domingo, novembro 13, 2005

A França, o Expresso e o pensamento único

Seguem-se os artigos de alguns dos principais escribas do Expresso (12.11.2005):


Editorial - José António Saraiva

TUDO leva a crer que aquela Europa que surgia como exemplo aos olhos do mundo - com o direito às 8 horas diárias de trabalho, férias pagas, assistência gratuita na doença, interdição do despedimento sem justa causa, reforma por inteiro - está hoje condenada.

E a isto há ainda que somar o terrorismo - que através da Al-Qaeda se globalizou e já conta com células no interior das sociedades europeias, que a qualquer momento podem ser activadas e espalhar a morte e a destruição.

A segurança, as conquistas dos trabalhadores, o bem-estar, a moderação política - hoje tudo está em causa. Quem poderá prever o dia de amanhã?


Máquina da Verdade - Henrique Monteiro

Escapa-nos, porém, o essencial. Escapa-nos que esta segunda geração, já educada na Europa, não tem a mesma motivação dos pais. Estes imigraram para fugir à miséria (à verdadeira miséria e não ao que se chama miséria dentro da Europa). Trabalharam e trabalham como cães, nos empregos mais difíceis e mais desqualificados, conseguindo, com o pouco dinheiro que ganham, mandar parte para a terra e sonhar com um futuro melhor para os filhos. Os portugueses bem conhecem esta saga; «mutatis mutandis» foram parte dela em França.

MAS a segunda geração, educada entre nós, ouviu a cartilha cultural pós-moderna. Uma cartilha contra o «melting pot», a favor da afirmação da diferença; uma cartilha de irresponsabilidade pessoal e de dependência social do Estado; uma cartilha que coloca todos os benefícios no tempo presente e todos os sacrifícios como dispensáveis. É esta nossa cultura que contribui decisivamente para a tribalização da sociedade e para o fim da ideia da recompensa diferida.

O que os jovens dizem na rua é que não se sentem franceses, nem belgas, nem alemães, em parte porque lhes ensinaram que nada havia de maravilhoso em se ser europeu; pelo contrário, hoje em dia, ser-se europeu é sinónimo de pertencer a um continente que fez coisas terríveis na história (apesar de isso ser tão verdade para a Europa, como para a Ásia ou a África). O que hoje os jovens pensam é que não é necessário trabalhar duro para mais tarde terem uma recompensa. Apenas sabem que não têm o que lhes prometeram - um reino de facilidades sustentadas pelo Estado e repleto de assistentes sociais e ONG que velam por eles.


Estado Crítico – João Pereira Coutinho

Para começar, o desemprego e a recessão não explicam, nem autorizam, o crime e o vandalismo, caso contrário a Europa inteira estaria em chamas. E, escusado será dizer, nenhum outro país fez tanto para «integrar» a sua própria comunidade muçulmana. Muçulmana? Precisamente: porque são sobretudo muçulmanos que incendeiam, espancam e praticamente controlam as zonas suburbanas de Paris e restantes cidades. Eis a famosa «rua árabe», que se fanatizou desde o 11 de Setembro. Fanatizou-se em França, com milhares de crimes graves, incluindo anti-semitas, desde o início do ano. Fanatizou-se em Inglaterra, na Holanda, na Dinamarca. Soluções?

Para Sarkozy, a solução passa por repor a ordem e punir, com dureza ou expulsão, os actos da «canalha». As consciências finas não gostam das palavras do ministro e preferem a doce retórica de Chirac. O futuro, segundo Chirac, passa pela repetição do passado: pela manutenção da velha esmola social que permitiu o caldo de indolência e vagabundagem que acabou por transbordar. É um caminho. Um caminho sem lei e sem ordem que acabará por atirar a Europa para as consequências de Weimar.


Zapping – Pedro D’Anunciação

«Foi a Televisão que nos mostrou bem como os bairros em que a violência estalou estão longe das barracas miseráveis em que alguns acreditavam, e são antes urbanizações de classe média, bem ajardinadas, com casas dignas, boas escolas, infantários (que a fúria dos revoltados não hesitava em destruir)


O Mundo dos Outros – José Cutileiro

Só que chegou o tempo das vacas magras e hoje nas «cités», que se transformaram em viveiros de solidão e delinquência, há famílias com duas gerações de desemprego. Entretanto, o crime organizado crescera no mundo e um Islão vingativo e fanático capturara frustrações de gente nova. Todavia, tudo parecia normal no casulo francês até ao «não» ao Tratado Constitucional ter mostrado o fosso entre as elites e o povo. Desde aí a derrocada não parou: a defesa do «modelo social francês» é ruinosa e a defesa da política agrícola comum poderá sabotar negociações de liberalização do comércio internacional necessárias à prosperidade e à segurança de todos nós.


Mar Aberto – João Carlos Espada

Fechamento intelectual - Não gostaria de ser mal entendido. Não se trata de discutir em três penadas as vantagens e desvantagens comparadas das economias francesa, inglesa e americana. Também não se sugere que os distúrbios de Paris são exclusivo da França: incidentes semelhantes tiveram recentemente lugar em Birmingham e New Orleans. Trata-se apenas de chamar a atenção para que a retórica abstracta, tão do agrado dos políticos franceses, não contribui para a discussão dos problemas políticos reais. Pelo contrário, essa retórica exclui e impede uma discussão desapaixonada e o ensaio de correcções parcelares para problemas parcelares.

A insistência francesa, copiada por muitos políticos europeus e nacionais, naquilo que Tocqueville designava de «atracção pelas teorias gerais», não é um sinal de abertura intelectual, mas de fechamento. Fechamento à realidade - designadamente à realidade económica - e à séria reflexão sobre ela, que é a característica primeira de uma sociedade aberta.



Comentário:

Choque e Pavor – Daniel Oliveira

SEMPRE foi assim. Se há escassez num lugar e abundância no outro, movem-se os humanos. Podemos erguer todos os muros. Eles virão sempre. Por terra, por mar, pelo ar. Nada pode travar a luta pela sobrevivência. E, depois de chegados, procriam. E os seus filhos, os seus netos, não aceitam a menoridade dos seus pais e dos seus avós. Odeiam-na. A «integração» nunca se faz ao ritmo do «integrador». Como devíamos ter percebido pelos motins de Los Angeles, levados a cabo por quem espera há dois séculos pela «integração», é a desigualdade e não a diferença que gera violência. E se a desigualdade tem cor, então os inimigos e os aliados topam-se a léguas.

Estes miúdos já não são mão-de-obra barata e dócil, como os seus pais. É assim mesmo que começa a integração: quer-se mais, o mesmo que todos os outros. Podiam dizê-lo de outra forma, é claro. Mas quantos deputados de origem magrebina há no Parlamento francês? Quem os quis ouvir quando não queimaram carros? Quanta democracia sobrou para eles?

A França que proibiu o véu vê agora as chamas. O véu tinha, apesar de tudo, melhor aspecto. O que está em debate na Europa é só isto: aceitamos a diferença e damos-lhe todos os direitos ou só a suportamos se ela for tão envergonhada que não se dê por ela. Quando os filhos dos imigrantes tiverem tudo o que nós temos - dinheiro, emprego, futuro, liberdade para vestirem o que querem e falarem como querem sem pedir desculpa - sentir-se-ão bem por cá. Talvez então até comecem, por vontade própria, a dispensar o véu e a afirmação permanente da diferença. Ou talvez não. Enquanto não lhes dermos nada, o que lhes resta é isto mesmo: a sua identidade. Se não são nada para nós, querem, ao menos, ter orgulho disso mesmo. E saberem que temos medo deles.

6 comentários:

Miss Piggy disse...

Subscrevo inteiramente o comentário "choque e pavor" e atrevo-me a dizer que muitos outros o farão.

marujo disse...

viva o Daniel Oliveira, abaixo os outros palhaços!

contradicoes disse...

É evidente que não pode passar pela cabeça de alguém com dois dedos de testa, julgar poder exercer a escravatura utilizando as novas gerações, até porque elas conhecem as história dos seus antepassados e além de não as aplaudirem muito menos as consentem. E como quem não se sente não é filho de boa gente, reage, ainda que essa reacção possa ser condenável.
Mas isso vai acontecer muito mais vezes e noutros estados, mas sempre pelas mesmas razões. Com um abraço do Raul

Um Homem das Cidades disse...

Eu ia chamar os nomes mais feios aos escribas do «Expresso», mas após ter lido o Daniel de Oliveira fiquei mais confortado.

calhordus disse...

Mas eles nâo querem ver a realidade!Serviram-se em prometendo o mundo,no fim éra tudo mentiras.Eu depois de quase 40 anos e enormes sacreficios, vejo que estâo mais evuluidos,e sabem que querem-lhes tirar aquilo que os pais ganharam com tanto sacreficio.
É evidente que nâo se deixarâo fazer. O nosso vezinho ao lado ,nem com o exemplo de Los Angeles sabe em que cadeira se sentou.
Portanto nâo lhes falta grandes economistas para lhes fazer lembrar que vâo no mau caminho!

Anónimo disse...

Aquilo que os filhos dos emigrantes nunca tiveram, uma grande parte dos naturais começa também a não ter. Os distúrbios vieram para ficar. As pessoas estão fartas do desemprego, da precarização, da pobreza e da exclusão. Enquanto os donos do mundo arrecadam mais, cada vez mais.