domingo, dezembro 14, 2014

O que serão, ao certo, os PIGS? Países ou Banqueiros?






Artigo de Ricardo Araújo Pereira em «Novíssimas Crónicas da Boca do Inferno» (2012):

«Primeiro, Portugal era um dos PIGS. Agora, estamos a um passo de ser lixo. Quando um pais se move na alta finança é logo tratado com outra educação. As «agências de notação financeira» e os «mercados» dizem que o porco esta a caminho do lixo. O porco somos nós. E o lixo também, o que é curioso - mas fisicamente improvável, uma vez que não é fácil alguém estar a caminho de si próprio.

Não deixa de ser interessante que estas opiniões dos mercados não sejam propriamente secretas. São publicadas nas primeiras paginas dos jornais. Há manchetes sobre o porco e reportagens acerca da distancia a que ele está do lixo. Os mercados podem ter muitos defeitos, mas ao menos são sinceros. Se acham que um país é porco e caminha para o lixo, dizem-lho na cara.

Infelizmente, este tipo de linguagem só se tolera a quem usa gravata. A hipótese de Portugal ripostar parece estar posta de lado. Seria justo que, ao lado de uma noticia que diz «Mercados consideram que o país esta a um patamar do lixo», houvesse outra cuja manchete fosse: «Portugal tenta renegociar a dívida junto dos chulos». O problema é que os mercados, além de deterem o capital financeiro, detém ainda o capital semântico. Tudo o que seja capital, eles açambarcam. Um insulto na boca dos credores é realismo económico, na boca dos devedores é primarismo ideológico.

Esta evolução do jargão económico tem, como é evidente, pontos positivos. A substituição de palavras como subprime e rating por terminologia financeira como «porcos» e «lixo» é um contributo muito saudável para aproximar os cidadãos da vida económica. Pouca gente saberá ao certo o que é o suprime, mas não há ninguém que não saiba o que é um porco.

Quanto menos bem-sucedidos somos na economia, melhor dominamos o vocabulário técnico, o que é reconfortante. Antes da crise, eu não sabia bem o que poderia significar uma queda no rating. Agora, percebo perfeitamente que sou lixo. O que se perde de um lado em qualidade de vida, ganha-se do outro em conhecimento. A qualidade de vida tem sido sobrevalorizada. O conhecimento é que é importante


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Afinal, os «mercados» tinham razão: a gordura está nos PIGS...


terça-feira, dezembro 09, 2014

Quando dúzia e meia de vampiros apátridas conseguem espoliar e enviar para a miséria um planeta inteiro




Henry Ford (The Dearborn Independent, 22 Maio de 1920):

«Existe no mundo de hoje, ao que tudo indica, uma força financeira centralizada que está a levar a cabo um jogo gigantesco e secretamente organizado, tendo o mundo como tabuleiro e o controlo universal como aposta. As populações dos países civilizados perderam toda a confiança na explicação de que «as condições económicas» são responsáveis por todas as mudanças que ocorrem. Sob a camuflagem da «lei económica» muitíssimos fenómenos foram justificados, os quais não se deveram a nenhuma lei económica a não ser a do desejo egoísta humano operado por meia dúzia de homens que têm o objectivo e o poder de trabalhar a uma vasta escala com nações como vassalas

«(...) Aquilo a que chamamos capital aqui na América é normalmente dinheiro usado na produção, e referimo-nos de forma errada ao fabricante, ao gerente do trabalho, ao fornecedor de ferramentas e empregos – referimo-nos a ele como o "capitalista". Mas não. Ele não é o capitalista no verdadeiro sentido do termo. Porque, ele próprio tem de ir ao capitalista pedir o dinheiro que precisa para financiar os seus projectos. Existe um poder acima dele – um poder que o trata muito mais duramente e o controla de uma maneira mais implacável do que ele alguma vez se atreveria a fazer com o trabalho. Essa, na verdade, é uma das tragédias dos nossos tempos, que o "trabalho" e o "capital" lutem um com o outro, quando as condições contra as quais cada um deles protesta, e com as quais cada um deles sofre, não está ao seu alcance o poder para o remediar, a não ser que arranjassem uma forma de arrancar à força o controlo mundial de um grupo de financeiros internacionais que forjam e controlam estas condições


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Quem tem nas mãos o monopólio do poder financeiro mundial? Quem tem o poder de criar «Crises Financeiras» a nível global, simplesmente com malabarismos contabilísticos de dinheiro que criam do nada, e empobrecer centenas de milhões de pessoas (ao mesmo tempo que os avanços tecnológicos nos permitem multiplicar a produção de bens)? Quem são estas sanguessugas que nos andam a destruir? E de que forma é que as podemos esmagar?






Portugal - Milhares contra austeridade nas principais cidades do País - Em Lisboa, milhares de pessoas já estão a caminho da Praça de Espanha e no Porto são também milhares os que desfilam na Avenida dos Aliados contra as medidas de austeridade anunciadas pelo Governo, num protesto que também vai decorrer noutras 40 cidades portuguesas.



Bélgica - Uma manifestação contra a austeridade em Bruxelas juntou hoje cerca de cem mil pessoas e acabou com confrontos entre manifestantes e a polícia.



França - Milhares de pessoas manifestaram-se, este sábado, em Paris contra as medidas de austeridade do governo francês, uma acção organizada por sindicatos e associações que conseguiram realizar trinta protestos simultâneos em diversas cidades francesas como Toulouse, Bordéus e Estrasburgo.



Espanha - Milhares de pessoas manifestaram-se, sábado, em várias cidades espanholas contra a austeridade e a miséria, num protesto em que a classe política foi acusada de "corrupta".



Itália - Manifestantes e policias enfrentaram-se neste sábado durante protestos contra a austeridade nas cidades italianas de Roma, Turim e Veneza…



Alemanha - Milhares de alemães e italianos manifestaram-se hoje, sábado, contra os planos de austeridade dos respectivos governos.



Holanda - Haia - Manifestação contra cortes nas despesas sociais. O governo holandês, que tem sido um dos mais extremados defensores da política de austeridade, decidiu esta semana suspender um novo plano de cortes nas despesas sociais, no montante de 4.300 milhões de euros. Esta suspensão deve-se ao facto da Holanda ter entrado em recessão pelo segundo ano consecutivo.



Grécia - Milhares de gregos manifestam-se contra a austeridade. Os manifestantes concentraram-se na Praça Syntagma, junto ao Parlamento, em Atenas, para contestar a existência de um milhão e meio de desempregados no país e de meio milhão de trabalhadores que não recebem salário há vários meses.



Inglaterra - Londres: Baixos salários geram grande manifestação. Pelo menos 80 mil pessoas manifestaram-se hoje em Londres contra os baixos salários e os cortes na despesa pública para diminuir o défice britânico… O Governo britânico já assegurou que a austeridade deve continuar para equilibrar as contas públicas e que não pode aumentar os salários no setor público.


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Henry Ford (1863 – 1947) foi o americano fundador da Ford Motor Campany e pai das modernas linhas de montagem e da produção em massa. O seu automóvel Modelo T revolucionou o transporte e a indústria americana. Ford foi um inventor prolífico e registou 161 patentes. Na qualidade de dono da Companhia Ford tornou-se um dos homens mais ricos e conhecidos do mundo.

Em 1918, Ford comprou um pouco conhecido semanário: «The Dearborn Independent». No princípio dos anos 20 este semanário publicou um conjunto de quatro volumes de artigos considerados anti-judaicos, cumulativamente intitulados «O Judeu Internacional» - «The International Jew».

Segue-se um excerto do primeiro artigo [The Dearborn Independent, 22 Maio de 1920]:


«Existe no mundo de hoje, ao que tudo indica, uma força financeira centralizada que está a levar a cabo um jogo gigantesco e secretamente organizado, tendo o mundo como tabuleiro e o controlo universal como aposta. As populações dos países civilizados perderam toda a confiança na explicação de que «as condições económicas» são responsáveis por todas as mudanças que ocorrem. Sob a camuflagem da «lei económica» muitíssimos fenómenos foram justificados, os quais não se deveram a nenhuma lei económica a não ser a do desejo egoísta humano operado por meia dúzia de homens que têm o objectivo e o poder de trabalhar a uma vasta escala com nações como vassalas.

Embora qualquer coisa possa ser nacional, hoje ninguém acredita que a finança seja nacional. Ninguém acredita hoje que a finança internacional esteja em competição. Existem algumas instituições bancárias independentes, mas poucas verdadeiramente autónomas. Os grandes senhores, os poucos cujos espíritos abarcam claramente o plano em toda a sua extensão, controlam numerosos bancos e companhias fiduciárias, e um é usado para isto e outro usado para aquilo, mas não existe antagonismo entre eles, não sancionam os métodos uns dos outros, não há competição nos interesses do mundo dos negócios. Existe tanta concordância nas políticas das principais instituições bancárias de cada país como existe nas várias secções do Serviço Postal dos Estados Unidos – e pela mesma razão, são operadas pelas mesmas fontes e com os mesmos objectivos.


«...»

Certamente, as razões económicas já não conseguem explicar as condições em que o mundo se encontra hoje em dia. Nem sequer a explicação usual da "crueldade do capital". O capital tem-se esforçado como nunca para ir ao encontro das exigências do trabalho, e o trabalho chegou ao extremo de obrigar o capital a novas concessões – mas qual é a vantagem para cada um deles? O trabalho tem até agora acreditado que o capital era o céu por cima dele, e tem feito o céu recuar, mas vejam, existe um céu ainda mais alto que nem o capital nem o trabalho se deram conta nas suas lutas um com o outro. Esse céu ainda não recuou até agora.

Aquilo a que chamamos capital aqui na América é normalmente dinheiro usado na produção, e referimo-nos de forma errada ao fabricante, ao gerente do trabalho, ao fornecedor de ferramentas e empregos – referimo-nos a ele como o "capitalista". Mas não. Ele não é o capitalista no verdadeiro sentido do termo. Porque, ele próprio tem de ir ao capitalista pedir o dinheiro que precisa para financiar os seus projectos. Existe um poder acima dele – um poder que o trata muito mais duramente e o controla de uma maneira mais implacável do que ele alguma vez se atreveria a fazer com o trabalho. Essa, na verdade, é uma das tragédias dos nossos tempos, que o "trabalho" e o "capital" lutem um com o outro, quando as condições contra as quais cada um deles protesta, e com as quais cada um deles sofre, não está ao seu alcance o poder para o remediar, a não ser que arranjassem uma forma de arrancar à força o controlo mundial de um grupo de financeiros internacionais que forjam e controlam estas condições.

Existe um super-capitalismo que é totalmente sustentado pela ficção de que o ouro é riqueza. Existe um super-governo que não é aliado de governo nenhum, que é independente de todos eles, e que, no entanto, tem as suas mãos em todos eles. Existe uma raça, uma parte da humanidade, que ainda nunca foi recebida como uma parte bem-vinda, e que teve sucesso em alcandorar-se a um lugar de poder que a mais orgulhosa raça de gentios nunca reivindicou – nem sequer em Roma nos tempos do seu mais poder orgulhoso. Há uma convicção crescente nos homens de todo o mundo de que a questão laboral, a questão dos salários e a questão da terra não pode ser solucionada antes deste assunto de um governo super-capitalista internacional estar resolvido.

"Os despojos pertencem ao vencedor" diz um velho ditado. E, de certo modo, é verdade que se todo este poder de controlo foi adquirido e mantido por uns poucos homens de raça judia, então ou eles são super-homens contra quem é inútil resistir, ou são homens comuns a quem o resto do mundo tem permitido obter um grau de poder indevido e perigoso. A não ser que os judeus sejam super-homens, os não-judeus devem culpar-se a si mesmos pelo que tem sucedido, e devem procurar uma rectificação com uma análise da situação e um exame justo das experiências de outros países.»




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Palavras do senador e candidato a presidente norte-americano Barry Morris Goldwater (1909 – 1998) - (Barry Goldwater, With No Apologies, page 231):

"Uma organização em mãos privadas, a Reserva Federal (banco central norte-americano) não tem nada a ver com os Estados Unidos."

"A maior parte dos americanos não compreende de todo a actividade dos agiotas internacionais. Os banqueiros preferem assim.

Nós reconhecemos de uma forma bastante vaga que os Rothschildse e os Warburgs da Europa e as casas de J. P. Morgan, Kuhn, Loeb e Companhia, Schiff, Lehman e Rockefeller possuem e controlam uma imensa riqueza. A forma como adquiriram este enorme poder financeiro e o empregam é um mistério para a maior parte de nós.

Os banqueiros internacionais ganham dinheiro concedendo crédito aos governos. Quanto maior a dívida do Estado político, maiores são os juros recebidos pelos credores. Os bancos nacionais da Europa são na realidade possuídos e controlados por interesses privados."

quarta-feira, dezembro 03, 2014

A falácia da «Presunção de Inocência» - a propósito de Sócrates e muitas centenas de outros que tais…



Sócrates - pela honestidade que aparenta, nunca ninguém o levaria preso...


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A «Presunção de Inocência», martelada ad nauseum pelos comentadores das televisões e dos jornais cada vez que uma figura conhecida ligada à política ou aos negócios é suspeito de um crime, serve apenas para a inocentar aos olhos da opinião pública.




As pessoas ou são inocentes, ou suspeitas ou culpadas

Faz tão pouco sentido falar em «Presunção de Inocência»
como em «Presunção de Culpabilidade»


Segundo a definição que consta no artº 1º, nº1, al. e) do Código de Processo Penal, suspeito é "toda a pessoa relativamente à qual exista indício de que cometeu ou se prepara para cometer um crime, ou que nele participou ou se prepara para participar". Na categoria dos Suspeitos e por ordem de gravidade, existe a figura do "suspeito" que está antes do "indiciado", e este, antes do "arguido". No Código de Processo Penal não há nenhuma referência a «presumidos inocentes».

Presumir a inocência de alguém, significa pressupor que essa pessoa NÃO praticou nenhum facto determinado, punível e penalmente repreensível na nossa ordem jurídica. Donde, não faz sentido investigar um «presumido inocente».

Se existem indícios e suspeitas de que uma determinada pessoa cometeu ou se prepara para cometer um crime, é absurdo considerá-lo «presumido inocente».

Como também é paradoxal impor medidas de coacção a um «presumido inocente»: sujeição do suspeito a termo de identidade e residência, a caução, a apresentação periódica, a suspensão de profissão, actividade ou direitos, a proibição (ou imposição) de condutas, a confinamento domiciliário, ou a prisão preventiva.


Só depois do suspeito (na condição de arguido) ser presente a julgamento que já não admita recurso (trânsito da sentença em julgado), é que será considerado inocente ou culpado.


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Sócrates - o sorriso franco da integridade e da honradez...


A presumível inocência de Sócrates

João Miguel Tavares - Jornal Público - 27/11/2014

Tenho todo o direito de presumir que Sócrates é culpado daquilo que o acusam – pela simples razão de que as regras do espaço público não são as regras de um tribunal.

Da mesma forma que os gatos têm sete vidas, eu acho excelente que um cidadão tenha sete presunções de inocência. O problema de José Sócrates, tal como o de um gato que falece, é que já as gastou. Sócrates foi presumível inocente na construção de casas na Guarda, foi presumível inocente na licenciatura da Independente, foi presumível inocente na Cova da Beira, foi presumível inocente no Freeport, foi presumível inocente na casa da Braamcamp, foi presumível inocente no assalto ao BCP, foi presumível inocente na tentativa de controlar a TVI, foi presumível inocente no pequeno-almoço pago a Luís Figo. Mal começou a ser escrutinado, a presunção de inocência tornou-se uma segunda pele.

Claro que José Sócrates continua presumível inocente aos olhos da justiça, e assim continuará até ao trânsito em julgado da sentença. Claro que a presunção de inocência é pedra angular de uma democracia decente e de qualquer sistema judicial digno. Mas eu não sou juiz, nem polícia. Sou um cidadão e um colunista. E, enquanto tal, tenho todo o direito – repito: todo o direito – de presumir, face ao que leio nos jornais, às minhas deduções, às minhas convicções, à minha experiência, à minha memória e ao esgotamento de sete presunções de inocência, que Sócrates é culpado daquilo que o acusam. E tenho todo o direito de o escrever – pela simples razão de que as regras do espaço público não são as regras de um tribunal.

Esta insistência em confundir o plano mediático com o plano da justiça é absurda. Levado ao extremo, faria com que só pudéssemos pronunciar-nos sobre a honorabilidade de José Sócrates daqui a sete ou oito anos, quando todos os recursos tivessem sido esgotados e a sua sentença transitado em julgado. Eu não tenho o poder de um juiz. Não posso, felizmente, prender ninguém. E se não tenho o seu poder, é óbvio que também não tenho as suas limitações. É por isso que a minha liberdade de expressão é mais lata do que a do juiz Carlos Alexandre: ele fala pouco porque pode muito; eu falo muito porque posso pouco. À justiça o que é da justiça, aos jornais o que é dos jornais.

Existe uma admirável coincidência entre os fazedores de opinião que estão a demonstrar uma hiper-sensibilidade às falhas do segredo de justiça e uma notável abnegação na defesa da presunção de inocência, e aqueles fazedores de opinião que durante anos e anos defenderam José Sócrates contra os ataques ad hominem e o julgaram vítima de infames conspirações. Quando vejo Miguel Sousa Tavares ou Clara Ferreira Alves mais entretidos a discutir fugas de informação e timings de detenção do que a possibilidade muito real de um ex-primeiro-ministro ser corrupto, eu sei que eles estão menos a defender Sócrates do que a defenderem-se a si próprios, e àquilo que andaram a escrever ao longo dos anos.




Ainda ontem, no DN, Ferreira Fernandes dizia o seguinte: "Em 2009, escrevi: 'Prendam-no ou calem-se.' A turba, com muita gana mas sem prova, chegou primeiro do que a opinião pública – e depois?" E depois, caro Ferreira Fernandes, é que ali entre 2007 e 2011 boa parte da opinião pública preferiu fechar os olhos ao elefante no meio da sala. Se não havia provas, havia infindáveis indícios – e boa parte da opinião pública preferiu engolir as teses surreais de Sócrates, mantendo-se impassível diante do sufoco evidente do poder judicial às mãos do poder político. Viram, ouviram e leram. Mas preferiram ignorar. É uma escolha, claro. Só que convém assumi-la, até para que ninguém a esqueça.


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Isto para não falar nos casos de gestão danosa nas Parcerias Público-Privadas (PPPs), nos projectados aeroportos da Ota e Alcochete (quando a Portela está a funcionar a meio-gás), no aeroporto de Beja (onde aterra um avião por ano), nos projectados TGVs, na nacionalização do BPN (DN - O Estado já gastou 3,55 mil milhões de euros com o BPN, mas a fatura pode chegar aos 8,3 mil milhões), etc., etc., etc...



domingo, novembro 30, 2014

Carta aberta de Pedro Passos Coelho aos desempregados portugueses





Carta aos 19%


Artigo de Ricardo Araújo Pereira em «Novíssimas Crónicas da Boca do Inferno» (2012):

Em nome de Portugal, gostaria de agradecer o teu contributo para o sucesso económico do nosso país. Portugal tem tido um desempenho exemplar, e o ajustamento está a ser muito bem sucedido, o que não seria possível sem a tua presença permanente na fila para o centro de emprego.

Está a ser feito um enorme esforço para que Portugal recupere a confiança dos mercados e, pelos vistos, os mercados só confiam em Portugal se tu não puderes trabalhar. O teu desemprego, embora possa ser ligeiramente desagradável para ti, é medicinal para a nossa economia. Os investidores não apostam no nosso país se souberem que tu arranjaste emprego. Preferem emprestar dinheiro a pessoas desempregadas.

Antigamente, estávamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a estar acima das nossas possibilidades. Começamos a perceber que as nossas necessidades estão acima das nossas possibilidades. A tua necessidade de arranjar um emprego está muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer também esteja. Tens de pagar impostos acima das tuas possibilidades para poderes viver abaixo das tuas necessidades. Viver mal é caríssimo.

Não estás sozinho. O governo prepara-se para propor rescisões amigáveis a milhares de funcionários públicos. Vais ter companhia. Segundo o primeiro-ministro, as rescisões não são despedimentos, são janelas de oportunidade. O melhor é agasalhares-te bem, porque o governo tem aberto tantas janelas de oportunidade que se torna difícil evitar as correntes de ar de oportunidade.

Há quem sinta a tentação de se abeirar de uma destas janelas oportunidade e de se atirar cá para baixo. É mal pensado. Temos uma dívida enorme para pagar, e a melhor maneira de conseguir pagá-la é impedir que um quinto dos trabalhadores possa produzir. Aceita a tua função neste processo e não esperneies.

Tem calma. E não te preocupes. O teu desemprego está dentro das previsões do governo. Que diabo, isso tem de te tranquilizar de algum modo. Felizmente, a tua miséria não apanhou ninguém de surpresa, o que é excelente. A miséria previsível é a preferida de toda a gente. Repara como o governo te preparou para a crise. Se acontecer a Portugal o mesmo que ao Chipre, é deixá-los ir à tua conta bancária confiscar uma parcela dos teus depósitos. Já não tens lá nada para ser confiscado. Podes ficar tranquilo. E não tens nada que agradecer.


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Um desempregado de longa data faz compras em Lisboa coadjuvado por dois canídeos (um claro sinal de abastança).


terça-feira, novembro 25, 2014

Sobre as causas das «Crises Financeiras» e das «Austeridades» que grassam por esse mundo fora…



Post dedicado aos "Economistas" de pacotilha que pululam nos jornais, televisões, blogosfera e redes sociais, e que, por venalidade, ignorância ou estupidez, defendem que os países devem pagar uma «dívida» genocida, que foi deliberadamente criada pelo Poder Financeiro Internacional, acolitado pelos «nossos representantes eleitos»...



Na imagem, um processo de «Recapitalização da Banca» por forma a prevenir possíveis «Riscos Sistémicos»...


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Henry Ford (1863 – 1947) foi o americano fundador da Ford Motor Campany. O seu automóvel, Modelo T, revolucionou o transporte e a indústria americana. Ford foi um inventor prolífico e registou 161 patentes. Na qualidade de dono da Companhia Ford tornou-se um dos homens mais ricos e conhecidos do mundo.

Em 22 de Maio de 1920, Henry Ford escreveu no Jornal "The Dearborn Independent":

"Existe no mundo de hoje, ao que tudo indica, uma força financeira centralizada que está a levar a cabo um jogo gigantesco e secretamente organizado, tendo o mundo como tabuleiro e o controlo universal como aposta. As populações dos países civilizados perderam toda a confiança na explicação de que «as condições económicas» são responsáveis por todas as mudanças que ocorrem. Sob a camuflagem da «lei económica» muitíssimos fenómenos foram justificados, os quais não se deveram a nenhuma lei económica a não ser a do desejo egoísta humano operado por meia dúzia de homens que têm o objectivo e o poder de trabalhar a uma vasta escala com nações como vassalas."



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Senador e candidato a presidente norte-americano Barry Morris Goldwater (1909 – 1998), escreveu no seu livro - "With No Apologies" (página 231):

"Uma organização em mãos privadas, a Reserva Federal (banco central norte-americano) não tem nada a ver com os Estados Unidos. A maior parte dos americanos não compreende de todo a actividade dos agiotas internacionais. Os banqueiros preferem assim. Nós reconhecemos de uma forma bastante vaga que os Rothschilds e os Warburgs da Europa e as casas de J. P. Morgan, Kuhn, Loeb & Co., Schiff, Lehman e Rockefeller possuem e controlam uma imensa riqueza. A forma como adquiriram este enorme poder financeiro e o empregam é um mistério para a maior parte de nós. Os banqueiros internacionais ganham dinheiro concedendo crédito aos governos. Quanto maior a dívida do Estado político, maiores são os juros recebidos pelos credores. Os bancos nacionais da Europa são na realidade possuídos e controlados por interesses privados."


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Woodrow Wilson (1856 - 1924), que foi Presidente dos Estados Unidos de 1913 a 1921, escreveu no seu livro "The New Freedom" (1913):

"Uma grande nação industrial é controlada pelo seu sistema de crédito. O nosso sistema de crédito está concentrado. O crescimento da Nação e de todas as nossas actividades está nas mãos de meia dúzia de homens. Tornámo-nos num dos mais mal governados, num dos mais completamente controlados e dominados Governos no mundo – não mais um Governo de liberdade de opinião, não mais um Governo pela convicção e pelo voto da maioria, mas um Governo pela opinião e intimidação de um pequeno grupo de homens dominantes.

[...]

Desde que entrei para a política, tenho ouvido maioritariamente opiniões de homens que me são segredadas em privado. Alguns dos maiores homens nos Estados Unidos, no campo de comércio e da manufactura estão com medo de alguém, estão com medo de alguma coisa.
Eles sabem que existe um poder algures tão organizado, tão subtil, tão vigilante, tão integrado, tão completo, tão penetrante, que preferem sussurrar quando o amaldiçoam."

quinta-feira, novembro 20, 2014

Alguns podres da ortografia portuguesa




A 15 Setembro de 2014, no blogue «A Biblioteca do Jacinto», Maria Clara Assunção (na foto supra), decididamente contrária ao Acordo Ortográfico, escreveu um post com um diálogo imaginário onde pretende espetar uns pregos no Acordo Ortográfico, como se a actual ortografia portuguesa fosse uma coisa sacra, divinamente concebida e absolutamente lógica e explícita (que o Acordo Ortográfico, supostamente, quer desmantelar).


Diálogo imaginário

- Escreveste "concepção" e o acordo ortográfico diz que é "conceção".

- Mas o acordo ortográfico também diz que se escreve como se pronuncia e eu pronuncio "concepção".

- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico não tem "p".

- Mas antes tinha e eu sempre pronunciei.

- Por isso é que fizeram o acordo ortográfico. Para as pessoas saberem como se pronuncia.

- Mas assim eu pronuncio "conc'ção" como em "concessão".

- Pronuncias mal. Com o acordo ortográfico pronuncia-se "concéção".

- Mas eu aprendi a ler todas as vogais fechadas excepto...

- Exceto.

- ?...

- Agora diz-se "exceto".

- ... "exceto" quando são a silaba tónica ou são seguidas pela consoantes "pt", "ct" ou "pç".

- Esquece tudo o que aprendeste. Agora quem manda é o acordo ortográfico. Senta-te direito e come a sopa de letras.


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Anaísa Gordino (foi Investigadora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa e é, presentemente, Formadora e Consultora de Ciberdúvidas da Língua Portuguesa), no CIBERDÚVIDAS da Língua Portuguesa, aponta alguns dos podres da ortografia portuguesa:


Sobre o alegado papel das consoantes mudas na abertura das vogais que as precedem.

Em primeiro lugar, quanto à questão da dupla grafia, é preciso referir que existem duas situações:

a) Dupla grafia em espaços geográficos diferentes, dado as diferentes variantes do português apresentarem, para uma mesma palavra, pronúncias distintas; neste caso, distingue-se a variante luso-africana da variante brasileira, apresentando cada uma destas variantes a sua grafia própria para a palavra. É exemplo deste tipo de situação a dupla grafia da palavra facto/fato, que é grafada como facto em Portugal (ou seja, o "c" tem de ser mantido, pois é pronunciado) e fato no Brasil (o "c" não se pronuncia na variante brasileira, logo, foi eliminado);

b) Dupla grafia no mesmo espaço geográfico, dado os falantes apresentarem oscilações de pronúncia dentro de uma mesma variante, neste caso, a portuguesa; é neste tipo de situação que se inscreve espectador/espetador, um caso de dupla grafia dentro da nossa variante, o que, na prática, significa que, em Portugal, os falantes poderão escrever a palavra com ou sem "c", consoante o pronunciem ou não.


Em segundo lugar, quanto à questão da necessidade da manutenção das consoantes mudas ("c" ou "p") para abrir a vogal anterior, muitos de nós aprenderam, «corretamente ou não», que estas consoantes mudas serviam para abrir as vogais anteriores. Ora, diria que aprendemos «incorretamente» e que não existe uma regra ou uma correlação direta entre a presença de uma consoante muda e a abertura da vogal anterior (e, consequentemente, entre a queda dessa consoante muda e uma qualquer alteração na pronúncia da vogal), o que fica claro se olharmos para os dados.

Assim, esta questão tem também de ter em conta duas vertentes.

1. Da (alegada) relação causa-efeito entre a presença das consoantes mudas e a manutenção da abertura da vogal

Não há uma regra ou correlação direta entre a presença das consoantes mudas e a abertura da vogal anterior, seja em sílaba tónica ou em sílaba átona, o que fica patente se pensarmos nos dados do português e nas palavras que até agora mantinham estas consoantes mudas:

i) Por um lado, há palavras com consoante muda antes de uma vogal em sílaba átona em que a vogal é fechada, apesar da presença dessa consoante, a qual, a acreditarmos numa pretensa regra, deveria abrir a vogal (vejam-se casos como actual, actualidade, actividade), ao mesmo tempo que, noutras palavras, a vogal se mantém aberta (activa, afectivo, espectador); se existisse uma regra, tendo as consoantes mudas essa função específica de abertura das vogais, por que razão ela se aplicaria nuns casos e não noutros?

ii) Por outro lado, quando temos consoantes mudas antes de vogais que se encontram em sílaba tónica em palavras graves, o facto de haver palavras com sílaba tónica na mesma posição (ou seja, na penúltima sílaba), umas com consoante, outras sem qualquer consoante muda, em ambos os casos com uma vogal aberta, demonstra bem que não é a consoante muda que nos indica qual o timbre da vogal (tal deriva de regras fonológicas e de questões lexicais, não da presença de uma consoante muda) – veja-se completo (que nunca teve consoante muda) versus tecto ou dialecto, ou contrato (de trabalho), que já teve consoante muda "c" e a perdeu, mantendo, naturalmente, a abertura da vogal tónica, da mesma forma como deverá acontecer com exacto;

iii) por fim, no caso de palavras esdrúxulas, com a consoante muda a seguir à vogal tónica, é óbvio que a presença da consoante é redundante, pois o acento gráfico destas palavras cumpre a dupla função de indicar a sílaba tónica e de dar informação sobre o timbre da vogal (veja-se didáctica, eléctrico, óptimo); note-se ainda, como curiosidade, que o Acordo de 1945 já tinha eliminado as consoantes mudas de palavras como práctico/a, mas manteve-as em palavras como didáctico/a.


Tendo em conta os argumentos anteriores e ao analisarmos alguns exemplos de palavras podemos, de facto, perceber que não existe uma regra ou um processo linguístico subjacente à presença de consoantes mudas e à abertura das vogais que as precedem. Se assim fosse, como explicar as assimetrias em palavras que, inclusivamente, apresentam uma relação morfológica, mas que têm diferentes comportamentos? Como explicar, por exemplo, que em exacto/exactidão/exactamente, a vogal seja ora aberta, ora fechada, do ponto de vista da presença da consoante muda?

Claramente, não é a presença das consoantes mudas que determina a abertura ou não das vogais, o que nos leva a perceber que o que aqui está em causa são processos fonéticos, fonológicos e morfofonológicos, em alguns casos, mas também questões lexicais, noutros casos. São essas as verdadeiras razões para a manutenção da abertura das vogais, sobretudo das vogais átonas (já que, nas vogais tónicas, a abertura da vogal é algo natural, digamos assim) e, em particular, para a abertura das vogais nestes casos de (queda das) consoantes mudas.


2. Das verdadeiras razões para a não aplicação da regra do vocalismo átono/contextos que propiciam a não aplicação do vocalismo átono (permitindo a manutenção da abertura da vogal)

Há uma série de exceções à aplicação da regra do vocalismo átono, algumas das quais são regulares, outras das quais não podem ser explicadas através de regras, sendo marcadas no léxico, sem que haja uma regra possível para as descrever ou explicar, ou um contexto específico que possamos identificar sincronicamente (isto é, actualmente, já que alguns podem ser explicados diacronicamente, olhando para a história da língua).

(i) Casos regulares (como a própria designação indica, trata-se de contextos em que a manutenção da abertura da vogal átona apresenta uma regularidade):

a) Vogais em sílabas átonas terminadas pela consoante "l"

Exs.: salgado, relvado;


b) Vogais em sílabas átonas que têm um ditongo decrescente

Exs.: gaiteiro, pautado, endeusar, boiar;


c) Vogais átonas em contexto inicial de palavra

Exs.: operário, obreiro, olhar;


d) Vogais em sílaba átona em palavras formadas por derivação com os chamados sufixos z-avaliativos (-zinho, -zito, -zão) e com o sufixo -mente (aquilo que se designa como a presença de acento secundário)

Exs.: pobrezinho, chazinho, sozinho, belamente, rapidamente (aqui se inclui uma palavra como exatamente).


(ii) Exceções marcadas no léxico:

Aqui se inscreve o caso de espectador/espetador, no qual não podemos explicar a manutenção da abertura da vogal nem através do contexto, nem pela aplicação de uma regra, seja ela puramente fonológica ou morfofonológica. Aquilo que se defende é que há uma marcação no item lexical que determina que a vogal é aberta e que não sofre aplicação da regra do vocalismo átono. Colocando a questão de uma forma simples, as palavras vêm do léxico com um conjunto de informações (como se de um BI ou cartão do cidadão se tratasse) e esta é uma das informações que qualquer palavra traz; a abertura da vogal átona é, por isso, independente da presença ou não de uma consoante muda. Mateus et alii, em Fonética e Fonologia do Português (uma obra alheia às questões do Acordo Ortográfico) reforçam a ideia de que tal se trata de uma mera convenção ortográfica, derivada da etimologia:

"A não redução das vogais átonas nestes casos é por vezes indicada ortograficamente com uma consoante etimológica. Esse aspecto é exclusivamente ortográfico, visto que há palavras com as mesmas características que não têm indicação ortográfica, como se pode ver nos exemplos incluídos em (12) [que aqui retomo]; nas palavras de (12b) as vogais átonas têm origem histórica em duas vogais seguidas que se fundiram, ou seja, que sofreram uma crase."

12) - (a) dilação, invasor, protecção, absorver, baptismo, [espectador]

(b) mestrado, pregar [um sermão], corar, aquecer

Na palavra espectador/espetador (segundo a nossa pronúncia da consoante), a verdadeira razão, do ponto de vista linguístico, para a abertura da vogal é, então, a marcação no léxico desse aspecto, ou seja, a informação que a palavra traz do léxico de que aquela vogal é aberta e não será sujeita à aplicação da regra do vocalismo átono, mantendo-se por isso aberta num contexto em que, de outra forma, tal não seria esperado.

Assim, quer mantenhamos ou eliminemos o "c" de uma palavra como espectador, a pronúncia da vogal manter-se-á inalterada, à semelhança de todas as outras palavras que sofrerão a queda das consoantes mudas.

segunda-feira, novembro 17, 2014

Para reformular e simplificar significativamente a ortografia portuguesa


Proposta de simplificação da Ortografia Portuguesa



Para que este tipo de «escrita» se torne cada vez menos frequente


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Excerto de um texto de Miguel Esteves Cardoso:

«Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso.»


E agora, exactamente o mesmo texto com a nova proposta de simplificação ortográfica:

«Ux amigux nüca säu para ax ocaziöix. Säu para sëpre. A idaia utilitária da amizáde, comu ëtreajuda, prötu-sucorru mútuu, tróca de favorex, depózitu de cöfiäsa, sosiedáde de dezabáfux, méte noju. A amizáde é puru prazêr. Näu se póde cötaminár cö favorex i ajudax, laia-se dívidax. Péde-se, dá-se, recébe-se, excése-se i näu se fála maix nisu.»



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As diferenças nas regras ortográficas vão muito mais além do que seria necessário pelas diferenças entre os sons das diferentes línguas. E muito menos justificação existe para as regras, no interior da mesma língua, não serem nem sistemáticas nem coerentes.

Um tipo de incoerência é que numa mesma língua um mesmo som ou fonema se represente com grafias diferentes segundo os casos. É o caso das palavras homófonas - pronunciam-se de forma idêntica, mas escrevem-se de forma diferente: a) Ela vai coser roupa / b) A carne está a cozer.

A incongruência é ainda maior quando com uma mesma letra ou combinação de letras se representam sons diferentes. É o caso das palavras homógrafas – escrevem-se do mesmo modo, mas pronunciam-se de forma diferente: a) Uma colher de sopa / b) Ele foi colher maçãs.

A primeira consequência destas incongruências é que frequentemente quando ouvimos uma palavra não temos a certeza de como se escreve correctamente e, por outro lado, quando vemos uma palavra escrita nem sempre sabemos como se pronuncia.

Estas incoerências do sistema ortográfico dificultam a aquisição da língua escrita (quanto tempo e quanta energia se têm de dedicar a uma tarefa que começa na primeira infância e nunca se pode considerar terminada).



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A 14 Agosto 2009, no blogue «A Biblioteca do Jacinto», Maria Clara Assunção (MCA), na foto, decididamente contrária ao Acordo Ortográfico, escreveu um post muito bem conseguido de nome «O acordo ortográfico e o futuro da língua portuguesa», onde ironiza simplificações da ortografia portuguesa.

Afirmou Maria Clara Assunção (MCA): «Tem-se falado muito do Acordo Ortográfico e da necessidade de a língua evoluir no sentido da simplificação, eliminando letras desnecessárias e acompanhando a forma como as pessoas realmente falam. Sempre combati o dito Acordo mas, pensando bem, até começo a pensar que este peca por defeito. Acho que toda a escrita deveria ser repensada, tornando-a mais moderna, mais simples, mais fácil de aprender pelos estrangeiros.»

Acontece que eu considerei muitas das propostas da Maria Clara Assunção para a simplificação da ortografia portuguesa bastante inteligentes e plausíveis, de tal forma que decidi juntar mais umas quantas propostas da minha lavra e compilar um conjunto de regras, nada complicadas, que, em minha opinião, simplificariam bastante a ortografia portuguesa e evitariam as ambiguidades que levam as nossas pobres crianças a dar tantos erros e a perder tanto tempo inútil na aprendizagem da escrita.



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As novas regras da Ortografia Portuguesa


Em termos de timbre e fonética o som das vogais pode ser: "Aberto", "Neutro", "Fechado" e "Nasal". O termo que eu utilizo "Neutro" é também chamado "Reduzido" e "Átono".

No entanto, nem todas as vogais possuem estas quatro características. Todas podem ser abertas ou nasais, mas nem todas podem ser neutras ou fechadas.

Assim sendo, pode-se convencionar o seguinte:


Regra nº 1: Como todas as vogais podem ser abertas, estabelece-se que o "a", o "e" e o "o" são sempre acentuadas com o acento agudo ("á", "é" e "ó") quando forem abertas. Exemplos:

Alto passa a escrever-se álto (...) aberto passa a escrever-se abérto (...) farol passa a escrever-se faról.

As letras "i" e "u" são um caso à parte.



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Regra nº 2: Todas as vogais neutras não levam acento. Exemplos:

Na letra "a" como nas palavras: "da", "costa" ou nos dois "as" da palavra "cabeça".

Na letra "e" como nas palavras: "vinte", "cidade" ou nos dois "es" da palavra "veneziano".



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Regra nº 3: A vogal fechada "e" leva sempre o acento circunflexo "^" como nas palavras: "pêra", "acêsa" ou "mêsa".

A outra vogal que pode ser fechada, a letra "o" nunca leva acento circunflexo, como nas palavras: "boda" ou "favor".



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Regra nº 4: Todas as vogais nasais levam o acento trema:

O som "an", "am" e "ã" passa a escrever-se ä.

O som "en" ou "em" passa a escrever-se ë.

O som "in" ou "im" passa a escrever-se ï.

O som "on", "om" e "õ" passa a escrever-se ö.

O som "un" e "um" passa a escrever-se ü.



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Regra nº 5: Quando uma vogal se lê com o som de outra vogal, o que se escreve é a outra vogal.



A frase «O cão "e" o gato» passa a escrever-se «U cãu "i" u gátu».



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As novas regras para as cinco vogais


Letra "A" -» O som da letra "a" pode ser aberto, neutro e nasal.

E utilizando as novas regras da acentuação de vogais:

O som da letra "a" pode ser aberto, tal como se lê nas palavras: "mar", "mudado" e "votar". Como as vogais abertas "a" e "e" levam sempre acento agudo, as palavras "mar", "mudado" e "votar", passam a escrever-se: "már", "mudádu" e "vutár".


O som da letra "a" pode ser neutro, tal como se lê nas palavras: "cama", "da", "vela" e "Anabela". Como todas as vogais neutras não levam acento, as palavras "cama", "da", "vela" e "Anabela" passam a escrever-se: "cama", "da", "véla" e "Anabéla".


O som da letra "a" pode ser nasal, tal como se lê nas palavras: "rã", "antigo", "ângulo", "amputar" e "âmbito". Como todas as vogais nasais levam o acento trema: "ä", "ë", "ï", "ö" e "ü".

As palavras "rã", "antigo", "ângulo", "amputar" e "âmbito" passam a escrever-se: "rä", "ätigu", "ägulu", "äputár" e "äbitu"


Em suma, e juntando as novas regras, a palavra "sandália" passa a escrever-se "sädália", a palavra "candidata" passa a escrever-se "cädidáta", etc.


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Letra "E" -» O som da letra "e" pode ser aberto, neutro, fechado e nasal.

E utilizando as novas regras da acentuação de vogais:

O som da letra "e" pode ser aberto, tal como se lê nas palavras: "Alberto", "certo" e "correto ". Como as vogais abertas "a" e "e" levam sempre acento agudo.

As palavras "Alberto", "certo" e "correto" passam a escrever-se: "Álbértu", "sértu" e "currétu".


O som da letra "e" também pode ser neutro, tal como se lê nas palavras: "de", "caridade" e "feliz". Como as vogais neutras não levam acento, as palavras "de", "caridade" e "feliz" passam a escrever-se: "de", "caridáde" e "felix".


O som da letra "e" também pode ser fechado, tal como se lê nas palavras: "ter", "fazer" e "quê". Como as vogais fechadas (excepto o "o") levam o acento circunflexo como em "ê".

A palavra "ter" passa a escrever-se "têr", a palavra "fazer" passa a escrever-se "fazêr" e a palavra "quê" passa a escrever-se "cê".


O som da letra "e" também pode ser nasal, tal como se lê nas palavras: "entorna" ou "emplastro". Como todas as vogais nasais levam o acento trema como em "ë".

A palavra "entorna" passa a escrever-se "ëtórna" e a palavra "emplastro" passa a escrever-se "ëpláxtru".



Quando o "e" se lê "i", deverá ser substituído pelo "i" = o homem e a vida -» u ómëi i a vida.

Quando o "e" se lê "a", deverá ser substituído pelo "a" = "canteiro -» cätairu.

Quando o "o" se lê "u", deverá ser substituído pelo "u" = o carro -» u cárru.


Têm passa a escrever-se täiäi -» T + an + i + an + i = T + ä + i + ä + i

Vêem passa a escrever-se vêäi -» vê + an + i = vê + ä + i

Vêm passa a escrever-se väiäi -» v + an + i + an + i = v + än + i + ä + i





«O Manuel e a Maria apanharam um valente aguaceiro e tiveram de se refugiar no celeiro».

«U Manuél i a Maria apanháräu ü valëte águasairu i tivéräu de se refujiár nu selairu».



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Letra "I" -» O som da letra "i" só pode ser aberto ou nasal.

E utilizando as novas regras da acentuação de vogais:

O som da letra "i" pode ser aberto, tal como se lê nas palavras: "inerte", "início" e "ir". A palavra "inerte" continua a escrever-se "inerte", a palavra "início" passa a escrever-se "iniciu" (porque o 2º "i" é aberto e portanto não leva acento, e a palavra "ir" continua a escrever-se "ir".

O som da letra "i" pode ser nasal, tal como se lê nas palavras: "infante" e "importante". A palavra "infante" passa a escrever-se "ïfäte" e a palavra "importante" passa a escrever-se "ïpurtäte".

Na Letra "i", se a sílaba tónica não é nasal então leva acento agudo: Em "íntimo" (de pessoal) e "intimo" (do verbo intimar), ambas as palavras têm mais do que um "i". Na primeira palavra o "i" tónico é o primeiro "ín". Mas como é nasal não leva acento agudo, mas um trema: "ï", como todas as vogais nasais:  ïtimu. Na segunda palavra, "intimo" (do verbo intimar), o segundo "i" tem a carga tónica e, portanto, leva acento agudo: ïtímu.

Em "dízima" (de décima) e "dizima" (do verbo dizimar), ambas as palavras têm mais do que um "i". Na primeira palavra o "i" tónico é o primeiro. E como não é nasal leva acento agudo (dízima). Na segunda palavra "dizima" os dois "is" não são tónicos e, portanto, nenhum leva acento agudo (dizima).



«O infante, lá no seu íntimo pensou: antes a morte honrosa que o cativeiro indigno sob o jugo de infiéis que adoram ídolos pagãos»

«U ïfäte, lá nu sêu ïntimu pësou: ätex a mórte öróza ce u cativairu ïndignu sob u jugu de ïfiaix ce adóräu ídulox pagäux »


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Letra "O" -» O som da letra "o" pode ser aberto, fechado e nasal.

E utilizando as novas regras da acentuação de vogais:

Quando o som da letra "o" é aberto leva sempre o acento agudo, tal como se lê nas palavras: "amora", "embora" e "hora". Estas palavras passam a escrever-se "amóra", "ëbóra" e "óra".

Quando o som da letra "o" é fechado, tal como se lê nas palavras: "avô", "dador" e "pôr", passam a escrever-se sem acento circunflexo: "avo", "dador" e "por". A palavra "por" em «e por isso» passa a escrever-se «i pur isu»

O som da letra "o" pode ser nasal, tal como se lê nas palavras: "dom", "ontem" e "põe"; A palavra "dom" passa a escrever-se "" e o mesmo para a palavra "ontem" que passa a escrever-se "ötëi" e a palavra "põe" que passa a escrever-se "pöi".

Quando o "o" se lê "u", deverá ser substituído pelo "u". Em português, as palavras "o", "dado", "Mário" e "João" passam a escrever-se "u", "dádu", "Máriu" e "Juäu".

A frase: «O Mário e o João foram ao teatro» passa a escrever-se: «U Máriu i u Juäu foräu áu teátru».



Na Roménia, a palavra «Telejornal» escreve-se «Telejurnal»



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Letra "U" -» O som da letra "u" pode ser aberto e nasal.

E utilizando as novas regras da acentuação de vogais:

O som da letra "u" pode ser aberto, tal como se lê nas palavras: "alucinado", "lúcio" e "luz"; A palavra "alucinado" continua a escrever-se "alusinádu", a palavra "lúcio" passa a escrever-se "lúsiu" e a palavra "luz" passa a escrever-se "lúx".

O som da letra "u" pode ser nasal, tal como se lê nas palavras: "umbilical" e "untar". A palavra "umbilical" passa a escrever-se "übilicál" e a palavra "untar" passa a escrever-se "ütár".
Na letra "u", se a letra é tónica e não é nasal então leva acento agudo:

Em "último" (de derradeiro), o "u" tónico é o primeiro "u" e portanto leva acento agudo (últimoúltimu). Em "ultimo" (do verbo ultimar), nenhum dos "us" são tónicos e portanto nenhum leva acento(ultimoultímu).


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Regra nº 6: Todas as vogais e consoantes mudas (que não se lêem) são eliminadas da escrita já que não existem na oralidade. As chamadas consoantes mudas c e p nas sequências interiores: cc, cç, ct, pt, pc e pç, (cc -» c; cç -» ç; ct -» t; pt -» t; pc -» c; pc -» c e pç -» ç) que não sejam proferidas são apagadas.

A vogal «u» quando é muda, não se escreve: «que» passa a escrever-se «qe» / «guetu» passa a escrever-se «getu»;


Exemplos de consoantes que são eliminadas quando são mudas:

«haver» deve escrever-se «aver». O "h" é eliminado -» avêr.

«accionista» deve escrever-se «acionista». O "c" é eliminado -» ásiunixta.

«acção» deve escrever-se «ação». O "c" é eliminado -» ásäu.

«espectador» deve escrever-se «espetador». O "c" é eliminado -» expétador.

«baptismo» deve escrever-se «batismo». O "p" é eliminado  -» bátixmu.

«decepcionar» deve escrever-se «dececionar». O "p" é eliminado  -» desésiunár.

«recepção» deve escrever-se «receção». O "p" é eliminado  -» resésäu.


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Regra nº 7: A cada letra é atribuído um único som. Deixa de haver leitura igual que se faz de letras diferentes e de leituras diferentes que pode ter a mesma letra:

a) Porque é que a palavra "assunção" se escreve com "ss" e depois com "ç", e "tensão" se escreve apenas com "s"?

Seria muito mais fácil atribuir um som único a cada letra até porque, quando aprendemos o alfabeto, é-lhes atribuída um único nome.

Assim, tanto a dupla "ss" como a letra "ç" são eliminadas e substituídas por um simples "s", o qual passará a ter um único som de "ç".

Desta forma, a palavra "assunção" passará a escrever-se "asüsãu".




b) E na palavra "usar", se o "s" tem o som "z" passará a ser sempre representado por um "z". A palavra "usar" escrever-se-á com "z" -» "uzár".

Deixa de haver "coser" (de costura) e "cozer" (de cozinhar). Em ambos os casos utilizar-se-á apenas a palavra "cozer". O significado dependerá apenas do contexto onde está inserida a palavra.


c) Nos plurais, o "s" final não se lê "ç" mas "x". Na palavra bolas, o "s" final não se lê "ç" mas "x" -» bólax.

Outros exemplos: "finais" -» "fináix" / "melros" -» "mélrux" / "carros" -» "cárrux".


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Quanto à letra "c" ler-se-á sempre como nas palavras «caro» ou «concordo» e nunca como nas palavras «centro» ou «cima». Estas palavras passam a escrever-se com "s" -» «sëtru» e «sima».

As palavras «quadro» ou «quebrar» devem ser escritas «cuádro» e «cebrár». E dispensa-se a letra "q".





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O som "ch" passa a ser representado pela letra "x". Tal como o «ph» das antigas (ph)armácias desapareceu sem deixar saudades a ninguém, também o «ch» pode passar à história por não fazer falta nenhuma. Quantas vezes não ouvimos já a pergunta: "esta palavra escreve-se com x ou com ch?".

Também as palavras "simplex" ou "códex" devem ser escritas "simplécs" e "códécs". Neste caso, o som "x" passa a ser escrito com "cs" o que é muito mais conforme à leitura natural.


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Quanto ao caso do som "j". Umas vezes escrevemos este som com "j" outras vezes com "g". Para quê complicar?

Geleia, gente e gigante passam a escrever-se jelaia, jëte e jigäte.

Se usarmos sempre o "j" para o som "j" não precisamos do "u" a seguir à letra "g" pois esta terá, sempre, o som "g" e nunca o som "j". Mais uma letra muda "g" que eliminamos.


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Como se pode ver, eliminaram-se as letras inúteis: "q" e "ç";

Também as letras: "p", "c", "u" "h" e "g", quando não se lêem, são eliminados - (concepção -» conceção / carácter -» caráter / quero -» qero / hei-de -» ei-de / gesto -» jesto).

Também se eliminaram as duplas "ss" e "ch" – (assado -» asado e chaves -» xaves);

Eliminou-se a tripla leitura da letra "s" - (caso "z" -» cazo; casto "x" » caxto);

E eliminou-se a tripla leitura da letra "x" - (córtex -» córteqs; axioma -» acsioma; exemplo -» ezemplo).


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Em Suma




Texto de Miguel Esteves Cardoso, em «Explicações de Português»

Taxtu de Migél Extêvex Cardosu, äi «Êxplicasöix de Purtugêx»



Os Amigos Nunca São para as Ocasiões - Ux Amigux Nüca Säu para ax Ocaziöix



Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso.

Ux amigux nüca säu para ax ocaziöix. Säu para sëpre. A idaia utilitária da amizáde, comu ëtreajuda, prötu-sucorru mútuu, tróca de favorex, depózitu de cöfiäsa, sosiedáde de dezabáfux, méte noju. A amizáde é puru prazer. Näu se póde cötaminár cö favorex i ajudax, laia-se dívidax. Péde-se, dá-se, recébe-se, excése-se i näu se fála maix nisu.


A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito.

A decadësia da amizáde ëtre nóx déve-se á ïxtrumëtalizasäu qe täi vïdu a sufrêr. Träxfurmou-se numa expésie de masonaria, uma sëtral de cunhax, palavrinhax, cüplicidádex i cöpadriux. É por iso ce ax amizádex se fázëi i dexfázëi comu se fosäi lásux pulíticux ou comersiaix. Se álgëi «fálta» ou «näu correxpöde», se näu cüpre ax obrigasöix cötratuaix, é lógu cödenádu comu «máu» amigu i sumáriamëte pruxcritu.


Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre.

Extá tudu doidu. Só uma mizéria déxtax obriga a dizêr u óbviu: ux amigux säu ax pesoax de ce nóx guxtamux i cö cäie extamux de vêx ëi cuädu. Pudemux näi secér dármu-nux muitu, ou bäi, cö élax. Ou guxtár máix délax du ce élax de nóx. Näu ïterésa. A amizáde é ü goxtu êgoíxta, ou inevitabilidade, u caminhu de ü curasäu äi róda-livre.


Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter.
A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade.

Ux amigux täiäi de sêr inútaix. Ixtu é, baxtáräi só pur êzixtir i, maravilhózamëte, sobráräi-nux na álma só pur cäi i comu säu. U purcê, u öde i u cuädu näu ïterésäu. A amizade näu täi pötu de partida, näi percursu, näi objétivu. É ïpusívél lëbrármu-nux de comu é ce nux turnámux amigux de álgëi ou pësármux nu futuru ce vamux têr. A glória da amizade é sêr apênax presëte. É pur isu ce dura para sëpre; purce näu cötäi expétativax näi planux näi äsiedáde.