segunda-feira, março 06, 2006

Mundo cão



A foto vencedora do prémio Pulitzer tirada em 1994 durante a fome no Sudão. A imagem mostra uma criança com fome, rastejando em direcção ao campo das nações Unidas, a um quilómetro de distância.

A ave de rapina espera que a criança morra. Esta fotografia chocou o mundo inteiro. Ninguém sabe o que aconteceu à criança, inclusive o fotógrafo Kevin Carter que abandonou o local logo após ter tirado a foto. Três meses depois, Kevin, o fotógrafo, suicidou-se.


Do fotógrafo

Kevin Carter (1961-1994) fazia parte de um grupo de quatro fotógrafos, jovens, de classe média. Os outros três eram: Greg Marinovich, Ken Oosterbroek e João Silva, um moçambicano educado em Portugal. Tinham o apelido de The Bang Bang Club, dado pela imprensa internacional da África do Sul, pois eram destemidos e às vezes extremamente descuidados para conseguir imagens violentas da guerra.

A história dos quatro fotojornalistas sul-africanos foi contada no livro The Bang Bang Club, por Greg Marinovich, co-assinado por João Silva. Conta a saga do grupo que, diariamente, se dirigia às cidades próximas a Johanesburgo para fotografar a fase mais violenta da luta entre os partidários do ANC (African National Congress) de Nelson Mandela e os do líder zulu Buthelezi, no final do apartheid.

As imagens renderam prémios internacionais e fama aos quatro fotógrafos, porém, com custos emocionais aos dois sobreviventes do grupo, além da morte de Ken Oosterbroek, primeiro sul-africano a ganhar um Pulitzer, ocorrida durante um dos tiroteios, à vista de seus companheiros. Ken faleceu em Abril de 1994 e Kevin Carter suicidou-se aos 33 anos, em Julho do mesmo ano, asfixiado com os gases do escape do carro.

Os longos períodos passados em situações extremas e de conflitos dificultaram o convívio social no dia-a-dia. Como conta Greg no livro: "Quando se tenta recebe-se um olhar de incompreensão ou asco. Só conseguimos falar dessas coisas entre nós". Kevin dizia que sofria de depressão e pesadelos.

Em 1993, João e Kevin foram ao Sudão cobrir o genocídio de tribos cristãs pelo governo sudanês. João já tinha percorrido a aldeia de Ayud tirando algumas fotos. Kevin percorreu a mesma aldeia e tirou a foto da menina. Disse que estava fotografando uma criança, mudou de ângulo e, de repente, viu o urubu atrás dela. Disse que tinha enxotado o abutre. João já tinha fotografado a mesma menina, mas sem a ave.

A fotografia, que foi adquirida pelo New York Times, ganhou o prémio Pulitzer de 1994, e deu mais resultado do que qualquer outra reportagem para chamar a atenção sobre a fome no continente africano. Porém, levantou a questão que acompanhou o fotógrafo até sua morte. O que ele tinha feito para salvar a criança? Todos queriam saber, e Carter dava diferentes versões. Chegou a declarar, em uma das suas últimas entrevistas, que odiava a foto.

A respeito do tipo de trabalho que faziam em campo, Greg, no livro, faz uma reflexão sobre o assunto: "João e eu também vimos muitas crianças morrer à nossa frente, na Somália, e só fotografávamos. Tragédia e violência produzem imagens fortes. Somos pagos para isso. Mas há um preço embutido em cada imagem dessas: um pedaço da emoção, da vulnerabilidade, da empatia que nos torna humanos se perde a cada vez que accionamos o botão da câmara."

16 comentários:

Sílvia disse...

Fico arrepiada com este mundo cão. Um abraço.

H. Sousa disse...

Já conhecia, creio que a foto e autor celebrizaram-se, mas tristemente. E dizemo-nos humanos...

contradicoes disse...

Esta foto revela a verdadeira realidade do flagelo da fome que atinge essencialmente vários paises
africanos, para além doutros que se debatem com idêntica situação. Tudo isto perante a indiferença do capitalismo selvagem que domina o poder político, instituido nos respectivos paises. Com um abraço do Raul

carlosnarciso disse...

Colocar a questão no que fez o jornalista para salvar a criança é de uma estupidez atroz... com esta foto, ele tentou indignar consciências e provocar uma onda de solidariedade... fez mais do que nós todos juntos, fez mais do que todos os que o criticaram... e ainda teve a coragem de se suicidar, quando percebeu que tinha feito pouco, apesar de tudo.
Eu também odeio esta foto... porque sei que de pouco serviu. Hoje, as mesmas cenas continuam a ser fotografadas no Sudão e noutros locais do Mundo. Isso é que é uma merda...

CN disse...

de qualquer modo... bom post.

augustoM disse...

Depois de olhar para a fotografia, não há mais nada para ver ou dizer, ela encerra tudo o que de mais terrível tem a humanidade, a sua própria desumanidade.
Quanto aos fotófrafos, bem hajam todos os contribuem para mostrar o lado negro da humanidade.
Um abraço. Augusto

maloud disse...

Isto é um horror e nós aceitamos este horror. Vamos pagar caro, porque, um dia, estes destroços humanos cobrar-nos-ão a indiferença.

Leila disse...

tem tudo pena da criança mas ninguém deve ter feito algo para lhe aliviar os sentidos ...estou farta de ver coisas de género ... é puro interesse económico ...ganharam os senhores jornalistas o prémio mas a criancinha ficou por lá ...prémio deveria receber quem dela tratasse ... ou não é assim ? envergonho me por esta massa de gente, que só vê com os olhos da cara mas que não solta emoção , não abre os braços e abraça sem medos e não resolve problemas ...

Anónimo disse...

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BRUNO disse...

isso é insenção, bárbaro!

Zbornak disse...

Respondendo ao carlosnarciso... Sim, é verdade que o fotógrafo faz muito só com o poder da sua câmara. No entanto, O Carter poderia ter tirado a foto, que chocaria o mundo de qualquer forma e seguidamente ter feito algo mais prático e concreto como pegar na menina e levá-la ao campo das nações unidas. É muito triste que não o tenha feito. Chamar de coragem à vergonha que ele sentiu e ao suicídio dele é que é estúpido. Numa entrevista ele confessou ter esperado 20 minutos para que o abutre abrisse as asas (o que não chegou a fazer)para ter uma foto mais interessante e não abandonou logo a área. É preciso ter muita crueldade no sangue para se assistir a uma cena destas sem agir. Conheço esta fotografia já há bastante tempo e não a odeio, principalmente porque demonstra nitidamente o quão vil consegue ser a espécie humana, inclusivamente quem focava a objectiva.

Anónimo disse...

Somos todos culpados.

Anónimo disse...

Como é capas um ser humano de fazer uma coisa dessas e disser que são pagos pra isso!e ainda por cima receber um prêmio.Um prêmio por ganhar dinheiro as custas do sofrimento de uma criança.Será que o dinheiro vale mais que avida de um ser humano!

Anónimo disse...

O fotografo não podia ter salvo a criança. Estas crianças não tem salvação. Com mais comida que lhe dessem ela ia acabar por morrer.
Estas criança nascem com deficiências cerebrais.
Nascem para morrer cedo. Isto é cruel, mas é a pura verdade.

FLAVIO-LE disse...

''FECHARAM OS OLHOS E NÃO QUEREM VER AVES DE RAPINA ESPERAR CRIANÇINHA MORRER''

Anónimo disse...

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