sábado, janeiro 29, 2011

Um post genial de quem contrapõe à paneleirice do voto eleitoral o derrube violento dos governos

Sem paliativos

Como alguns leitores acharam por bem fazer propaganda eleitoral nas caixas de comentários, julgo necessário deixar bem claro o seguinte:

Podem os leitores degenerar nos eleitores que bem entenderem. Se votam no Humberto, no Júlio, no Francisco ou na Maria Albertina, para mim, é-me igual. Cultivo, mais até que padeço, uma urnofobia inexpugnável. Direi até que a minha urnofobia suplanta em larga escala várias outras fobias extremamente impopulares que pratico e recomendo (até por isso mesmo), como a cinefobia, a homofobia, a popfobia (nojo pela música pimba internacional), a xenofobia, a americanofobia, a Agustino-Saramago-Antunofobia (uma fobia extremamente saudável, diga-se), etc, etc.

Agustino-Saramago-Antunofobia

A minha urnofobia é de tal ordem que, assombrado, já cheguei até a interrogar-me sobre a sua nebulosa - e certamente problemática - genealogia. Após intensa pesquisa, alcancei uma quase certeza: deriva ela, a minha urnofobia avassaladora, da minha homofobia monumental. Nem mais nem menos. Eu explico. Só povos castrados e efeminados, além de imbecilizados e remetidos à escala molusca, votam. Um povo que assina de cruz, além de tudo isso, declara-se politicamente analfabeto e mais não faz que entregar-se tansamente à tutorização despótica de quadrilhas organizadas. Mas pior ainda que toda esta panóplia de infâmias e pusilanimidades é o próprio acto em si, individual, de depor o papelinho no caixote. Que uma mulher vote, acho perfeitamente normal e pacífico. É como usar saia, brincos, baton, bela cabeleira e voz coquete. Sim, isso e gemer durante a cópula, lavar pratos ou mudar fraldas. Numa mulher fica bem. Agora num homem, convenhamos, é mariquice das grandes. E não só fica mal como é repugnante. Direi mais: o sufrágio universal (que não há-de demorar muito a tornar-se obrigatório e compulsivo) é só mais um capítulo duma fobia particularmente vil, rastejante, venenosa e, esta sim, pouco recomendável: a androfobia. Ou seja, a aversão concertada e massificada à virilidade, à bravura, à coragem e, enfim, a todas aquelas virtudes que, apesar de tudo e de todas as paneleirices económicas que se conhecem e sempre minaram e parasitaram o empreendimento, ergueram a civilização.

Assim, dado que a depilação mental, a perfumadela ideológica e a manicure cívica não fazem muito o meu estilo, não só não voto, como nutro o mais profundo desprezo por quem o faz. Excepto as mulheres, naturalmente. Quer dizer, então, e em resumo, que me abstenho? Não, ó caros gastrópodes, quer dizer exactamente o contrário: quer dizer que tendo nascido dotado de testículos, não me abstenho nem me demito deles, ainda menos sob sórdidos porque contabilísticos pretextos. É certo que um dia me verei forçado a abdicar, mas, nesse trágico desenlace, tenciono descer de homem a cadáver sem escalas intermédias.

O derrube violento de (des)governos e tiranias

Para ser franco, pois, e em imperturbável coerência, declaro-me aqui - e de modo a varrer quaisquer dúvidas ou confusões nos espíritos - adepto firme e compenetrado do derrube violento de (des)governos e tiranias (sendo a pior de todas elas a da mediocridade). Pelo que aguardo, calma e serenamente, a minha oportunidade. Animam-me, junto com uma tenacidade tigrina, duas coisas: uma fé e uma esperança inquebrantáveis. Daquelas que só os emboscados conhecem, aguçam e experimentam. Como, de resto, genialmente explica mestre Jünger.

A política não devia ser um mero exercício de alívio. Em que é indistinto o alívio de quem se alivia na ranhura e o de quem se alivia nem lá indo. Dá-nos, isso, triste mas fidedigna conta do significado, tanto quanto do valor, de tal sufrágio.

Em síntese, e para finalizar duma vez por todas, não é por comodismo ou indiferença que não voto: é mesmo nojo. Tanto quanto da cabeça, é uma recusa das próprias vísceras. Não há paliativos para isto.
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24 comentários:

Anónimo disse...

Derrube violento dos governos para fazer...? Pois...não fazem a mínima ideia. Nem no que consiste a arte do governo sabem...

Um post genial? Incrível. Um conjunto de lugares comuns de uma Viena do fim do século XIX...
Alguém que saiba alguma coisa de História já leu isto MILHARES de vezes da pena do mesmo tipo de frustrados...que quando por acaso têm sucesso, acabam por dar cabo de tudo o que os outros andaram a construir até então.

Se é testosterona que querem libertar, virem-se para as mulheres. Assim não chateiam ninguém.

Anónimo disse...

Razão tem B XVI que a democracia não passa do aborto organizado ao gamanço dos partidos do poder, sob a mais tremenda incapacidade de se governar a república, como em camisa de varas, fadada à paralisia.

Zorze disse...

De facto, é um post genial!
Escrito por um dos bloggers de excelência, o Dragoscópio.
E tem razão, o cabrão...

Abraço.

Rick disse...

A democracia é muito bonita na teoria mas o problema é que os próprios povos não estão preparados,a dita requer participação inteligente.
Marcelo Caetano(e eu não defendo nenhuma ditadura)afirmava que o povo português não estava preparado para a democracia e parece que a realidade actual lhe acabou por dar razão,daí não ter tido tempo(6 anos de 68 a 74)de avançar suas reformas,e as máfias partidárias tomaram conta disto depois de 1975.
Neste cenário até posso entender o desabafo mas não implica que a democracia seja má por inerência mas lá está,tem de ser participativa(com bolas ou sem bolas,com tomates ou sem eles).
A alternativa é sempre alguma forma de ditadura!

Carlos disse...

Caro anónimo 29 Janeiro, 2011 15:10

“... Pois...não fazem a mínima ideia. Nem no que consiste a arte do governo sabem...”

“... que quando por acaso têm sucesso, acabam por dar cabo de tudo o que os outros andaram a construir até então.”

Em parte concordo consigo. As revoluções que aconteceram, foram, se não todas, foram quase todas financiadas por aqueles que quiseram ver-se livres daqueles governos, sistemas, etc, por eles financiados, mas que por alguma razão quiseram-se ver livres deles, e, ao povo, dessa forma, dar uma ideia de mudança.

Olhemos para o estado em que o mundo está e facilmente chegamos à conclusão que os governantes, à muito tempo, não têm dominado a arte de governar... se é que alguma vez a dominaram, vai-se lá porquê...
Começo a pensar que dar cabo do que está mal, provávelmente é capaz de não ser assim tão má ideia...

Tenho lido algumas biografias e aqueles que entram no sistema para o tentarem alterar por dentro, acabam sendo eles os alterados. Mais tarde queixam-se ou arrependem-se mas já é tarde de mais.

Qual é a sua proposta?

António Branco disse...

Nunca colocaria uma msg destas no meu blog, mesmo sendo de outrem, como é o caso. Não me revejo no sistema. Mas também não vejo o que o pode substituir. A guerra? Acabo, como muitos que não se revêem no sistema, por fazer um pequeno sistema à minha medida que engloba amigos, vizinhos, IIs:.
A urnofobia pode ser algo de apreciável. Mas é um problema de cada um. Aceito. E só há que aceitar que a não tenha eu. O autor parece que não é apenas urnofóbico. Terá fobia de tudo… pode sempre fugir para o Kiribati…
Se “só os povos castrados e efeminados votam”, diz… então, não me importo de o ser. Antes isso do que viver sob uma qualquer ditadura, supostamente não efeminada…
E acho que a mulher é uma companheira. Diferente, sim. Mas não menor. Se geme, lava pratos e muda fraldas, é porque não o fazemos nós. Sem desprestígio para nenhum dos géneros, se o fizerem.
Quanto às paneleirices económicas que governam estão acima de qualquer bravura e coragem de base testosterónica. Algo que quem escreveu este texto não perceberá nunca. A não ser no dia em que seja abatido por quem domina as paneleirices económicas e que, na altura, lhe acabará com as paneleirices testosterónicas.
O meu desprezo também para quem escreveu esta coisa.
P.S. Quem é que vai decidir o que é medíocre para ser derrubado? É que o texto não abona nada a favor da excelência. É de fazer pena (do meu ponto de vista, claro: mas porque será o meu ponto de vista menor do que o do autor?).

Anónimo disse...

Carlos: muito simplesmente, as funções do político no geral são garantir a segurança externa e a concórdia interna.

Como outras pessoas sensatas notaram, os maluquinhos que preferem guerras podem sempre ir para o Congo lutar - assim têm um escape para as suas frustrações. Na parte da segurança externa ninguém com miolos discordará que a União Europeia em geral é um sucesso inédito.

Quanto à concórdia interna: é difícil dizer qual é o limite substantivo desta concórdia em sociedades com milhões de pessoas; há quem queira viver à grega e reeditar o fervor patriótico e o amor à polis, mas as circunstâncias são muito diferentes e nós dependemos cada vez menos da política para sermos bons uns com os outros (devia ser esse o fim da Cidade para os gregos). Portanto, podemos dizer que hoje uma parte enorme da concórdia passa pelo desenvolvimento económico. Ora, o desenvolvimento económico é extremamente complexo e não se obtém com uma varinha mágica. Mas sabe-se bem como não se obtém: com instabilidade política. Portanto, o "derrube violento dos governos" (em democracia, governos perfeitamente legítimos do ponto de vista da maioria dos governados) a única coisa que traz é instabilidade política, desorganização do tecido produtivo, escassez de bens, etc etc.

Os maluquinhos que andam aí a pregar a "civilização da bravura" e imbecilidades do género (que foram todas testadas durante o último século e só deram barraca) não sabem disto. Mas quando tivessem algum tipo de poder, teriam que reorganizar este tecido produtivo que hoje depende da livre iniciativa (cada um de nós, dentro das suas possibilidades, pode mudar de emprego, estudar mais, etc.) o mais rápido possível para evitar o colapso. Como se faz isso? Pela violência. Como justificar essa violência? Através de fórmulas de "fervor patriótico" e "bravura" e afins. Como canalizar a testosterona assim acumulada? Pregando a guerra e a destruição dos outros regimes. E assim sucessivamente, até a coisa não dar em nada - a não ser a morte de milhares ou milhões de pessoas que simplesmente queriam aproveitar a vida o melhor possível.

A política serve muita coisa, mas não serve para produzir felicidade nem para canalizar desejos lunáticos.

Carlos disse...

Anónimo
Os “maluquinhos da bravura” “lunático”como refere não é aplicável ao autor das linhas que o Diogo copiou. Leio o Dragoscópio à muito tempo e mais alguns escritos. Não se enquadra. É óbvio, não sou advogado de defesa de ninguém.
Interessante no entanto a forma como agredindo rejeitamos a “proposta” de agressão.

É um discurso interessante quando ainda não constatámos que têm sido os nossos “eleitos” a destruir o próprio tecido produtivo, a criar condições de insegurança, a desregrar, a desregulamentar a sociedade, etc. Os objectivos nem sempre visíveis são os de implementar uma sociedade cada vez mais controlada (não só cá como acontece lá fora).
Porque razão é que vão tendo sucesso? Basicamente porque a maior parte das pessoas só querem levar uma vida tranquila “... aproveitar a vida o melhor possível.” e serem altamente manipuladas.

As garantias de que os nossos governantes nunca serão violentados, traz-nos este tipo de governantes.

Quanto a elegermos os nossos governantes, pense bem se é mesmo verdade.

U.E. Quanto mais longe estiverem os decisores, menos você, eu o Diogo, etc, importamos.

Mas continua sem nos dar a sua solução.

Anónimo disse...

1) Não há nenhum grupo de pessoas que tenha o objectivo de "controlar o maior número de pessoas". O que existe é uma interacção de tal forma complicada (entre pessoas e Estados) que as pessoas com poucas capacidades analíticas procuram algum conforto nessas simplificações absurdas. Quanto muito, o nosso problema é vivermos em sociedades cada vez menos controladas.

2) "Destruir o tecido produtivo" significa substituir a livre iniciativa pelo controlo político sobre os meios de produção - a curto prazo, um sistema deste género, fechado, só pode definhar. Basta ler um panfleto (já nem digo um livro) de economia internacional para entender isto: estamos numa fase de enormes mudanças económicas a nível mundial e as vantagens competitivas de que gozámos nós quando entrámos para a UE são agora as vantagens de outros relativamente a nós. Daí a necessidade de RECONVERTERMOS o nosso tecido produtivo - que é aquilo a que está a chamar "destruir" e aquilo que temos vindo a fazer, melhor ou pior. Não é por termos mais ou menos fábricas ou têxteis ou tijolos que somos mais produtivos: o que interessa é satisfazer as necessidades das pessoas, sejam elas quais forem (prestar serviços é produzir, desde que alguém os consuma - é muito melhor ter pessoas a desenhar páginas web do que a plantar batatas).

3) É evidente que elegemos os nossos governantes segundo as fórmulas mais aproximadas do ideal de representatividade de sempre - mas como explicar isso quando as pessoas não fazem a mínima ideia do que é um sistema eleitoral?

4) Solução para quê? Se quiser recomendo-lhe alguns livros e se tiver paciência fica a perceber porque é que dizer que "derrubar violentamente os governantes" é uma imbecilidade.

5) Não tenho paciência para considerar isto "ataque" ou "defesa" ou algo do género. Ficava feliz se as pessoas percebessem que para se comentar sobre estes assuntos é preciso ter conhecimentos sérios - o que posts do género demonstram é uma ignorância ridícula. Quem tem tempo para escrever baboseiras do género também tem tempo para ler um ou dois livros, mesmo que muito básicos, sobre Direito Constitucional, Economia, Filosofia Política, etc. Assim podiam ter opiniões fundamentadas - assim, só têm vento na cabeça.

Carlos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos disse...

O controle sobre os meios de produção, etc, não tem que ser feito directamente. Olhe para os impostos, os incentivos, os benefícios, etc.
“...- a curto prazo, um sistema deste género, fechado, só pode definhar.”
Concordo, daí condenar o cada vez maior controle, que está a acontecer.
Sem “batatas” não desenha páginas na web. A dependência é a regra de ouro para a subjugação.
“...prestar serviços é produzir,...” Prestar serviços, não é o mesmo que criar, gerar, transformar. Há sectores que são favoráveis à criação de riqueza o que possibilita a independência, a industria, agricultura, pescas, e outros, que proporcionam o contrário, os serviços.
Só para clarificar. Também penso que a democracia de todos os sistemas é o menos mau. Só que ao estado a que a nossa chegou facilmente se pode chamar de “corruptocracia”, ou coisa pior ainda. Não socialista ou coisa parecida. Cada um deve procurar a sua felicidade, desde que não seja sobre a infelicidade dos outros.
“Ficava feliz se as pessoas percebessem que para se comentar sobre estes assuntos é preciso ter conhecimentos sérios...”
É a porta aberta à exclusão, à manipulação, ao controle,. Cada um pode e deve, com os conhecimentos que tem, discutir (trocar ideias sem arrogâncias que são impeditivas ao desenvolvimento, crescimento), para evoluir, para haver evolução. Devemos os dois calarmo-nos?

Carlos disse...

Depois de muito e seriamente meditar sobre este assunto, podíamos optar por uma solução tipo “mãos limpas”.
Pegávamos nos crápulas que cá temos, aqueles que tão bem têm dominado a arte de bem governar e enviava-mo-los até Cuba, para poderem ser apresentados ao El Paredon, tão famoso por aquelas bandas, pelo não menos famoso, o crápula do fidel castro.
Desta forma as consciências mais delicadas poderiam ter sonos tranquilos.
Juntamente com estes nossos queridos e democraticamente eleitos crápulas, enviaríamos uma carta a demonstrar como eles têm extorquido o povo a favor dos kapitalistas.
Apenas duas dúvidas assolam-me o espírito.
1- O crápula de Cuba anda a ter a imagem lavada pelos meios de comunicação social.
2- O crápula disse que aquela coisa maravilhosa que por lá ele implementou, o comunismo, já nem em Cuba funciona.
Tentar não custa. Em caso de recusa a mesma chalupa (luxuosa, claro) que os levaria, também os traria de volta, com uma paragem de estudo nas Bermudas. Até porque parece que no triângulo há acontecimentos misteriosos que certamente necessitam mais investigação.
Ambas as partes ficariam satisfeitas. Os primeiros ficariam enraivecidos por não terem afiambrado uns tabefes e os outros por não terem tido a hipótese de ficar com inveja da coragem dos primeiros.

Anónimo disse...

Planta batatas quem não sabe ou não pode mais. Desenha páginas quem sabe e pode. Há milhões de pessoas no mundo que plantam batatas - não sabem mais, portanto podem especializar-se nisso (e era bom que estivéssemos dispostos a concorrer com eles, o que nem sempre fazemos - vide a PAC). Há muito menos que sabem criar páginas web. Nós podemos importar as batatas dos que não sabem mais enquanto nos dedicamos a actividades muito mais valorizadas (os serviços são uma fonte de riqueza como qualquer outra). É tão simples quanto isto. Repito: a riqueza não tem nada a ver com a existência física das coisas; tem a ver com a satisfação de necessidades; e os serviços vão-se revelando infinitamente mais rentáveis que as actividades primárias e secundárias (acha que o negócio dos brinquedos fabricados na China movimenta mais dinheiro e satisfaz mais necessidades que o do fornecimento do serviço de telecomunicações móveis?).

O custo disto tudo? Perder uma "soberania alimentar", se lhe quiser chamar assim. Não sei para que a quer. A mim tanto me faz comer batatas portuguesas ou do Tajiquistão, sobretudo se as últimas custarem um décimo do preço e eu ficar com rendimento disponível para consumir outras coisas ou poupar (é óbvio que um proteccionismo súbito e total dos nossos fornecedores obrigaria a rever a política agrícola...mas isso é altamente inverosímil). O amor à pátria não tem nada a ver com essas mariquices - só se for o amor aos produtores portugueses, porque para os consumidores esse "o que é nacional é bom" só traz prejuízo (e para a sociedade portuguesa muito mais prejuízo traz no médio prazo, por insistirmos em produzir coisas em que não somos competitivos e adiarmos a conversão do tecido produtivo para actividades mais lucrativas).

O benefício? Libertação de capital e mão-de-obra para novas actividades produtivas infinitamente mais rentáveis. Isto é um mecanismo sem fim de competição, explosão de potencialidades humanas (novas tecnologias, etc.) e crises agudas (ajustamentos económicos - p.ex.:transferência das fábricas da Europa para a China, etc. -; bolhas financeiras...). O grande problema é que estes ajustamentos (como o colossal que vivemos agora) traz uma instabilidade extrema e um desemprego massivo. É por isso que a protecção social é indispensável - mas protecção é completamente diferente de um Estado que vive de distribuir uma riqueza que não produz (e por isso se endivida). Temos que ter uma protecção adequada às nossas capacidades - e não declarar constitucionalmente que somos um país com mais protecção social que a Alemanha e a França quando isso é pura demagogia (sobretudo quando lhes vamos pedir emprestado para pagar essa protecção social).

Não são as pessoas que estudam que são arrogantes. É o próprio conhecimento. Não se pode discutir alhos quando alguém responde em bugalhos. De qualquer modo, se não achasse que vale a pena, não me dava ao trabalho de escrever aqui.

Carlos disse...

Se não houver alimentos, não haverá ninguém para desenhar páginas. Embora se dê menos valor à alimentação, ela é fundamental. Embora até possa movimentar menos dinheiro. A exploração é enorme.
O sector terciário, chama-se terciário por alguma razão.
“Nós podemos importar as batatas dos que não sabem mais enquanto nos dedicamos a actividades muito mais valorizadas...”
Qual é a mais importante que a manutenção da vida. Não faça confusão necessidades básicas com satisfação das vaidades, ou falsas necessidades.

Soberania também significa poder ter alguma capacidade de proteger os seus cidadão da miséria, do sofrimento. O contrário do que se está a fazer, que se chama traição.

“A mim tanto me faz comer batatas portuguesas ou do Tajiquistão, sobretudo se as últimas custarem um décimo do preço e eu ficar com rendimento disponível para consumir outras coisas ou poupar...”
É o que está a acontecer em Portugal. Como consequência vamos perdendo postos de trabalho. Essas pessoas por sua vez, sem dinheiro, vão abdicar das vaidades, dos serviços, etc. E quem as satisfaz, acabará por perder também o seu trabalho. Até os produtos produzidos com mão de obra escrava como na China, tornar-se-ão caríssimos. Pescadinha de rabo na boca. O governo tem fugido em frente pedindo emprestado para encobrir essa teoria, mas mais dia menos dia virá tudo ao de cima. As gerações futuras pagarão os nossos luxos, por fugirmos às nossas responsabilidades. Seremos crucificados e com muita razão. Claro que com a mentalidade de hoje, desenvergonhada, despojada de qualquer valor, autênticos moluscos, estamo-nos marimbando. Assim se mostra o amor que temos pelos nossos.
Sempre que posso selecciono o produto que quero comprar.

Carlos disse...

“... (é óbvio que um proteccionismo súbito e total dos nossos fornecedores obrigaria a rever a política agrícola...”
(proteccionismo dos nossos fornecedores ?) Julgo que entendi.
Até lá “só” os ignorantes, os que não sabem ou não podem mais, sobreviveriam.
Quem fornece bens de 1ª necessidade, tem a faca e o queijo na mão. Pode aumentar o preço desses produtos. Importamos qualquer coisa como 90% daquilo que consumimos, torna-se portanto, uma saída de divisas absolutamente necessária, enquanto que com o sector terciário isso já não é premente.
Não ser competitivo nestes tempos é basicamente não ter trabalho escravo ou lá perto.
Faz confusão entre o que é mais lucrativo e o que é necessário. O que é criar riqueza pessoal e para além da pessoal também nacional.

“O benefício? Libertação de capital e mão-de-obra para novas actividades produtivas infinitamente mais rentáveis.”
Podem ser mais rentáveis, mas se não houver que as queira comprar ou tenha o dinheiro necessário, como não são de absoluta necessidade, não compram. Lá se vai por água abaixo a actividade altamente rentável.

Carlos disse...

“ O grande problema é que estes ajustamentos... ...que ter uma protecção adequada às nossas capacidades...”
Se vamos adequar a protecção social à capacidade produtiva do país, daqui a uns anos teremos para aí uns 7 milhões de Portugueses.
O problema aqui foi a abolição das fronteiras, o livre comercio. Os nossos governantes proporcionaram desta forma a criação de riqueza noutros países e o empobrecimento do nosso. Embora o sector terciário vá de vento em popa.

Há um sector de actividade, executado pelos menos qualificados da sociedade, bastante mal pago, para a importância que têm, que é mais importante que a medicina. Como é um dado adquirido ninguém valoriza, até é desprezado. A recolha do lixo. Guarde em sua casa o lixo que produz durante vários meses e vai ver que não há avanço tecnológico na medicina que o salve.

“Não são as pessoas que estudam que são arrogantes. ...”
Qualquer um pode sê-lo.
“É o próprio conhecimento.”
O conhecimento traz humildade.

Bom, isto já vai longo e estamos em sintonias diferentes.
Cumprimentos

Anónimo disse...

Sinceramente, continuamos na mesma. Acho que não faz a mínima ideia de como funciona a economia. O livre comércio permite a especialização. É evidente que há bens primários e que são os fundamentais para a sobrevivência, mas esses bens primários, através do livre comércio, são fornecidos por quem não consegue especializar-se noutras actividades - aquelas que nos trazem os benefícios da civilização actual. Se não se tivesse libertado a mão de obra inglesa dos campos com o processo de enclosures acha que tinha havido uma revolução industrial? Se quiser voltar para o campo...eu prefiro a nossa vida de hoje. Ser bom ou mau não tem absolutamente nada a ver com a economia (isto já é opinião, não é ciência) - tem a ver com a forma como se relaciona com os outros independentemente de todas as condicionantes empíricas.

A única questão aqui de preferência é: acha que é melhor um país soberano à maneira salazarista mas que desperdiça recursos em actividades que os outros fazem muito melhor só para dizer que tem batatas nacionais, ou a um país que entra no livre comércio internacional, se sujeita às leis da concorrência e tem que competir com os melhores e especializar-se naquilo que faz realmente de forma mais apelativa que todos os outros? Um significa estabilidade e definhamento progressivo; o outro significa instabilidade e desenvolvimento progressivo. É óbvio que há meios termos e são esses que temos que procurar.

O político tem a função de equilibrar as coisas, sabendo - se for minimamente sage - que a segunda opção é a única que beneficia não só os portugueses como o resto do mundo. Se não acredita, então leia a tese do Salazar académico sobre o trigo (defesa do livre comércio) e compare com as opções políticas do Salazar político quanto ao mesmo assunto (proteccionismo). Ele sabia bem qual era a opção certa - e, no entanto, tomou conscientemente a errada por questões de poder...muita asneirada de hoje sobre "a agricultura", "as pescas" e outras que tais enferma do mesmo problema - pessoas a inventar todo o tipo de argumentos para justificar opções que sabem que estão erradas mas que falam ao coração das pessoas de boa vontade e poucos conhecimentos. É essa factura que vamos pagar no futuro - estas coisas têm muito pouco de boa vontade e muito de conhecimento sólido e sério que é difícil explicar às pessoas.

Carlos disse...

“Sinceramente, continuamos na mesma. Acho que não faz a mínima ideia de como funciona a economia.”
Provavelmente.
“O livre comércio permite a especialização.”
Porque razão é que só o livre comercio é que permite a especialização? Pelo menos é essa a ideia que fico da sua afirmação.

“É evidente que há bens primários e que são os fundamentais para a sobrevivência, mas esses bens primários, através do livre comércio, são fornecidos por quem não consegue especializar-se noutras actividades...”
A diferença está entre trocas comerciais que não danifiquem o tecido produtivo e este chamado livre comercio que destrói aquele que não é baseado em mão de obra escrava. Mesmo sem o livre comercio sempre houve comercio.
Porque pensa que as mulheres se emanciparam? Porque era moda? Ou foi para deixarem de estar subjugadas? Quiseram ser mais independentes. Poderem decidir sobre as suas vidas.

“ - aquelas que nos trazem os benefícios da civilização actual.”
Lá está a misturar as coisas. Mesmo sem livre comercio pôde haver especializações, benefícios. Não é o agora livre comercio que é o milagre.
Está a copiar a falsa ideia daqueles que querem promover o livre comercio como o salvador da humanidade, inventando todo o tipo de benefícios, etc.
O livre comercio está a beneficiar todos aqueles que puderam deslocalizar as suas industrias, etc, para usufruírem de mão de obra escrava. Arranjam toda uma teoria para justificar os interesses pessoais, ocultando a verdadeira razão que não é nada lisongeira.

“Se não se tivesse libertado a mão de obra inglesa dos campos com o processo de enclosures acha que tinha havido uma revolução industrial?”
Houve desenvolvimento que a isso proporcionou, não foi este livre comercio, que nessa altura não existia.

Carlos disse...

“A única questão aqui de preferência é: acha que é melhor um país soberano à maneira salazarista mas que desperdiça recursos em actividades que os outros fazem muito melhor só para dizer que tem batatas nacionais, ...”
Está a fazer confusão entre fazer melhor e fazer mais barato. É óbvio que nenhum país é totalmente independente, mas é importante limitar essa dependência. Quanto menos dependente, menos recursos financeiros são gastos, que podem ser investidos noutras coisas, etc.

“...a tese do Salazar académico sobre o trigo (defesa do livre comércio)...”
Significava/propunha aquilo que temos hoje? Teorias valem o que velam. Muitas são lindíssimas, mas só servem para serem emolduradas e penduradas na parede.
Faça lá o enquadramento histórico para poder perceber se efectivamente a opção que tomou foi certa ou errada.

“...ou a um país que entra no livre comércio internacional, se sujeita às leis da concorrência...”
Concorrência desleal que nos está a trazer empobrecimento. É esta a diferença.

“...e tem que competir com os melhores e especializar-se naquilo que faz realmente de forma mais apelativa que todos os outros? Um significa estabilidade e definhamento progressivo; o outro significa instabilidade e desenvolvimento progressivo.” É óbvio que há meios termos e são esses que temos que procurar.”
Mesmo sem o livre comercio é uma ilusão pensar que se está numa estabilidade e que o livre comercio é que significa desenvolvimento. Como é que chegamos até aqui?

“ É óbvio que há meios termos e são esses que temos que procurar.”
Para mim significa algum proteccionismo. Embora esta palavra cause algum transtorno.

“O político tem a função de equilibrar as coisas, sabendo - se for minimamente sage - que a segunda opção é a única que beneficia não só os portugueses como o resto do mundo.”
Até agora o único benefício visível/prático tem sido as pessoas a perderem os seus empregos.
Tem de haver algum proteccionismo, até mesmo para dar tempo de adaptação. Há actividades económicas que qualquer país não deve abdicar. Porque pensa que se está a investir tanto em energias alternativas? Embora seja muito mais cara, é o custo que a independência obriga. Pelo seu raciocínio não vale a pena, pois haverá sempre alguém que nos fornecerá.

Carlos disse...

“Se não acredita, então leia a tese do Salazar académico... ...e sério que é difícil explicar às pessoas.”
Há um conhecimento sobre a natureza humana (o factor humano) que deve ser levada em conta. É aí que muitos economistas falham.
Depois da 2GG os aliados açambarcaram os víveres por razões políticas. Os preços dos alimentos dispararam. A fome voltou à Europa, mesmo com a produção a bater recordes.
O ideal é um planeta sem conflitos, mas não passa disso mesmo, dum sonho. Há que ser precavido.

Não há nada de errado no comercio com outros países, desde que esse comercio, através de mão de obra escrava, concorrência desleal, não destrua a nossa capacidade produtiva (criação de riqueza).
A expressão livre comercio é um eufemismo, para ocultar o objectivo de mais lucro, ganância (doentia), subjugação dos povos aos interesses económicos e ideológicos. O comercio é útil, mas não esta coisa a que chama livre comercio. A ex-Alemanha de leste chamava-se República Democrática Alemã, mas de democrática nada tinha.

Gostava que lê-se esta notícia; “Riad Toufic Salame bucked pressure in 2005 and kept Lebanese banks from investing in mortgage-backed securities. Now the sector is prospering amid the global downturn.”
http://articles.latimes.com/2009/feb/21/world/fg-lebanon-banker21

Anónimo disse...

Praticamente tudo na sua resposta é asneira (entre as pérolas: "O livre comercio está a beneficiar todos aqueles que puderam deslocalizar as suas industrias, etc, para usufruírem de mão de obra escrava"; "Quanto menos dependente, menos recursos financeiros são gastos, que podem ser investidos noutras coisas"), para além das referências sem qualquer sentido (sendo a emancipação das mulheres a mais absurda).

Não vale a pena estar a insistir nesta conversa: pode comprar um ou dois livros de história económica e economia internacional, que lhe ficam baratinhos, e depois comentar com algum conhecimento de causa. Não se pode ter opiniões sem se saber nada daquilo sobre que se opina.

Se acha que a China ou a Índia de hoje (o que está implícito nos seus comentários) empregam "mão-de-obra escrava"...vá ler qualquer coisa sobre a China e a Índia de há 20 anos atrás e vá perguntar às pessoas POBRES da China e da Índia se preferiam viver num sistema de proteccionismo e socialismo semi-autárcico (o que tinham, onde trabalhavam o mesmo sem perspectivas de uma vida melhor) ou se preferem competir num mercado livre (o que têm: uma fase de arranque com muitos sacrifícios mas que vai trazer aos filhos uma vida com que os pais nunca sonharam..o que já está a acontecer para MILHÕES de famílias que antes viviam numa pobreza extrema).

Entretanto, explico-lhe só o que quer dizer livre comércio, porque parece que não faz a mínima ideia: quando alguém tem que fazer várias coisas ao mesmo tempo, não pode fazer tudo bem; se todos se especializarem naquilo que fazem melhor e todos trocarem, todos beneficiam. Isto é uma coisa bastante simples de entender. Sem livre comércio não há especialização, porque é o livre comércio que permite que cada um não tenha que fazer tudo e se possa concentrar naquilo que faz melhor; entretanto, a livre interacção (concorrência) permite o aparecimento de novos produtos, porque obriga os empresários a inovar constantemente para sobreviver. É esta a base do desenvolvimento económico.

Mas passo a ilustrar.
Portugal era um país incrivelmente atrasado no início da década de 80 em comparação com o resto da Europa. Ao contrário do que diz todo o género de ignorantes e mentirosos, Portugal cresceu na década de 80 e 90 não graças aos fundos estruturais da União Europeia (que deram uma pequena ajuda em investimentos infra-estruturais), mas PORQUE ENTROU NUMA UNIÃO ECONÓMICA (leia-se: que implica uma ZONA DE COMÉRCIO LIVRE) onde passou a competir com outros países e a beneficiar da especialização de cada um desses países. Todos trocando com todos - LEIA-SE: COMÉRCIO LIVRE - puderam desenvolver-se de uma forma que seria impossível se todos tivessem tentado produzir tudo sozinhos. Para Portugal produzir certas coisas (por exemplo, têxteis) outros países tiveram que deixar de produzir essas coisas, porque nós fazíamos melhor (o melhor é o que mais pessoas querem, neste caso - os produtos têm valor consoante satisfazem as necessidades das pessoas, não têm nenhum valor intrínseco). Entretanto, as pessoas que faziam isso noutros países ficaram desempregadas (as fábricas fecharam, como depois aconteceu connosco no Vale do Ave). Tiveram que procurar outro tipo de empregos - olhe que não foram plantar batatas...a maioria arranjou emprego em novos sectores económicos muito mais rentáveis! O que Portugal fez ao resto da Europa, agora fazem Chinas, Índias e Brasis a todo o ocidente.

Temos que nos adaptar e evitar cair na ladaínha do proteccionismo barato - que serve sempre para satisfazer momentaneamente as massas...até que, sem perceberem porquê, passado um tempo sentem na pele o que é ver outros países a crescer exponencialmente e o nosso sem sair da cepa torta.

Carlos disse...

Olhe. Afinal você tem toda a razão.
A China é um mercado totalmente aberto.
As razões que levaram os empresários e industriais a investir na China, Índia, etc, afinal foram razões altruístas. Não tinha reparado nisso.
Se por alguma razão ninguém nos vender batatas, sempre teremos as páginas da web para nos alimentarmos.
Divirta-se.

Anónimo disse...

Você deve ir trabalhar todos os dias "por razões altruístas".

A China entrou recentemente na Organização Mundial do Comércio. Mas você não deve saber o que é.

Não se preocupe que não lhe vão faltar batatas.

Anónimo disse...

Muito interessante este debate entre o "Anónimo" e o Carlos. É um facto que o nosso País não pode viver só de plantar batatas. Mas quando os países como a China que também formam programadores começarem a programar paginas web "Low-Cost" o que é que vamos fazer e comer?

Carlos Ferreira