segunda-feira, maio 19, 2008

Pacheco Pereira - A relevância do Terrorismo na imensa irrelevância mediática



Ut humiliter opinor

Pacheco Pereira: «Algures, perto de si, acabará por explodir uma bomba, flutuar uma doença, fluir um veneno


Excerto de um artigo de José Pacheco Pereira no Blogue Abrupto e no jornal Público - 17 de Maio de 2008:

FUTEBOL, FUTEBOL,
FUTEBOL
, FUMEI, PEQUEI, VOU DEIXAR DE FUMAR, FUTEBOL, ESMERALDA ENTRE O PAI AFECTIVO E O PAI BIOLÓGICO, FUTEBOL, FUTEBOL, DIRECTO DO ACIDENTE NA A1 QUE PROVOCOU TRÊS FERIDOS, FUTEBOL, OS PAIS DA PEQUENA MADDIE, FUTEBOL, FUTEBOL, TENHO UM CANCRO - TIVE UM CANCRO - VOU TER UM CANCRO, FUTEBOL, FUTEBOL, FUTEBOL, FUTEBOL, FUTEBOL, FUTEBOL
.

«Este título podia continuar por todas as páginas do Público. Se o Público fosse feito como um "noticiário" televisivo, o que felizmente não é, todas as suas páginas seriam variantes disto, com mais de mil futebóis e mais crimes, doenças e acidentes. Na página 15, haveria uma pequena coluna com os números trágicos da nossa economia; na página 24, uma faixa minúscula, como a publicidade mais barata, num fundo de página, diria que morreram na China 50.000 pessoas num terramoto; na página 40, perdida numa notícia de página inteira de um treino do Vitória de Guimarães (…)»

«(…) O sítio do noticiário político são os programas de humor, o sítio de "sociedade" são os programas da manhã e os do jet set, o sítio da economia é o Preço Certo (…).»

«(…) [Isto] É um sinal de descontrolo cívico, de atraso político e social, de retrocesso da nossa democracia e da nossa vida pública. Não é só na economia que estamos a andar par atrás, é na cabeça. A cultura da irrelevância está a crescer exponencialmente e todos já esperam que o mesmo aconteça nos próximos meses, em que mais uma vez o país vai parar porque há um Campeonato.»

«(…) Mas não é só as vezes em que directos do futebol são o telejornal, é que durante três, quatro dias não nos conseguimos ver livres daquilo. Até aparecer outro directo mais saboroso, temos que assistir a "noticiários" que repetem ad nauseam as mesmas imagens, as mesmas declarações, seguidas por milhões de palavras "escalpelizando" os "factos", em tudo o que é programa de actualidade pela noite fora. O circo está montado na nossa cabeça e nele fazemos o papel do urso amestrado ou dos macaquinhos. Nem sequer o do palhaço pobre.»

«Mas não é só o futebol, é tudo o resto. É o mundo das telenovelas, com o seu sangue, suor e lágrimas, transformado em "casos", o caso Maddie, uma coisa abstracta e virtual, sem corpo real, já sem a violência do crime, já transformado numa soap opera de plástico, o caso Esmeralda, uma competição absurda à volta de uma menina imaterial, tão abstracta e morta na virtualidade como a "pequena Maddie" (…)»

«A cultura da irrelevância está impante como nunca, espectáculo e pathos brilham no sítio que anteriormente ainda era frequentado, de vez em quando, pela razão, pelo bom senso, pela virtude. Esta é, obviamente, a melhor comunicação social, a melhor televisão para os governos, e o actual cuida bem que não lhe falte dinheiro para as suas quinhentas horas de futebol. Compreende-se: a bola não pensa, é para ser chutada



Queixa-se, com razão, Pacheco Pereira, da total irrelevância da "informação" que nos é facultada pelos media: Futebol, a pequena Esmeralda, Futebol, fumei no avião, Futebol, a pequena Maddie, Futebol, acidente na A1, Futebol, Futebol e Futebol.

Mas, nesta lista, Pacheco esquece um tópico recente que nos tem sido martelado até à medula nos últimos sete anos: o Terrorismo. Eis as parangonas diárias nos jornais e televisões:

«20 Jan 2008 ... José Sócrates admite que ameaça terrorista é para levar a sério».

«A Comissão Executiva da União Europeia aconselhou o aumento do controle nos aeroportos, após o alarme de atentados terroristas em voos entre a Inglaterra».

«As autoridades suíças e austríacas estão sob alerta perante a ameaça de eventuais atentados terroristas durante o Euro 2008».

«11 Jan 2008 ... Os controladores aéreos portugueses interceptaram uma conversa onde foi detectada uma ameaça terrorista contra a Torre Eiffel».

«09 de Fevereiro de 2007 - Portimão debate impacto da ameaça terrorista no turismo».

Et Cetera...


Embora Pacheco Pereira tenha cuidadosamente evitado referir a lavagem cerebral «terrorista», que é diariamente notícia de primeira página dos jornais e televisões, Pacheco abraça-a com paixão e martela-a com o mesmo entusiasmo de um jornalista imberme ao escrever um artigo de página inteira sobre um treino do Vitória de Guimarães.

Excerto de um texto de Pacheco Pereira sobre a ameaça terrorista no seu blogue Abrupto - 15/7/2005:

«Algures, perto de si, acabará por explodir uma bomba, flutuar uma doença, fluir um veneno

«É por isso que não basta bater no peito e dizer que “somos todos londrinos” e na volta da esquina já estar a discutir as tenebrosas propostas do Sr. Blair para limitar direitos de privacidade das mensagens porque isso facilita a vida aos terroristas. Na volta da memória, escarnecer o Patriot Act, essa “fascização da América” como já lhe ouvi falar, atacada por tudo que é burocracia bruxelense e suas extensões nacionais, como se, sobre a dupla pressão dos autocarros que explodem, e da insegurança popular, não se tenha também que ir por aí, com a prudência e as cautelas que as democracias têm que ter por tal caminho.»

«É também por isso que poucas vezes como nos dias de hoje se vê o grau de demissão do pensamento ocidental como nestes momentos. Mário Soares é entre nós o principal “justificador”, introduzindo com displicência, dele, e complacência de muitos, todos os temas dessa culpa auto-punitiva e demissionista.»

«As únicas explicações que me interessavam, as únicas “causas” que eu queria perceber, eram aquelas que me permitiam derrotá-lo funcionalmente, as que eram instrumentais para acabar com ele e com os seus

«É importante perceber que, mesmo nas questões onde o meu pensamento lhe admitia “razão”, essa razão só pode ser defrontada depois da eliminação dele - válido para Hitler, ou Estaline, ou Bin Laden.»

«Voltemos à questão da guerra. Eu bem sei que há quem ache que não está em guerra, e que a expressão “guerra” para caracterizar o que se está passar é enganadora. Talvez valha a pena discutir a terminologia, porque ela tem claras desadequações, como aliás, o quadro legal no direito internacional da guerra, para defrontar este tipo de combate. Mas a mim não me choca chamar guerra a um conflito que tem as características de ser global, da Indonésia, à Índia, á China, às antigas republicas soviéticas da Ásia Central, da Europa toda, aos EUA, que tem objectivos “não negociáveis” por incompatibilidade total de visões do mundo culturais e civilizacionais

«Acima de tudo, não compreendo porque razão um terrorismo apocalíptico, que tenta por todos os meios ter as armas mais pesadas, nucleares, químicas e bacteriológicas, para garantir o seu Armagedão sacrificial, que tem como objectivo a guerra total, ou seja a aniquilação de milhões dos seus adversários, haja os meios para isso, não tem que ser combatido com tudo o que tenho à mão: tropas, polícias, agentes de informações, à dentada diria um velho inglês da Home Guard, daqueles que esperava a invasão da sua ilha e achava que sempre podia levar um “boche” consigo. E aí o “não se limpam armas”, é de um simplicidade brutal. Ou nós ou eles


O que Pacheco Pereira critica na cultura da irrelevância jornalística, não critica na cultura da propaganda. E esta propaganda, arquitectada para justificar guerras genocidas pelo controlo do petróleo e coarctar direitos civis, é infinitamente mais maligna do que uma entrevista de três páginas ao treinador do Trofense. Porque, na realidade, os títulos dos nossos meios de comunicação assemelham-se mais a isto:

FUTEBOL, TERRORISMO,
FUTEBOL, FUMEI, PEQUEI, VOU DEIXAR DE FUMAR, AMEAÇA TERRORISTA, ESMERALDA ENTRE O PAI AFECTIVO E O PAI BIOLÓGICO, BIN LADEN, FUTEBOL, DIRECTO DO ACIDENTE NA A1 QUE PROVOCOU TRÊS FERIDOS, AL ZAWIRI, OS PAIS DA PEQUENA MADDIE, FUTEBOL, ATENTADO TERRORISTA, TENHO UM CANCRO - TIVE UM CANCRO - VOU TER UM CANCRO, FUTEBOL, BOMBISTA SUICIDA, FUTEBOL, ISLAMOFASCISMO, FUTEBOL, TERRORISMO
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É compreensível. Para Pacheco o terrorismo não é para ser pensado, é para ser entranhado. Nem que seja «à dentada»!
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16 comentários:

Carlos Portugal disse...

Caro Diogo:

Isto quando se sabe que a maior parte dos atentados «terroristas» são perpetrados pelos serviços secretos do próprio país atingido, com finalidades políticas, económicas e sociais. Depois, são presos «os suspeitos do costume», como no final do filme Casablanca.

Bin Laden está morto desde Dezembro de 2001 (num hospital militar americano no Dubai), a Al-Qaeda é o nome de um grupo de black-ops da CIA, mas continuam a chover os dislates sobre «avisos» e «ameaças» da Al-Qaeda, de um Bin Laden que muda de cara, de idade e de voz a cada novo vídio (cada vez mais novo, note-se), numa campanha imbecil de intoxicação de mentes.

É o «entranhamento por imersão total», diz bem.

Cumprimentos.

Carlos Portugal disse...

Queria escrever, obviamente «vídeo». Desculpe.

alf disse...

meu caro, e não se lembrou de usar a palavra "terrorismo" em toda a sua extensão: faltou referir que martelam com "aquecimento global", "buraco do ozono", a ameaça de uma qq nova "gripe das aves", etc.

Mas eu não estou de acordo com a critica ao que a TV fornece - ela fornece aquilo que as pessoas querem ver.

Eu não sei nada disto de que o PP fala porque não gasto tempo a ver telejornais. As verdadeiras noticias que me podem interessar serão menos de 1 por semana, o resto é irrelevante. DE quantas noticias da semana passada se conseguem lembrar?

Mas quando calha ver tv por desfastio e vejo o telejornal, até acho divertido - muito mais divertido do que a TV da Dinamarca, onde estive há tempos, e que era uma chatice: as noticias eram duas ou tres e o resto da programação eram séries manhosas. Nada de emocionante. Nem imaginam como é depressiva uma tv que só passa séries.

Tenho tb pessoas amigas que vivem em França e que qd cá vieram souberam criticar esta palermice da TV nacional, com as suas telenovelas. Em França é que era bom, que havia muitos filmes. Agora, veem a televisão portuguesa em França...

É, os intelectuais sempre tiveram este problema... não percebem nada do ser humano...

Diogo disse...

Caro Carlos de Portugal,

Infelizmente grande parte das pessoas ouvem estas «ameaças terroristas» diárias e não conseguem perguntar-se de onde é que elas virão. Tal é o matraquear mediático que não conseguem perceber que o Bin Laden teria de ter as capacidades de um super-homem para fazer aquilo que lhe apontam. É um zoar constante que se vai entranhando e estupidificando.

Diogo disse...

Alf: «Mas eu não estou de acordo com a critica ao que a TV fornece - ela fornece aquilo que as pessoas querem ver.»


Não concordo Alf. Os Media, além dos faits divers, só passam propaganda encapotada: é o terrorismo, é o aquecimento global, é a vitalidade dos mercados, é a globalização incontornável e competitiva, é a gripe das aves, é a melhor localização das pontes e dos TGVs (sem nunca se perguntarem se são necessários para alguma coisa), são as quedas dos lucros dos bancos face ao trimestre anterior, são os pseudo-debates, etc, etc, etc.

É propaganda, atrás de propaganda, atrás de propaganda, e futebol, claro!

Rikhard disse...

excelente post Diogo, já por diversas vezes respondi a posts do JPPereira, ele como é habitual só vê numa direcção, a que lhe interessa.

o dr JPP que é tão letrado e com uma biblioteca vastissima se calhar faltam-lhe alguns exemplares, tais como de Daniel Ganser, David Ray Griffin, Nafeez Ahmed, Webster Tarpley, entre outros, pode ser que acordasse.
Não creio, uma vez que ele sabe perfeitamente que o que faz é pura desinformação.

rjnunes

Diogo disse...

Caro Rikhard,

O Pacheco Pereira sabe perfeitamente o que está a dizer e com que objectivos. E acredito que seja pago para isso.

Zorze disse...

Nesta altura é sempre bom rever o vídeo Zeitgeist, apesar de não ser perfeito, tem lá quase tudo.

Um abraço,
Zorze

Diogo disse...

É exacto Zorze. Muita gente vive quase exclusivamente dentro da caixa mágica. Totalmente alienados e incapazes de raciocinar fora dela.

Ashera disse...

Estou muda de palavras perante este teu post amigo Diogo....
Obrigada porque me sintro privilegiada como amiga leitora,,,observadora de tanta "fortuna"...e...criativa!!!
Parabéns também
Boa semana
Beijos no coração

augustoM disse...

Devagar devagarinho a cabeça vão virando ao mais avisado cidadão, ninguém escapa a esta globalização do pensamento. Pensar o que querem se que se pense. Já nos fizeram crer que havia um deus, já nos fizeram crer que fomos os maiores, já nos fizeram crer que fomos revolucionários, já nos fizeram crer tanta coisa, que já não nos lembramos. Talvez não fosse má ideia ler as técnicas usadas pelos coreanos na Guerra da Coreia contra os americanos. A primeira regra, era cortesia, para ganhar a confiança, depois, era só convencer a acreditarem que os melhores do mundo eram os coreanos, é fácil deduzir que, os americanos presos, passaram a ser os maiores acusadores dos EU e defensores da Coreia.
Um abraço. Augusto

xatoo disse...

se "a televisão é aquilo que nós gostamos de ver"
o que eu não gostaria de ver um programa sobre uma visita aos Altos Estudos Militares (é ali num palacete dentro de uns jardins em Belém onde pululam centenas de generais e adjuntos), alí não há alienação, todos os assuntos são tratados conscientemente e sem mistificações pelos próprios nomes (a Al-Qaeda como criação de Brezinski) a hegemonia sobre os paises do terceiro mundo a quem é preciso extorquir militarmente os recursos, etc, etc,
e quando não é o Brezinski é o Kissinger - como ele próprio diz: "a partir de certa altura já não se pode parar o comboio"
Já há nove anos, na Cimeira Europa-América Latina, Fidel Castro num artigo intitulado "Dois lobos famintos e um chapéuzinho vermelho", o líder da Revolução Cubana explicou que os Estados Unidos e a Europa competem entre si e contra si pelo petróleo, as matérias primas essenciais e os mercados", ao que se soma agora o pretexto da luta contra o terrorismo e o crime organizado que eles mesmos criaram com as vorazes e insaciáveis sociedades de consumo.
Dois lobos famintos disfarçados de avózinhas boas, e o Pacheco Pereira que vende fraldas em segunda mão aos Chapéuzinhos Vermelhos
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MFerrer disse...

É por demais evidente que JPP tem muitos telhados de vidro, seja na longa relação comercial que tem com a TV, seja com o próprio Público ou Expresso. Faz-se é de vítima e cobre-se de pó de livros para afastar os incréus.
?Por acaso já condenou a guerra de agressão e mãe de todos os terrorismos?. A do Iraque?
Ou já condenou Israel pelas atrocidades contra a espécie humana que desfia há 60 anos?
Com que lata estanhada nos pode agora dizer que os media manipulam as notícias? Quando é que ele se recusou a participar no circo?
MFerrer

contradicoes disse...

O Pacheco tem razão
nesta sua contestação
suas palavras são em vão
não obrigam a meditação

Apache disse...

Desta vez até ia comentar, mas o Alf roubou-me as palavras.

"Faltou referir que martelam com "aquecimento global", "buraco do ozono", a ameaça de uma qq nova "gripe das aves", etc."

Carlinhos Medeiros disse...

viva Pacheco! E eu que pensava que só aqui no Brasil é que a imprensa sabuja era terrorista. Tá dominado!
abs!