
Jornal de Notícias - 3 de Setembro de 2007
Texto do deputado Honório Novo do PCP
A espiral dos juros!
Nos últimos dois anos os juros aumentaram mais de dez vezes. Cada vez mais as famílias não conseguem pagar as prestações dos seus empréstimos, que aumentaram 20% a 30%, enquanto os ordenados permaneceram quase congelados ou desapareceram com o desemprego. São mais de 15 000 as famílias atingidas pelas mais recentes subidas dos juros, drama que, aliás, não parece preocupar minimamente o último relatório do Banco de Portugal (pudera, o dr. Vítor Constâncio e os seus amigos continuam a não ter qualquer dificuldade para fazer face às prestações dos respectivos créditos…).
Por outro lado, agravou-se no segundo trimestre deste ano a tendência de queda na construção. O sector parece ter caído cerca de 23% - na construção de edifícios mais de 12%, nas restantes obras de engenharia acima dos 40% -, reflectindo com nitidez as dificuldades acrescidas que a subida dos juros provocam nas decisões de compra e de investimento.
Entretanto, o Banco Central Europeu (BCE) ameaça aumentar este mês as taxas de juro! Mais uma vez! Para o BCE nada conta, nem que os juros tenham já superado os valores do início do século, que os aumentos provoquem o descalabro de cada vez mais famílias, que a actividade produtiva se confronte com condições de financiamento cada vez mais difíceis ou que os baixos níveis de crescimento económico sejam incapazes de criar emprego - muito em particular em países como o nosso, que está há anos com crescimentos bem abaixo dos ritmos já de si moderados dos seus parceiros europeus.
Mas então não há ninguém que ponha o BCE na ordem, que diga ao sr. Trichet, ao sr. Constâncio e a outros que tais que deveriam dedicar mais atenção à economia real e às pessoas? Sócrates e o Governo Português, que presidem neste semestre aos destinos da UE, podiam e deviam ter já dito e feito alguma coisa para travar esta espiral (quase) suicida de subida dos juros. Só que se calam que nem ratos, não querem perturbar a pretensa independência do banco central nem querem admitir que o BCE tem que passar a trabalhar orientações que promovam o crescimento e o emprego em vez de se dedicar apenas aos malabarismos germanófilos para controlar uma inflação que há muito não preocupa. Na verdade, o que Sócrates não quer é introduzir qualquer debate que o faça desviar do seu objectivo de fazer aprovar um tratado contranatura que (não por acaso) pretende consagrar a "tal independência" do BCE. Depois é capaz de nos vir dizer que não tem nada a ver com as subidas de juros nem pode fazer nada para as evitar...
Comentário:
Em baixo, alguns dos grandes usufrutuários da "tal independência" do BCE. A actividade de sanguessuga continua a render biliões todos os meses:
Em baixo, alguns dos grandes usufrutuários da "tal independência" do BCE. A actividade de sanguessuga continua a render biliões todos os meses:
