despudoramente nos jornais e na televisão sobre o atentado do 11 de Setembro, sobre a «guerra ao terrorismo» e sobre o «cerne racional» que conduziu à invasão do Iraque e à morte de muitas centenas de milhar de pessoas.