domingo, maio 21, 2017

Nobel de Economia Paul Krugman: "O capital está a concentrar-se em cada vez menos pessoas, dando aos mais ricos um poder cada vez maior sobre os políticos, os governos e a sociedade."

Entrevista com o economista norte-americano Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia de 2008, onde este fala do livro «O capital no século XXI» de Thomas Piketty:

O capital está a concentrar-se em cada vez menos pessoas, dando aos mais ricos um poder cada vez maior sobre os políticos, os governos e a sociedade.

Este capitalismo tem consequências potencialmente terríveis para a democracia, porque o nível de desigualdade nos Estados Unidos é provavelmente maior do que em qualquer outra sociedade, em qualquer altura do passado, em qualquer lugar do mundo…

Durante três décadas, entre 1977 e 2007, 60% do rendimento nacional dos EUA foi para 1% dos americanos mais ricos. A América está a tornar-se numa oligarquia.

A riqueza está tão concentrada que um grande segmento da sociedade não tem virtualmente consciência da sua existência.

O tamanho absoluto dessas grandes fortunas está tão longe da nossa experiência normal que se torna invisível. Nunca vamos conhecer essas pessoas. Nunca vamos ter nenhuma percepção daquilo que elas controlam e a maior parte das pessoas não têm ideia nenhuma sobre a distância que as separa desses grandes poderes.




https://youtu.be/QzQYA9Qjsi0

segunda-feira, maio 15, 2017

O atentado terrorista de 22 de julho de 2011 na Noruega, levado a cabo por Anders Breivik, foi tirado a papel químico de um exercício antiterrorista que a polícia norueguesa tinha realizado minutos antes…



À esquerda, os edifícios governamentais em Oslo afectados pela explosão do carro-bomba que matou 8 pessoas. Ao centro, o terrorista norueguês Anders Behring Breivik que perpetrou sozinho os dois atentados. À direita, a ilha de Utøya, onde Breivik matou a tiro 69 jovens.


A Versão Oficial do Atentado Terrorista

Os atentados de 22 de julho de 2011 na Noruega consistiram numa explosão na zona de edifícios governamentais da capital, Oslo, e num tiroteio ocorrido duas horas depois na ilha de Utøya (no lago Tyrifjorden, Buskerud). Os atentados, perpetrados por um activista de extrema-direita e fundamentalista cristão, o cidadão norueguês Anders Behring Breivik, resultaram na morte de 77 pessoas (69 jovens integrantes do partido trabalhista na ilha de em Utøya e 8 pessoas em Oslo).

Às 15h20m, houve uma grande explosão em Oslo junto dos prédios onde se situa o gabinete do primeiro-ministro da Noruega Jens Stoltenberg, danificando vários edifícios e provocando oito mortos e numerosos feridos. Na zona fica também a sede do Ministério do Petróleo e Energia, que foi o edifício mais danificado.

Segundo os meios de comunicação locais, o edifício do governo atingido ficou praticamente destruído e a zona "assemelhava-se a uma zona de guerra" pelos danos causados. De acordo com as declarações da polícia, o atentado foi perpetrado mediante um carro-bomba e pode ter consistido numa ou mais explosões [???] que atingiram os edifícios, deixando o edifício do gabinete do primeiro-ministro em chamas e os seus dezassete pisos com graves danos. Para uma melhor acção das equipas de emergência, a polícia vedou o acesso à área e evacuou a totalidade do resto dos edifícios governamentais.

Duas horas depois das explosões em Oslo, por volta das 17:20, na ilha de Utøya, ao norte da capital, o mesmo Anders Behring Breivik abriu fogo contra os participantes de um acampamento de jovens («universidade de verão»), organizado pela juventude do Arbeiderpartiet (Partido Trabalhista Norueguês). Entre 400 e 600 pessoas participavam do evento e 69 foram mortas neste atentado. O atirador, vestido com um uniforme de polícia, justificou a sua entrada no campo como uma «verificação de rotina após o atentado em Oslo» e começou a disparar contra os jovens. Estava prevista uma visita do primeiro-ministro Jens Stoltenberg ao acampamento.



****************************************************


Mas o jornal Aftenpost reportou uma coincidência espantosa:

(Wikipedia) - O jornal Aftenpost é o jornal de maior circulação na Noruega. Está sediado em Oslo. Tem cerca de 1,2 milhões de leitores. O jornal possui uma edição online. Eis o que reportou o jornal Aftenpost na tarde dos atentados:


Exercício antiterrorista na ilha de Utøya
cenário de 22 de Julho [dia do atentado]


Pouco horas antes de Anders Behring Breivik ter feito explodir um carro-bomba em Oslo que matou oito pessoas, e ter-se depois dirigido à ilha de Utøya onde matou a tiro 69 jovens, a brigada de reacção rápida da polícia tinha concluído um exercício antiterrorista onde treinara uma situação praticamente idêntica à que aconteceu no verdadeiro atentado terrorista:


Desembarque de tropas da brigada de reacção rápida da polícia na ilha de Utøya. Pouco antes, esta brigada tinha realizado um exercício antiterrorista que simulava uma situação praticamente idêntica à que aconteceu no atentado terrorista real.

Apenas algumas horas antes de Anders Behring Breivik ter começado a disparar sobre os jovens em Utøya, a brigada de reacção rápida da polícia tinha concluído um exercício onde praticara uma situação quase idêntica à que aconteceu no verdadeiro atentado terrorista.

Nos quatro dias anteriores, e também na própria sexta-feira em que que o ataque terrorista foi realizado, a brigada de reacção rápida da polícia treinou a resposta a um acto terrorista que era praticamente igual à situação que, horas mais tarde, os 22 policias da brigada encontraram em Utøya.

O Aftenposten recebeu a confirmação de fontes oficiais da chefia da polícia de Oslo de que o exercício antiterrorista tinha terminado às 15 horas daquela mesma sexta-feira.

Todos os polícias da brigada de reacção rápida que actuaram nos edifícios governamentais após a explosão do carro-bomba e que, mais tarde, desembarcaram na ilha de Utøya e prenderam Anders Behring Breivik, tinham participado num exercício muito semelhante nesse mesmo dia.

Portanto, a polícia terminou o exercício imediatamente antes do atentado terrorista.

Massacre

Contudo, a polícia não tinha treinado um cenário com tantas vítimas como as que se encontravam em Utøya.

A equipa de polícias da brigada de reacção rápida está continuamente a treinar. A cada trimestre treina diferentes tipos de cenários.

Estes são cenários diferentes em que a polícia da brigada de reacção rápida antevê que possam vir a surgir problemas. Podem haver acções em ambientes fechados, em cidades ou noutros ambientes.

Segundo a polícia, este era um cenário [a hipótese de uma explosão junto aos edifícios governamentais em Oslo e um tiroteio indiscriminado na ilha de Utøya] que exercitaram várias vezes por ano e que tinham treinado em anos anteriores, especialmente depois de certos acontecimentos noutros países.

26 minutos


26 minutos após a conclusão do treino da polícia da brigada de reacção rápida, o carro bomba explodiu no bairro do governo [em Oslo]. A polícia da brigada de reacção rápida estava de prontidão.

Às 17h30, o pessoal do Distrito da Polícia de Oslo recebeu uma mensagem sobre o tiroteio em Utøya. Perceberam que se tratava de uma situação muito séria e correram para os carros que tinham no Bairro do Governo e para os carros que existiam na esquadra de Grønland, em Oslo.

No caminho para Utøya, entraram em contacto com o distrito da polícia de Buskerud Norte, mas às 18.02, seis minutos antes de chegarem, os dois corpos policiais concordaram encontrar-se em Storøya.

Havia sete pessoas da polícia da brigada de reacção rápida e três oficiais do distrito de polícia de Buskerud Norte num barco de borracha de 4,9 metros de comprimento. O barco ficou tão carregado que começou a meter água. Nessa altura, a polícia recebeu assistência de um barco civil e dirigiu-se para a ilha de Utøya.



****************************************************


segunda-feira, maio 08, 2017

A razão pela qual os juros dos empréstimos bancários não devem ser pagos!

Como dizia o Prémio Nobel da Economia Maurice Allais - "o dinheiro que [os bancos] emprestam não existe previamente e, na verdade, é criado ex nihilo, ou seja, do nada."



Os Senhores do Mundo


I Parte


Por Juan Torres López [Professor catedrático do Departamento de Teoria Económica na Universidade de Sevilha.]


Qualquer pessoa que tenha precisado de devolver um empréstimo sabe o que significam os juros na hora de pagá-lo. Um empréstimo recebido, por exemplo, a 7% ao ano implica ter de devolver quase o dobro do capital recebido ao fim de dez anos.

Tanto é o peso dos juros acarretados pelos empréstimos que durante muito tempo considerou-se que cobrá-los acima de determinados níveis mais ou menos razoáveis era considerado não só um delito de usura como também uma acção imoral, ou inclusive um pecado grave que condenaria para sempre quem o cometesse.

Hoje em dia, contudo, quase todos os governos eliminaram essa figura criminosa e parece a toda gente natural que se cobrem juros legais de até 30% (isto é o que cobram neste momento os bancos espanhóis aos clientes que ultrapassam a sua linha de crédito) ou que haja países afundados na miséria não exactamente pelo que devem e sim pelo montante dos juros que hão de pagar.

Os países da União Europeia renunciaram a ter um banco central que os financiasse quando precisassem de dinheiro e portanto têm que recorrer à banca privada. Em consequência, ao invés de se financiarem a 0%, ou a um juro mínimo que simplesmente cobrisse os gastos da administração da política monetária, têm de fazê-lo e 4%, 5%, 6% ou inclusive a 15% em certas ocasiões. E isso faz com todos os anos os bancos privados recebam entre 300 mil milhões e 400 mil milhões de euros em forma de juros (será, ainda, preciso explicar quem esteve e porque por trás da decisão de que o Banco Central Europeu (BES) não financiasse os governos?).

Os economistas franceses Jacques Holbecq e Philippe Derudder demonstraram que a França teve de pagar 1,1 mil milhões de euros em juros desde 1980 (quando o banco central deixou de financiar o governo) até 2006 para fazer frente à dívida de 229 mil milhões existente nesse primeiro ano (Jacques Holbecq e Philippe Derudder, La dette publique, une affaire rentable: A qui profite le système?, Ed. Yves Michel, París, 2009). Ou seja, se a França tivesse sido financiada por um banco central sem pagar juros teria poupado 914 mil milhões de euros e a sua dívida pública seria hoje insignificante.


Em Espanha verificou-se uma coisa semelhante. Nós já pagámos, por conta dos juros (227 mil milhões no total desde então), três vezes a dívida que tínhamos em 2000 e apesar disso ainda continuamos a dever o dobro do que devíamos nesses anos (Yves Julien e Jérôme Duval, España: Quantas vezes teremos de pagar uma dívida que não é nossa? ). Eduardo Garzón calculou que se um banco central tivesse os défices da Espanha desde 1989 até 2011 a 1%, a dívida agora seria também insignificante, de 14% do PIB e não de quase 90% (Situação do cofres públicos se o estado espanhol não pagasse juros de dívida pública).

E o curioso é que estes juros que os bancos cobram às pessoas, às empresas ou aos governos e que travam continuamente a sua capacidade de criar riqueza não têm justificação nenhuma.

Poder-se-ia entender que alguém cobrasse um determinado juro quando concedesse um empréstimo a outro sujeito se, ao fazê-lo, renunciasse a algo. Se eu empresto a Pepe 300 euros e isso me impede, por exemplo, de passar um fim-de-semana de férias com a minha família poderia talvez justificar-se que eu lhe cobrasse um juro pela renúncia que faço das minhas férias. Mas não é isso o que acontece quando um banco empresta dinheiro.

O que a maioria das pessoas não sabe, porque os banqueiros encarregam-se de dissimular e de que não se fale disso, é que quando os bancos emprestam não estão a renunciar a nada porque, como dizia o Prémio Nobel da Economia Maurice Allais, o dinheiro que emprestam não existe previamente e, na verdade, é criado ex nihilo, ou seja, do nada.

O procedimento é muito simples e é explicado, por mim e Vicenç Navarro, no nosso livro «Los amos del mundo. Las armas del terrorismo financiero» (p. 57 e seguintes).

quinta-feira, maio 04, 2017

André Rogerie - o estonteante corrupio de um prisioneiro entre os diversos blocos hospitalares de Auschwitz


André Rogerie tinha 21 anos quando foi preso pela Gestapo, a 3 de Julho de 1943, quando tentava juntar-se às tropas francesas no Norte de África. André Rogerie esteve sucessivamente prisioneiro nos campos de concentração nazis de Buchenwald, Dora, Maidanek, Auschwitz, Gross-Rosen, Nordhausen e Harzungen.

Em 1945, escreveu uma obra intitulada "Vivre c’est Vaincre" [Viver é Vencer]. André Rogerie escreveu este livro porque, já desde 1943, estava convicto de que era necessário fazer saber ao mundo o que ele passou e viu nos campos de concentração.

No prefácio da reedição do seu livro, em 1988, escreveu: "Tendo assistido pessoalmente ao que se chama hoje «Holocausto», creio ser o meu dever, como testemunha ocular, imprimir novamente este documento histórico para que aqueles que procuram a verdade sobre este período encontrem um testemunho autêntico". Contra os negacionistas (os que negam o Holocausto Judeu), André Rogerie traz-nos o testemunho de um deportado que observou o genocídio dos Judeus.



Tendo subido ao posto de General, André Rogerie recebeu em 1994 o prémio "Mémoire de la Shoah [Memória do Holocausto Judeu] da Fundação Bushmann. A 16 de Janeiro de 2005, no Hôtel de Ville em Paris, por ocasião da comemoração da libertação do campo de extermínio de Auschwitz, André Rogerie foi, a par com Simone Veil (a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu [1979-1982]), um de dois sobreviventes dos campos a testemunhar.

André Rogerie foi deportado para Dora, adoeceu, foi considerado inapto para o trabalho e, depois de algumas peripécias, chega a Auschwitz-Birkenau em Abril de 1944, nessa altura ele não pesa mais de quarenta quilos.

«Os prisioneiros com fatos às riscas estão lá para nos receber. É um comando especial. Em geral são muito simpáticos, ajudam-nos a descer e depois a subir para os camiões. Estamos muito cansados, chegámos extenuados e a ajuda que nos deram não foi inútil» (pág. 63).

André Rogerie, depois de passar pela desinfecção vai para um bloco de quarentena. Ao fim de cinco semanas, pesa 43 kg. Ao ver o seu estado de magreza, o médico envia-o para o campo-hospital (pág. 69): «fomos colocados num bloco muito simpático. O chão está coberto com um pavimento, há janelas, as camas estão espaçadas umas das outras, os cobertores são bons. A sopa é abundante e, pela primeira vez desde há uns tempos, eu comia o suficiente» (pág. 69).


André Rogerie


Ao verificar-se que tinha sarna, foi enviado para o bloco 15, «reservado às doenças de pele» (pág. 70). «Todos os dias, o suplemento de sopa é distribuído àqueles que estão mais magros […] vou portanto para a fila (sempre em camisa) para o meu suplemento». «Em poucos dias, voltei a ter cinquenta quilos. Graças às pomadas do doutor Landemann, a minha pele está completamente sarada» (pág. 71).




No dia em que devia finalmente sair do hospital para trabalhar, André Rogerie ficou com febre: «Os médicos auscultaram-me um após outro e desconfiaram que eu tinha malária. O doutor Herz recolheu uma amostra do meu sangue para que fosse estudada ao microscópio […] o laboratório respondeu na manhã seguinte a dizer que a malária não foi detectada. Eu tenho o sangue muito puro […]. Continuo portanto a viver no bloco 15 com a minha pequena febre semanal […]. Pouco a pouco, graças aos bons cuidados de Piccos (um enfermeiro), a agulha da balança sobe e em Julho eu já peso 56 quilos» (pág. 72).

«Eis que, ainda por cima, eu contraio uma doença do couro cabeludo que é tratada por depilação. É necessário rapar todo o cabelo, pêlo a pêlo. Para isso, sou levado para o campo das mulheres para ir ao aparelho de raios X, porque não falta nada em Birkenau».

Pouco depois, André Rogerie seria inscrito num comando de trabalho de Auschwitz.



Comentário

Poucos deportados terão tido tanta sorte como o prisioneiro André Rogerie. Não só passou incólume por sete campos de extermínio - Buchenwald, Dora, Maïdanek, Auschwitz, Gross-Rosen, Nordhausen e Harzungen, como, dentro do campo de extermínio de Auschwitz, correu quase todos os blocos hospitalares do campo.

André Rogerie, depois de passar pela desinfecção, foi para um bloco de quarentena. Cinco semanas depois, o médico envia-o para o campo-hospital. Ao verificar-se que tinha sarna, foi enviado para o bloco 15, reservado às doenças de pele. Ao contrair uma doença no couro cabeludo, tem de ir ao aparelho de raios X que fica situado no campo das mulheres.

Esta roda-viva pelos diversos blocos hospitalares de Auschwitz não é alheia à recuperação física de André Rogerie. Chegado a Auschwitz, em Abril de 1944, não pesando mais do que 40 kg, ao fim de cinco semanas já pesa 43 kg, atingindo pouco depois os 50 kg, e em Julho do mesmo ano os 56 kg. Pouco tempo depois, André Rogerie já estava suficientemente robusto para ser integrado num comando de trabalho.

Em face da existência de tantos blocos hospitalares no campo de extermínio de Auschwitz, é difícil discordar de André Rogerie: «não falta nada em Auschwitz-Birkenau».