terça-feira, janeiro 10, 2017

O avanço tecnológico e o fim dos empregos


Revista Visão - 03.01.2017

Os 2000 cidadãos, escolhidos aleatoriamente entre os que recebiam subsídio de desemprego, passam a receber um rendimento base de 560 euros por mês, dinheiro que é garantido mesmo se as pessoas arranjarem entretanto um emprego. O valor não será tributado.

O programa inicial, que serve de experiência, está previsto que dure 2 anos, mas se for bem sucedido será alargado a todos os adultos finlandeses. O governo pensa que a iniciativa poderá economizar dinheiro a longo prazo. O sistema de previdência social do país é complexo e dispendioso e sua simplificação poderá reduzir a burocracia. Por outro lado, também poderá incentivar os desempregados a procurar trabalho, porque agora não têm de preocupar-se com a perda de benefícios de desemprego caso arranjem um emprego. Actualmente alguns desempregados evitam trabalhos a tempo parcial, ou mal pagos, porque lhes retira automaticamente os benefícios de desemprego, acabando por não compensar procurar um emprego.

"Os lucros incidentes não reduzem o rendimento base, de modo que trabalhar e... trabalhar por conta própria vale a pena, não importa o quê", disse Marjukka Turunen, chefe da unidade jurídica da Kela, agência de previdência social da Finlândia.

A ideia não é exclusiva da Finlândia. A cidade italiana de Livorno começou a distribuir um rendimento base pelas 100 famílias mais pobres da cidade em junho, número que foi alargado a mais 100 famílias este último domingo.

Programas-piloto também estão a ser discutidos no Canadá, Islândia, Uganda e Brasil. A Suíça, no ano passado, considerou dar a cada adulto um rendimento garantido de 2.500 dólares por mês, mas o plano foi rejeitado em referendo – mais de 75% dos eleitores votaram contra a medida.

Um dos exemplos de um programa de rendimento garantido vem dos Estados Unidos. O Alasca faz pagamentos anuais a todos os residentes desde a década de 80, através de um dividendo da receita petrolífera do estado. O BIEN, um grupo que defende o rendimento universal, descreve-o como o primeiro "sistema genuíno de rendimento base universal".


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A Tecnologia está a mudar tudo. O ritmo de desenvolvimento tecnológico é extremamente rápido e afecta todos os aspectos da vida humana - não apenas os aspectos económicos e sociais, mas também a natureza do ser humano como espécie. Este é o resultado do desenvolvimento da inteligência artificial, da robotização e do potencial de instrumentação genética, médica e biológica e outras novas tecnologias semelhantes. A questão não será o que as máquinas podem fazer, mas o que devem fazer. Se as máquinas podem fazer o trabalho que fazemos hoje, que papel iremos desempenhar como seres humanos?

Vivemos hoje num mundo cada vez mais absurdo sob o ponto de vista económico. Um mundo que possui uma capacidade cada vez maior de produção, mas que produz cada vez menos. E produz cada vez menos, porque a capacidade de poder de compra tem vindo a diminuir. Um paradoxo que se tem vindo a revelar crescentemente desastroso.


As teses de renomados economistas, que assentam no homem como principal factor produtivo, estão cada vez mais desfasadas de uma realidade tecnológica em evolução exponencial:

(Da esquerda para a direita, os economistas:) John Maynard Keynes, Friedrich Hayek, Milton Friedman, Ludwig von Mises, Paul Krugman, John Kenneth Galbraith e Joseph Stiglitz.

1 – O mundo de hoje continua cegamente a seguir práticas económicas de há muitas décadas atrás. Um mundo em que o Homem era a grande força motriz da produção, fosse na agricultura, na indústria ou nos serviços. Ao deixar de o ser, ao alterar-se este paradigma, as práticas económicas que teimam em continuar a ser seguidas, mostram-se completamente contraproducentes.

2 – Desde o começo da revolução industrial, a tecnologia tem vindo a substituir o homem nas actividades mais pesadas e repetitivas. Mas, ao mesmo tempo que a tecnologia destruía empregos, ia criando novas actividades que absorviam esse desemprego.

3 – Este processo, em que a tecnologia ia criando novos empregos à medida que destruía outros, começou a deixar de funcionar por volta da década de 1980 nos países mais desenvolvidos (coincidente com o aparecimento da informática). As novas actividades que a tecnologia criava começavam também a ser desempenhadas mais eficientemente pelas máquinas. E o desemprego começou a crescer imparavelmente.



Automação

4 – A tecnologia está a evoluir de forma exponencial em todos os campos. A robotização, a automação, a informatização, a inteligência artificial, as telecomunicações, etc. estão, cada vez mais, a substituir o homem em todos os aspectos da produção.

5 – Ao afastar o homem do processo produtivo, a tecnologia está também a acabar com os empregos e, portanto, com os salários. E, na actual economia, não havendo salários, não há poder de compra. Sem poder de compra, não há vendas. Sem vendas, não há lucros. E sem lucros, não há incentivo para a produção privada.

6 – E aqui chegamos ao absurdo em que o homem precisa de todo o tipo de bens para viver, a tecnologia tem uma capacidade crescente de os produzir sozinha, mas produz-se cada vez menos porque a esmagadora maioria da produção é feita por privados e estes já não têm incentivo para produzir –> porque não conseguem vender -> porque não há poder de compra -> porque não há salários -> porque não há empregos.

7 – Se uma máquina consegue produzir sozinha (sem interferência humana), então é igualmente eficaz a produzir sendo privada ou sendo propriedade pública.


Uma empresa privada fecha as suas portas porque, embora esteja 100% apta a produzir e os seus produtos sejam necessários, como as pessoas estão desempregadas, porque foram substituídas por máquinas, não têm salários e, portanto, não têm dinheiro para comprar os produtos dessa empresa:




8 – Se a tecnologia privada deixa de produzir por falta de incentivos (porque não vende), então toda a tecnologia produtiva tem de ser socializada. E, deste modo, a tecnologia pública produzirá o máximo de bens e serviços, o mais eficazmente possível, para atender às necessidades da comunidade.

9 – Para que as pessoas possam adquirir os produtos de que têm necessidade, e enquanto a capacidade produtiva não puder proporcionar tudo a todos, a comunidade distribuirá uma semanada ou uma mesada igual para todos.

10 – O Homem poderá libertar-se finalmente das grilhetas do trabalho para viver e dedicar-se aos passatempos que desejar.


12 comentários:

João disse...

O que é que vai acontecer ao emprego com o desenvolvimento das novas tecnologias? Estudos recentes afirmam que 47% (quase metade) dos empregos nos EUA estão em extinção devido à substituição tecnológica.

Romeu Campos disse...

Caro Diogo...
Mente humana dedicada aos passatempos... Seremos reduzidos a isso? Tenho pouquíssimo apreço ao trabalho e o seu canto do cisne me agrada plenamente, mas vivermos uma vida eterna dedicada ao sexo tântrico, ao pôker, esbarrando com um poeta em cada esquina não me enche as medidas. Poderia escrever esbarrar com um filósofo em cada esquina, mas creio firmemente que se a IA tiver total liberdade, sem condicionamentos que a impeça de plena capacidade de raciocinar, até nossas dúvidas existênciais poderão ser respondidas, talvez até aquela: qual o significado de nossa existência? Absolutamente nenhuma talvez. Ou talvez até seja: nos tornarmos mestres do vídeo game. Viveremos virtualmente o velho oeste, lutaremos virtualmente contra o Cardeal Richelieu, seremos a caça de tigres dente de sabre ou de dinossauros, lutaremos contra moinhos de vento, virtualmente seremos discípulos de Buda, Krishna, Jesus... Muito provavelmente pisaremos em solo de planetas virgens. Mas qual o nosso mérito nisto tudo? Nos cansamos de pensar ou a máquina se antecipou ao nosso pensamento não nos deixando nenhuma serventia a não ser uma existência meramente hedonista? Seremos intelectualmente condenados a atrofia?
Não pense que o teu sonho não seja o meu sonho. Pensamos quase que exatamente da mesma forma. Mas assim como você Diogo, também creio na possibilidade da eterna existência física, embora, diferentemente de você, não tenho plena convicção de sua utilidade pensando na possibilidade dela vir a reboque de um evento externo tal qual a IA.

Só te peço peço o obséquio de evitar falar na questão de nos tornarmos eternamente chips. Passei por profunda depressão ao saber desta modernosidade.

Abraços,

Nickão.


Diogo disse...

Caro Romeu Campos,

O que me parece que está reservado ao ser humano é uma existência eterna e hedonista.

Mas hedonista no sentido mais lacto do termo – desde o prazer de comer um pêssego, da um mergulho no mar, até sentir uma paixão infinita por uma mulher ou o doce sentimento paternal por um filho.

E atrofia intelectual porquê? Nem a máquina deixaria que isso acontecesse, como até lhe multiplicaria essa capacidade por n.

Quanto ao aborrecermo-nos com esta existência hedonista, isso constituiria um desprazer, e a máquina evitaria isso com toda a facilidade, nem que passássemos a existência inteira a jogar ao três em linha.

Por fim, morrer, para quê?

Abraço
Diogo

Anónimo disse...

O Rendimento Básico Incondicional (RBI) ao ser implementado trará uma grandiosa revolução na sociedade, será o fim da exploração e humilhação por parte dos cidadãos diante do patronato; significa o fim da miséria e da desigualdade.

Será o momento em que o individuo poderá concretizar o que deseja a nível pessoal e profissional, pois terá sempre o rendimento necessário para viver livre e com dignidade.

O curioso é o medo com que as pessoas ficam, quando se fala no Rendimento Básico Incondicional (RBI), só facto de saberem que todo o cidadão poderá levar uma vida independente, sem ser humilhado, deixa a maioria dessa gente transtornada.


Rendimento Básico Incondicional (RBI)
www.rendimentobasico.pt

Petição Nacional a favor de um Rendimento Básico Incondicional
http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT71674

Documentário "O Rendimento Básico" (legendado em português)
https://www.youtube.com/watch?v=ExRs75isitw

JF disse...

Diogo esqueci-me de identificar-me no comentário que escrevi, às 18:04, 14JAN17.

Zacarias disse...

Caro Diogo

Eu estou do teu lado, acho que devia haver um rendimento para todos os cidadãos.
Acho que devia acontecer, mas não vai acontecer, como vais explicar a uma população que toda a vida esteve sujeita às agruras do trabalho, que os de agora vão receber dinheiro a troco de nada. Eles pensam, mas o quê ?! então eu andei a bulir e agora estes tipos vão receber uma "fortuna" para andar a fazer népia ?, nunca na vida pá.
Eu diria a estes tipos, há empregos há, vão recolher fruta ou capinar, ou algo assim, não querem é trabalhar !

Se já é difícil convencer a população, como é que se vai convencer aqueles que detém o poder no actual sistema ?, eu se fosse rico e poderoso queria que as coisas se mantivessem na mesma o mais tempo possível. Quero lá saber dos outros, se tenho poder e dinheiro, está tudo bem para mim. Se eu estivesse a beneficiar do sistema porque iria fazer algo para mudar ?

É que muitas pessoas não se apercebem de uma coisa, mas se começamos com estas coisas dos rendimentos, em breve toda a população estará apanhada nisto, e quando isso acontecer deixará de haver a necessidade da existência de dinheiro. Há que travar a coisa antes que comece. Se as pessoas deixarem de trabalhar, iam ficar com mais tempo para passar com os seus entes queridos, e quem nos diz que não iam usar esse tempo para conspirarem fazer mais coisas contra o actual sistema !? estão bem é como estão, a trabalhar num ambiente hierárquico, a fazerem o que lhes mandam, isso que é bom, aprendem a obedecer.

E se não houver dinheiro deixará de haver ricos e poderosos, não é ?
Epá isto não pode acontecer, porque apesar de ser pobre, eu quero ser rico e poderoso no futuro, só não sei como.

Se eu fosse rico e poderoso, não queria que isto do fim do dinheiro acontecesse, há outras soluções, como as pessoas terem menos filhos, ou os pais sustentarem os filhos, ou coisas assim, coisas de redução da população. Seria para esta solução que eu me inclinaria mais. Guerras ou pragas seria porreiro, desde que não seja para estes lados. Se há menos pessoas vivas, há menos desempregados, é lógico.
Eu acho que é por aqui que uma solução para o que está a acontecer se vai achar, essa agora de dar um rendimento ! isso é que não.



[isto foi escrito com um teclado irónico]

Zacarias disse...

Caro Romeu Campos

Lembra-se do Filme Matrix Reloaded ?, daquela cena quando eles falam com o Merovingian, o discurso da casualidade. O seu comentário fez-me lembrar disso.
Não pense no que está reservado ou não, pense em assegurar ao máximo que tem escolha no que acontece consigo. É um dos caminhos para a felicidade, o outro é ajudar aqueles que se ama.

Zacarias disse...

Caro Diogo

[no seguimento do outro comentário]

"Se as pessoas deixarem de trabalhar"
Como as máquinas já com a tecnologia actual poderiam facilmente substituir 99% dos empregos actuais, e o tal rendimento poderia custar apenas uma fracção do que o mundo gasta actualmente em armamento, a coisa até era possível. Mas não vai acontecer, porque isso ia destruir toda a estrutura de controlo.

Já que as máquinas fazem as coisas melhor, porque não por umas pessoas a fazer coisas e outras a desfazer o que essas fizeram ? assim estavam empregadas e ainda haveria dinheiro e um sistema de controlo. Assim mantinha-se o sistema.

Está a ver ? há mais soluções que não são essa radical do dar rendimento para não trabalhar. Quem não trabalha não devia comer. (desde que essa pessoa não seja eu)



[isto foi escrito com um teclado irónico]




JF disse...

O Rendimento Básico Incondicional (RBI) seria uma excelente medida para Portugal, país onde é negado o trabalho ao cidadão, e onde até para empregado de balcão se entra por cunha.

Romeu Campos disse...

Não sou entendido em RBI, mas o pouco que sei é que a sua implementação deverá ter como base garantidora uma espécie de arrecadação nas empresas. Se o discurso da moda é meritocracia e outras balelas semelhantes, fica desde o princípio impraticável um projeto desses seguindo a ótica do empresariado. Neste ponto Diogo está correto quando afirma que para que algo assim possa funcionar, só estando a IA no controle global em todos os sentidos, inclusive das corporações. Daí em diante permanecem meus temores.

Nickão.

Diogo disse...

Meus caros,

A inteligência artificial e a automação vão a curto-médio prazo acabar com todo o trabalho humano. Não há volta a dar. Manter gente a trabalhar quando há máquinas a fazer a mesma coisa infinitamente melhor e mais depressa?

Temos de reconhecer que um determinado tipo de organização social já não faz sentido nenhum.


Quanto ao poder e o controlo: quando eu era miúdo, vivia num bairro cheio de miúdos da minha idade. Depois das aulas, que eram de manhã, era uma brincadeira pegada – andar de bicicleta, ir para a piscina, jogar a isto ou aquilo, etc.

Nenhum dos miúdos estava dependente financeiramente dos outros. Estavam todos financeiramente dependentes dos pais. E todos tinham bicicletas, etc.

Quero eu dizer, que se algum miúdo tinha poder e controlo sobre alguns outros, era por uma questão de personalidade e nunca por uma questão financeira. E como eram muitos miúdos, se algum não se sentisse confortável num grupo, saltava para outro.

Luana Rodrigues disse...

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