segunda-feira, outubro 06, 2008

Mário Crespo - Pactos de Silêncio


Artigo de Mário Crespo

Pactos de silêncio

Jornal de Notícias - 2008-09-29

No Outono de 1989 conduzi na RTP os debates entre os candidatos a Lisboa. O grande confronto foi PS/PSD. Duas candidaturas notáveis. Jorge Sampaio, secretário-geral, elevou a política autárquica em Portugal a um nível de importância sem precedentes ao declarar-se candidato quando os socialistas viviam um dos seus cíclicos períodos de lutas intestinas. O PSD escolheu Marcelo Rebelo de Sousa.

No debate da RTP confrontei-os com a fotocópia de documentos dos arquivos do executivo camarário do CDS de Nuno Abecassis. Um era o acordo entre os promotores de um enorme complexo habitacional na zona da Quinta do Lambert e a Câmara. Estipulava que a Câmara receberia como contrapartida pela cedência dos terrenos um dos prédios com os apartamentos completamento equipados. Era um edifício muito grande, seguramente vinte ou trinta apartamentos, numa zona que aos preços do mercado era (e é) valiosíssima. Outro documento tinha o rol das pessoas a quem a Câmara tinha entregue os apartamentos. Havia advogados, arquitectos, engenheiros, médicos, muitos políticos e jornalistas. Aqui aparecia o nome de personagem proeminente na altura que era chefe de redacção na RTP.

A lista discriminava os montantes irrisórios que pagavam pelo arrendamento dos apartamentos topo de gama na Quinta do Lambert. Confrontados com esta prova de ilicitude, os candidatos às autárquicas de 1989 prometeram, todos, pôr fim ao abuso. O desaparecido semanário Tal e Qual foi o único órgão de comunicação que deu seguimento à notícia. Identificou moradores, fotografou o prédio e referiu outras situações de cedência questionável de património camarário a indivíduos que não configuravam nenhum perfil de carência especial. E durante vinte anos não houve consequência desta denúncia pública.

O facto de haver jornalistas entre os beneficiários destas dádivas do poder político explica muito do apagamento da notícia nos órgãos de comunicação social, muitos deles na altura colonizados por pessoas cuja primeira credencial era um cartão de filiação partidária. Assim, o bodo aos ricos continuou pelas câmaras de Jorge Sampaio e de João Soares e, pelo que sabemos agora, pelas câmaras de outras forças partidárias. Quem tem estas casas gratuitas (é isso que elas são) é gente poderosa. Há assessores dispersos por várias forças políticas e a vários níveis do Estado, capazes de com uma palavra no momento certo construir ou destruir carreiras. Há jornalistas que com palavras adequadas favoreceram ou omitiram situações de gravidade porque isso era (é) parte da renda cobrada nos apartamentos da Quinta do Lambert e noutros lados. O silêncio foi quebrado agora que os media se multiplicaram e não é possível esconder por mais vinte anos a infâmia das sinecuras. Os prejuízos directos de décadas de venalidade política atingem muitos milhões.

Não se pode aceitar que esta comunidade de pedintes influentes se continue a acoitar no argumento de que habita as fracções de património público "legalmente". Em essência nada distingue os extorsionistas profissionais dos bairros sociais das Quintas da Fonte dos oportunistas políticos que de suplicância em suplicância chegaram às Quintas do Lambert. São a mesma gente. Só moram em quintas diferentes. Por esse país fora.


Comentário:

Na foto, um extorsionista profissional, morador na Quinta do Lambert. Não se percebe se é advogado, arquitecto, engenheiro, médico, político ou jornalista. Certo, apenas, que se trata de uma figura politicamente influente. Ou um amigo.


E por falar em extorsionários (contas do Apache):

O preço médio do barril de petróleo em 2002 era de 66,61 €. Nesse ano, o preço médio do litro de gasolina 95 foi de 0,91 € e, o do gasóleo rodoviário de 0,67 €.

Hoje (6/10/2008), o petróleo cotava-se às 20:30 (hora de Lisboa) a 64,56 € (88,02 dólares) e nos postos da Galp, o litro da gasolina sem chumbo 95 custa 1,42 €, enquanto um litro de gasóleo custa 1,29 €.

Donde, hoje, o petróleo custa menos 2,05 € do que em 2002, mas o litro de gasolina custa mais 51 cêntimos (mais 56%). Extraordinaire, n’est-ce pas?
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8 comentários:

Ana Camarra disse...

Diogo

Por acaso já tinha recebido umas notas sobre esse tema, apenas constato que é (mais) uma vergonha, são este tipo de coisas que desvirtuam tudo e todos.
Depois a classe jornalistica também se presta a muita caldeirada, cada vez mais próximos do poder.
Quanto ao Mário Crespo, se continua a colocar a boca no trombone desta forma não deve de faltar muito para que o reformem na SIC e que lhe peçam para largar a crónica que tão bem (regra geral)faz.
Quanto ao conselho que deixaste na minha caixa de comentários, já conheço o filme, é fascinante.

Mas obrigado na mesma!

beijos

augustoM disse...

Hoje não comento, entro no pacto de silêncio. Andei a bugiar procurando encontrar a vontade, que teimava em esconder-se no desalento.
Um abraço. Augusto

Filipe Abrantes disse...

http://video.google.com/videoplay?docid=-2962369311366680572

xatoo disse...

ah ganda Crespo
fosse ele a mandar, atendendo às suas ultimas declarações à RTP sobre o casamento homossexual, não havia bichona que roçasse o cu à borla pelos soalhos do património público.
ninguém é perfeito, nem aufere o nivel dos balsemónicos salários do Crespo
O gabirú devido à sua independência económica já pode cagar postas de pescada - o que teria ele recebido em vez do direito às casas municipais?
A critica velada e cobarde "ao jornalismo vendido" visa concretamente o Baptista Bastos - aos calcanhares do qual o Crespo jamais ascenderá

Anónimo disse...

Perante o que se passa neste país e com as "alternativas" que temos (alternância no poder de 2 partidos, senão iguais, com diferenças mínimas) e coma única arma de que parecemos dispôr (o papelinho chamado voto), que fazer ?

Sim diz-se que a Democracia é o menos mau de todos os sistemas políticos. (Embora dê comigo a pensar que em Democracia as coisas estão tão camufladas que, por exemplo os jovens votantes, não têm condições de ganhar verdadeira consciência política).

João

Apache disse...

Obrigado pelo destaque, Diogo.

O Mário Crespo é dos poucos jornalistas que ainda revela alguma coragem.

xatoo disse...

há muita gente que continua sem discernir como se fabricam os falsos antagonismos
http://braganzamothers.blogspot.com/2008/10/sic-faz-anos-parabns-televiso-de.html

Anónimo disse...

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