terça-feira, maio 20, 2014

O capitalismo destruído pelo desenvolvimento científico e tecnológico


Para onde foi o CAPITAL(ISMO)?



Pela primeira vez na história da modernidade, as novas tecnologias – a nanotecnologia, a computação, a automação e a inteligência artificial - são capazes de economizar mais trabalho (humano), em termos absolutos, do que o necessário para a expansão dos mercados de novos produtos.

Na terceira revolução industrial, a capacidade de racionalização é maior do que a capacidade de expansão. O antigo efeito de uma fase expansiva, criadora de empregos, deixou de existir. O desemprego tecnológico espalha-se por todas as indústrias e por todo o planeta.

O interesse próprio económico das empresas conduz a um resultado paradoxal. Já era tempo, depois de 200 anos de era moderna, que o aumento da produtividade servisse para que as pessoas trabalhassem menos e vivessem melhor. O sistema de economia de mercado, porém, não foi feito para isso. A sua ação restringe-se a transformar o excedente produtivo em mais produção e, portanto, em mais desemprego.

Com um desemprego em crescendo e que já nada fará retroceder, os salários tenderão irremediavelmente a desaparecer. Sem eles não haverá vendas. Sem vendas não haverá lucros. Sem lucros, as empresas privadas não farão sentido. O fim dos lucros e das empresas privadas representarão o fim do capitalismo.

Os Economistas, ainda agarrados ainda às ultrapassadas (e tantas vezes desacertadas) teorias de Adam Smith, Ricardo, Malthus, Marx, Von Mises, Hayek, Keynes, Galbraith, Friedman e de tantos outros cientistas económicos, observam, atordoados, os fenómenos económicos aparentemente incompreensíveis deste século XXI, e mostram-se incapazes, à luz do passado, de compreender o presente e, menos ainda, o futuro.


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Desenvolvimento tecnológico e desemprego




Existe, hoje, uma concepção simultaneamente ingénua e sensata sobre a produtividade. Quanto mais esta cresce, assim parece ditar a lógica, mais lazer deverá trazer à vida das comunidades. A maior produtividade permite obter mais bens com menos trabalho. Não é maravilhoso? Na nossa época, no entanto, parece que o aumento da produtividade, além de criar uma quantidade exagerada de bens, resultou numa avalanche de desemprego e de miséria.

Desde o final dos anos 70, os sociólogos costumam falar de um desemprego tecnológico ou "estrutural". Isso significa que o desemprego se desenvolve independentemente dos movimentos conjunturais da economia e cresce até mesmo em períodos de boom financeiro. Nos anos 80 e 90, a base desse desemprego estrutural, de ciclo para ciclo, tornou-se cada vez maior em quase todos os países. Em 1995, segundo números da Organização Internacional do Trabalho, 30% da população economicamente ativa de todo o mundo não possuía emprego estável.

Essa triste realidade, além de incompatível com o entendimento lógico humano, suscitou uma curiosa reação dos economistas. Os doutores em ciências económicas agem como se o fenómeno irracional do desemprego em massa não tivesse absolutamente nada a ver com as leis da economia moderna; as causas, segundo eles, devem ser buscadas em fatores alheios à economia, sobretudo nas erradas políticas financeiras dos governos.

Ao mesmo tempo, porém, os mesmos economistas afirmam que o aumento da produtividade não diminui o número de empregos, mas, antes pelo contrário, é responsável pelo seu crescimento. Isso (segundo eles) teria sido comprovado pela história moderna. O que para o observador imparcial se assemelha à falácia de que a causa da doença deve integrar a receita para a própria cura. Os economistas operam com uma equação que mais parece um sofisma. Mas onde está o erro?



Um axioma da teoria económica afirma que o objetivo da produção é suprir a falta de bens da população. Ora, isto não é exatamente verdade. Todos sabem que o objetivo da produção moderna é originar lucro na economia da empresa. A venda dos bens produzidos deve render mais dinheiro do que o custo de sua produção. Qual a relação interna entre esses dois objetivos (1- suprir a falta de bens da população, ou, 2 - lucro para a empresa)? Os economistas dizem que o segundo objetivo é apenas um meio (na realidade, o melhor meio) de atingir a primeira meta. E, no entanto, é evidente que os objetivos não são idênticos: o primeiro refere-se à economia como um todo, o segundo à economia das empresas individualmente. Daqui, resultaram contradições que, desde o seu início, tornaram instável o sistema económico moderno.

A ideia tão natural de que o aumento da produtividade facilita a vida dos homens não leva em conta a racionalidade específica das empresas. Na verdade, trata-se de saber qual será o uso de uma maior capacidade produtiva. Se a produção visa a suprir as próprias necessidades, a evolução dos métodos e dos meios será utilizada simplesmente para trabalhar menos e desfrutar do maior tempo livre.

Um produtor de bens para o mercado, no entanto, pode ter a brilhante ideia de trabalhar tanto como trabalhava e utilizar a produtividade adicional para produzir uma quantidade ainda maior de mercadorias, a fim de ganhar mais dinheiro em vez de aproveitar o ócio. Um administrador de empresas é mesmo forçado a chegar a essa ideia, pois não tem vantagem nenhuma em que os seus assalariados tenham mais tempo livre. Para ele, a produtividade adicional representa, de qualquer modo, um trunfo contra a concorrência, sendo revertida em benefício da diminuição dos custos da empresa, e não em favor da maior comodidade dos seus assalariados.

É por isso que, na história económica moderna, a jornada de trabalho diminuiu numa proporção muito menor do que o aumento correspondente de produtividade. Hoje em dia, os assalariados ainda trabalham mais e durante mais tempo do que os camponeses da Idade Média.



A diminuição dos custos, portanto, não significa que os trabalhadores trabalham menos mantendo a mesma produção, mas, simplesmente, que menos trabalhadores produzem mais produtos. O aumento da produtividade, num caso e noutro, reparte os seus frutos de forma extremamente desigual: enquanto trabalhadores "supérfluos" são demitidos, crescem os lucros dos empresários. Mas, se todas as empresas entrarem nesse processo, há a ameaça de surgir um efeito com que não contavam os interesses obtusos da economia empresarial: com o desemprego crescente, diminui o poder de compra da sociedade. Quem comprará então a quantidade cada vez maior de mercadorias?

As corporações dos artesãos da Idade Média pressentiram esse perigo. Para elas era um pecado e um crime fazer concorrência aos colegas por meio do aumento de produtividade e tentar conduzi-los a todo custo à ruína. Os métodos de produção eram por isso rigidamente fixados, e ninguém os podia modificar sem o consentimento das corporações. O que impedia o desenvolvimento tecnológico era menos a incapacidade técnica do que a organização social estática dos artesãos. Estes não produziam para um mercado no sentido moderno, mas para um mercado regional limitado, livre de concorrência. Essa ordem de produção durou mais tempo do que geralmente se supõe. Em grande parte da Alemanha, a introdução de máquinas foi proibida pela polícia até meados do século XVIII.

A Inglaterra, como se sabe, foi a primeira a derrubar tal proibição. O caminho, assim, ficou livre para as invenções técnicas como o tear mecânico e a máquina a vapor, os dois motores da industrialização. E, de súbito, irrompeu a temida catástrofe social: em toda a Europa, na passagem do século XVIII para o XIX, alastrou-se o primeiro desemprego tecnológico em massa.


1874 - A polícia de Nova Iorque ataca violentamente trabalhadores desempregados

Tudo isso é passado, dirão os economistas: a evolução posterior não demonstrou que os temores eram infundados? De fato, apesar da expansão contínua das novas forças produtivas do ramo industrial, o desemprego tecnológico caiu rapidamente. Mas por que motivo? Acossados pela concorrência recíproca, os industriais foram obrigados a restituir aos consumidores parte de seus ganhos com a produção. As máquinas tornaram os produtos essencialmente mais baratos ao consumidor.

Embora para a produção de uma certa quantidade de produtos têxteis fosse necessária uma força de trabalho menor do que antes, a procura por roupas e tecidos baratos cresceu tanto que, ao contrário das expectativas, um número considerável de trabalhadores foi empregado nas novas indústrias.

Com isso, porém, o problema não foi solucionado pela raiz. Todo o mercado, a seu tempo, atinge um limite de saturação que o torna incapaz de conquistar novas camadas de consumidores. Somente numa certa fase da evolução o aumento da produtividade conduz à criação de mais empregos para a sociedade, apesar da menor quantidade de trabalho necessária para a confeção de cada produto.

Nessa fase, os métodos desenvolvidos (a tecnologia) tornam o produto mais barato e ao alcance do grande consumo de massas. Antes de alcançar esse estágio, o aumento de produtividade lança o antigo modo de produção numa profunda crise, como mostra o exemplo dos artesãos têxteis no século XIX. Na outra ponta do desenvolvimento, a crise é igualmente uma ameaça (com base na própria produção industrial), quando o estágio de expansão é ultrapassado e os mercados periféricos se encontram saturados.

Mas essa mesma expansão ainda pode ser transferida para outros setores. Ao longo do século XIX, os antigos redutos artesanais foram progressivamente industrializados. Cada vez mais produtos tiveram os seus preços reduzidos e permitiram a explosão do mercado. O processo sofreu uma tal aceleração que os artesãos "supérfluos" eram imediatamente absorvidos pelo trabalho industrial, evitando assim que se repetisse a grande crise social dos antigos produtores têxteis.


Karl Marx

Já não eram apenas os objetos do quotidiano que podiam ser comprados pelas camadas mais pobres. Mesmo produtos de luxo, antes reservados às seletas camadas superiores entraram cada vez mais no consumo de massas. Até Karl Marx reconheceu este embaratecimento geral dos produtos de fabrico industrial como “obra civilizatória” do capitalismo. As crises, mesmo que inevitáveis, pareciam somente transições dolorosas para se atingir novos patamares de prosperidade. Mas o que ocorre quando todos os ramos da produção já estão industrializados e todos os limites de expansão do mercado já foram alcançados?

O desenvolvimento económico parecia refutar também esse receio. A indústria não apenas absorveu os antigos ramos da produção artesanal, mas também criou a partir de si mesma novos setores produtivos, inventou produtos jamais imaginados e infundiu a sede de compra nos consumidores. O processo de aumento da produtividade, expansão e saturação dos mercados, criação de novas necessidades e nova expansão parecia não ter limites.

Economistas como Joseph Schumpeter e Nikolai Kondratieff formularam, a partir dessas ideias, a teoria das chamadas “ondas longas” no desenvolvimento cíclico da economia moderna. Segundo essa teoria, uma certa combinação de indústrias atinge sempre o seu limite histórico de saturação, envelhece e começa a encolher, após uma fase de expansão impetuosa. Empresários inovadores, na condição de "destruidores criativos" (Schumpeter), inventam, todavia, novos produtos, novos métodos e novas indústrias, que libertam o capital dos antigos investimentos estagnados e lhes dão novo alento num corpo tecnológico renovado.

Um exemplo lapidar do nascimento de um novo ciclo é a indústria automobilística. Em 1886, o engenheiro alemão Carl Benz já tinha construído o primeiro carro, mas até à Primeira Guerra Mundial tal mercadoria permaneceu um produto de luxo extremamente caro. Como que saído das páginas do livro-texto de Schumpeter, surgiu então o empresário inovador Henry Ford. A sua criação não foi o automóvel em si, mas um novo método de produção.

No século XIX, a produtividade cresceu sobretudo pelo fato de os ramos artesanais terem sido industrializados por meio da instalação de máquinas. A organização interna da própria indústria ainda não fora objeto de grandes cuidados. Só após 1900 o engenheiro norte-americano, Frederick Taylor, desenvolveu um sistema de "administração científica da empresa", a fim de desmembrar as áreas de trabalho específicas e aumentar a produção.


Ford - Modelo T

Ford descobriu através desse meio um sistema de reservas insuspeitas de produtividade na organização do processo produtivo. Observou, por exemplo, que um operário da linha de montagem perdia em média muito tempo a ir buscar parafusos. Estes começaram, então, a ser transportados diretamente ao local de trabalho desse operário. Parte do processo tornou-se "supérfluo" e, logo de seguida, foi introduzida a esteira rolante.

Os resultados foram surpreendentes. Até à Primeira Guerra, a capacidade produtiva de uma fábrica de automóveis de porte médio girava em torno dos 10 mil carros por ano. Já em Detroit, a nova fábrica de Ford produziu, no exercício financeiro de 1914, a fantástica cifra de 248 mil unidades do seu célebre "Modelo T". Os novos métodos deflagraram numa nova revolução industrial. Mas tal revolução "fordista" ocorreu tarde demais para conseguir evitar a crise económica mundial (1929-33), desencadeada pelos custos da guerra e pelo declínio global do comércio.

Depois de 1945, porém, sobreveio o "grande ciclo" da produção industrial em massa de automóveis, aparelhos domésticos, divertimentos eletrónicos, etc. Baseado no antigo modelo, só que agora em dimensões muito maiores, o aumento da produtividade criou um número espantoso de novos empregos, já que a expansão do mercado de carros, frigoríficos, televisões etc., exigia, em termos absolutos, mais trabalho do que os métodos "fordistas", em termos relativos, economizavam em cada produto.



Nos anos 70, as indústrias fordistas atingiram o seu nível histórico de saturação. Desde então vivemos a terceira revolução industrial, da microeletrónica. Esperançadamente, alguém se lembrou imediatamente de Schumpeter. De fato, os novos produtos passaram por um processo semelhante de embaratecimento, tal como acontecera com os automóveis e os frigoríficos. O computador, antes um aparelho caro e destinado apenas a grandes empresas, transformou-se rapidamente num produto de consumo das massas. Desta vez, porém, o surto económico não surtiu um correspondente aumento de empregos.

Pela primeira vez na história da modernidade, uma nova tecnologia é capaz de economizar mais trabalho, em termos absolutos, do que o necessário para a expansão dos mercados de novos produtos. Na terceira revolução industrial, a capacidade de racionalização é maior do que a capacidade de expansão. O anterior efeito de uma fase expansiva, criadora de empregos, deixou de existir. O desemprego tecnológico da primeva história da industrialização refaz o seu retorno triunfal, só que, agora, não se limita a um ramo da produção, mas espalha-se por todas as indústrias e por todo o planeta.

O interesse próprio económico das empresas conduz a um resultado paradoxal. Já era tempo, depois de 200 anos de era moderna, que o aumento da produtividade servisse para que as pessoas trabalhassem menos e vivessem melhor. O sistema de economia de mercado, porém, não foi feito para isso. A sua ação restringe-se a transformar o excedente produtivo em mais produção e, portanto, em mais desemprego. Os economistas não querem compreender que a terceira revolução industrial possui uma qualidade nova, em cujo meio a teoria de Schumpeter já não é válida. Em vão, eles ainda esperam o "grande ciclo" da microeletrónica. Em suma, estão à espera de Godot (de algo que nunca chegará a acontecer).


Desemprego de longa duração nos EUA: 1948 - 2013






5 comentários:

Jorge disse...

Se as empresas privadas já não vendem e se já não empregam, andam cá a fazer o quê?

Sofia disse...

Os computadores jamais conseguirão abranger toda a complexidade da inteligência humana, por mais potentes que possam vir a ser. A computação nunca virá a ter características que são só nossas: a compreensão, a criatividade, a intuição, já para não falar no humor, na espontaneidade, etc.

Anónimo disse...

Os Computadores são bons para os valores Zio/Marxistas globalizantes.

Não têm raça!!!

Diogo disse...

Um cérebro humano não passa de um mecanismo biológico (composto de neurónios e sinapses). Com o nível exponencial de evolução actual, dentro em pouco seremos capazes de fazer cérebros mecânicos ou biológicos (ou uma mistura dos dois), triliões de vezes mais poderosos que o presente cérebro humano.

Pedro Lopes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.