domingo, maio 02, 2010

Foda-se – por Millôr Fernandes

Millôr Fernandes


(adaptado)

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela diz.
Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"?
O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me.

"Não quer sair comigo?! - então, foda-se!"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho(a)?! - então, foda-se!"

O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que "comó caralho"?

"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.


A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!



Entendes?
No género do "comó caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas!". Nem o "Não, não e não!" e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, nem pensar!" o substituem. O "nem que te fodas!" é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.
Aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo:
"Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!".
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)



Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou o seu correlativo "Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.
Diante de uma notícia irritante, qualquer "puta-que-o-pariu!", dito assim, põe-te outra vez nos eixos.
Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.

E o que dizer do nosso famoso "vai levar no cu!"? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai levar no olho do cu!"?
Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:
"Chega! Vai levar no olho do cu!"?
Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu-se!". E a sua derivação, mais avassaladora ainda: "Já se fodeu!".
Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando estás a sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? "Já me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e … a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo para a desejada reforma tem que aumentar … tu pensas "Já me fodi!"
Então:


Liberdade,
Igualdade,
Fraternidade
e
foda-se!!!



Mas não desespere:
Este país … ainda vai ser "um país do caralho!"
Atente no que lhe digo!
.

8 comentários:

Riesel disse...

Muita boa a adaptação para portugues de portugal, parabéns. Tem uma adaptação deste texto para teatro que também ficou ótima:
http://www.youtube.com/watch?v=VPSX5tgwyNA&feature=youtube_gdata

Anónimo disse...

Políticos portugueses FO...M-SE TODOS!

Anónimo disse...

O pessoal do Porto que, no passado, já falava muito bem, fartou-se de emigrar para o Brasil. Graças a Deus!

Luís Teixeira Neves

P'çébs!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! disse...

Muito bom.

Zorze disse...

Foi preciso um escritor de renome para dar uma importância do caralho às asneiras, que em certos contextos têm uma energia própria, diria até, uma energia do caralho.

Por outro lado, o presente em que vivemos é fodido e senão dermos a volta a esta merda, estamos fodidos prá caralho.

Temos que ser nós a fodê-los primeiro.

Abraço.

Fernando Frazão disse...

Mas o melhor o melhor é mandar levar dentro do olho do cú os bloggers deste calibre ("dentro" não é despiciendo).
Foda-se.

Anónimo disse...

Foda-se que o Millor é um prosador do caralho. E quem não gosta que vá levar dentro do cu. A puta que os pariu seus brochistas de merda.

Jose Botelho disse...

Apesar de ser atribuído a Millor Fernandes, o verdadeiro autor desse texto é Pedro Ivo Resende. Creio que é publicitário ou coisa assim. Embora o texto seja engraçadíssimo, resolvi verificar sua autoria, de tanto ver e ler textos adulterados de autores consagrados ou a eles atribuídos, resolvi tirar essa história a limpo. E, de tanto pesquisar na internet, acabei achando um comentário do Millor onde ele recusa veementemente a autoria desse texto e critica sua qualidade (um julgamento bastante severo, na minha opinião).