segunda-feira, maio 24, 2010

The Tipping Point - Uma lição de economia a marxistas e a defensores do mercado livre



Excerto do livro «The Lights in the Tunnel: Automation, Accelerating Technology and the Economy of the Future [As luzes no Túnel: Automação, Tecnologia em Aceleração e a Economia do Futuro]» de Martin Ford - Engenheiro informático de Silicon Valley, autor e empresário.

[Tradução minha]



O Ponto de Viragem

Trabalho-Intensivo versus Capital-Intensivo, Desemprego e o fim da Economia de Mercado

[Qualquer actividade produtiva utiliza uma determinada combinação de factores produtivos para a produção de bens e serviços. Quanto à intensidade da utilização dos factores produtivos, podem ser de capital-intensivo (utilizam mais intensivamente o capital – tecnologia, máquinas), ou trabalho-intensivo, que utilizam intensivamente o trabalho ou mão-de-obra.]

Podemos situar qualquer indústria algures no espectro que vai desde o grau mais trabalho-intensivo até ao grau mais capital-intensivo. Na nossa economia actual, algumas das indústrias de cariz mais trabalho-intensivo estão na venda a retalho, hotelaria e pequenos negócios. Supermercados, cadeias de lojas, restaurantes e hotéis têm todos de contratar bastantes empregados.

Indústrias de capital-intensivo, por outro lado, empregam relativamente poucas pessoas e, em vez disso, requerem investimento em tecnologia: maquinaria e equipamento avançados e em sistemas computadorizados. Indústrias de alta tecnologia tal como fabrico de semicondutores, biotecnologia e companhias baseadas na Internet são todas de capital intensivo.


Trabalho-Intensivo versus Capital-Intensivo


Com o tempo, à medida que a tecnologia evolui, a maior parte das indústrias tornam-se mais capital-intensivas e menos trabalho-intensivas. A tecnologia também cria indústrias completamente novas, e estas são quase sempre capital-intensivas. Este facto tem sido assim há séculos, e historicamente tem sido uma coisa positiva. Se se comparar as indústrias numa nação desenvolvida, como os Estados Unidos, com as indústrias de uma nação do Terceiro Mundo, descobre-se invariavelmente que a economia americana é muito mais capital-intensiva. Foi a introdução da tecnologia avançada que aumentou a produtividade e tornou ricas as nações mais desenvolvidas.

A razão deste facto remonta à explicação dos economistas da «Falácia Ludita»:

Wikipedia - [O Ludismo é o nome do movimento contrário à mecanização do trabalho trazida pela Revolução Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo Ludita (do inglês Luddite) identifica toda a pessoa que se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias. Os Luditas invadiram fábricas e destruíram máquinas, que, segundo eles, por aquelas serem mais eficientes que os homens, lhes tiravam os seus empregos. Os Luditas ficaram lembrados como "estoira-máquinas"]

À medida que a nova tecnologia é adoptada pelas indústrias, a produção torna-se mais eficiente. Isto resulta na perda de alguns empregos, mas também provoca preços mais baixos para bens e serviços. Por outras palavras, coloca mais dinheiro nos bolsos dos consumidores. Estes consumidores vão então comprar todo o tipo de coisas, e o resultado é um aumento da procura dos produtos de toda a espécie de indústrias.

Algumas destas indústrias são muito trabalho-intensivas, e portanto enquanto se esforçam para fazer face a este aumento da procura, são forçados a contratar mais trabalhadores. E desta forma, o emprego na sua totalidade mantém-se estável ou até aumenta. Por vezes, evidentemente, este resultado traduz-se numa transição desagradável para alguns trabalhadores: podem perder um emprego bem remunerado na indústria e acabar com um emprego mal pago como caixa de um supermercado.


Número de empregados e respectivos salários médios nas seguinte empresas:

McDonalds - 400.000 empregados - 59.000 dólares

Wal-Mart - 2.100.000 empregados - 180.000 dólares

Intel - 83.000 empregados - 456.000 dólares

Microsoft - 91.000 empregados - 664.000 dólares

Google - 20.000 empregados - 1.081.000 dólares



Pode este processo continuar indefinidamente? A tecnologia da automação vai progressivamente invadir os restantes sectores do trabalho-intensivo da economia. Quando isto acontecer, que indústrias restarão para absorver todos os trabalhadores substituídos? Atente-se na tabela acima. O que é que acontecerá quando a McDonalds começar a ficar mais parecido [em termos de empregos] com a Google?

Um exercício simples de senso comum mostra-nos que existe um limiar a partir do qual a economia no seu todo se torna demasiado capital-intensiva. Assim que isto aconteça, preços mais baixos resultantes de aperfeiçoamentos tecnológicos não se traduzirão em mais emprego. Depois deste limiar ou ponto de viragem, as indústrias que constituem a nossa economia já não necessitarão de contratar os trabalhadores suficientes para compensar a perda de empregos resultantes da automação; serão, em vez disso, capazes de encontrar algum aumento na procura principalmente investindo em mais tecnologia. Este ponto marca a derrocada da fé dos economistas na Falácia Ludita, e marca também o princípio de uma espiral económica decrescente pela simples razão de que os trabalhadores são também os consumidores de tudo o que é produzido na nossa economia.

O que é que devemos esperar que aconteça se a generalidade da economia se estiver a aproximar deste ponto de viragem, a partir do qual as indústrias deixam de ser suficientemente trabalho-intensivas para absorver os trabalhadores que perderam os seus empregos devido à automação? Devemos provavelmente assistir um aumento gradual do desemprego, congelamento de salários e aumentos significativos na produtividade (output por hora de trabalho) à medida que as indústrias forem sendo capazes de produzir um maior número de bens e serviços com menos trabalhadores.



Isto parece desconfortavelmente parecido com o que tem estado a acontecer nos anos que conduziram à actual recessão. Em Agosto de 2003, o "The Economist" escreveu que a "Agência de Estatística do Trabalho expressou a mais recente prova do renascimento da produtividade americana: a produtividade por trabalhador aumentou em 5,7% no segundo trimestre, calculada a um período de um ano. Mas nos tempos actuais, menos exuberantes, o número levantou a triste possibilidade de crescimento sem criação de empregos." Três anos depois, num artigo intitulado "O caso dos Empregos Desaparecidos," a BusinessWeek disse: "Desde 2001, com a ajuda de computadores, modernização das comunicações, e com operações fabris ainda mais avançadas, a produtividade industrial americana, ou o total de bens e serviços que um trabalhador produz numa hora, disparou para uns impressionantes 24%... Em suma: estamos a fazer mais com menos gente." Não há forma de saber com segurança a que distância estamos da estagnação permanente da criação de emprego na economia. Contudo, estas estatísticas são seguramente uma causa de preocupação.



O Trabalhador Médio e a Máquina Média

Outra forma de expressar esta ideia de um ponto de viragem é imaginar num trabalhador médio a utilizar uma máquina média algures na economia. Obviamente, no mundo real existem milhões de trabalhadores a utilizar milhões de máquinas diferentes. Com o tempo, evidentemente, estas máquinas vão-se tornando mais sofisticadas. Imagine-se uma máquina típica que represente de modo geral todas as máquinas na economia.

A determinada altura, essa máquina pode ter sido uma nora de um moinho. Depois, pode ter sido uma máquina movida a vapor. Mais tarde, uma máquina industrial alimentada a electricidade. Hoje, a máquina é provavelmente controlada por um computador ou por microprocessadores embutidos.



À medida que a máquina típica se vai tornando cada vez mais sofisticada, os salários dos operários que nela trabalhavam foram aumentados. Máquinas mais sofisticadas tornam a produção mais eficiente e tal traduz-se em preços mais baixos e, portanto, mais dinheiro nos bolsos dos consumidores. Os consumidores vão então gastar esse dinheiro extra, e isso cria empregos para mais trabalhadores que, de igual forma, vão operar máquinas que continuam a evoluir.

De novo, a questão a colocar é: Pode este processo continuar para sempre? Estou convencido de que a resposta é NÃO, e o gráfico seguinte ilustra este facto.


Valor Acrescentado (Salário) do Trabalhador Médio a operar uma Máquina Média:


O problema, evidentemente, é que as máquinas se estão a tornar cada vez mais autónomas. Pode-se observar isto no gráfico no ponto onde a linha pontilhada (conhecimento convencional) e a linha contínua divergem. À medida que mais máquinas começarem a trabalhar sozinhas, o valor que o trabalhador médio acrescenta começa a declinar. É de lembrar que estamos a falar de trabalhadores médios. Para melhor perceber o gráfico acima, atente-se na distribuição de rendimentos nos Estados Unidos e depois retirem tanto as pessoas mais ricas como as mais pobres. Depois veja-se o rendimento médio dos "típicos" restantes (a maioria dos consumidores) ao longo do tempo. Se, ao invés, se observar o Produto Interno Bruto per capita, chegar-se-á a um gráfico semelhante, mas a divergência entre as linha pontilhada e a linha contínua irá ocorrer um pouco mais tarde. Isto acontece porque as pessoas mais ricas (que são donas das máquinas ou com altos níveis de especialização) irão beneficiar inicialmente da automação e, por isso, elevam a média.

Logo que as linhas começam a divergir, as coisas vão ficar muito feias. Isto acontece porque o mecanismo básico que coloca o poder de compra nas mãos dos consumidores está a falhar. Com o tempo, desemprego, baixos salários – e talvez o mais importante – a psicologia do consumidor irá causar uma muito grave retracção económica.

Como o gráfico mostra, dentro do contexto das nossas actuais regras económicas, a ideia das máquinas serem "completamente autónomas" é apenas uma meta teórica que nunca poderá ser alcançada.

Algumas pessoas podem pensar que estou a ser demasiado simplista em relacionar "o progresso tecnológico" com "máquinas mais autónomas". No fim de contas, a tecnologia não são apenas máquinas físicas; são também técnicas, processos e conhecimento distribuído. A realidade, contudo, é que a distinção histórica entre máquinas e capital intelectual está a tornar-se pouco distinta. É agora muito difícil separar processos inovadores da tecnologia de informação avançada que quase sempre torna possível e está na base deles. Sistemas avançados de gestão de inventários e marketing informatizado são exemplos de inovações técnicas, mas que assentam grandemente em computadores. De facto, é possível pensar em quase qualquer processo ou técnica como "software" – e, portanto, parte de uma máquina.

Se ainda tiver problemas em aceitar este cenário, pode colocar a si próprio algumas questões: (1) É possível continuar a aperfeiçoar uma máquina para sempre sem que por fim se torne autónoma? (2) Mesmo se for possível, então não chegará um dia em que a máquina se tornará tão sofisticada que a sua operação estaria para além da grande maioria das pessoas com um grau de formação normal? E não conduziria isto directamente à autonomia da máquina?




Em suma

Com o fim do emprego e dos salários, ou seja, do poder de compra, que futuro poderá ter a propriedade privada dos meios de produção?
.

26 comentários:

Castanheira disse...

No fim de contas, o emprego é um fenómeno que só apareceu com a revolução industrial. Antes disso, cada um trabalhava exclusivamente para si (pagando uma taxa ao senhor feudal). Pôr as máquinas a trabalhar para nós e ver desaparecer as fortunas dos grandes industriais era uma grande ventura para a humanidade.

Bilder disse...

Mas já o concenso de Washingtom nos anos 90 previa o desemprego em massa e as formas de o ludibriar,uma delas era o trabalho em troca de alimentação!!
Já estivemos mais longe!
Quem não sabe sobre o dito concenso faça pesquisa se faz favor.Todos os problemas economicos e sociais estão previstos meus amigos mas o objectivo dos governantes e seus senhores da piramide não é o interesse dos povos como aliás se pode ver não é??

zedeportugal disse...

Não tive tempo, agora, para ler todo o resumo que fez do livro referido - mas parece interessante. Voltarei mais tarde para ler tudo e, eventualmente, descarregálo e pô-lo em fila de espera para posterior leitura.

Já agora, permita-me deixar aqui este linque em ca(u)sa própria:
Selecção vaiada não parece ser um bom sinal.

Anónimo disse...

Frente a tal enorme problema só soluções à altura-que é correr com o governo,ie,tomar o Poder e acabar com a mama da engenharia social em prole dos 'mercados',imperialismo de mercado!

on disse...

Diogo,

estás a deixar de fora desse raciocínio o sector teciário (serviços). Ao mesmo tempo que os empregos da indústria transformadora dimunuem há riqueza para pagar a mais pessoas para que se dediquem ao sector terciário.

Há cada vez mais desportista profissionais, bailarinos, actores, jornalistas e apresentadores de televisão.
De uma forma mais dicreta, há cada vez mais massagistas, instrutores de yoga, Pilates, cabeleireiros e manicuras.

Ainda não chegou a Portugal o "dog walker", mas lá chegaremos. Na California há quem pague muito bem a quem lhe passeie o cão.

PS: E o meu blog está outra vez activo...

Diogo disse...

Castanheira - De facto, as pessoas esquecem-se que o emprego é uma coisa muito recente na História. Quanto à substituição do homem pela máquina, que aconteça o mais rápido possível.


Bilder - Se as máquinas vão substituir o trabalho humano, então não há necessidade de trabalho em troca de alimentação. Mais tecnologia fará ruir a pirâmide.


zedeportugal – Venha ler o resto, porque o artigo merece-o bem.


Anónimo – O Governo será corrido. A tecnologia trará a Democracia Directa. Não há necessidade de corruptos a gerir a riqueza de todos.


On – O sector terciário está precisamente representado nas actividades capital-intensivas, que significa tecnologia avançada e empregados com grande formação. Quanto aos dog walkers e aos putos que entregam pizas (que trabalham por tuta e meia), isso traduz apenas o crescimento do desemprego a todos os níveis.

miguel disse...

3 coisas:

Coisa 1: A ideia do "futuro" como a escravização da máquina ao serviço do homem é o sonho de qualquer engenheiro que se preze (principalmente se for do ramo informático e trabalhar para/numa multinacional): toma como O "futuro" aquilo que é apenas produto material e ideal do seu trabalho e da sua condição social presentes.

Coisa 2: Em Portugal há quem partilhe deste ponto de vista (o fim da propriedade privada dos meios de produção vem na ponta do microchip): Do Capitalismo para o Digitalismo.

Coisa 3: Onde é que está a "lição de economia a marxistas"? Alguma vez o Diogo ouviu falar na lei da queda tendencial da taxa média de lucro?

Diogo disse...

Caro Miguel,

1 – Não há «escravização da máquina». Limito-me a constatar que a evolução tecnológica é exponencial e que a máquina será infinitamente mais poderosa a todos os níveis do que o homem. Pouco a pouco deixa de fazer sentido falar em capitalistas e trabalhadores.

2 – Segui o link que me indicou. Preciso de tempo para o ler.

3 – O Marxismo continua a falar em luta de classes até à queda do capitalismo. Isto não faz sentido. Será a produção pela máquina que vai acabar com sociedade de mercado.

Abraço

miguel disse...

"Será a produção pela máquina que vai acabar com sociedade de mercado."

Escrevia Marx em resposta a Proudhon (1847): "O Sr. Proudhon economista compreendeu muito bem que os homens fazem a fazenda, o pano, os tecidos de seda em determinadas relações de produção. Mas o que ele não compreendeu é que estas relações sociais determinantes são tão produzidas pelo homem como o tecido, o linho, etc. As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens mudam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, mudam todas as suas relações sociais. O moinho manual dar-vos-á a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial.

Os mesmos homens que estabelecem as relações sociais em conformidade com a sua produtividade material produzem também os princípios, as ideias, as categorias, em conformidade com as suas relações sociais.

Assim, estas ideias, estas categorias são tão pouco eternas quanto as relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios.

Há um movimento contínuo de crescimento nas forças produtivas, de destruição nas relações sociais, de formação nas ideias; de imutável há apenas a abstracção do movimento - mors immortalis.
Karl Marx, Miséria da Filosofia

Diogo, deixo-lhe mais uma sugestão também relacionada com o tema para mostrar como a "produção pela máquina" é «luta de classes»: Karl Marx. Capital Volume One: Chapter Fifteen: Machinery and Modern Industry (1867)

xatoo disse...

1. Mesmo que lá para o final do mundo só existisse uma máquina que mudasse um melão daqui para ali, a opção correcta seria sempre eliminar essa máquina para manter um posto de trabalho.
2. Pensará o autor deste post que os tecnocratas de Silicon Valley irão colocar à disposição dos trabalhadores e da população em geral, completamente gratuitos, os beneficios da tecnologia para a sua libertação? ou as novas tecnologias não serão sempre uma nova forma de acumulação capitalista (uma vez que os investimentos no research I&D foram capitalistas)
3. Agora qe o Diogo apanhou aqui alguém, o Miguel, com conhecimento da teoria marxista (e paciência para a explicar) estou curioso para ver como é que o Diogo irá descalçar a bota para refutar que é a lei da queda tendencial da taxa média de lucro de Marx que irá pôr fim ao capitalismo - e não qualquer esoterismo sem sustentação racional

Diogo disse...

Miguel – As relações sociais só continuarão intimamente ligadas às forças produtivas enquanto houver homens envolvidos na produção. A partir do momento em que só as máquinas produzirem, deixa de fazer qualquer sentido relações humanas entre dominantes e dominados.

Li muito por alto o «Karl Marx. Capital Volume One: Chapter Fifteen: Machinery and Modern Industry (1867) ». Não vi lá nada que contradissesse o que eu disse acima. Se você me quiser chamar a atenção para algum ponto desse texto, esteja à vontade.

Abraço


xatoo:

«1. Mesmo que lá para o final do mundo só existisse uma máquina que mudasse um melão daqui para ali, a opção correcta seria sempre eliminar essa máquina para manter um posto de trabalho. »

1 – Esta é uma das frases mais estúpidas que eu já tive o prazer de ler.


«2. Pensará o autor deste post que os tecnocratas de Silicon Valley irão colocar à disposição dos trabalhadores e da população em geral, completamente gratuitos, os benefícios da tecnologia para a sua libertação? ou as novas tecnologias não serão sempre uma nova forma de acumulação capitalista (uma vez que os investimentos no research I&D foram capitalistas) »

2 – A partir do momento em que as máquinas sejam totalmente independentes, não há necessidade de haver alguém a dar alguma coisa a quem quer que seja. O sistema produtivo será absolutamente autónomo.


«3. Agora que o Diogo apanhou aqui alguém, o Miguel, com conhecimento da teoria marxista (e paciência para a explicar) estou curioso para ver como é que o Diogo irá descalçar a bota para refutar que é a lei da queda tendencial da taxa média de lucro de Marx que irá pôr fim ao capitalismo - e não qualquer esoterismo sem sustentação racional»

3 – Marx, nos seus tempos, nunca equacionou a inteligência artificial e a automação total.

miguel disse...

Diogo: "Não vi lá nada que contradissesse o que eu disse acima."

A intenção não era contrariar o que o Diogo escreveu, antes pelo contrário: era reforçar o que escreveu e mostrar que a introdução da máquina na produção é um componente da «luta de classes». Logo no 1º parágrafo: "Tal como qualquer outro desenvolvimento da força produtiva do trabalho, ela [a maquinaria empregue de modo capitalista] há-de embaratecer mercadorias e encurtar a parte do dia de trabalho de que o operário precisa para si mesmo, para prolongar aquela outra parte do seu dia de trabalho que ele dá gratuitamente ao capitalista. Ela é meio para a produção de mais-valia".

Isto é, no sistema capitalista a maquinaria serve como meio de aumento da taxa de exploração do trabalho e não para a emancipação do trabalhador. Antes pelo contrário: no sistema capitalista, o aperfeiçoamento da máquina tem conduzido à redução da população activa, ao crescimento do desemprego, ao crescimento de esquemas de auto-emprego como escapatória à fome e à miséria. Ao mesmo tempo que liberta o trabalhador dos trabalhos mais pesados e repetitivos, a máquina - no sistema capitalista - explora-o na medida em que aumenta a taxa de exploração dos trabalhadores empregados e oprime-o na medida em que deixa de fora do sistema produtivo cada vez mais indivíduos. A força de trabalho necessária para produzir os meios de vida da população de todo o mundo tem vindo a reduzir-se: hoje produzimos mais com menos trabalho mas, ao mesmo tempo, aqueles que ficam de fora ou nas franjas da actividade produtiva vêm degradas as suas condições de vida.

O modo de produção capitalista não tem 'fim' (não cai de maduro), tem inerente a capacidade de superar as crises que ele próprio engendra pelo processo de "destruição criativa" (Schumpeter). O fim da sociedade de classes vem, se vier, no dia em que os homens tomarem nas suas mãos a condução consciente do seu presente, ou, o que é o mesmo, no dia em que os homens deixarem de ser conduzidos por "forças superiores" (na terra ou no céu).

O curioso desta história é que o Diogo está um milímetro atrás do que escrevia Marx e só o pré-conceito explica que julgue o que escreve Martin Ford como uma "lição de economia a marxistas". Não é lição nenhuma nem aos marxistas nem aos liberais.

O facto de embrulhar o discurso num papel mais reluzente e modernaço não faz com que as ideias sejam novas ou inovadoras. Não é por Marx não ter escrito sobre a inteligência artificial (como podia?!) que a caracterização da natureza do sistema capitalista está errada. A base material do sistema (a produção de mercadorias para a acumulação e concentração do capital à custa da exploração da força de trabalho) é a mesma, embora se realize, hoje, de diferentes modos como se realizará, amanhã, de modo diverso do de hoje.

Ver na "inteligência artificial" ou na "automatização total" (como podia ter sido o telégrafo, o telefone, o avião a jacto ou outras "novas tecnologias") o veículo para a superação do sistema de produção é um apelo ao imobilismo e ao conformismo social porque, afinal de contas, o que se está a dizer é que é o próprio capitalista que conduzirá o processo da sua ruína, ficando para os trabalhadores o papel de observadores e o apelo a que quanto mais trabalharem e menos reivindicarem pela redução do tempo de trabalho e pela elevação das condições de vida e de trabalho mais depressa cai o capitalismo. É, claro, uma tese do agrado do capitalista e que se insere, por isso, na «luta de classes».

Por curiosidade, e numa outra 'onda', existe também o Movimento Zeitgeist.

xatoo disse...

bom, a "frase mais estúpida" pode ficar a dever-se à interpretação retrógada de quem a lê.
De facto o homem só se realiza na transformação da natureza para seu próprio usufruto, satisfação das necessidades e como modo de afirmação pelo trabalho que desenvolve. Nas relações sociais a máquina não é senão um valor que Marx designou por "capital fixo"
Neste paradigma é a Natureza como um todo que desempenha o papel de "inteligência não artificial". Nem o homem nem a natureza (que é um bem finito) se realizam pela panóplia de máquinas imaginadas em função do lucro, que cada vez mais conduzem o planeta à exaustão de recursos. E gera, com este processo de acumulação capitalista desregulamentado, exponencialmente mais miséria.
Só para lembrar, até nisto Marx deixou pistas para a compreensão da ecologia dialéctica:
http://www.monthlyreview.org/books/marxecology.php

Diogo disse...

Miguel – «hoje produzimos mais com menos trabalho mas, ao mesmo tempo, aqueles que ficam de fora ou nas franjas da actividade produtiva vêm degradas as suas condições de vida. »

De acordo, e é precisamente por isso que antevejo (e o autor do artigo) o fim da economia de mercado. Porque o progresso tecnológico vai continuar a um ritmo exponencial. Gradualmente vai deixando de haver consumidores (pessoas com dinheiro para comprar). E gradualmente vai deixando de haver lucros. Ninguém vai investir na produção seja no que for se souber que ninguém o vai comprar.

Sem salários não há compras, sem compras não há vendas, sem vendas não há lucros e sem lucros não há produção privada.

Mas atenção, não faço nenhum apelo ao imobilismo. Se tem seguido este blogue há-de ter reparado que tenho defendido com unhas e dentes a transição mais rápida possível para o novo sistema (na linha de Viviane Forrester). E acabar com as asquerosas condições de vida de uma fatia cada vez maior da população.


«A base material do sistema (a produção de mercadorias para a acumulação e concentração do capital à custa da exploração da força de trabalho) é a mesma, embora se realize, hoje, de diferentes modos como se realizará, amanhã, de modo diverso do de hoje. »

Não concordo. Pelo que eu disse acima, com máquinas totalmente independentes, o capitalismo deixa de fazer sentido.

Abraço



Xatoo - «De facto o homem só se realiza na transformação da natureza para seu próprio usufruto, satisfação das necessidades e como modo de afirmação pelo trabalho que desenvolve. »

Marxismo puro e duro. Homem é trabalho, quer trabalho, respira trabalho, pensa trabalho e defeca trabalho. Nada mais há!

O homem não gosta de ler um bom livro, ver um bom filme, dar um mergulho no mar, subir uma montanha, amar uma mulher ou abraçar um filho. Não, um marxista puro e duro só se realiza com uma chave de fendas na mão.

Zorze disse...

Diogo,

Começo pelo termo, sabotagem. Vem de sabot, tamanco de madeira em francês, usado por trabalhadores que os calçavam e atiravam para a engrenagem das máquinas que lhes retirava os empregos.

Essa suposto, endeusamento de Marx, como o conhecedor de todas as verdades fundamentais, o iluminado do capital, o arauto das variantes totais... Ele era um gajo como qualquer outro.
Estou aqui a cometer um "pecado capital" para muito boa gente.
Marx, viveu há 100 anos, teorizou as mudanças sócio/económicos/políticas em que vivia. Como tinha tempo, relacionou-as.
Os tempos mudaram, apesar de na base, haver muita coisa semelhante.
Digo até, que Marx balizou, através da luta de classes e daí amenizou certas tensões que poderiam ser anárquicas e desse modo imprevísiveis para o capital dominante.
Essa pseuda arrogância que Marx deixava pistas nas entrelinhas, está ao nível de Cristo, Budha ou até Confúcio. Todos são importantes, sem dúvida, mas caracterizam épocas, não o todo.

É desta matrix, que as pessoas não se libertam!

Abraço,
Zorze

xatoo disse...

Diogo
estás tão viciado nos "lucros", nos "banqueiros" nas "máquinas" e no "fim do trabalho" que, como leigo na matéria não pderias debitar algo com nexo.
E no entanto é tão simples. Citando Marx, "o capital é uma soma de trabalho acumulado" - leia-se: "o trabalho necessário", nada mais que isso, para retirar da natureza a satisfação das necessidades do homem.
Claro que o que torna obsecados os xico-espertos que diabolizam o marxismo é a ausência da possibilidade de auferir lucros numa economia planificada segundo essas necessidades

Diogo disse...

Zorze – Existe de facto um endeusamento de Marx. Ele viveu numa determinada época e tentou interpretá-la às luzes da altura. (Há até quem o acuse de estar ao serviço de poderes menos convenientes). E tens toda a razão: não se pode olhar para o «Capital» como os crentes olham para uma Bíblia Sagrada.

Abraço digno


xatoo,

Lá estás tu a recitar a Bíblia!

miguel disse...

Diogo: "Porque o progresso tecnológico vai continuar a um ritmo exponencial. Gradualmente vai deixando de haver consumidores (pessoas com dinheiro para comprar). E gradualmente vai deixando de haver lucros. Ninguém vai investir na produção seja no que for se souber que ninguém o vai comprar."

Isso é mecanicismo puro, é "pensamento mágico". Está mais perto da religião do que da ciência. Pensar que o "futuro" é o presente exacerbado é esquecer que no "presente" existem ideias opostas sobre o modo como vivemos e como pensamos o modo como vivemos. Isto é, como vivemos de modos desiguais formulamos diferentes concepções sobre o presente. Ora, então, porque é que o "futuro" há-de ser o que prediz o Diogo (e outros) e não o "futuro" do Movimento Zeitgeist ou outro qualquer "movimento adivinhatório"?

No sistema capitalista produz-se para acumular capital, não para satisfazer as necessidades sociais. Se a tese do Diogo fosse verdadeira - progresso tecnológico -> maior produção -> menos produtores -> menos consumidores -> menores lucros -> fim do sistema - o capitalismo tinha sido enterrado numa das várias crises de sobreprodução anteriores.

As crises, como a que vivemos actualmente, são pontos de "limpeza" do sistema, de eliminação do capital mais fraco e de concentração do capital mais forte, de eliminação de produtos excedentários - que não encontram comprador - e de novo incremento na produção de novas mercadorias (e entre estas, de novas "novas tecnologias" e, ao mesmo tempo, de crescimento da exploração do trabalho.

A lei da queda tendencial das taxas médias de lucro não sugere que as taxas médias de lucro cheguem algum dia ao zero, mas que têm tendência para descer, apesar de poderem subir nos períodos de recuperação. Marx observava 6 "contra-tendências" (a esta tendência para a queda das taxas de lucro):
1. intensificação da «taxa de exploração» - mais valor excedente extraído do "trabalho vivo" (por exemplo, aumento dos horários de trabalho);
2. redução do nível médio dos rendimentos do trabalho (por exemplo, redução da massa salarial);
3. manutenção de capital constante já desvalorizado - amortizado - no interior das unidades produtivas e recurso ao "exército de reserva" (mão de obra desempregada);
4. o aumento da produtividade social do trabalho vivo faz reduzir o valor relativo do capital constante na produção de meios de produção. Isto é, redução do custo da produção de novas máquinas e tecnologias necessárias à produção de outras mercadorias (por exemplo, novas máquinas são mais 'baratas' do que aquelas que são substituídas);
5. alargamento do comércio externo; diversificação dos pontos onde são colocadas as mercadorias;
6. aumento do peso relativo do capital financeiro na actividade económica geral (mais acções, obrigações e títulos do tesouro).

Ou seja, uma das características acumulação capitalista é a capacidade de ultrapassar as crises de sobreprodução decorrentes da queda tendencial das taxas médias de lucro, deixando pelo caminho um rasto de desemprego, de miséria, de fome, de desespero e destruição mas também um concentrado de super-luxo, de acumulação estonteante da riqueza socialmente produzida.

A tese da "inevitabilidade" do desaparecimento do capitalismo pela via do aumento do «bem-estar» (ou da 'inteligência artificial' ou da 'automatização total', qualquer coisa excepto a acção determinada e consciente dos homens) é a tese central do reformismo social-democrata: o sistema evolui naturalmente para o seu fim sem que seja necessário revolucioná-lo.

Ricardo disse...

Absolutamente caro Miguel,o capital adapta-se e vai abatendo nas suas crises apenas o capital mais fraco fazendo assim com que o mesmo se acumule sempre nas mãos de alguns(aqui estamos todos de acordo não Diogo?)os quais tem sempre a faca e o queijo na mão para investir sempre em formas cada vez mais modernas de exploração,e a não ser que os humanos explorados ou marginalizados se organizem(reparem bem nas esquerdas!)como um todo ou que as maquinas se reunam de forma inteligente contra os seus donos ,estamos sempre no mesmo Titanic!

xatoo disse...

e quanto a isto o Diogo disse... nicles!

Diogo disse...

Meus caros, desde que o homem é homem, a tecnologia tem vindo a evoluir a um ritmo exponencial, primeiro muito devagarinho e agora a ritmos alucinantes.

O meu avô mais novo nasceu no mesmo ano do primeiro voo confirmado dos irmãos Wright, em 1908. Em meados dos anos setenta estavam sempre simultaneamente no ar [em aviões comerciais] 100.000 pessoas.

A inteligência está também a chegar à máquina a ritmo exponencial.

Posto isto, e com as máquinas a produzirem tudo o que necessitamos, porque motivo, num futuro não muito longínquo, haverão de haver trabalhadores e «acumulação de capital»? Isso faz algum sentido?

miguel disse...

Diogo: "Posto isto, e com as máquinas a produzirem tudo o que necessitamos, porque motivo, num futuro não muito longínquo, haverão de haver trabalhadores e «acumulação de capital»? Isso faz algum sentido?"

O Diogo está a ver mal o filme: o modo de produção capitalista não surgiu com a máquina, esta é que é resultado (e simultaneamente propulsor) do desenvolvimento e expansão das relações de produção capitalistas, foi a necessidade de aumentar a produção de mercadorias para a extracção de mais-valia do «trabalho vivo» que desenvolveu - e desenvolve - novas máquinas. Esse é um dos aspectos revolucionários do capitalismo: o fulgurante desenvolvimento das forças produtivas (meios de produção e força de trabalho) relativamente ao período anterior.

O Diogo insiste em tirar o «sentido do mundo» da sua própria cabeça. Decide que as máquinas produzem tudo quanto necessitamos e que deixa de ser necessário trabalhar, ficando também as máquinas encarregues de assegurar a distribuição equitativa daquilo que produzem segundo padrões de consumo observados. às máquinas caberá também elaborar respostas aos problemas sociais que vão surgindo, uma vez que não tendo «coração» não correrão o risco de tomarem decisões 'erradas'.

Deixe-me perguntar-lhe: quando é que é o Diogo pensa que será o momento em que deixa de fazer sentido trabalhar? Não estou a perguntar a data, estou a perguntar quais serão as condições materiais, objectivas, que terão de estar preenchidas para que o homem se liberte da escravidão do trabalho? O Diogo tem alguma 'checklist'? Como é que isso será feito?

O Diogo sugere que o desenvolvimento das forças produtivas conduzirá 'naturalmente' ("deixa de fazer sentido"... para quem? para o Diogo?) à transformação do modo de produção, em suma, que o capitalismo deixará de ser capitalismo com a naturalidade da queda da folha no outono.

Se por um lado é verdadeiro que o desenvolvimento das forças produtivas aumenta a contradição com o modo de produção (e apropriação/distribuição da riqueza socialmente produzida), também é verdade que o sistema capitalista tem capacidade (e já deu provas disso) para se recompor, incluindo a destruição de bens e força de trabalho excedentárias (pelas guerras e emigração, por exemplo).

De tão fascinado com as máquinas, o Diogo esquece-se que no mundo dos homens são os homens que mandam; mesmo que as relações entre eles sejam mediadas por máquinas, são sempre relações sociais.
Transferir para a máquina o poder que se nega aos homens (de revolucionar e decidir em consciência sobre o seu próprio mundo) é empreitada religiosa em que não me revejo.

Diogo disse...

Miguel - « Deixe-me perguntar-lhe: quando é que é o Diogo pensa que será o momento em que deixa de fazer sentido trabalhar? Não estou a perguntar a data, estou a perguntar quais serão as condições materiais, objectivas, que terão de estar preenchidas para que o homem se liberte da escravidão do trabalho? O Diogo tem alguma 'checklist'? Como é que isso será feito?»

Diogo – Vai fazendo sentido a pouco e pouco com o desenvolvimento tecnológico. Hoje, por exemplo, divido que sejam necessárias mais de três horas a cada um para prover às necessidades de toda a humanidade.


Miguel - «também é verdade que o sistema capitalista tem capacidade (e já deu provas disso) para se recompor».

Diogo – Como é que o sistema capitalista se recompõe da inexistência de consumidores?


Miguel - « mesmo que as relações entre eles sejam mediadas por máquinas, são sempre relações sociais.»

Diogo – Mas essas relações sociais nada terão a ver com trabalho.

miguel disse...

Diogo "Vai fazendo sentido a pouco e pouco com o desenvolvimento tecnológico. Hoje, por exemplo, divido que sejam necessárias mais de três horas a cada um para prover às necessidades de toda a humanidade."

Eu também. Agora peço ao Diogo para convencer o Belmiro de Azevedo que deve reduzir o horário de trabalho dos assalariados nas suas empresas para 3 horas diárias. Digo-lhe mais: 3 horas/dia são menos do que as horas de trabalho necessárias para pagar a força de trabalho, quanto mais para a extração da mais-valia. Não estou mesmo a ver como é que vai convencer os «Belmiros» (a grande burguesia comercial) e os «Salgados» (a grande burguesia financeira) da boa ideia que seria reduzir o horário de trabalho. Sabe o Diogo qual é a única forma de fazer isso? É pela conquista do poder político, pela via coerciva.

Diogo "Como é que o sistema capitalista se recompõe da inexistência de consumidores?"

Não faltam consumidores, existe é excesso de mercadorias (a força de trabalho é também uma mercadoria - em excesso nestes últimos anos - e a redução da compra/aluguer da força de trabalho resulta também na redução do consumo de outras mercadorias). Lembre-se: no capitalismo produz-se para acumular capital, não para satisfazer as necessidades sociais; a eventual satisfação das necessidades sociais é um "dano colateral".

A destruição física das mercadorias em excesso é uma solução recorrente para "relançar a economia". Desde a destruição da manteiga à guerra imperialista, passando pelas migrações, tudo é destruição/reprodução/deslocação de mercadorias.

Diogo "Mas essas relações sociais nada terão a ver com trabalho."

Concordo se acrescentar: nada terão a ver com a necessidade de vender a força de trabalho para sobreviver. O trabalho fez/faz o homem, distingue-o das restantes espécies animais. O que também distingue os homens entre si é o facto de uns terem de vender a sua força de trabalho para sobreviverem e outros viverem da compra dessa força de trabalho; enquanto uns trabalham para viver outros vivem sem trabalhar à custa da exploração do trabalho alheio.

Anónimo disse...

oi

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