quinta-feira, março 05, 2009

O dinheiro enquanto dívida - a finança explicada a Armandos, Armindos, Frangos e Arturinhos

Donde é que vem o Dinheiro?

O que é o dinheiro?

Para a maioria de nós, a questão "Donde é que vem o dinheiro?" lembra-nos uma imagem da casa da moeda a imprimir notas e a cunhar moedas. O dinheiro, a maioria acredita, é criado pelo governo.

É verdade, mas só até um certo ponto. Esses símbolos de valor de metal e de papel que costumamos pensar como dinheiro são, na verdade, produzidos por uma agência do governo federal chamada Casa da Moeda.

Mas a grande maioria do dinheiro não é criado pela Casa da Moeda. É criado em grandes quantidades todos os dias por empresas privadas chamadas bancos.

A maioria de nós acredita que os bancos emprestam dinheiro que lhes foi confiado por depositantes. É fácil de imaginar. Mas não é verdade.

De facto, os bancos criam o dinheiro que emprestam, não dos ganhos do próprio banco, não do dinheiro depositado, mas directamente da promessa de pagamento da pessoa que pede emprestado.

A assinatura da pessoa que pede emprestado nos papéis do empréstimo é uma obrigação para pagar ao banco o empréstimo mais o juro, ou, perde a casa, o carro, qualquer bem que tenha dado como garantia. É um grande compromisso para o devedor.

O que é que essa assinatura requer do banco? O banco faz surgir do nada a quantidade do empréstimo e inscreve-o na conta do devedor.

Parece absurdo?

De certeza que não pode ser verdade. Mas é!

Para demonstrar como é que este milagre da banca moderna acontece, considerem esta simples história:


A história do ourives

Antigamente, quase qualquer coisa era utilizada como dinheiro.

Tinha apenas de ser portátil e que houvesse gente suficiente que acreditasse que o poderia trocar mais tarde por coisas de valor real como comida, roupa ou abrigo. Conchas, grãos de cacau, pedras bonitas, mesmo penas foram usadas como dinheiro.

Ouro e prata eram atraentes, flexíveis e fáceis de trabalhar, portanto algumas culturas tornaram-se especialistas nestes metais. Os ourives comerciavam mais facilmente moldando moedas, unidades estandardizadas destes metais cujo peso e pureza eram certificados.

Para proteger este ouro o ourives precisava de um cofre.

Depressa os outros habitantes estavam a bater à sua porta querendo alugar um espaço para guardar em lugar seguro as suas moedas e valores.

Passado pouco tempo, o ourives estava a alugar cada prateleira do seu cofre e ganhava um pequeno rendimento pelo seu negócio de aluguer de espaço no cofre.

Os anos passaram e o ourives fez uma observação astuta. Os depositantes raramente vinham retirar o seu ouro físico e nunca vinham todos ao mesmo tempo.

Isto acontecia porque os cheques que o ourives passava como recibos do ouro depositado, estavam a ser trocados no mercado como se fossem o próprio ouro.

Este papel-moeda era muito mais cómodo do que moedas pesadas, e somas de dinheiro podiam ser simplesmente escritas, em vez de laboriosamente contadas uma a uma em cada transacção.

Entretanto, o ourives desenvolvera outro negócio. Ele emprestava o seu ouro cobrando juros.

Bem, à medida que os cheques fáceis de utilizar foram sendo aceites, as pessoas que pediam empréstimos queriam o valor em forma de cheques em vez de metal. À medida que a indústria se expandia, mais e mais pessoas pediam empréstimos aos ourives.

Este facto deu ao ourives uma ideia ainda melhor.

Ele sabia que muito poucos dos seus depositantes alguma vez retiravam o seu ouro. Portanto, o ourives pensou que poderia facilmente emprestar cheques sobre o ouro dos seus depositantes, a somar ao seu próprio ouro.

Desde que os empréstimos fossem reembolsados, os depositantes nunca saberiam e não seriam prejudicados. E o ourives, agora mais banqueiro que artesão, conseguiria um lucro muito maior do que se emprestasse apenas o seu ouro.

Durante anos o ourives aproveitou secretamente um bom rendimento dos juros ganhos com os depósitos dos outros.

Agora um importante emprestador, ele foi enriquecendo mais que os outros habitantes e exibia a sua fortuna. As suspeitas aumentaram de que ele estava a gastar o dinheiro dos seus depositantes. Estes juntaram-se e ameaçaram retirar o seu ouro se o ourives não explicasse a sua riqueza recente.

Contrariamente ao que se poderia esperar, isto não foi um desastre para o ourives. Não obstante a duplicidade do seu esquema, a sua ideia resultou. Os depositantes não tinham perdido nada. O seu ouro ainda estava seguro no cofre do ourives.

Em vez de retirarem o seu ouro, os depositantes exigiram que o ourives, agora o seu banqueiro, lhes pagasse uma parte dos juros dos seus depósitos.

E isto foi o princípio do sistema bancário. O banqueiro pagava uma pequena taxa de juros pelos depósitos de dinheiro das pessoas, e então emprestava-o a uma taxa de juro maior.

A diferença cobria os custos de operação do banco e o seu lucro. A lógica deste sistema era simples. E parecia uma forma razoável de satisfazer a procura de crédito.

Contudo esta não é a forma como a banca trabalha hoje.

O nosso ourives-banqueiro não estava satisfeito com o rendimento que restava depois de partilhar os ganhos dos juros com os seus depositantes.

E a procura por crédito estava a crescer depressa, à medida que os Europeus se espalhavam através do mundo. Mas os seus empréstimos estavam limitados à quantidade de ouro que os seus depositantes tinham no seu cofre.

Foi quando ele teve uma ideia ainda mais arrojada. Já que só ele é que sabia a quantidade de ouro que estava nos seus cofres, então podia emprestar cheques sobre ouro que nem sequer estava lá!

Desde que os detentores dos cheques não aparecessem todos ao mesmo tempo a reclamar o ouro que estava no seu cofre, como é que alguém descobriria?

Este novo esquema funcionou muito bem, e o banqueiro tornou-se tremendamente rico com os juros pagos por ouro que nem sequer existia!

A ideia de que o banqueiro podia criar dinheiro a partir do nada era demasiada escandalosa para acreditar, por isso, por muito tempo, esse pensamento nem sequer ocorreu às pessoas.

Mas, o poder de inventar dinheiro subiu à cabeça do banqueiro, como podem imaginar. Com o tempo, a magnitude dos empréstimos e a ostentação da riqueza do banqueiro levantou novamente suspeitas.

Algumas pessoas que pediam empréstimos começaram a exigir ouro em vez de representações em papel. Rumores espalharam-se.

Subitamente, vários depositantes ricos apareceram para retirar o seu ouro. O jogo tinha acabado!

Uma multidão de possuidores de cheques apareceu junto às portas fechadas do banco. O banqueiro não tinha ouro e prata suficiente para cobrir todo o papel que tinha distribuído.

Isto chama-se uma "corrida ao banco" e é o que qualquer banqueiro mais teme.

Este fenómeno da "corrida ao banco" arruinou bancos individuais e, sem surpresa, danificou a confiança do público em todos os banqueiros.



Os primeiros oito minutos e vinte segundos (8:20m) do vídeo 'Money as Debt' - 'O dinheiro enquanto dívida' - legendados em português:



O dinheiro enquanto dívida - Money as Debt @ Yahoo! Video


A versão completo do vídeo em inglês (47m): Money as Debt

E a versão completa do vídeo em espanhol (47m): El Dinero es Deuda.
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10 comentários:

Ana Camarra disse...

Diogo

Já me fizeste o grande favor de me apresentar a este filme, donde tirei uma serie de duvidas, um exercicio pedagógico este que fazes.

beijos

xatoo disse...

aquela frase: "os ourives comerciavam mais facilmente moldando moedas" deve fazer-nos lembrar que a palavra italiana "Gueto" significa, traduzida à letra "Fundição" acrescentando-se a isso o facto de no principio do Renascimento o 1º gueto assinalado na Europa ter sido em Veneza.
O segundo "gueto" foi em Frankfurt am Main na Alemanha, onde se situa hoje o BCE

Diogo disse...

Ana, obrigado.

Xatoo, desconhecia essa do gueto. Gueto tem também o significado de zona privilegiada da cidade.

Zorze disse...

Diogo,

Esta história do ourives é importante para as pessoas entenderem como nasceu este tipo de negócio.
Negócio que se desenvolveu de tal maneira, que hoje, com as ferramentas financeiras existentes, mascaram-se e diluem-se responsabilidades de enormes vigarices, bem mais graves do que os ourives de outrora.
Uma espécie de vodoo financeiro.

Abraço,
Zorze

xatoo disse...

nem sequer foi um problema especifico de ouro ou de ourives; tratou-se de cunhar moeda que facilitasse as trocas no novo processo mercantil, o chamado modelo económico italiano (segundo Fernando Braudel, ou mais recentemente segundo o historiador Giovanni Arrighi)
Quanto ao facto de "gueto" significar também "uma zona privilegiada da cidade" é provável. O gueto de Veneza situa-se junto à Fundamenta Nuove na costa norte da ilha, que dá ligação directa à ilha de Murano de onde foi originária a indústria do vidro de cristal - uma das principais mercadorias de troca com as sedas, tapeçarias e especiarias vindas nas caravanas do Oriente, chá, etc. Desde o tempo de Marco Polo que Veneza era o cento do mundo, o principal ponto de entrada na "Europa" das culturas orientais, entre elas a muçulmana. Repare-se nas cúpulas da catedral de São Marcos: são árabes. Essa treta de "povo judeu" é uma das infimas tribos semitas que chegaram vindas com eles. O "judeu" é uma construção ideológica recentissima, a partir de cerca do século XI. auto "construiram-se" com a usura monetária; uns parasitas do trabalho e das trocas comerciais de outros.

jasmine disse...

Quem bem entendeu essa história foram os horta e costa e loureiros do BPN e assim rendeiros do BPP, capazes de comprar e vender este mundo à pala emuito acima dos depósitos e mais negócios dos seus clientes, num fartar que o Governo em grande parte suportou de pára-quedas, em nome dos contribuintes.

Ou seja, a história de um Governo e banqueiros de mãos dadas uns aos outros, como manda o roubo bem feito.

contradicoes disse...

Já tinha construído essa ideia mas este filme cimentou-a. Mas mais ainda. Quando o Banco Central Europeu desceu como foi o caso as taxas de juro de referência para 1,5%, não significa que sejam estas a praticarem-se pela Banca, nada disso. A Banca se necessitar recorre à Banca internacional para obter emprestimos a juros ainda mais baixos e depois empresta o dinheiro a quem a eles recorre cobrando taxas que podem atingir os 20%. Ou seja a Banca é uma instituiçao de crédito oficialmente autorizada a roubar dinheiro a quem a eles recorre.Porque quem lá puser as suas poupanças em depósitos à ordem nem sequer tem qualquer compensação por isso.

xatoo disse...

e ainda sobre a "fundição" de Veneza, lembrei-me agora, existe um clássico: a história do judeu Shylock contada no "Mercador de Veneza" de Shakespeare
http://en.wikipedia.org/wiki/Shylock

Anónimo disse...

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