terça-feira, agosto 26, 2008

Quatro pessoas já foram assassinadas na linha do Tua em ano e meio - Quid Bono? Quem beneficia?

Raquel Ramalho Lopes, RTP - 2008-08-24

Isto não é um acidente ferroviário”, declarou o maquinista Fernando Pires à RTP.

O maquinista cita técnicos que referem que um acidente ferroviário deveria implicar falhas na via, no material circulante ou existência de obstáculos. “Não tinha nada disso. A via estava boa, o material óptimo e não tinha obstáculo nenhum. Só pode ser uma coisa muito estranha”, comenta.

Fernando Pires sustenta que os acidentes começaram desde que teve início o debate para a construção da barragem do Foz Tua. No período de ano e meio ocorreram quatro acidentes. “Eu estive em dois. Os mais recentes”. Nestes acidentes faleceram quatro pessoas.

O desastre de sexta-feira, a um quilómetro da Estação da Brunheda, concelho de Carrazeda de Ansiães, provocou um morto e 43 feridos, um dos quais em estado grave. Viajavam 47 pessoas na composição.

O acidente mais grave ocorreu a 12 de Fevereiro de 2007, em que três pessoas perderam a vida.


Conclusões de inquéritos estão por divulgar

O maquinista acredita que a Linha do Tua é segura e que o material se encontra em boas condições. Fernando Pires está curioso por saber as conclusões do inquérito em curso pela CP, REFER, Metro de Mirandela e Instituto da Mobilidade e Transportes Terrestres.

Uma curiosidade partilhada com o presidente da Câmara Municipal de Mirandela. José Silvano, que também preside à Metro de Mirandela, lamenta que só tenham sido divulgadas as conclusões do inquérito ao primeiro acidente, em Fevereiro do ano passado. O documento apontava causas naturais, como o desabamento de terras e pedras, para o acidente.

Para o autarca “ao não haver divulgação dos resultados dos inquéritos, está-se a alimentar a teoria da conspiração em que muitos transmontanos já acreditam, de alguém querer fechar a Linha do Tua”.

O Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV) também manifestou “tristeza e estranheza” pela “sucessão de acidentes na Linha do Tua, ora por uma razão ora por outra”. “O PEV vai esperar pelo resultado do inquérito que com toda a certeza se realizará com a maior celeridade” e renovou a sua oposição à construção da barragem do Foz Tua.

Os resultados preliminares do inquérito ao último acidente devem chegar ao conhecimento do ministro dos Transportes, Mário Lino, na próxima terça-feira.


Jovens retiraram parafusos com as mãos

Com as nossas próprias mãos conseguimos desapertar os parafusos. Como é possível? Alguns estavam completamente soltos”, disse uma jovem, que integra o grupo de 40 pessoas, entre os 15 e os 17 anos, que entregaram na Estação do Tua parafusos recolhidos junto ao local do acidente da passada sexta-feira.


Governo garante que Linha do Tua tem vistorias frequentes

A REFER analisa o estado de conservação da via ferroviária de 15 em 15 dias, garantiu a secretária de Estado dos Transportes, sexta-feira, aquando de uma deslocação ao local do acidente.

A CP tinha vistoriado na semana passada a composição que esteve envolvida no acidente e concluiu este não poderia ter origem em problemas mecânicos da composição.


Barragem envolta em polémica

O PEV e os autarcas da região do Tua têm-se manifestado contra a construção da barragem da Foz do Tua. Os autarcas de Mirandela, Carrazeda de Ansiães, Vila Flor, Alijó e Murça quiseram criar um programa de desenvolvimento do Vale do Tua, antes de negociarem as compensações com a EDP (empresa que irá construir a barragem).

O início dos trabalhos de construção desta barragem está previsto para o início do próximo ano. A barragem deverá ser construída na junção do Tua com o Douro, local onde se cruzam as linhas ferroviárias do Tua e do Douro. As obras implicam colocar debaixo de água parte da Linha do Tua, com 120 anos.

O PEV pediu a intervenção da UNESCO, com a argumentação que a construção da barragem vai afectar o Alto Douro Património Mundial. “Os Verdes” alegam ainda que a barragem vai submergir “uma das mais belas linhas ferroviárias do mundo”.

A Quercus também saiu em defesa da continuidade do rio e da via férrea, alertando para a fauna, flora, geologia, paisagem e património que poderá impulsionar o desenvolvimento económico e turístico da região.

“Os Verdes acusaram mesmo o Governo de fugir ao debate sobre o Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctico, após o PS ter inviabilizado a comparência do ministro do Ambiente no Parlamento.

O Programa Nacional de Barragens, aprovado a 7 de Dezembro do ano passado, prevê a construção de 10 barragens: Foz do Rio Tua, Pinhosão (Rio Vouga), Padroselos, Vidago, Daivões, Fridão e Gouvães (Rio Tâmega), Girabolhos (Rio Mondego), Alvito (Rio Ocreza) Almourol (Rio Tejo).

O plano define o investimento de 1.140 milhões de euros e estima o aumento da capacidade hídrica em 1.100 megawatts.


Diário de Notícias:

O presidente da Metro de Mirandela, José Silvano, diz desconhecer as conclusões dos relatórios dos dois anteriores acidentes.

Ao DN, José Silvano afiança que a empresa não recebeu os referidos relatórios. "Nunca tivemos conhecimento deles", adianta. Já em relação ao do primeiro acidente, elaborado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil, lembra que "apontava como causa do acidente o deslizamento de pedras". Face a tudo isto, José Silvano assegura que, por si, não vai "permitir a circulação na linha enquanto não forem conhecidas publicamente as causas deste acidente".

O porta-voz da Refer, Santos Lopes, não comenta estas afirmações e diz que "os relatórios são enviados às entidades envolvidas". Quanto ao pedido para que a empresa divulgue as causas deste acidente, lembra que a esta "não toma a iniciativa de divulgar os relatórios".

O Partido Os Verdes defende que o Governo "deve explicações claras e convincentes sobre os acidentes ocorridos na Linha do Tua, no espaço de um ano e meio" e lamenta que "quatro meses depois da ocorrência do segundo [acidente] e dois meses depois do terceiro acidente, as causas dos mesmos ainda não são publicamente conhecidas". Os Verdes estranham ainda o facto dos acidentes terem ocorrido "numa zona da linha que ficará sempre submersa em qualquer das cotas propostas para esta Barragem". José Silvano não acredita em sabotagem mas teme que este acidente venha contribuir para "um encerramento definitivo da Linha do Tua".


Comentário:

Diz o Procurador-Geral da República (PGR) que vai pedir um reforço à investigação da criminalidade violenta. Ele que dê a máxima prioridade a estes "acidentes". Assassinam-se pessoas para construir barragens. Os suspeitos estão bem à vista.
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11 comentários:

Rolando disse...

Senhor Ministro Mário Lino! já lá vão quase 4,quatro anos de actividade de V.Excelência como Ministro de Transportes e Comunicações do actual Governo, mas garanto a V.Exª, qualquer companhia de Teatro privada ou estatal gostaria de ter um actor a tempo inteiro com a capacidade de V.Excelência.

Zorze disse...

Saúdo o regresso do amigo Diogo.
E logo da forma mais directa e certeira. Concordo por inteiro.

Abraço,
Zorze

tózé carril disse...

F*da-se! Tá-se mesmo a ver que foram os judeus. Esses filhos da p*ta estão em todas!

Apache disse...

Como se viu quando inventaram o esgotamento da Portela, estes tipos, inventam a doença para depois proporem a cura, mas daí até assassinarem pessoas (ao bom estilo da administração americana), julguei que ia um grande passo, provavelmente engano-me.
Acho que as barragens são (actualmente) a melhor forma de reduzirmos a nossa dependência energética, mas discordo do encerramento da Linha do Tua. Deve ser possível desviar a linha ou elevá-la. É claro que isso custa dinheiro, mas se não o esbanjarem em investimentos bacocos, como por exemplo a Central Fotovoltaica da Amareleja, já podem gastar um pouco na protecção do património paisagístico.
Apesar de o investimento em hidroeléctricas ser muito menor e como muito maior produção de energia que nas eólicas ou fotovoltaicas, não percebo o porquê de 10 barragens de tamanho médio, em vez de 3 ou 4 grandes, com menor investimento.

alf disse...

o argumento de que a linha não teve acidentes em 120 anos e tem agora é porreiro. Uma verdadeira inversão de causa... quer dizer, se eu chegar aos 60 anos sem morrer, poderei esperar viver mais cem anos... se não tive «acidentes» até aos 60, porque haveria de ter depois?

Diogo disse...

Caro Apache, excelentes sugestões que faz. O lóbi da construção já se tornou assassino tal como na América o lóbi militar petrolífero.


Caro Alf, continuamos ceguetas como de costume?

Anónimo disse...

Um dia destes o ferroviário (Fernado Pires) ainda vai aparecer "suicidado" com dois ou tres tiros nas costas.

contradicoes disse...

Pior cego é aquele que não quer ver. E infelizmente no nosso país esse tipo de cegueira persiste em continuar e até mesmo aumentar. Lamentável é que alguém se sirva para atingir os seus fins de provocar vítimas mortais cujo objectivo não é outro que não seja o de aquela via férrea ser encerrada para que o projecto hidro-eléctrico
seja consumado.

Range-o-Dente disse...

Por acaso, essa do Tua, também me anda atravessada.

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RV disse...

A CP sempre teve uma estratégia de fechar a maior parte das linhas. Conheço bem o caso da linha do oeste. Horários sempre desadequados; ligações que se perdem por alguns minutos, sendo suposto assim ser (de acordo com os horários planeados); ausência de comboios directos. Enfim, estratégia óbvia para perder passageiros, só pode. Talvez para depois justificar o fecho. O certo que é ao mesmo tempo que a linha do oeste decaia, ganhava vida a Avic, empresa de transporte rodoviário da Figueira da Foz. Coincidências? Na altura, anos 80, falou-se muito que um dos gestores da Avic era quadro superior na CP. Já tentei confirmar esta informação mas agora, passados quase trinta anos, não vi resultado nas minhas superficiais pesquisas.

Raio disse...

Interessantíssimo este artigo, confesso que desconhecia a matéria aprofundada por esse prisma ... aquilo que relatas leva mesmo a que se equacione o porquê de tanto silêncio ...
Saudações Bloguisticas
Raio