quinta-feira, outubro 26, 2006

Se Teixeira dos Santos não é um simples pau-mandado de Sócrates, então é um pau-mandado de quem?

No Jornal Expresso – 21/10/2006 - Fernando Madrinha, com baba a escorrer-lhe da boca, desfaz-se em elogios ao ministro das finanças Teixeira dos Santos:

Um ministro anti-herói


«Pelo que já se vai percebendo, Teixeira dos Santos não é um simples pau-mandado de Sócrates»

«Hoje, está claro que a bonomia e a humildade com que [o ministro das finanças Teixeira dos Santos] se apresenta aos portugueses não são sintomas de uma personalidade fraca; são traços de carácter genuínos que definem, sem artifícios, um homem sério e credível.»

«convicção e a segurança, mas também a humanidade com que fala de um orçamento pesado para a generalidade dos portugueses, em especial para os funcionários do Estado, dão de Teixeira dos Santos uma dimensão que não é a de um simples “pau-mandado de Sócrates”. E percebe-se, como sucedeu na entrevista concedida a Judite de Sousa, na quinta-feira, que a sua atitude é a de um homem de missão. Não a de um herói das Finanças que tem a fórmula do milagre português, mas a do anti-herói: alguém com forte sentido de serviço público, sem mais pretensão que não seja a de fazer o seu melhor para garantir que os sacrifícios hoje impostos terão valido a pena no fim do mandato. Essa é a grande questão que os portugueses se colocam. E a recusa de embarcar em políticas eleitoralistas daqui a dois anos se o défice não estiver consolidado abaixo dos três por cento é um compromisso do ministro das Finanças que também importa reter. Através dele, será possível aferir na altura se o Governo e, em especial, o primeiro-ministro, partilham esse compromisso.»

«Teixeira dos Santos pode chegar derrotado a 2009, ou até sair do Governo antes dessa data. Mas a imagem que vai projectando não é só a de um bom homem; é também a de um ministro capaz de inspirar confiança



Entretanto, no Diário Económico – 26/10/2006:

«Orçamento de Estado 2007 2006 - TGV e transportes absorvem metade do investimento»

«Mais de metade do programa de investimentos do Estado, terá como destino a rede de transportes. De uma assentada, o novo Orçamento entrega 2.514 milhões de euros (50,5% do PIDDAC) ao programa 24 – "Transportes" - , metade dos quais (1.268 milhões) serão destinados à integração do país nas redes transeuropeias. Por outras palavras, um quarto do PIDDAC terá como destino esta sub-rubrica, onde predomina o TGV

«Ontem, na apresentação do OE, Teixeira dos Santos confirmou estas previsões com uma certeza "a OTA e o TGV não estão em risco", sublinhou, mesmo sem se saber qual será o desenho final destes projectos ou o grau de interesse dos privados no seu financiamento.»



Comentário de Miguel Sousa Tavares (na mesma edição do Expresso):

«Em primeiro lugar, grave não é que se diminua o investimento em 3%: grave é que, enquanto se vai cortar em coisas que são importantes para estimular a economia ou defender a justiça social, se mantenha a aposta nos projectos megalómanos e irresponsáveis da Ota e do TGV para Madrid. Por que é que o PSD não faz disso cavalo-de-batalha? Porque, tal como sucede com o PS, nesses ruinosos projectos estão envolvidas as empresas que lhe garantem o grosso dos seus financiamentos, para onde os seus dirigentes esperam retirar-se mais tarde ou que os seus deputados/advogados irão patrocinar, após cessada a sua passagem pela política?»

10 comentários:

Biranta disse...

Mas que mania que essa gente tem de culpar OTAs e TGVs de todos os nossos males, numa de assobiar para o lado!

Não sou a favor nem contra OTA e TGV... porque não aprofundei convenientemente essas questões e porque as opiniões como estas me parecem suspeitas e não credíveis... visto que não dizem o essencial.

Por acaso não são a OTA e o TGV que estão a sugar mais de 20% do valor da despesa corrente do Estado, ACTUALMENTE. São os vencimentos de gangsters de alguns "Altos funcionários"; as reformas milionárias de alguns inúteis e perversos que ajudaram a afundar o país; são o número exagerado de deputados e o facto de estarem no parlamento 87 deputados que NÃO FORAM ELEITOS (VALORAÇÃO DA ABSTENÇÃO). E isto é apenas uma parte do esbanjamento: ainda falta a parte de leão dos circuitos da corrupção, do compadrio e do tráfico de influências, para além do despesismo sem controlo e sem regras que prolifera numa boa parte dos "estabelecimentos" do Estado.
Ter-me-ei esquecido de alguma coisa?

Porquê então centrar as denúncias" nos males futuros (OTA e TGV) e silenciar a enormidade dos males actuais e passados?

Coitados! Falta-lhe a coragem... ou será a isenção e imparcialidade?

Anónimo disse...

Completamente de acordo senhor biranta.

Embora se possa (alias deve-se) questionar a oportunidade dos investiemntos em causa.

Não tinha pensado nos 87 da abstenção

Sauridio

Sofocleto disse...

Não estou totalmente de acordo contigo Biranta. Só o TGV representa quase 1% do Orçamento Geral do Estado para 2007. É muito dinheiro, que os grandes empreiteiros internacionais e nacionais assim como a banca vão empochar. São eles aliás que fazem eleger «os nossos políticos». Sem o seu apoio, os Sócrates nunca chegariam lá acima. A «nata política portuguesa» não passa de um investimento de capital do qual se espera obviamente retorno. E ele aí está!

É evidente que há vencimentos, reformas, corrupção, tráfico de influências, e toda uma série de situações escandalosas que comem igualmente uma boa fatia do orçamento. Há que lhes pôs cobro o mais rapidamente possível (valorando a abstenção, diminuindo drasticamente o nº de deputados, abandonar o método de Hondt que favorece maiorias, etc).

Mas o TGV e a OTA são aberrações tão gritantes que até os outros poderosos se insurgem. É por isso que Miguel Sousa Tavares diz que «nesses ruinosos projectos estão envolvidas as empresas que lhe garantem o grosso dos seus financiamentos [aos partidos], para onde os seus dirigentes esperam retirar-se mais tarde ou que os seus deputados/advogados irão patrocinar, após cessada a sua passagem pela política»

Se queres aprofundar a questão do TGV aconselho-te este site:

http://www.maquinistas.org/pdfs_hos/modernizacaocf.pdf

contradicoes disse...

As opções políticas para os grandes investimentos em Obras Públicas, levam a suspeitar se num futuro próximo esses promotores não acabam por ser eles também beneficiados, quando terminadas as funções governativas. A experiência tem sido fértil nessa demonstração.Um abraço do Raul

Sofocleto disse...

Portugal tem uma alternativa ao TGV. Para Carlos Cabrita, o Alfa-Pendular poderá ser a melhor solução em termos de desenvolvimento regional em relação aos restantes meios de transporte, uma vez que usa o mesmo traçado da actual rede ferroviária. A ligação a Espanha deverá ser feita através de Alfa-Pendulares, uma vez que a distância não justifica o avultado investimento que o TGV requer.
"Os Alfa - Pendulares têm de ser altamente rentabilizados. Não nos podemos dar ao luxo de ter comprado comboios de grande velocidade e tê-los a circular a baixa velocidade", conclui.
Os autarcas portugueses acreditam que a paragem do TGV nas suas cidades será sinónimo de desenvolvimento. Carlos Cabrita ironiza e afirma que se tal se verificar "Portugal tem de criar uma rede de TGV lento".

http://www.urbi.ubi.pt/010522/edicao/68reg_tgv.html

Barão da Tróia II disse...

Megalomania e Portugal são uma espécie de sinónimo. Bom fim de semana

Anónimo disse...

O TGV nacional é um crime. A única coisa que tem lógica é uma ligação a Madrid, e o resto do país ser servido pelos actuais Alfa's.
Somos um país demasiado pequeno para agora entrar num projecto de 8 mil milhões.

A OTA, é uma questão diferente. Lisboa precisa mesmo dum aeroporto novo, o actual não serve. Tem duas pistas, mas cruzadas, tem grandes limitações de estacionamento de aeronaves, e a disposção dos termnais não é funcional, levando a atrasos permanentes, nos voos, nos passageiros e na carga. Actualmente no Verão já se passam muitas semanas em capacidade máxima.

O problema da OTA quanto a mim é a localização. A zona de Rio Frio/Poceirão era muito melhor. Mais perto de Lisboa, e já servida de boas autoestradas e ponte Vasco da Gama, por sinal, estruturas longe da capacidade máxima. O grande problema desta zona é ambiental, são os tais 300 mil sobreiros. Em contrapartida, há lá terrenos que são do Estado, o campo de tiro de Alcochete. Centenas e centenas de hectares. E a própria construção custaria metade do da OTA, e sem constragimentos na expansão que a OTA terá daqui a 30 ou 40 anos. Aliás, por incrivel que pareça, a OTA quando construida já será um aeroporto com limitações de operação, dada a orografia do terreno.

Mais informações sobre a alternaova da OTA podem ser lidas aqui:

Mas decidiu-se pela OTA, paciência, o que se há de fazer ? De qualquer forma, a OTA nunca será um pesadelo como será o TGV. Os aeroportos são lucrativos, e penso que neste caso os privados irão suportar a maior parte do custo. Mas vai sobrar para o Estado a factura de construir novas autoestradas e linhas de comboio para o novo aeroporto numa zona já muito saturada a nível de transportes. Ao contrário do Poceirão, onde já há estruturas viárias que neste momento estão sobredimensionadas.

Alguns links:


Alcochete e Poceirão são alternativas à Ota


Tempo de vida da Ota joga a favor da Margem Sul


Terrenos em Alcochete a custo zero

Nova ponte facilitará acessos ao Poceirão

Já o TGV é uma loucura. Um bilhete de ida e volta, Lisboa-Braga, fica hoje nos Alfa's a cerca de 40/50€. Quanto custará o TGV ? 100/150€ ? Isto numa altura em que podemos ir de avião para várias cidades da Europa a preços mais baixos em Low-cost ? Não vejo grande viabilidade no TGV, será um investimento de 8 mil milhões para os comboios andarem vazios ...

Biranta disse...

Na verdade, eu também não sou a favor da OTA e TGV, em abstracto (e, se calhar, nem no concreto).
Parece-me óbvio que, em matéria de TGV, só se justifica a ligação a Madrid... e talvez não de imediato.

A questão é que uma parte dos "notáveis" que se pronunciam contra e denunciam os "compadrios" podem estar a fazê-lo (muito provavelmente estarão) porque quereriam que fossem os seus comparsas a "fazer a obra" e os seus compadrios a beneficiar... É isto que a experiência nos diz.

Por isso eu acho que há que atacar as questões básicas para prevenir toda e qualquer corrupção e compadrios, punindo e extinguindo os resultados dos compadrios do passado e do presente.

Além disso, não se moralizando nestas questões básicas (dos vencimentos, reformas, acumulações, do número de deputados, da valoração da abstenção, etc.) o mais provável é que se "poupe" na OTA e TGV para esbanjar doutro modo qualquer beneficiando, por outras vias, os mesmos interesses mafiosos... quiçá em pequenas parcelas para disfarçar e dispersar os esforços opositores...

Sofocleto disse...

Nem a ligação a Madrid:

(AV) - Alta Velocidade nos caminhos-de-ferro (TGVs)

(VE) - Velocidade Elevada nos caminhos-de-ferro (tipo pendulares)

Com o TGV:

Não há mercadorias para ninguém:
Em Espanha, a AV não dá passagem aos comboios de mercadorias.

Não nos vai ligar à Europa:
A área de influência da AV, a partir de Lisboa, pouco irá ultrapassar Madrid, o que significa que os passageiros provenientes de Barcelona (ou outro qualquer ponto da Europa) continuarão a privilegiar o avião.

É quatro vezes mais cara:
A AV exige vias inteiramente novas, de raiz, com características muito especiais e de alta tecnologia, o que as torna muito caras (três a quatro vezes o custo das primeiras) a que deveremos acrescentar encargos de manutenção e de exploração muito mais elevados.

Poupa 16 minutos em território português:
O percurso entre estas duas cidades deverá rondar os 620 km, dos quais cerca de 180
km em território português. Conforme admitimos anteriormente, em AV, este trajecto deveria demorar, na sua totalidade, 2h 48m, sem qualquer paragem intermédia. Em VE, conforme está previsto no PEIT, o mesmo percurso seria efectuado em 3h 45m ou seja, cerca de uma hora mais; nesta hipótese, o agravamento do tempo de percurso em território português será unicamente de 16 minutos.

http://caminhosferroaltavelocidade.planetaclix.pt/

lobices disse...

...TGV de Lisboa - Porto em menos apenas 15 minutos que o Alfa
...parando, na mesma, em Aveiro e Coimbra (com uma possivel e futura paragem na Ota, ou seja, mais uma paragem para além do Alfa actual, por exemplo o 132 que só pára em Aveiro e Coimbra fazendo Porto - Lisboa em 2 h. 51 m.)
...para quê o TGV...?
...
...mais: para quê um TGV entre Porto e Vigo, passando por Braga e Valença (não podendo, neste caso, andar a mais de 200 à hora). Não chega o Alfa?
...um TGV Lisboa - Madrid ainda aceito; o resto é para inglês ver e português gastar...
...