terça-feira, outubro 21, 2008

Ricardo Araújo Pereira - A banca nacionalizou o Governo

Texto de Ricardo Araújo Pereira

Revista Visão – 16/10/2008

A banca nacionalizou o Governo

A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada


Quando, no passado domingo, o Ministério das Finanças anunciou que o Governo vai prestar uma garantia de 20 mil milhões de euros aos bancos até ao fim do ano, respirei de alívio. Em tempos de gravíssima crise mundial, devemos ajudar quem mais precisa. E se há alguém que precisa de ajuda são os banqueiros. De acordo com notícias de Agosto deste ano, Portugal foi o país da Zona Euro em que as margens de lucro dos bancos mais aumentaram desde o início da crise. Segundo notícias de Agosto de 2007, os lucros dos quatro maiores bancos privados atingiram 1,137 mil milhões de euros, só no primeiro semestre desse ano, o que representava um aumento de 23% relativamente aos lucros dos mesmos bancos em igual período do ano anterior. Como é que esta gente estava a conseguir fazer face à crise sem a ajuda do Estado é, para mim, um mistério.

A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos. Significa isto que eu, como contribuinte, sou fiador do banco que é meu credor. Financio o banco que me financia a mim. Não sei se o leitor está a conseguir captar toda a profundidade deste raciocínio. Eu consegui, mas tive de pensar muito e fiquei com dor de cabeça. Ou muito me engano ou o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada.

Tendo em conta que, depois de anos de lucros colossais, a banca precisa de ajuda, há quem receie que os bancos voltem a não saber gerir este dinheiro garantido pelo Estado. Mas eu sei que as instituições bancárias aprenderam a sua lição e vão aplicar ajuizadamente a ajuda do Governo. Tenho a certeza de que os bancos vão usar pelo menos parte desse dinheiro para devolver aos clientes aqueles arredondamentos que foram fazendo indevidamente no crédito à habitação, por exemplo, e que ascendem a vários milhares de euros no final de cada empréstimo. Essa será, sem dúvida nenhuma, uma prioridade. Vivemos tempos difíceis, e julgo que todos, sem excepção, temos de dar as mãos. Por mim, dou as mãos aos bancos. Assim que eles tirarem as mãos do meu bolso, dou mesmo.
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Comentário:

Como é que há gente que embarca nesta história da «crise financeira»? Como é que há gente que aplaude, aliviada e esperançada, a «ajuda aos bancos»? Como é que há gente que acredita tão ingenuamente neste embuste monumental?



Charles August Lindbergh - Congressista dos Estados Unidos de 1907 a 1917 «O maior crime de Congresso [norte-americano] é seu sistema de moeda. O pior crime legislativo de todos os tempos foi perpetrado por esta lei bancária [Lei que estabeleceu a Reserva Federal]. A convenção política e os patrões dos partidos operaram novamente e impediram as pessoas de beneficiar de um Governo próprio. Foi concedido aos bancos o especial privilégio de distribuir o dinheiro e eles cobram os juros que quiserem. A nova lei do Presidente dá aos banqueiros ainda mais poderes do que eles tinham com as antigas leis… A propriedade será considerada como tendo maior força potencial do que a família humana. Nenhum ser humano pode competir com [o poder potencial dos juros compostos do dólar]. Nada pode competir com o dólar excepto dois dólares e assim por diante, quanto maior a soma, maior a cinta. Os banqueiros controlam isto. Para elevar os preços, tudo o que o Conselho de Directores da Reserva Federal dos Estados Unidos terá que fazer será baixar a taxa de redesconto... produzindo uma expansão de crédito e uma subida do mercado de valores; então quando... os empresários se tiverem ajustado às novas condições, podem parar repentinamente... o aumento da prosperidade elevando a taxa de juros arbitrariamente. Podem causar a oscilação da subida e queda dos mercados, fazendo-os balançar suavemente de um lado para outro através de pequenas mudanças na taxa de desconto, ou causar flutuações violentas por intermédio de uma grande variação da taxa de juro, e em qualquer caso possua informação confidencial sobre condições financeiras e conhecimento prévio de mudanças próximas, de subidas ou descidas.»

«Este é o mais estranho, a vantagem mais perigosa que já alguma vez foi colocada nas mãos de uma classe especial de privilegiados por qualquer Governo que já existiu. O sistema é privado, administrado com o propósito exclusivo de obter os maiores lucros possíveis do uso do dinheiro de outras pessoas. Eles sabem quando criar pânico em seu benefício com antecedência. Também sabem quando parar o pânico. Inflação ou deflação funcionam igualmente bem para eles quando são eles controlam as finanças...»
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12 comentários:

Ana Camarra disse...

Pois Diogo, não sei.
Sei que isto é imoral.
Num exercicio de humor acido Ricardo Araujo Pereira diz tudo.
Muito bem explicadinho.
O que me aflige é o teu comentário "Como é que há gente que acha isto bem?!"
Pelo menos estavam calados, no minimo, para não dizer como o Ricardo, por detrás....
(desculpa)

beijos

Anónimo disse...

Calados?É,é ver os prós e prós(oops!e contras) e foi ver a semana passada e ontem os heróis da sociedade,os trabalhadores mais que tudo,que têm dinheiro pq trabalham,pois claro!a dizerem cagora(sic) é que vai ser,o deus dinheiro/mercado,omnipresente,omnipotente(????)vai salvar o mundo,pois atão.E falam assim pq sabem que não vão parar com ossos à cadeia,pq o Estado foi feito para estes 'privilégios' para as classes exploradoras e uns gatunos sem limites.É o que é!

Diogo disse...

Exacto Ana,

O Ricardo percebe perfeitamente o golpe que está a ser dado. Vai dizendo as coisa num humor cada vez mais corrosivo.


Anónimo,

Também vi um bocado do último Prós e mais Prós. Tive de mudar de canal para não vomitar.

«Só precisamos de mudar de atitude, temos de ser mais dinâmicos, mais inventivos , mais terra a terra. O êxito está ao virar da esquina. Basta inventarmos a cura para o cancro ou o moto-contínuo. Qualquer um o pode fazer. Basta vontade, perseverança e um bocadinho de sorte».

xatoo disse...

tem piada que este Lindberg (que advogava uma aliança com a Alemanha de Hitler) foi o que concorreu as eleições americanas pelo Partido Nazi contra Roosevelt
Quanto ao dinheiro alternativo já existem bastantes propostas de moedas que só têm valor localmente e que têm uma taxa de juro negativa ( e não de Zero) para que não se possam acumular mais valias.
Na prática, se as pessoas não gastarem o dinheiro, este desvaloriza 10% por exemplo, digamos num prazo de 1 mês. Assim as pessoas têm vantagem em gastá-lo aquilo que precisam e assim se fomenta o consumo e a economia local, baseada na produção e consumo local. O dinheiro de circulação mundana digamos assim, fica exclusivamente para negociar transações de mercadorias de produções de escala que não são possiveis de fabricar localmente. Reinventamos assim um bocado o conceito das antigas Cidades-Estado do modo pré-capitalista italiano.
Já tenho um nome fisgado aqui para a nossa moedinha: "o Lisboeta"

alf disse...

Fabuloso este texto do Ricardo.

Xatoo, essa ideia do «lisboeta» é boa; na verdade, creio que, em parte, é mais ou menos assim que tem funcionado a economia chinesa, tornado possível pela sua autosuficiência ( a moeda para as compras ao estrangeiro é o dólar, a moeda chinesa é para compras locais; e a relação ente as duas é a que convem ao desenvolvimento chinês).

Meu caro Diogo, qq dia os banqueiros têm de fazer consigo como fazem aos hackers: contratá-lo!

Ana Camarra disse...

Olha agora acrescentas mais coisas!...
Tenho de voltar com mais calma!

xatoo disse...

aplicação económica da teoria do decrescimento
ora aqui está um post do ano passado sobre o dinheiro alternativo que fui ali atrás desencantar
http://xatoo.blogspot.com/2007/04/dinheiro-alternativo-e-autonomias.html

João Norte disse...

Eles comem tudo... nós pagamos tudo....

Ana Camarra disse...

Pronto já li, tenho de habituar que tens posts em evolução constante.
Já conhecia até porque fizeste o favor de me aconselhares uns videos muito explicativos.
Muito Esclarecedor
beijos

Diogo disse...

Boas ideias e bons links Xatoo.

No entanto, gostaria, num banco público, de associar esta tua sugestão (que também sugeri no post anterior): «Poupança e Empréstimos sem Juros”, como a do banco Sueco JAK, ou os bancos árabes que se baseiam na filosofia do Alcorão», com a técnica usada hoje pelos bancos comerciais das reservas fraccionais, ou seja, criar dinheiro a partir do nada.

Desta forma, o dinheiro continuava a ser criado a partir da dívida mas sem juros, para ajudar a economia e não para engordar os porcos.


Alf: «caro Diogo, qq dia os banqueiros têm de fazer consigo como fazem aos hackers: contratá-lo!»

Se me pagarem os valores que estão habituados a pagar aos dirigentes de topo e me reformarem ao fim de dois anos com 10 milhões de contos, talvez fosse caso para pensar.


Ana,

Tenho por hábito retocar os meus posts. Não para lhes mudar o sentido mas para os tornar mais claros, mais harmoniosos e eliminar algumas gralhas gramaticais.

Fliscorno disse...

Lucros privados, prejuízos públicos. O verdadeiro regabofe!

contradicoes disse...

Meu caro Diogo. Muito sinceramente quando foi comunicada a decisão a minha reacção foi de revolta pelas razões já suficientemente aqui explicadas ou seja o acumular constante de lucros dos Bancos e as remunerações escandalosas dos respectivos membros do conselho de administração. Mas o caricato da justificação dada por este e outros governos é que foi preciso salvaguardar os direitos dos depositantes ou melhor dos clientes do banco. Os clientes do banco quando a mim não foram obrigados a escolher os bancos privados e se o fizeram foi no engodo da publicidade enganosa com que estes os fizeram canalizar para o respectivo balcão. Daí achar que o dinheiro dos contribuintes não tem de servir para garantir pagamento a clientes do banco privado que através da sua escolha e preferência e dada a má gestão da respectiva instituição vêem esta a passar por dificuldades, face ao recurso a negociatas com vista a aumentar ainda mais os lucros. Ou seja a Banca através de paraísos fiscais foge ao Fisco o mais que pode e depois numa situação de grave crise económica o dinheiro dos contribuintes serve para socorrer esses bancos. Inadmissível e intolerável esta medida governativa.