quarta-feira, março 19, 2008

O fim do trabalho-emprego


Autor: André Langer.

Texto em português do Brasil

A sociedade salarial ou sociedade do trabalho está em crise. O emprego de tempo integral e para todos já não existe mais e o tempo em que o foi não voltará. No segundo capítulo definimos o conceito de emprego e de trabalho, delimitando dessa maneira, por um lado, sua abrangência e sua relevância e, por outro, enriquecendo o significado daquilo que denominamos trabalho. Isso nos permite, agora, avançar ainda outro aspecto: o trabalho-emprego pode, sim, acabar. Seu fim pode ser proclamado e mesmo reivindicado. Mas, notemos bem, o trabalho cujo fim está próximo é o trabalho-emprego. Ou ainda dito com outras palavras: "o trabalho cujo fim é evidenciado não é o trabalho no sentido antropológico, mas esta atividade nascida com o capitalismo industrial, ou antes imposta à força pelo desenvolvimento capitalista como parte destacável do corpo, mercadoria quantificável".

Uma realidade visível a olhos vistos se dilata em todos os lados: "Tornado precário, flexível, intermitente, com duração, horários e salários variáveis, o emprego deixa de integrar num coletivo, deixa de estruturar o tempo cotidiano, semanal, anual e as idades da vida, deixa de ser a base sobre a qual cada um pode construir seu projeto de vida".

Por conta dessa concepção estrita de trabalho podemos mesmo reivindicar a perda da centralidade do trabalho. Para André Gorz isso é algo necessário.

É necessário que o 'trabalho' perca sua centralidade na consciência, no pensamento, na imaginação de todos; é preciso aprender a ter sobre ele um olhar diferente; não mais pensá-lo como isso que se tem ou não se tem; mas como isso que nós fazemos. É preciso ousar querer nos reapropriar do trabalho.

Por conta do declínio em quantidade, mas também em qualidade do trabalho, a maioria das pessoas não pode identificar-se com seu trabalho porque a economia não requer trabalho pago suficiente para fornecer empregos estáveis em período integral para todos [...] Paralelamente à impossibilidade efetiva de identificar-se com um emprego, surge uma relutância crescente em identificar-se com um trabalho que não favoreça o desenvolvimento da personalidade e a autonomia.

A atração pelo trabalho-emprego repousa em grande parte na relação que guarda com a fonte de recursos necessários para a sobrevivência.

Mas, também subjetivamente parece que o trabalho está perdendo espaço na vida e na consciência das pessoas. Outras esferas da vida passam a ser mais importantes e valorosas, fazendo com que o trabalho seja descentrado. Nesse sentido, afirma Offe, o que é paradoxal é que, ao mesmo tempo em que uma parcela sempre crescente da população participa do trabalho assalariado dependente, há um declínio no grau em que o trabalho assalariado, digamos, 'participa' na vida dos indivíduos envolvendo-os e ajustando-os de diferentes maneiras.

A ética do trabalho, fundamental para o surgimento e a evolução da sociedade do trabalho, parece estar se encaminhando para a sua crise. E isso por vários motivos:

O trabalho exclui a atuação moral. O trabalho estaria se enfraquecendo como "dever ético", na medida em que já não permite mais que os homens possam atuar nele moralmente. O processo de racionalização do trabalho atualmente em curso parece excluir cada vez mais o chamado "fator humano" e as potencialidades de cada trabalhador.

A vida não está mais no trabalho. Boa parte dos trabalhadores já não pauta mais a sua vida pelo trabalho, pois a "vida" está em outro lugar, fora do trabalho, nas relações familiares, de proximidade. "A satisfação com atividades que não são de trabalho contribui mais do que qualquer outro fator para a satisfação na vida". Gorz faz referência a diversas pesquisas realizadas na Europa e que apontam para um crescente divórcio entre trabalho-emprego e vida. O emprego não dá conta dos desejos reais que as pessoas têm. A não identificação com o trabalho que têm agiliza a desafeição ao trabalho.

Precarização do trabalho e desemprego. Quanto mais precário o trabalho mais ele contribui para que não mais seja visto como fator de realização ou de desenvolvimento das potencialidades. Pelo contrário, as condições precárias do trabalho impedem uma identificação com ele. O desemprego de longa duração ou freqüentemente intermitente não é capaz de manter uma afeição pelo trabalho. Offe cita um estudo no qual se faz basicamente a seguinte afirmação: quanto mais tempo as pessoas passam fora do emprego, mais percebem que o trabalho não é mais um foco suficiente para organizar a vida.

Estas evidências nos levam à afirmação de que "o trabalho não é apenas objetivamente amorfo, mas também está se tornando subjetivamente periférico".

Não bastasse isso, o capitalismo acaba por colocar em crise não apenas o trabalho, mas também diversas noções relacionadas a ele e seu gerenciamento. A emergência do trabalho imaterial conduz a caminhos ainda mal vistos e afeta o próprio capitalismo, na medida em que categorias como "valor", "trabalho", "propriedade", "riqueza" e "capital" são categorias em profunda transformação. Mas, aprofundar isso seria outro desafio, que foge dos limites deste trabalho.
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20 comentários:

Bilder disse...

Já Wilhelm Reich antes da segunda guerra mundial falava e escrevia sobre as causas dos problemas do trabalho da democracia e da politica etc,como por exemplo no seu livro "Psicologia de Massas do Fascismo".Ele apontava não só os capitalistas e os fascistas como responsáveis mas também o próprio comunismo soviético estalinista por se desviar das bases democráticas,e ainda os percussores do socialismo e social democracia actuais pelo seu oportunismo e cinismo.Para quem não leu aconselho para analisarem a história do seculo 20 com outros olhos.

Castanheira disse...

Actualmente, três partes da força de trabalho mundial está desempregada, (cerca de mil milhões de pessoas) as estatísticas mostram que esses milhares de desempregados estão amarrados ao «paradigma do trabalho», só que agora como empregados precarizados, terciarizados, ou subcontratados, têm cada vez menos direitos e estão mais limitados e mais alheios ao mundo das organizações sindicais.

contradicoes disse...

O emprego está cada vez mais dissociado do trabalho, mas do meu ponto de vista por culpa dos próprios, não de todos mas de alguns. Isto porque muitos do que desejam um emprego (sobretudo quando alguém de alguma forma se sente seguro no emprego) pura e simplesmente resolve produzir o menos possível. Por outro lado cada vez mais se torna necessário estar-se habilitado à polivalência profissional. Todo aquele que se limita apenas e só a saber executar exclusivamente determinada tarefa profissional está irremediavelmente
condenado a, no caso de perder o emprego não conseguir arranjar outro para fazer a mesma coisa.
Quanto ao panorama aqui focado da
inevitabilidade de cada vez menos existirem empregos face à mecanização de determinadas tarefas
julgo que existem muitas outras que jamais será possível substitui-las
por máquinas e esse universo é muito vasto e terá necessariamente que ser preenchido pelo ser humano, dado não ser possível preencher com a robótica.

Zorze disse...

Ontem quando se abastecia o automóvel de combustível bastava parar ao pé da bomba abrir a janelinha e dar a chave (ainda não havia os fechos/abertura centralizados) ao gasolineiro. Hoje somos nós que trabalhamos em parte, saimos do carrinho, abastecemos e ainda vamos pagar.
Na banca os funcionários são cada vez menos precisos. Existem os ATM's a internet.
A Via Verde dá muito jeito, assim, são não são precisos tantos portageiros.
Ontem em cada autocarro havia dois funcionários, um era o motorista, o outro era o cobrador. Hoje um só funcionário faz de motorista e caixa por autocarro.
São pequenos exemplos que mostram a extinção de muitos trabalhos-emprego. É o desenvolvimento. Pode-se dizer que com o desenvolvimento surgem outros. Mas entre os que desaparecem e os que aparecem o saldo é francamente negativo.
O grande descalabro será e algum cinema e literatura ficcionista começa a antecipar o que poderá ser. Atenção, poderá. Adivinhação é uma ciência não exacta. Será quando a robótica chegar até tal ponto em que consiga criar humanóides com relativa inteligência artificial. Provávelmente não será nas nossas gerações. Aí sociologos, filosofos, economistas terão que reinventar novas teses.
A partir daqui pode haver muitas linhas de pensamento, mas, uma é incontornável. Se a maior parte dos trabalho-emprego estarão ocupados por máquinas como é que as pessoas obterão rendimento para usufruir de tal desenvolvimento?
A sociedade também se desenvolverá e adaptar-se-à, talvez.

http://extrafisico.blogspot.com

xatoo disse...

trabalho-emprego
antigamente trabalhar "era bom pró preto"
hoje em dia "trabalhar é bom pró amarelo".
Por exemplo nos Estados Unidos 90 por cento do que a maior cadeia de venda a retalho vende é fabricado na China. Os chineses, é bom recordá-lo, ainda há cem anos morriam de fome nas valetas; e hoje são aquilo que são; graças a quê? ao trabalho, que mais não é que a via para angariar o sustento e a sobrevivência. Obviamente os consumidores americanos, não vendo os autênticos exércitos de operários que trabalham naquilo que consomem querem é emprego. Aliás, a economia é isso: eko+oikos, o "governo da casa" - e há sempre quem queira governar a sua casa com o trabalho dos outros - a "tecnologia do conhecimento" das máquinas que hão-de acabar com o trabalho (o nosso) já vem de longe: das galés, dos engenhos de açucar, das minas de ouro de Potosi, das fazendas do trabalho escravo que ainda hoje perduram, etc.
Bem haja o Gorz e o Nouvelle Observateur que resolveram o problema - fora de ironias, eu penso mesmo que a crítica ao trabalho se funda justamente nos pressupostos opostos: deve-se criticar o modelo de desenvolvimento tecnológico que brutaliza a vida desprezando a pessoa humana.
William Reich (que o Bilder citou)e que foi um marxista, quando escreveu a Psicologia de Massas no Fascismo tratou da questão da obediencia do individuo ao Poder que determinava os objectivos do trabalho. A tecnologia deve ser posta ao serviço de quem? dos capitalistas e da sua tropa de choque? ou dos operários que constituem a maioria e das suas organizações de classe?
Reich, que depois virou o bico ao prego e prosperou nos EUA refugiando-se numa espécie de esoterismo - a vegetoterapia ou uma merda qualquer desse género, acabou aí.
Na crítica ao desenvolvimento errado da civilização da Tecnologia sem limites, é muito mais proficuo ler Walter Benjamin (que como se sabe acabou assassinado):
"Contrariamente ao marxismo evolucionista vulgar, Benjamin não concebe a revolução como o resultado "natural" ou "inevitável" do progresso econômico e técnico (ou da "contradição entre forças e relações de produção"), mas como a interrupção de uma evolução histórica que conduz à catástrofe"

Diogo disse...

Raul (Contradições): «Quanto ao panorama aqui focado da inevitabilidade de cada vez menos existirem empregos face à mecanização de determinadas tarefas julgo que existem muitas outras que jamais será possível substitui-las por máquinas e esse universo é muito vasto e terá necessariamente que ser preenchido pelo ser humano, dado não ser possível preencher com a robótica.»

Caro Raul, quando apareceram os primeiros automóveis era costume dizer-se «é bem pensado mas nunca substituirá o cavalo». Dados os actuais avanços exponenciais na automação e na inteligência artificial, sobrarão (felizmente) cada vez menos tarefas que não possam ser efectuadas por máquinas. Em breve, o homem poderá dedicar-se a saborear a vida em vez de passar uma existência inteira agarrado a uma enxada, a um berbequim ou a um teclado de computador.



Zorze: «A partir daqui pode haver muitas linhas de pensamento, mas, uma é incontornável. Se a maior parte dos trabalho-emprego estarão ocupados por máquinas como é que as pessoas obterão rendimento para usufruir de tal desenvolvimento?»

Caro Zorze, à medida que as máquinas foram trabalhando cada vez mais sozinhas (mais autónomas), a figura do capitalista dono da maquinaria vai-se desvanecendo. Deixa de fazer sentido. Porque não terá ninguém a quem «vender» a «sua produção». A máquina autónoma, tal como a natureza, produzirá para todos.



Xatoo: «hoje em dia "trabalhar é bom pró amarelo".»

Caro Xatoo, se é certo que muita manufactura tem sido transferida para países de trabalho escravo, cada vez mais, também estes países sofrem os efeitos do desenvolvimento tecnológico:

China is losing more manufacturing jobs than the United States. For the entire economy between 1995 and 2002, China lost 15 million manufacturing jobs, compared with 2 million in the U.S., The Conference Board reports in a study released today.

xatoo disse...

Diogo:
não te esqueças de dizer que as empresas exclusivamente chinesas representam apenas 11% do produto nacional, num tecido empresarial onde o parque produtivo e a posse dos bens tecnológicos que operam nas ZEE (Zonas Económicas Especiais) são todas de empresas estrangeiras Ocidentais, filiais de multinacionais, ou franchising em outsourcing
.

Anónimo disse...

K. Eric Drexler e Richard Feynman.

O trabalho tem os dias contados.
Num futuro próximo será possível produzir qualquer coisa, por praticamente nada.

Leitura obrigatória:
http://www.e-drexler.com/d/06/00/EOC/EOC_Table_of_Contents.html

alf disse...

Convém não confundir "emprego" com "trabalho". Eu farto-me de trabalhar e não tenho emprego. Conheço muita gente que tem emprego e não trabalha nada.

Um estudante não tem emprego e farta-se de trabalhar.

Um escritor farta-se de trabalhar a estudar a escrita dos outros, a testar a sua escrita, a desenhar enredos sobre enredos, a escrever e a apagar. No fim, sairá um livrito, se calhar ao fim de muitos anos de "trabalho"...

Este é o trabalho do futuro, um grande esforço de investimento nas capacidades próprias e depois um grande esforço na realização de uma "obra", que pode ser um programa de computador, um livro, um filme, etc.

Claro que o "emprego" continuará a existir, mas perdendo peso em relação ao "trabalho".

Um grande drama é que o nosso sistema de ensino continua focado no "emprego" e não no "trabalho".

Algo que os EUA já não fazem à décadas, ou nunca fizeram, pois isso é caracteristico das ideologias fascita ou comunista, que vê no emprego "um bem".

O capitalismo não está nada preocupado com o fim do "emprego" pois o sonho capitalista não é ser empregado. O fim do emprego não é uma crise do sistema capitalista, é o sinal do declinio do fascismo e comunismo

Diogo disse...

Xatoo,

«between 1995 and 2002, China lost 15 million manufacturing jobs, compared with 2 million in the U.S»

Quem é que te garante que nestes 15 milhões de empregos que desapareceram na China não estão incluídas «todas de empresas estrangeiras Ocidentais, filiais de multinacionais»? A tecnologia não chega à China?



Caro Anónimo do «K. Eric Drexler e Richard Feynman». Foi você que me forneceu os links dos quais eu escolhi um para postar este artigo? Obrigado por mais este excelente link. Escolha um nickname para si para eu saber qual é o anónimo que me fornece estas excelentes fontes de informação.



Caro Alf,

Mais uma vez você mistura alhos com bugalhos. Tem toda a razão quando diz que «convém não confundir "emprego" com "trabalho"».

Mas depois termina de forma completamente ininteligível: «O capitalismo não está nada preocupado com o fim do "emprego" pois o sonho capitalista não é ser empregado. O fim do emprego não é uma crise do sistema capitalista, é o sinal do declínio do fascismo e comunismo». Isto não tem ponta por onde se lhe pegue.

Anónimo disse...

"Drexler e Feynman."

Pobres ingenuos, acreditam que nós que mandamos nesta chafarrica, vamos permitir que vocês se libertem das correntes.

Vocês são escravos dos nossos mecanismos de controlo, que ao longo do tempo se tem tornado mais subtis e eficazes e principalmente mais baratos.

Nós é que vamos usar a nanotecnologia para vos controlar e manter o vosso actual estado de escravatura.

Não acreditam ?

Olhem para isto:
http://gizmodo.com/368651/new-video-of-bigdog-quadruped-robot-is-so-stunning-its-spooky

Imaginem um cão robô, armado de tasers e balas de borracha, para atacar manifestações de desempregados e de comunas descontentes com o sistema.

É lindo, não é ?
Estamos a criar agora, as forças que nos vão servir no futuro.

E não vão ser vocês.

Abandonem toda a esperança.

xatoo disse...

o Feynman do livro "Você está a brincar Mister Feynman"? o homem mediaticamente foi um entertainer; só pode ser mesmo para a gente se rir - um Físico a falar de economia politica; até os padres falam, e os sargentos do exército falam, e daí?. falam, falam, enquanto o Poder que tem as capacidades de decisão age!
Realmente há por aqui muita conversa fiada.
Marx nunca falou em "emprego". E a maior parte dos exemplos que se rebuscam por aqui são perfeitamente idiotas. Leiam, leiam, aprendam a distinguir trabalho efectivo de trabalho alienado, valor de uso e valor de troca, que outras possibilidades existem para quem não tem mais nada para venda salvo a sua força de trabalho, enfim, estaria aqui a recitar o terço o resto da noite, mas não aprecio por aí além pregar aos peixes (especialmente quando são de águas inquinadas) Como é que vcs vão compreender o remedio para os efeitos da doença se não conhecem os mecanismos estruturais que a causam?

Diogo,
The Conference Board é um think-thank americano/canadiano; dirão aquilo que melhor sirva os interesses dos patrocinadores que os financiam, à luz da doutrina neoliberal da globalização. No caso esses dados são resultado de uma sondagem feita por amostragem. valem o que valem. Ainda assim, comparando os valores demográficos entre os dois paises a presumivel perda de empregos em manufacturas (e apenas aí) seria equivalente, tanto na China como nos EUA.
Aqui p/e diz-se que as perdas de empregos nos EUA são de 3 milhões (e não de 1,8m) e que os estão a perder para a China, México, etc. (ver Wall-Mart Effect no google)
Além do mais, o proletariado na China é ainda um número irrisório se comparado com a massa da população que trabalha nos campos no arroz e noutros modos de subsistência primária. Têm um potencial de crescimento quase ilimitado; enquanto no Ocidente se passa o contrário: o que vemos é o declinio por via da deslocalização da produção para paises de mão de obra barata. É assim porque as élites e os banqueiros assim decidiram em beneficio dos seus próprios privilégios. Relacionando com o "Nixon in China" (1972) e Chicago boys, Milton Friedman (um judeu ucraniano) nobel em 1976 e o corte no relacionamento do valor do dólar com o ouro. O aparecimento destes três vectores quase em simultâneo não são meras coincidências. Visam deslocalizar a produção numa nova relação de divisão social do trabalho a nivel mundial. E fazem-no à custa do afundamento das classes médias ocidentais (como na crise de 1994 o fizeram em relação ao Japão) Esta gente não tem escrúpulos nem olha a meios para conseguir ficar cada vez mais rica.

xatoo disse...

"A tecnologia não chega à China?"
claro que chega, e foi isso mesmo que eu disse: que a maioria da maquinaria e know how na China pertence a empresas e investimentos estrangeiros

Diogo disse...

Xatoo,

Existem dois fenómenos paralelos que estão a acontecer nos «países ricos» e que contribuem para o desemprego crescente:

1) Deslocalização de alguma produção para países de mão de obra mais barata.

2) Automatização crescente de fábricas e escritórios.

O desenvolvimento do software e do hardware tem um ritmo exponencial. Muitos escritórios e fábricas não deslocalizam mas automatizam. As novas tecnologias substituem muita gente.

Por exemplo: sei que o banco BCP tem vindo a diminuir o seu pessoal em cerca de 800 pessoas por ano. O banco não está a deslocalizar. O banco está a utilizar caixas automáticas, a Internet e software mais avançado para substituir os funcionários. E casos destes estão a acontecer por todo o lado.

xatoo disse...

invarialvelmente os exemplos dados "como prova" vêm sempre do sector de serviços - mas os serviços são um sector secundário, o chamado "trabalho improdutivo" (mais uma vez Marx) mas a crise é de sobreprodução pq não existem clientes com poder de compra que a sustentem, pelo menos ao tipo de produção mais rentável que interessa aos capitalistas; enquanto existem carências graves em vastos sectores da sociedade que não são resolvidos pq não dão lucro. Nem o trabalho desaparece, pq é preciso é mais: nos sectores certos, para o que é exigivel um planeamento contrário ao liberalismo selvagem com liberdade para foder tudo e todos
e, para ver se avançamos para outros terrenos mais proficuos para um entendimento mútuo:
"O Fim da Classe Média e o Nascimento da Sociedade de Baixo Custo" de Massimo Gaggi e Edoardo Narduzzi, editado em português pela Bulhosa

Anónimo disse...

Workers Told to Use Urine Bags

http://home.peoplepc.com/psp/newsstory.asp?cat=strange&id=20080320/47e1ef50_3421_1334520080320-58325024

alf disse...

diogo, aqui vai uma ajudinha para perceber melhor o que eu disse: o sonho de uma pessoa num sistema capitalista não é ter um emprego para a vida, é ser profissional livre, ter um negócio, ser empresário.

Estamos aqui a discutir a crise do emprego; ninguém se lembra de discutir a crise do empreendedorismo? ninguém se lembra de discutir a falta de adaptação do sistema de ensino a uma sociedade cujo sonho é ser empreendedor? Estes é que são os problemas que condicionam a nossa sociedade.

Diogo disse...

Alf, agora percebi melhor o seu ponto de vista. Admito que haja uma crise de empreendedorismo em Portugal. Mas o tema do post é sobre a substituição do homem pela máquina em muitas tarefas. Sobre o fim do trabalho-emprego. Sobre uma lógica de organização económica que tem funcionado até agora. E parece-me que o novo paradigma económico dispensa tanto empregados como empreendedores.

Flávio Gonçalves disse...

Precisamos de terra, apenas isso nos dará segurança no futuro, as populações citadinas serão as que mais sofrerão.

A promessa da revolução industrial de que o progresso, modernização e criação de cada vez mais máquinas seria benéfico para a humanidade foi uma mentira, se as máquinas fazem o trabalho dos homens poupando salários ao patrão como é que os homens desempregados vão sobreviver?

Diogo disse...

Flávio: «se as máquinas fazem o trabalho dos homens poupando salários ao patrão como é que os homens desempregados vão sobreviver?»


Se as máquinas fazem o trabalho dos homens, então também fazem o trabalho dos patrões. Se o pedreiro, o soldador, o caixa e o contabilista estão a deixar de ser precisos, o mesmo se passa com o gestor, o administrador e o «dono».

A máquina trabalhará sozinha, produzindo para o grupo. A propriedade privada dos meios de produção é apenas uma convenção social. Se A é dono de uma fábrica é porque os outros aceitam que assim seja.

Quando este tipo de organização económica deixar de fazer sentido, e estamos a caminhar crescentemente nessa direcção, tanto a máquina como o fruto desta serão do grupo. Será o fim do capitalismo.