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segunda-feira, junho 08, 2015

O Fim do Emprego - «Bem pensado – mas nunca substituirão o cavalo», disseram os cépticos quando viram os primeiros automóveis.


No principio do século XX só um louco imaginaria que no seu tempo de vida poderia ser trivial viajar a 10 km de altitude a 1000 km/h, que seria banal uma transplantação do coração, fígado, pulmões, etc., que com um telemóvel poderia falar em tempo real com outra pessoa no outro lado do mundo (vendo a sua imagem no ecrã), ou que poderia ter quase todo o conhecimento do mundo na ponta dos dedos (num computador ligado à Internet).

Uma resposta aos que se agarram desesperadamente a um paradigma que surgiu com a revolução industrial – O Emprego – quando se percebe que este está a agora desaparecer em todo o lado a uma velocidade vertiginosa. Tudo devido à evolução tecnológica exponencial a todos os níveis.

O fim do emprego trará também o fim do capitalismo e, a cereja em cima do bolo, o fim do parasitismo financeiro.


The Benz Patent Motor Car Velocipede Of 1894


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* Nos primeiros tempos da aviação, o astrónomo americano William Pickering, que predisse a existência de Plutão, preveniu o público de que: «A mente popular imagina frequentemente gigantescas máquinas voadoras atravessando o Atlântico a grandes velocidades e transportando numerosos passageiros como um moderno paquete… Parece-me seguro afirmar que tais ideias são totalmente visionárias, e mesmo que uma máquina conseguisse atravessar o Atlântico com um ou dois prisioneiros, os custos seriam proibitivos…» Três décadas mais tarde, em Julho de 1939, foi inaugurada a primeira linha aérea transatlântica com um hidroavião Boeing 314, o Yankee Clipper da Pan American, transportando 19 passageiros.





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* Em 1924, o engenheiro electrotécnico inglês Alan Archibald Swinton, um dos pioneiros do de raios catódicos, fez uma palestra na Radio Society da Grã-Bretanha sobre «Visão à Distância». Diria então: «Provavelmente não valerá a pena que alguém se dê ao trabalho de consegui-la.» Quatro anos mais tarde, a General Electric Company inaugurava, no estado de Nova Iorque, a primeira rede de televisão do Mundo.




* «História dos Grandes Inventos - Selecções do Reader’s Digest – 1983, pág 62».


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A automação e a inteligência artificial têm tido um desenvolvimento avassalador. A máquina, de forma crescente, possui mais dados, mais conhecimento e melhor capacidade de decisão. Cada vez é mais inteligente e mais autónoma. E cada vez menos precisa de ser dirigida pelo homem.

A tecnologia está cada vez mais próxima de produzir sozinha. O desenvolvimento tecnológico é exponencial em todos os campos que se considere. Donde, no binómio homem-máquina na produção, o homem tem cada vez menos peso. Em breve não terá praticamente nenhum e a máquina produzirá sozinha.

Nessa altura, a fábrica totalmente automatizada não poderá ser privada. Porque não existirão trabalhadores com salários, e sem salários não há poder de compra. Sem poder de compra não há vendas. Sem vendas não há lucros. Sem lucros não há empresas privadas. Qualquer empresa automatizada, seja o que for que produza, terá necessariamente de pertencer ao grupo, à comunidade, à sociedade.

O número crescente de desempregados a par do desenvolvimento exponencial do hardware e do software estão aí para prová-lo. Vamos acelerar a transição ou vamos permanecer agarrados a um passado de emprego condenado ao desastre social?

É a tecnologia que está a substituir o homem no trabalho. É por isso que o velho paradigma do emprego está moribundo. É necessário criar rapidamente, com o auxílio da tecnologia, um mundo mais justo, mais redistributivo e mais humano.




Comentário

O processo paradigmático acima descrito não tem necessariamente de ficar à espera de uma revolução tecnológica completa que o conclua. Muito sofrimento humano pode ser evitado com revoltas, ora pacíficas, ora violentas, consoante os casos, contra a vermina financeira (e respetivos serviçais – na política, na justiça e nos media) que carcome, devora e parasita a humanidade.
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quarta-feira, julho 11, 2012

Carl Bass, CEO [Director-Executivo] da Autodesk - Progressos impressionantes na tecnologia vão provocar o fim do trabalho não especializado.






Como parte da série online na Internet – Wich Way Next [O que o futuro nos reserva], Vivek Wadhwa, vice-presidente da Academics and Innovation na Universidade de Singularity, sentou-se à mesa com Carl Bass, CEO [Director-Executivo] da Autodesk, para falar das tecnologias mais significativas que estão a chegar e que prometem redefinir os empregos disponíveis para os humanos no século XXI.

Durante o debate, Bass salientou que estamos neste momento num importante ponto de inflexão no trabalho automatizado. Progressos extraordinários nas áreas da inteligência artificial, na robótica e na produção digital estão todos a convergir dando lugar a um mundo recheado de tecnologias vindas directamente do mundo da ficção científica.

Até hoje, o prejuízo causado à indústria da manufatura norte-americana causada pelo outsourcing [transferência da produção para outros países de mão-de-obra mais barata], era principalmente uma questão de custo. Aquilo que o mundo desenvolvido pode considerar condições de trabalho forçado é considerado desejável e competitivo em países mais atrasados. Na China, por exemplo, trabalho que consiste em tarefas extremamente repetitivas, durante 12 horas por dia, 6 ou 7 dias por semana, dá um ordenado mensal de apenas 200 dólares. Agora, o grande problema é que até estes empregos estão a desaparecer, não por causa do outsourcing mas pela total automação da máquina.

Segundo Carl Bass, a noção de que se pode facilmente desfrutar um tipo de vida de classe média com uma educação superior e uma forte ética de trabalho, já não é verdadeira no mercado de trabalho actual, e pode nunca mais o voltar a ser. A natureza do trabalho disponível aos humanos está a evoluir substancialmente de um dia para o outro.

A robótica como tecnologia está longe de ser uma novidade, mas está preparada para substituir centenas de milhões de empregados em todo o mundo. A Canon anunciou recentemente planos para acabar completamente com o trabalho humano em muitas das suas fábricas em poucos anos, enquanto a Amazon acabou de dar 775 milhões de dólares para adquirir a companhia de robots Kiva, com planos para automatizar completamente a sua actividade de armazém. A próxima máquina fotográfica que você comprar pode ter sido completamente fabricada por máquinas e entregue à sua porta por um robot de distribuição.

O crescimento extremamente rápido na robótica deve-se em grande parte à Inteligência Artificial, e as próximas gerações de Inteligência Artificial vão engolir rapidamente muitos outros empregos. O software de reconhecimento da fala Siri, da Apple, ainda no berço, pode atingir a maioridade muito mais depressa do que muitos pensam. Algoritmos já substituíram muito do trabalho de comercialização de activos financeiros em Wall Street e outros algoritmos estão a ser desenvolvidos para fazer tudo, desde trabalhos académicos até ao diagnóstico de doenças. Muita gente assistiu à performance de «Watson», o super-computador projectado pela IBM, que bateu os dois melhores participantes de sempre no jogo Jeopardy em 2011.

Watson terá em breve uma formação superior em medicina, e poderá estar a fazer o diagnóstico a doentes dentro de um ano ou menos. Os algoritmos são hoje capazes de fazer as tarefas humanas mais subtis, como criar música. Investigadores da Universidade de Bristol desenvolveram uma fórmula matemática que pode predizer o sucesso comercial de canções populares, enquanto uma firma de engenharia alemã construiu um instrumento de cordas que utiliza a Inteligência Artificial para compor música.

Carl Bass explicou como os americanos evoluíram de velhos paradigmas no passado, evoluindo de uma enorme mão-de-obra agrária para uma urbana. Esforçamo-nos para prever os empregos de amanhã, mas a questão para a qual ninguém parece ter uma resposta é o que é que vai acontecer ao trabalho não especializado, e aos milhares de milhões de empregos que não vão regressar.


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Comentário

Carl Bass, CEO [Director-Executivo] da Autodesk (do célebre Autocad), expõe nesta entrevista a forma como a tecnologia está a eliminar o trabalho não especializado e aponta muitas das potencialidades da Inteligência Artificial, num futuro próximo, no trabalho especializado.

Bass afirma que o emprego está a evoluir muito depressa. Mas em direcção a quê, se, como ele próprio diz, as máquinas poderão fazer todo o tipo de trabalho do mais básico ao mais especializado? Que emprego sobra então? Nenhum!

Isto, enquanto os gurus da economia e da gestão de todos os países apontam as novas oportunidades de «empregos» que nunca existirão. E milhares de milhões de desempregados continuarão, inutilmente, em busca de um antigo paradigma que está a desaparecer.

É cada vez mais inútil reclamar empregos e o combate à precariedade. É cada vez mais imperativo exigir que o fruto do trabalho produzido pelas máquinas seja distribuído por todos. Este inclui o trabalho de toda a tecnologia (hardware e software) envolvida na produção de bens e serviços: ceifeiras-debulhadoras, computadores, aviões, programas de contabilidade, câmaras de vídeo, micro-ondas, etc. etc. etc.



quarta-feira, junho 27, 2012

Poderão os computadores alguma vez possuir inteligência própria? E significará isso o fim dos empregos?




Poderão os computadores alguma vez possuir inteligência própria?

Esta é uma questão que se tornou mais um facto científico do que ficção científica nos anos mais recentes, e, segundo resultados de uma experiência da Google recentemente anunciados, a resposta pode ser positiva.

Andrew Ng , director do Laboratório de Inteligência Artificial de Stanford, trabalhou em conjunto com os engenheiros do Google X-Lab com o objectivo de criar uma das maiores redes neuronais artificiais do mundo.

A rede era composta por 16.000 processadores de computadores com mais de mil milhões [a billion] de conexões – um "Google Brain," como lhe chamou o New York Times.


O cérebro humano possui entre 10.000.000.000 e 100.000.000.000 (dez mil milhões a cem mil milhões) de neurónios. Estes cooperam e interagem entre si. Estima-se que existem entre 100.000.000.000.000 e 1.000.000.000.000.000 (cem biliões a mil biliões) de conexões entre os neurónios.



A Lei de Moore - A "profecia" feita em 1965 por Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, de que a partir dessa data a potência dos processadores duplicaria a cada 18 meses mantendo-se o custo constante, sobreviveu durante mais de quatro décadas e é válida ainda hoje. A IBM apresentou em 2010 o que era na altura o processador mais rápido do mundo com 1 400 000 000 (1,4 mil milhões) de transístores. Hoje, o GPU da AMD incorpora uns impressionantes 4,3 mil milhões de transístores.

Apesar do ciclo evolutivo dos transístores estar próximo do fim, eles ainda devem continuar a evoluir até aos limites das técnicas de 0.02 mícron, onde cada gate terá o equivalente a apenas um átomo de ouro de largura. Esgotadas as possibilidades dos transístores, restam ainda os chips ópticos, os nanotubos, os processadores quânticos e o que mais poderá surgir pela frente.



Utilizando as mais avançadas técnicas de aprendizagem automática, este cérebro artificial foi capaz de aprender por si próprio o aspecto de um gato, utilizando 10 milhões de imagens extraídas de vídeos do YouTube. Os investigadores ficaram surpreendidos com o resultado da simulação.

"Nunca lhe dissemos durante o treino, 'Isto é um gato,'" afirmou o engenheiro da Google, Jeff Dean, no artigo do New York Times. "A rede basicamente inventou o conceito de um gato. Teremos obtido provavelmente outros conceitos que serão perfis de gatos."

Pelo facto dos vídeos terem sido seleccionados de forma completamente aleatória, os investigadores aperceberam-se que os resultados da simulação demonstraram um dos principais interesses dos humanos na era da Internet.

Cientistas do X Laboratory da Google, o mesmo laboratório reconhecido por experiências inovadoras como os automóveis sem condutor, têm andado a fazer experiências no campo da inteligência artificial e redes neuronais há anos, afirmou Andrew Ng.

"Esta pesquisa representa uma nova geração de ciência computacional que explora os custos cada vez menores da computação e a disponibilidade de enormes conjuntos de computadores interligados em centros de dados gigantescos," escreve John Markoff. "Está a conduzir a avanços significativos em áreas tão diversas como a visão e a percepção pela máquina, o reconhecimento da fala e a tradução linguística."

Esta simulação de reconhecimento de gatos teve uma qualidade muito superior a outras tentativas anteriores, praticamente duplicando a precisão no reconhecimento de objectos difíceis.

Hoje, gatos na Internet – amanhã, quem sabe?



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Em suma

É evidente que por muita capacidade e inteligência que o nosso computador biológico possua, a sua evolução está praticamente estagnada ao passo que a evolução da capacidade e inteligência dos computadores «mecânicos» é exponencial.

Comparando hoje o número de neurónios existente num cérebro humano com o número de transístores de um único processador, vemos que o cérebro tem ainda vinte vezes mais. Mas durante quanto tempo? Décadas? Meia-dúzia de anos? E depois disso?

Em suma, dentro de muito pouco tempo a máquina terá muito mais inteligência e capacidade do que o homem. A produção económica estará toda entregue às máquinas e será o fim do emprego.

Acontece que sem empregos, não haverá salários. Sem salários, não haverá poder de compra. Sem poder de compra, não há vendas. Sem vendas, não há lucro. Sem lucro, não haverá propriedade privada dos meios de produção.


segunda-feira, abril 09, 2012

«Bem pensado – mas nunca substituirão o cavalo», disseram os cépticos quando viram os primeiros automóveis.

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Uma resposta aos que se agarram desesperadamente a um paradigma que surgiu com a revolução industrial – O Emprego – quando se percebe que este está a agora desaparecer em todo o lado a uma velocidade vertiginosa. Tudo devido à evolução tecnológica exponencial a todos os níveis.

O fim do emprego trará também o fim do capitalismo e, a cereja em cima do bolo, o fim do parasitismo financeiro.


The Benz Patent Motor Car Velocipede Of 1894


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* Nos primeiros tempos da aviação, o astrónomo americano William Pickering, que predisse a existência de Plutão, preveniu o público de que: «A mente popular imagina frequentemente gigantescas máquinas voadoras atravessando o Atlântico a grandes velocidades e transportando numerosos passageiros como um moderno paquete… Parece-me seguro afirmar que tais ideias são totalmente visionárias, e mesmo que uma máquina conseguisse atravessar o Atlântico com um ou dois prisioneiros, os custos seriam proibitivos…» Três décadas mais tarde, em Julho de 1939, foi inaugurada a primeira linha aérea transatlântica com um hidroavião Boeing 314, o Yankee Clipper da Pan American, transportando 19 passageiros.




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* Em 1924, o engenheiro electrotécnico inglês Alan Archibald Swinton, um dos pioneiros do de raios catódicos, fez uma palestra na Radio Society da Grã-Bretanha sobre «Visão à Distância». Diria então: «Provavelmente não valerá a pena que alguém se dê ao trabalho de consegui-la.» Quatro anos mais tarde, a General Electric Company inaugurava, no estado de Nova Iorque, a primeira rede de televisão do Mundo.




* «História dos Grandes Inventos - Selecções do Reader’s Digest – 1983, pág 62».


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A automação e a inteligência artificial têm tido um desenvolvimento avassalador. A máquina, de forma crescente, possui mais dados, mais conhecimento e melhor capacidade de decisão. Cada vez é mais inteligente e mais autónoma. E cada vez menos precisa de ser dirigida pelo homem.

A tecnologia está cada vez mais próxima de produzir sozinha. O desenvolvimento tecnológico é exponencial em todos os campos que se considere. Donde, no binómio homem-máquina na produção, o homem tem cada vez menos peso. Em breve não terá praticamente nenhum e a máquina produzirá sozinha.

Nessa altura, a fábrica totalmente automatizada não poderá ser privada. Porque não existirão trabalhadores com salários, e sem salários não há poder de compra. Sem poder de compra não há vendas. Sem vendas não há lucros. Sem lucros não há empresas privadas. Qualquer empresa automatizada, seja o que for que produza, terá necessariamente de pertencer ao grupo, à comunidade, à sociedade.

O número crescente de desempregados a par do desenvolvimento exponencial do hardware e do software estão aí para prová-lo. Vamos acelerar a transição ou vamos permanecer agarrados a um passado de emprego condenado ao desastre social?

É a tecnologia que está a substituir o homem no trabalho. É por isso que o velho paradigma do emprego está moribundo. É necessário criar rapidamente, com o auxílio da tecnologia, um mundo mais justo, mais redistributivo e mais humano.




Comentário

O processo paradigmático acima descrito não tem necessariamente de ficar à espera de uma revolução tecnológica completa que o conclua. Muito sofrimento humano pode ser evitado com revoltas, ora pacíficas, ora violentas, consoante os casos, contra a vermina financeira (e respetivos serviçais – na política, na justiça e nos media) que carcome, devora e parasita a humanidade.
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quinta-feira, março 31, 2011

O paradoxo da produtividade, ou melhor, o fim do dinheiro e do emprego na economia

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A informática e a robotização tendem a reduzir a zero os custos de produção e possuem a capacidade de diminuir drasticamente a necessidade de trabalho.

É por esse motivo que o produto interno bruto (PIB), que representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos, caracteriza cada vez menos a economia real.






Retirado DAQUI

Tradução minha:


Porque é que a Internet não ajudou a economia americana a crescer tanto como os economistas esperavam?

Se esteve presente nalgum cocktail de economistas no mês passado, então ouviu provavelmente falar do e-book de Tyler Cowen, The Great Stagnation [A Grande Estagnação]. O livro procura explicar porque é que os salários médios cresceram tão pouco desde os anos 1970 e começaram a declinar na última década. Cowen aponta para um problema novo: até aos anos 1970, o país [EUA] estava ainda cheio de mercados acessíveis para alimentar o crescimento do Produto Interno Bruto. Nos 40 anos anteriores a 1970, inovações impressionantes na mudança e melhoria da qualidade de vida – como tinham sido a penicilina, os jardins-de-infância para todos, casas de banho, aviões, automóveis – tornaram-se, em 1970, mais difíceis de atingir, fazendo baixar as taxas de crescimento do mundo industrializado.



"Mas esperem"! Dirão muitos. Nos anos 1970, a indústria Americana começou a produzir tecnologias sensacionais para a mudança e melhoria da qualidade de vida. Tivemos calculadoras com gráficos, sistemas de processamento de dados, finanças modernas, GPS, chips de silício, ATMs, telefones celulares e uma data de outras inovações. Não terá a Internet, o mais revolucionário avanço tecnológico nas comunicações desde que Gutenberg inventou a imprensa, feito nada para o crescimento do Produto Interno Bruto? A resposta, os economistas concordam de um modo geral, foi: é pena, mas não – pelo menos, não tanto como seria de esperar.

Há um quarto de século atrás, com as novas tecnologias a saturarem os lares americanos e os negócios, os economistas olharam à sua volta esperando encontrar em algum lado crescimento induzido pela informática. Mas sinais de um aumento de produtividade ou de um reforço do crescimento eram pequenos e raros. Evidentemente, os computadores e a Web transformaram milhares de negócios e centenas de indústrias. Mas, no conjunto, as coisas pareciam estar na mesma. A taxa de crescimento do Produto Interno Bruto não aumentou significativamente, nem a produtividade. Como afirmou o economista Rober Solow em 1987: "É possível observar a influência do computador em tudo menos nas estatísticas da produtividade."


Surgiu todo um conjunto de teorias sobrepostas para explicar o fenómeno, muitas vezes designado o "paradoxo da produtividade." Talvez as novas tecnologias beneficiassem umas empresas e indústrias e prejudicassem outras, não permitindo um ganho líquido. Talvez os sistemas informáticos ainda não fossem suficientemente fáceis de usar de forma a reduzir o esforço dos trabalhadores para executarem uma determinada tarefa. Os economistas também colocaram a hipótese de que talvez fosse ainda necessário algum tempo – talvez bastante tempo – para que os ganhos se tornassem uma realidade. No passado, as tecnologias de informação tendiam a precisar de um período de incubação antes de produzirem ganhos no crescimento económico. Tome-se o caso da imprensa de Gutenberg: embora a tecnologia tenha transformado radicalmente a forma como as pessoas guardavam e transmitiam notícias e informação, os economistas não encontraram provas de que a imprensa tenha acelerado o rendimento per capita ou o crescimento do Produto Interno Bruto nos séculos XV e XVI.

Houve um momento em que alguns economistas pensaram que a idade do ouro induzida pela Internet tinha finalmente chegado nos finais dos anos 1990. Entre 1995 e 1999, as taxas de crescimento da produtividade excederam de facto as do boom do período 1913 – 1972, significando talvez que a Web e a computação tinham trazido finalmente a "Nova Economia". Mas esse período de veloz crescimento desvaneceu-se rapidamente. E alguns estudos descobriram que os ganhos desses anos não foram tão impressionantes e tão alargados como se pensara inicialmente. Robert Gordon, um professor de economia de Chicago, por exemplo, chegou à conclusão de que os computadores e a Internet ajudaram geralmente a aumentar a produtividade na produção de bens duráveis – ou seja, na produção de coisas como computadores e semicondutores. "O nosso tema central é que os computadores e a Internet não chegam ao nível das Grandes Invenções do fim do século XIX e princípios do século XX, e que, por isso, não merecem a classificação de Revolução Industrial," escreveu Gordon.

O trabalho de Gordon conduziu a outra teoria, esta defendida pelo próprio Cowen. Talvez a Internet não seja tão revolucionária como pensamos. Evidentemente, as pessoas podem tirar muito prazer dela – a sua tendência para melhorar a qualidade de vida das pessoas é inegável. E claro, pode ter revolucionado a forma como encontramos, compramos e vendemos produtos e serviços. Mas mesmo assim, tal não significa necessariamente que seja uma transformação da economia como foram, por exemplo, os caminhos-de-ferro.



Isto acontece em parte porque a Internet e os computadores tendem a reduzir os custos a zero, e têm a capacidade de reduzir a necessidade de trabalho. Você está, evidentemente, a ler este artigo de graça num site da Web sustentado financeiramente não por subscrições, mas por publicidade. Você lê provavelmente muitos artigos online, e presumivelmente não paga nada por isso. Por causa do declínio das subscrições, maior competição por dinheiro de publicidade e outras dinâmicas induzidas pela Web, os lucros e o emprego no jornalismo têm diminuído na última década. (O facto de Cowen escrever num blogue de acesso livre e publicar as suas ideias num e-book de 4 dólares em vez de num lustroso livro de capa dura de 25 dólares não pode deixar de ser salientado aqui.) Mais ainda, a Web e o sector tecnológico dependente dos computadores não emprega muita gente. Tal como não aumenta o número de trabalhadores: O Gabinete de Estatísticas do Trabalho calcula que o emprego nas tecnologias de informação será menor em 2018 do que era em 1998

Pode ser difícil acreditar que a Internet não tenha produzido um boom económico, Cowen admite. "Temos uma memória colectiva histórica de que o progresso tecnológico traz consigo uma grande e previsível fonte de receitas de um crescimento que abarca a maior parte da economia," escreve. "No que toca à Web, estas suposições mostram-se erradas ou enganadoras. Os sectores de maior rendimento da nossa economia têm vindo a diminuir e os maiores ganhos tecnológicos têm vindo de sectores de pouca rentabilidade."



Mas o rendimento não é sempre o objectivo final – mesmo em economia. Isto conduz-nos à explicação final: Talvez não seja o crescimento que é deficiente. Talvez aconteça que o parâmetro que usamos para o medir que não seja o adequado. O professor do MIT Erik Brynjolfsson explica o conceito utilizando o exemplo da indústria musical: "Pelo facto de tanto eu como você termos deixado de comprar CDs, a indústria musical contraiu-se, segundo os rendimentos e o Produto Interno Bruto. Mas nós não estamos a ouvir menos música. Nunca houve tanto consumo de música como hoje." O aumento da escolha, da variedade e da disponibilidade de música deve ter algum valor para nós – mesmo que seja difícil quantificá-lo. "No papel, e pela forma como o Produto Interno Bruto é calculado, a indústria musical está a desaparecer, mas na realidade não está. Estão a desaparecer as receitas da música mas não aquilo que mais nos interessa – que é a música."

À medida que as nossas vidas são cada vez mais vividas online, Brynjolfsson pergunta-se se isto se pode vir a transformar num grande problema: "Se todos nos concentrarmos a medir apenas a parte da economia que produz dólares, estaremos a deixar cada vez mais de fora aquilo que as pessoas apreciam e consomem. A discrepância será cada vez maior."

Mas arranjar uma medida alternativa do que produzimos ou consumimos baseado no valor que as pessoas obtêm do Wikipedia ou do Pandora (arquivo nacional australiano) mostra-se um desafio extraordinário – na verdade, nenhum economista jamais o fez. Brynjolfsson afirma que é possível, talvez, somando várias "mais-valias do consumidor," medidas em termos de quanto é que os consumidores estariam dispostos a pagar por um determinado bem ou serviço, versus o quanto eles pagam de facto (uma pessoa pode pagar $10 por um CD, mas porque é que o faria se este fosse grátis?). Isto pode dar uma ideia aproximada do valor em dinheiro daquilo que a Internet tende a fornecer de graça – e dar-nos um sentido alternativo do valor que as tecnologias têm para nós, senão mesmo, a sua capacidade de produzir crescimento e rendimento para nós.



Claro que, se as nossas tecnologias mais radicais e capazes de alterar a nossa vida não estão a aumentar os rendimentos ou a produtividade ou o crescimento, então ainda teremos problemas. Melhorias na qualidade de vida não põem o jantar na mesa nem pagam os benefícios da Segurança Social. Contudo, até mesmo Cowen não vê apenas nuvens negras no horizonte, com os rendimentos a estagnarem indefinidamente à medida que vamos produzindo cada vez mais online e perdendo cada vez mais emprego e dinheiro. Quem sabe que extraordinárias tecnologias podem estar ao virar da esquina?
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terça-feira, abril 20, 2010

A evolução tecnológica está a roubar os nossos empregos?



Texto de Martin Ford - Engenheiro informático de Silicon Valley e empresário.

[Tradução minha]


Desemprego devido à Robótica, à Inteligência Artificial e aos Computadores – Irão os Robots e as Máquinas roubar os nossos empregos? Poderá o trabalho da Automação Tecnológica Avançada causar Desemprego Estrutural?

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A situação do desemprego está a parecer cada vez mais aflitiva. Será possível que esteja a acontecer alguma coisa que ninguém quer reconhecer?

Não existem grandes dúvidas de que os computadores, as tecnologias robóticas e outras formas de trabalho automatizado têm vindo a tornar-se cada vez mais capazes e que à medida que esta tendência continua, mais trabalhadores têm a certeza de que serão substituídos pela máquina num futuro relativamente próximo. A maior parte dos economistas rejeitam qualquer preocupação de que isto possa conduzir a um desemprego estrutural a longo prazo. Correndo o risco de ser rotulado de "neo-Ludita," vou explorar este assunto em mais profundidade.


Wikipedia - [O Ludismo é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho trazida pela Revolução Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo Ludita (do inglês Luddite) identifica toda a pessoa que se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias. Os Luditas invadiram fábricas e destruíram máquinas, que, segundo eles, por aquelas serem mais eficientes que os homens, lhes tiravam os seus empregos. Os Luditas ficaram lembrados como "rebenta-máquinas".]


Julgo que existem fortes argumentos de que uma grande percentagem de empregos são, a um certo nível, essencialmente rotineiros e repetitivos por natureza. Por outras palavras, o trabalho pode ser dividido num conjunto discreto de tarefas que se tendem a repetir numa base regular. Parece provável que, à medida que o hardware e o software se continuarem a desenvolver, uma fracção cada vez maior deste tipo de trabalhos será, em última análise, susceptível de ser executado por máquinas ou software automatizado.


Garry Kasparov (à esquerda) versus o computador Deep Blue em 1997 - o Deep Blue venceu Garry Kasparov num confronto de seis partidas, com duas vitórias, três empates e uma derrota.


Não estou aqui a falar de tecnologia de ficção científica: trata-se de uma simples extrapolação dos sistemas especialistas e algoritmos específicos que podem actualmente fazer aterrar aviões comerciais, transaccionar autonomamente em Wall Street, ou vencer praticamente qualquer ser humano numa partida de xadrez. À medida que a tecnologia progride, penso que haverá poucas dúvidas de que estes sistemas vão começar a estar ao nível, ou a ultrapassar, a capacidade dos trabalhadores humanos em muitas categorias de trabalhos de rotina – e isto inclui muitos trabalhadores com graus académicos superiores ou outra formação significativa. Muitos trabalhadores serão também crescentemente ameaçados pela tendência contínua em direcção às tecnologias self-service [faça-você-mesmo] que transfere as tarefas para os consumidores.


O self-service no banco, na bomba de gasolina e no supermercado


Um dos exemplos históricos mais extremos da indução da perda de empregos devido à tecnologia foi, sem dúvida, a mecanização da agricultura. Por volta de 1800, cerca de três quartos dos trabalhadores nos Estados Unidos estavam empregados na agricultura. Hoje, esse valor ronda os 2 a 3 por cento. A evolução da tecnologia eliminou irreversivelmente milhões de empregos.


Em 200 anos a agricultura passou de 75% para 3% da população activa


Obviamente, quando a agricultura se mecanizou, não ficámos com desemprego estrutural a longo prazo. Os trabalhadores foram absorvidos por outras indústrias, e a média dos salários e a prosperidade global aumentou dramaticamente. A experiência histórica com a agricultura é, de facto, uma excelente ilustração da chamada "falácia Ludita." É a opinião – e penso que é geralmente aceite pelos economistas – de que o progresso tecnológico nunca conduzirá ao desemprego massivo a longo prazo.

Os motivos da falácia Ludita prendem-se normalmente com o seguinte: à medida que se aperfeiçoam as tecnologias que poupam trabalho, alguns trabalhadores perdem os seus trabalhos a curto prazo, mas, por outro lado, a produção também se torna mais eficiente. Isto conduz a preços mais baixos para os bens e serviços produzidos, o que, por seu turno, deixa os consumidores com mais dinheiro para gastar noutras coisas. Quando o fazem, a procura aumenta em quase todas as outras indústrias – e isso significa mais empregos. Isto parece ser exactamente o que aconteceu com a agricultura: o preço dos alimentos desceu à medida que eficiência produtiva aumentava, e então os consumidores puderam gastar o dinheiro extra noutras coisas, conduzindo ao aumento de emprego na manufactura e no sector dos serviços.

A questão que devemos colocar é se o mesmo cenário se vai continuar a repetir. O problema é que desta vez não estamos a falar da automação de apenas uma indústria: estas tecnologias vão penetrar em todos os processos produtivos. Quando se mecanizou a agricultura, existiam claramente outros sectores de trabalho intensivo capazes de absorver os trabalhadores. Mas há poucas evidências que seja esse o caso hoje em dia.


A Automação Industrial tornará o desemprego estrutural inevitável


Parece-me que, à medida que automação vai penetrando em todo o lado, chegará um ponto de viragem, a partir do qual a economia no seu conjunto não será suficientemente intensiva para continuar a absorver os trabalhadores que perdem os seus trabalhos devido à automação. A partir desse ponto, os empresários serão capazes de aumentar a sua produção sobretudo pelo emprego de máquinas e software – e então o desemprego estrutural tornar-se-á inevitável.

Se chegarmos a esse ponto, então penso que também teremos um sério problema com a procura dos consumidores. Se a automação é inexorável, então o mecanismo básico que coloca o poder de compra nas mãos dos consumidores começa a desintegrar-se. A título de experiência, vamos imaginar uma economia completamente automatizada. Praticamente ninguém conseguiria arranjar um emprego (ou um rendimento); as máquinas fariam tudo. Portanto, donde viria o consumo? Se se estivesse a considerar uma economia de mercado (em vez de economia planificada), porque é que se continuaria a produzir se não existissem consumidores viáveis para comprar o resultado da produção? Muito antes de chegarmos a esse extremo de total automação, tornar-se-ia perfeitamente claro que os modelos do mercado de massas ficariam insustentáveis.

Uma das coisas que me preocupa mais neste cenário é a influência potencial da psicologia do consumidor. Se num determinado momento no futuro os consumidores se aperceberem que os empregos estão a ser implacavelmente automatizados, e se reconhecerem que mais educação ou treino serão inúteis, haverá muito provavelmente um impacto negativo significativo na atitude do consumidor e nas suas opções de despesas. Se qualquer dia entrarmos num círculo vicioso induzido pelo medo da automação, pode suceder um cenário muito negro. É difícil ver como é que as políticas tradicionais como o estímulo ao consumo ou cortes nos impostos poderiam ter algum efeito porque não se destinariam a resolver as preocupações de consumidores com a continuidade dos seus rendimentos a longo prazo

A maior parte dos economistas provavelmente objectará a estes argumentos como sendo especulativos e carentes de dados objectivos. Julgo que se olharmos para as questões como a estagnação ou o declínio dos salários médios dos trabalhadores, para a desigualdade crescente dos rendimentos, para a produtividade acrescida, e para o consumo baseado em dívida em vez de no rendimento, encontrar-se-ão seguramente provas que geralmente sugerem que nos estamos a aproximar do ponto de viragem, no qual o desemprego se irá tornar num problema. Contudo, parece improvável que uma análise econométrica dos dados passados possam oferecer um apoio claro a esta teoria – e se alguma vez o fizer, será já demasiado tarde.


O Desemprego virá a ser um problema do passado?


Questiono-me sobre a sabedoria da ênfase extrema na análise dos dados quantitativos que parecem caracterizar a economia. Devemos pilotar o barco focando exclusivamente os nossos binóculos no sentido da rota que temos vindo a trilhar? Pode muito bem existir um iceberg no caminho…


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Conclusão (minha)

A tecnologia está a destruir, a uma velocidade exponencial, os empregos. Sem assalariados não há poder de compra. Sem compras, não há vendas nem lucros. Sem lucros não há capitalismo. O paradigma económico tem de mudar rápida e drasticamente.
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terça-feira, janeiro 05, 2010

«Bem pensado – mas nunca substituirão o cavalo», disseram os cépticos quando viram os primeiros automóveis.

The Benz Patent Motor Car Velocipede Of 1894


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* Nos primeiros tempos da aviação, o astrónomo americano William Pickering, que predisse a existência de Plutão, preveniu o público de que: «A mente popular imagina frequentemente gigantescas máquinas voadoras atravessando o Atlântico a grandes velocidades e transportando numerosos passageiros como um moderno paquete… Parece-me seguro afirmar que tais ideias são totalmente visionárias, e mesmo que uma máquina conseguisse atravessar o Atlântico com um ou dois prisioneiros, os custos seriam proibitivos…» Três décadas mais tarde, em Julho de 1939, foi inaugurada a primeira linha aérea transatlântica com um hidroavião Boeing 314, o Yankee Clipper da Pan American, transportando 19 passageiros.




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* Em 1924, o engenheiro electrotécnico inglês Alan Archibald Swinton, um dos pioneiros do de raios catódicos, fez uma palestra na Radio Society da Grã-Bretanha sobre «Visão à Distância». Diria então: «Provavelmente não valerá a pena que alguém se dê ao trabalho de consegui-la.» Quatro anos mais tarde, a General Electric Company inaugurava, no estado de Nova Iorque, a primeira rede de televisão do Mundo.




* «História dos Grandes Inventos - Selecções do Reader’s Digest – 1983, pág 62».


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A automação e a inteligência artificial têm tido um desenvolvimento avassalador. A máquina, de forma crescente, possui mais dados, mais conhecimento e melhor capacidade de decisão. Cada vez é mais inteligente e mais autónoma. E cada vez menos precisa de ser dirigida pelo homem.

A tecnologia está cada vez mais próxima de produzir sozinha. O desenvolvimento tecnológico é exponencial em todos os campos que se considere. Donde, no binómio homem-máquina na produção, o homem tem cada vez menos peso. Em breve não terá praticamente nenhum e a máquina produzirá sozinha.

Nessa altura, a fábrica totalmente automatizada não poderá ser privada. Porque não existirão trabalhadores com salários, e sem salários não há poder de compra. Sem poder de compra não há vendas. Sem vendas não há lucros. Sem lucros não há empresas privadas. Qualquer empresa automatizada, seja o que for que produza, terá necessariamente de pertencer ao grupo, à comunidade, à sociedade.

O número crescente de desempregados a par do desenvolvimento exponencial do hardware e do software estão aí para prová-lo. Vamos acelerar a transição ou vamos permanecer agarrados a um passado de emprego condenado ao desastre social?

É a tecnologia que está a substituir o homem no trabalho. É por isso que o velho paradigma do emprego está moribundo. É necessário criar rapidamente, com o auxílio da tecnologia, um mundo mais justo, mais redistributivo e mais humano.



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quarta-feira, abril 09, 2008

O novo paradigma do «faça-você-mesmo» nas palavras de Ricardo Araújo Pereira



Ricardo Araújo Pereira in Boca do Inferno/Visão

IKEA: enlouqueça você mesmo

Os problemas dos clientes do IKEA começam no nome da loja. Diz-se «Iqueia» ou «I quê à»? E é «o» IKEA ou «a» IKEA»? São ambiguidades que me deixam indisposto. Não saber a pronúncia correcta do nome da loja em que me encontro inquieta-me. E desconhecer o género a que pertence gera em mim uma insegurança que me inferioriza perante os funcionários. Receio que eles percebam, pelo meu comportamento, que julgo estar no «I quê à», quando, para eles, é evidente que estou na «Iqueia».

As dificuldades, porém, não são apenas semânticas mas também conceptuais. Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis baratos, o que não é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de tábuas e molhos de parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar, depois de algum esforço hão-de transformar-se em móveis baratos. É uma espécie de Lego para adultos. Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis.

Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros. Há dias, comprei no IKEA um móvel chamado Besta. Achei que combinava bem com a minha personalidade. Todo o material de que eu precisava e que tinha de levar até à caixa de pagamento pesava seiscentos quilos. Percebi melhor o nome do móvel. É preciso vir ao IKEA com uma besta de carga para carregar a tralha toda até à registadora. Este é um dos meus conselhos aos clientes do IKEA: não vá para lá sem duas ou três mulas. Eu alombei com a meia tonelada. O que poupei nos móveis, gastei no ortopedista. Neste momento, tenho doze estantes e três hérnias.

É claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a floresta cortar as árvores, embora por vezes se sinta que não faltará muito para que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao comprar um móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de determinado bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos debaixo de olho que considera terem potencial para se transformarem numa mesa-de-cabeceira engraçada.

Por outro lado, há problemas de solução difícil. Os móveis que comprei chegaram a casa em duas vezes. A equipa que trouxe a primeira parte já não estava lá para montar a segunda, e a equipa que trouxe a segunda recusou-se a mexer no trabalho que tinha sido iniciado pela primeira. Resultado: o cliente pagou dois transportes e duas montagens eficou com um móvel incompleto. Se fosse um cliente qualquer, eu não me importaria. Mas como sou eu, aborrece-me um bocadinho. Numa loja que vende tudo às peças (que, por acaso, até encaixam bem umas nas outras) acaba por ser irónico que o serviço de transporte não encaixe bem no serviço de montagem. Idiossincrasias do comércio moderno.

Que fazer, então? Cada cliente terá o seu modo de reagir. O meu é este: para a próxima, pago com um cheque todo cortado aos bocadinhos e junto um rolo de fita gomada e um livro de instruções. Entrego metade dos confetti num dia e a outra metade no outro. E os suecos que montem tudo, se quiserem receber.


Comentário:

A produção das empresas está a ser crescentemente automatizada a montante e a «ser empurrada» para o cliente a jusante. Mais uma vez, uma empresa (neste caso o IKEA) automatizou procedimentos e transferiu determinadas tarefas para o cliente . De novo surge o paradigma do «faça-você-mesmo numa nova base tecnológica».

À medida que este processo se for consolidando - automatização + faça-você-mesmo, a fábrica terá cada vez menos razões para ser propriedade privada. Porque não existirão trabalhadores com salários. Porque sem salários não haverá poder de compra. Porque sem poder de compra não há vendas. Porque sem vendas não há lucros. Porque sem lucros não há empresas privadas. Quanto mais automatizada for uma empresa, seja o que for que produza, mais motivos haverá para que pertença ao grupo, à sociedade.

Este novo paradigma será do tipo «faça-você-mesmo numa nova base tecnológica». A cada indivíduo será atribuído um determinado crédito, que lhe permitirá servir-se da produção tecnológica dentro desses parâmetros.

Vamos permanecer agarrados a um passado de trabalho-emprego que cada vez existe menos? Vamos acelerar a mudança ou continuar a apostar no desastre que se agrava diariamente?

É a tecnologia que está a substituir o homem no trabalho. É por isso que o velho paradigma do trabalho-emprego está moribundo. Cabe-nos a nós, com o auxílio da tecnologia, criar um mundo mais justo, mais redistributivo e mais humano.
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quarta-feira, março 19, 2008

O fim do trabalho-emprego


Autor: André Langer.

Texto em português do Brasil

A sociedade salarial ou sociedade do trabalho está em crise. O emprego de tempo integral e para todos já não existe mais e o tempo em que o foi não voltará. No segundo capítulo definimos o conceito de emprego e de trabalho, delimitando dessa maneira, por um lado, sua abrangência e sua relevância e, por outro, enriquecendo o significado daquilo que denominamos trabalho. Isso nos permite, agora, avançar ainda outro aspecto: o trabalho-emprego pode, sim, acabar. Seu fim pode ser proclamado e mesmo reivindicado. Mas, notemos bem, o trabalho cujo fim está próximo é o trabalho-emprego. Ou ainda dito com outras palavras: "o trabalho cujo fim é evidenciado não é o trabalho no sentido antropológico, mas esta atividade nascida com o capitalismo industrial, ou antes imposta à força pelo desenvolvimento capitalista como parte destacável do corpo, mercadoria quantificável".

Uma realidade visível a olhos vistos se dilata em todos os lados: "Tornado precário, flexível, intermitente, com duração, horários e salários variáveis, o emprego deixa de integrar num coletivo, deixa de estruturar o tempo cotidiano, semanal, anual e as idades da vida, deixa de ser a base sobre a qual cada um pode construir seu projeto de vida".

Por conta dessa concepção estrita de trabalho podemos mesmo reivindicar a perda da centralidade do trabalho. Para André Gorz isso é algo necessário.

É necessário que o 'trabalho' perca sua centralidade na consciência, no pensamento, na imaginação de todos; é preciso aprender a ter sobre ele um olhar diferente; não mais pensá-lo como isso que se tem ou não se tem; mas como isso que nós fazemos. É preciso ousar querer nos reapropriar do trabalho.

Por conta do declínio em quantidade, mas também em qualidade do trabalho, a maioria das pessoas não pode identificar-se com seu trabalho porque a economia não requer trabalho pago suficiente para fornecer empregos estáveis em período integral para todos [...] Paralelamente à impossibilidade efetiva de identificar-se com um emprego, surge uma relutância crescente em identificar-se com um trabalho que não favoreça o desenvolvimento da personalidade e a autonomia.

A atração pelo trabalho-emprego repousa em grande parte na relação que guarda com a fonte de recursos necessários para a sobrevivência.

Mas, também subjetivamente parece que o trabalho está perdendo espaço na vida e na consciência das pessoas. Outras esferas da vida passam a ser mais importantes e valorosas, fazendo com que o trabalho seja descentrado. Nesse sentido, afirma Offe, o que é paradoxal é que, ao mesmo tempo em que uma parcela sempre crescente da população participa do trabalho assalariado dependente, há um declínio no grau em que o trabalho assalariado, digamos, 'participa' na vida dos indivíduos envolvendo-os e ajustando-os de diferentes maneiras.

A ética do trabalho, fundamental para o surgimento e a evolução da sociedade do trabalho, parece estar se encaminhando para a sua crise. E isso por vários motivos:

O trabalho exclui a atuação moral. O trabalho estaria se enfraquecendo como "dever ético", na medida em que já não permite mais que os homens possam atuar nele moralmente. O processo de racionalização do trabalho atualmente em curso parece excluir cada vez mais o chamado "fator humano" e as potencialidades de cada trabalhador.

A vida não está mais no trabalho. Boa parte dos trabalhadores já não pauta mais a sua vida pelo trabalho, pois a "vida" está em outro lugar, fora do trabalho, nas relações familiares, de proximidade. "A satisfação com atividades que não são de trabalho contribui mais do que qualquer outro fator para a satisfação na vida". Gorz faz referência a diversas pesquisas realizadas na Europa e que apontam para um crescente divórcio entre trabalho-emprego e vida. O emprego não dá conta dos desejos reais que as pessoas têm. A não identificação com o trabalho que têm agiliza a desafeição ao trabalho.

Precarização do trabalho e desemprego. Quanto mais precário o trabalho mais ele contribui para que não mais seja visto como fator de realização ou de desenvolvimento das potencialidades. Pelo contrário, as condições precárias do trabalho impedem uma identificação com ele. O desemprego de longa duração ou freqüentemente intermitente não é capaz de manter uma afeição pelo trabalho. Offe cita um estudo no qual se faz basicamente a seguinte afirmação: quanto mais tempo as pessoas passam fora do emprego, mais percebem que o trabalho não é mais um foco suficiente para organizar a vida.

Estas evidências nos levam à afirmação de que "o trabalho não é apenas objetivamente amorfo, mas também está se tornando subjetivamente periférico".

Não bastasse isso, o capitalismo acaba por colocar em crise não apenas o trabalho, mas também diversas noções relacionadas a ele e seu gerenciamento. A emergência do trabalho imaterial conduz a caminhos ainda mal vistos e afeta o próprio capitalismo, na medida em que categorias como "valor", "trabalho", "propriedade", "riqueza" e "capital" são categorias em profunda transformação. Mas, aprofundar isso seria outro desafio, que foge dos limites deste trabalho.
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segunda-feira, março 17, 2008

O insaciável «triângulo negro» da precarização, da escravização e da exclusão





Excerto de um artigo de Fernando Dacosta, publicado na revista Visão nº 625 de 24/02/05:


"Prevê-se que em cada cinco crianças nascidas hoje, três jamais arranjarão emprego estável. "

"Corrompida, a liberdade imergiu-as em novas (outras) desigualdades, indignidades, como as do crescente, insaciável «triângulo negro» da precarização, escravização, exclusão. Direitos penosamente conquistados (na saúde, na assistência, no trabalho, no ensino, no lazer, na cultura) estão a ser dissolvidos em cascatas de perfumado cinismo light. Os jovens que entram no mundo do emprego fazem-no a prazo, a contrato volátil, vendo-se, sem a mínima segurança, impedidos de construir uma vida própria, entre zappings de subtarefas e de pós-formações ludibriadoras. "

"O problema não tem no sistema vigente, o que poucos ousam admitir, solução visível. Enquanto isso há quem, para se confundir (confundir), culpabilize por ele a baixa taxa de natalidade e, lestamente, se proponha incentivá-la – incentivá-la para aumentar o número de crianças abandonadas?, para disparar a percentagem de jovens sem ocupação?, para renovar de carne fresca e farta os canhões, as camas, os catecismos, os esclavagismos? Prevê-se, com efeito, que em cada cinco crianças nascidas hoje em Portugal, três jamais arranjarão emprego estável. "

"A queda, por exemplo, de descontos para a Previdência (que tanta ondulação provoca) não advém da falta de trabalhadores com vontade de fazê-los – aos descontos; advém, sim, da falta de trabalho para serem feitos. Há já mais de 600 mil desempregados «seniores» e de 80 mil jovens à procura do primeiro emprego (40 mil licenciados), sem que ninguém, ao que se observa, se dinamize com isso. Nesta fase, as teses «coelheiras» só iriam agravar, não resolver, os problemas demográficos existentes. "

"Subir a idade da reforma para os 70 anos (aos 50 um trabalhador começa a ser tratado pelos superiores e colegas como um estorvo), aumentar os horários laborais (a produção tornou-se não insuficiente mas excessiva para o mercado), congelar os salários líquidos (enquanto a inflação os baixa) como defendem certos especialistas (que preservam, no entanto, para si retribuições e reformas milionárias) apenas desarticulará o mecanismo social que a humanidade vem, penosamente, construindo no sentido de tornar a existência mais digna e solidária. "

"As velhas gerações , a sair de cena, agarram-se às influências que julgam, julgavam, manter, merecer. Disfarçando desesperos, socalcam sem resultados patéticas vias sacras de cunhas, súplicas, empenhos, hipotecas, tráficos. As crispações que não sentiram quando, décadas atrás, iniciaram as suas carreiras (eram de outro tipo as, então, sofridas) experimentam-nas agora em relação à insegurança inquietante dos filhos e netos. Ingénuas, acreditaram que bastava, como no seu tempo, um curso superior para se ficar protegido, promovido. Fizeram os seus tirá-lo sem reparar que as universidades se transformaram de clubes VIP em fábricas massificadoras, cada vez mais vazias de elitismos internos e poderes externos. "

"Só os filhos-família de famílias dominantes (na direita, no centro e na esquerda, na economia, na política e nos lobbies) dispõem de privilégios garantidos, defendidos."



Comentário:

Concordo em absoluto com o texto de Fernando Dacosta. Só quando percebermos que o mundo baseado no «emprego» está a agonizar, será possível avançar para outras formas de organização social, de produção e de redistribuição da riqueza.

A escravidão do emprego, sempre tão procurado, tão louvado e tão desejado, tem os dias contados.
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quarta-feira, dezembro 12, 2007

O novo paradigma do «faça-você-mesmo» numa nova base tecnológica


Rádio Renascença - 7/12/2007:

O presidente da Portugal Telecom (PT), Henrique Granadeiro, avisa que no próximo ano os despedimentos vão continuar na empresa.

Em entrevista à SIC Notícias, Henrique Granadeiro adianta que deverão ser dispensadas mais de 600 pessoas.

"Este ano despedimos 600 pessoas. Corta o coração dizer isto, mas para o ano, provavelmente, despediremos um pouco mais. As tecnologias não criam um desenvolvimento de emprego, criam empregos mais qualificados", disse.


Tese:

Não obstante a "sincera tristeza" com que Henrique Granadeiro encara o despedimento de mais algumas centenas de pessoas, o presidente da PT fez uma afirmação muito curiosa: "as tecnologias não criam um desenvolvimento de emprego, criam empregos mais qualificados", querendo significar com isto que as novas tecnologias, podendo embora produzir um número cada vez menor de empregos muito especializados, vão crescentemente acabar com o emprego. E, neste ponto, estou absolutamente de acordo com ele:

Façamos um recuo de 10.000 anos na história e voltemos ao pré-neolítico (anterior à agricultura). Para o objectivo desta tese vamos subestimar o peso da tecnologia desse tempo. Nessa altura existiam duas grandes forças de trabalho: o homem e a natureza.

Por um lado, a natureza produzia as plantas (árvores que forneciam madeira, frutos, cereais, legumes, erva para os animais, etc.); a natureza produzia os animais (reproduzia-os, alimentava-os e desenvolvia-os); e a natureza produzia os minerais (rochas, metais, cristais, etc.). O homem nada tem a ver com esta produção. É uma produção totalmente autónoma. É a natureza que coloca o fruto na árvore, que faz crescer o cereal, que põe o coelho na toca e o veado na floresta. Tudo isto aconteceria mesmo que o homem não existisse.

Por outro lado temos o trabalho do homem. O homem pega na madeira das árvores e nas pedras e constrói a sua casa. O homem caça o coelho, o veado, o javali e alimenta-se. O homem colhe o fruto, o cereal, o legume e alimenta-se. Com peles de animais e com determinadas plantas tece as suas roupas e cose os seus sapatos. Com madeira e minérios diversos produz os seus utensílios e as suas armas.

Em suma, a natureza produz, de forma totalmente autónoma, determinados bens e o homem recolhe-os e, com mais ou menos alterações, consome-os.

Com o passar da História, a estas duas forças de trabalho (a natureza e o homem), junta-se uma terceira que ganha peso a cada século que passa: a tecnologia.

A civilização vai evoluindo com a tecnologia e surge a escrita, a roda, o moinho, o barco à vela, a carroça, a imprensa, a caldeira a vapor, o caminho de ferro, o motor de combustão interna, as ferramentas eléctricas, o avião, o computador, o software, as telecomunicações e a automação.

Na soma do trabalho total (natureza + homem + tecnologia), esta última entidade vai ganhando cada vez mais peso e autonomia.

Da espada que tinha de ser empunhada e brandida pelo homem, passou-se para o míssil que dispara automaticamente assim que percebe uma ameaça. Da conta feita à mão passou-se ao bilião de cálculos por segundo em computador. Da manufactura básica passou-se à fábrica crescentemente automatizada. Em qualquer processo produtivo a tecnologia tem ganho um peso exponencialmente maior.

A automação e a inteligência artificial têm tido um desenvolvimento avassalador. A máquina, cada vez mais, possui mais dados, tem mais conhecimento e melhor capacidade de decisão. Cada vez é mais inteligente e mais autónoma. E cada vez menos precisa de ser dirigida pelo homem.

Tal como a natureza produzia sozinha há 10.000 anos (e ainda o faz em muitos produtos que hoje utilizamos), também a tecnologia está cada vez mais próxima de produzir sozinha. O desenvolvimento tecnológico é exponencial em todos os campos que se considere. Donde, no binómio homem-máquina na produção, o homem tem cada vez menos peso. Em breve não terá praticamente nenhum e a máquina produzirá sozinha.

Nessa altura, a fábrica totalmente automatizada não poderá ser privada. Porque não existirão trabalhadores com salários, e sem salários não há poder de compra. Sem poder de compra não há vendas. Sem vendas não há lucros. Sem lucros não há empresas privadas. Qualquer empresa automatizada, seja o que for que produza, terá de pertencer ao grupo, à sociedade.

Este novo paradigma será um «faça-você-mesmo» numa nova base tecnológica. A cada indivíduo será atribuído um determinado crédito para um certo período e ele poderá servir-se da tecnologia dentro desses parâmetros. Poderá chegar ao pé uma máquina que serve bebidas, pagar e pedir um café. Ou poderá escolher e personalizar a planta da sua futura casa num programa avançado de CAD.


Três exemplos do paradigma «faça-você-mesmo» numa nova base tecnológica:

Exemplo 1 - Há uns anos, se alguém queria meter gasolina, parava o carro na bomba, vinha o empregado, o condutor dizia-lhe quanto queria, o empregado atestava, o condutor pagava-lhe (e dava-lhe uma gorjeta), e arrancava. Tudo sem se levantar do assento.

Agora, o condutor sai do carro, atesta, dirige-se à caixa, paga e arranca. Melhor, com a via verde o condutor sai do carro, digita o código do seu cartão, atesta, tira o recibo e arranca.

Note-se que numa bomba de gasolina (de dimensões médias), foram substituídos vários funcionários por um caixa. A via verde, por seu turno, eliminou a necessidade do caixa.


Exemplo 2 – Há uns anos, dirigíamo-nos a uma mercearia e pedíamos ao merceeiro todos os produtos que necessitávamos. Era o merceeiro que ia buscar os produtos às prateleiras.

Hoje, pegamos num carrinho e vamos nós próprios buscar os produtos de que temos necessidade. Só temos de passar pelo caixa para pagar. Recentemente surgiram métodos que eliminam a necessidade do caixa (Jumbo de Alfragide).


Exemplo 3 – O Multibanco será talvez o caso mais paradigmático desta nova realidade. Para levantar, depositar, fazer transferências, pagamentos e centenas de outras operações, somos agora nós próprios que as realizamos sem recurso ao caixa do banco. Mais uma vez, a empresa (neste caso um banco) automatizou procedimentos e transferiu para o cliente certas tarefas. Mais uma vez temos o «faça-você-mesmo» numa nova base tecnológica.


Isto não é ficção científica. O número crescente de desempregados a par do desenvolvimento exponencial do hardware e do software estão aí para prová-lo. Vamos acelerar a transição ou vamos permanecer agarrados a um passado de emprego que cada vez existe menos? Vamos rumar à mudança ou vamos continuar a apostar no desastre?

É a tecnologia que está a substituir o homem no trabalho. É por isso que o velho paradigma do emprego está moribundo. Vamos criar, com o auxílio da tecnologia, um mundo mais justo, mais redistributivo e mais humano.




Nota 1

Wikipedia - Problemáticas sociais da automação (Social issues of automation)

Uma ironia é que em anos recentes, o outsourcing tem sido considerado culpado pela perda de empregos pelos quais a automação é a mais provável culpada. Este argumento é apoiado pelo facto de que nos EUA, o número de empregos insourced (utilização do pessoal próprio) está a aumentar a uma maior taxa do que o outsourcing (utilização do pessoal externo à empresa). Mais, a taxa de declínio nos EUA do emprego industrial não é maior que a média mundial: 11 por cento entre 1995 e 2002. No mesmo período, a China que frequentemente foi criticada por "roubar" empregos industriais americanos, perdeu internamente 15 milhões de trabalhos industriais (aproximadamente 15% do seu total), comparados com os 2 milhões perdidos nos EUA.

Milhões de telefonistas humanos e respondedores, através do mundo, foram substituídos completamente (ou quase completamente) por painéis de comando de telefone automatizados e secretárias electrónicas (não por trabalhadores indianos ou chineses).

Milhares de investigadores médicos foram substituídos por sistemas automatizados em muitas tarefas médicas de classificadores (screeners) 'primários' em eletrocardiografia ou radiografia, para análises de laboratório de genes humanos, células e tecidos. Até mesmo médicos foram parcialmente substituídos por robots remotos e automatizados e por robots cirúrgicos altamente sofisticados que lhes permitem executar remotamente e com níveis de exatidão e precisão de outra forma não possíveis para o médico comum.
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