terça-feira, fevereiro 10, 2009

Mário Crespo no país do faz de conta


Artigo de Mário Crespo

Está bem... façamos de conta

Jornal de Notícias - 2009-02-09

Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport. Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal. Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?). Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.

Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês. Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível. Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu. Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média.

Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação. Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo. Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva". Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda). Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport.

Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal. Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade". E Manuel Alegre também. Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus. Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores.

Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República. Façamos de conta que não há SIS. Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso. Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos. Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas. Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja. Votemos por unanimidade porque de facto não interessa. A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.



Comentário:

Façamos de conta que certos apêndices nasais não sofrem erecções cada vez mais prolongadas. Façamos de conta que não é possível inalar viagra ad infinitum. Façamos de conta que o dilatador nasal Rhinostretch possui limites quânticos. Let's pretend a pecker not to lengthen as much as money can buy...

Pinocchio - ilustração de Enrico Matanzzi
na 1.ª edição de "Le Avventure de Pinocchio - Storia di un buirattino", Firenzi, 1883


Imagem rapinada do blogue Portugal Profundo
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10 comentários:

Zorze disse...

Vivemos a "Alice no País das Maravilhas" na sua plenitude, pena é, que seja da pior forma, a da miséria desgraçada.

Abraço,
Zorze

João disse...

Alguém que esfregue o artigo do Mário Crespo na cara do burguês mimado Miguel Sousa Tavares.

xatoo disse...

há 3 coisas que não podemos deixar de nos dar-mos conta
1 - que o Crespo, homem de mão de Pinto Balsemão, foi de repente promovido a um mediatismo inesperado. O que o Crespo diz já o homem de rua mais ou menos sabe por intuição, só que não tem sítio nem mecanismos onde o possa dizer
2 - que a Mentira, a Prepotência e a Repressão são hoje práticas institucionalizadas pelo Estado neoliberal. É a 2ª Emenda do Patriotic Act alterada pelo Bush em estado de globalização imposta.
3 - que a maioria das pessoas ignoram ou são completamente indiferentes a estas situações. Daí que lhes dê um certo conforto (conformista) ouvir o Crespo (e outros) a barafustar (enquanto fazem glamourosas carreiras profissionais dentro do sistema)

contradicoes disse...

Votemos sim mas é preciso votar. As capitães de Abril não derrubaram a ditadura para que tudo ficasse na mesma como efectivamente está a acontecer mas por culpa exclusiva do eleitorado que não sabe escolher os seus políticos. Sim porque eu não acredito na solução da abstenção por maior que ela seja não muda o quadro político-governativo.

Anónimo disse...

Ai se os votos em branco contassem e tivessem assento parlamentar, tínhamos o emi-circo vazio e sem palhaços.

Optio

Ana Camarra disse...

Diogo

Costumo dizer que este é o Pais de faz de conta, faz de conta que o Primeiro Ministro é Engenheiro, faz de conta que existe igualdade de oportunidades, chove dois dias há inundações, não chove dois dias há seca, no entanto, no entanto ainda temos capacidade de ver o mundo ao nosso redor, de assumir que não queremos fazer de conta queremos de facto concretizar o país com que sonhamos e podemos faze-lo.

Beijos

Luis Grave Rogrigues disse...

Diogo:

Segue o link deste comentário e vê que eu também concordo contigo!

Helena Corado disse...

Enviaram-me o seu texto: "Votar em Branco", dizendo que eu tinha mais um aliado no " VOTO EM BRANCO", publiquei o seu texto no meu recente Blog
" http://helenacorado.blogspot.com" escrevi este texto que aqui lhe envio um pouco:
"Queria que no meu País, Portugal, não houvesse fome, não houvesse corrupção, não houvesse desemprego, que as crianças e os velhos pudessem ser felizes, uns porque estão a começar a vida e outros porque a estão a acabar.
Queria um país onde a CULTURA fosse uma arma, a iliteracia não existisse e o analfabetismo fosse impensável.
Queria que a Justiça não fosse injusta, que a verdade não fosse mentira, que o amor não fosse ódio, que o poder não fosse ganância.
Queria ACREDITAR que o meu GOVERNO fosse UMA VERDADE... etc"
Se quiser continuar a ler o texto tem o Blog.
Obrigado.
Helena Corado

mariahenriques disse...

mário crespo, a decepção das decepções.: Esta estória do Mário crespo já não convence ninguém que tenha capacidade...

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Anónimo disse...

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