quinta-feira, março 13, 2008

José Sócrates



Diário de Notícias - 23.01.05

Texto de Filipe Santos Costa

Há vinte anos, ninguém suporia que José Sócrates havia de ser político de altos voos. Há vinte anos, precisamente - 1985 foi o período mais negro da biografia política do actual candidato socialista ao cargo de primeiro-ministro. Dois anos antes, o jovem Zé tinha conquistado a federação do PS de Castelo Branco, para espanto de todo o partido e, sobretudo, de Mário Soares, que com esse resultado sofria a primeira derrota às mãos de Guterres, Constâncio, Sampaio e companhia, os opositores do soarismo que ficaram conhecidos como o grupo do ex-Secretariado. Quando ganhou a federação de Castelo Branco, Sócrates era um rapaz de 25 anos de quem se sabia três coisas tinha mais ambição que currículo, vinha da Covilhã e era protegido de António Guterres.

Em 1985, enfrentava por fim os seus primeiros embates eleitorais como líder distrital. Foi o desastre. Nas legislativas, o PS albicastrense teve o seu pior resultado de sempre, cilindrado pelo PRD. Com 16%, os socialistas viram-se reduzidos a apenas um parlamentar - do mal o menos, Guterres conseguiu voltar ao Parlamento, de onde tinha sido afastado por Soares.

Ainda Sócrates lambia as feridas das legislativas quando lhe caiu em cima o desaire seguinte nas autárquicas o PSD conquistou seis dos onze concelhos do distrito e o PS ficou reduzido a três câmaras. Como se não bastasse, Zé perdeu onde mais lhe doía: a Covilhã, o seu concelho, cuja câmara era socialista desde 1975. A vitória do PSD na Covilhã já era má notícia, mas a coisa foi pior. Nessa noite fria de Dezembro, enquanto Sócrates deitava contas à derrota, o seu pai festejava com os vencedores. Também ele tinha ganho: o arquitecto Pinto de Sousa era o número dois da lista do PSD para a câmara da Covilhã. Ajudou a derrotar o filho Zé.
Fernando Pinto de Sousa era um histórico do PSD da Covilhã. Ainda a revolução fumegava e já o arquitecto, homem respeitado na cidade, ajudava a fundar o PPD no concelho. O seu empenhamento político e cívico vinha dos tempos da ditadura era leitor da Seara Nova, acompanhava as iniciativas da Sedes, e assumia-se como "um grande admirador" de Francisco Sá Carneiro, cujos passos políticos acompanhava desde os tempos da Ala Liberal. "Admirava-lhe a capacidade de lutar pela democracia mesmo na Assembleia Nacional, no seio da ditadura", conta ao DN.

Quando o regime caiu, Pinto de Sousa pôs mãos à obra lançou o PPD na Covilhã e tomou conta dos destinos do partido no concelho entre 1975 e 1977. Numa terra de tradição operária, que era conhecida como a Manchester portuguesa, pelo peso da industrial têxtil, os militantes do PPD podiam ser poucos, mas eram bons e sabiam resistir. Na JSD, havia mais um punhado de rapazes que ajudava a fazer as campanhas e a colar cartazes. José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa era um deles.

Sócrates tinha 16 anos quando aconteceu o 25 de Abril e já trazia de casa o gosto pelas coisas da política. Filho de pais separados (a mãe, a irmã e o irmão viviam em Cascais), tinha compreendido com o pai, com quem vivia, o que era a segregação social da Covilhã, onde os dez mil operários das fábricas de lanifícios não podiam frequentar os mesmos cafés que os patrões. Pouco tempo antes da revolução, as aulas de filosofia e sociologia do antigo 7.º ano (o actual 11.º) despertaram-no para leituras inesperadas e começou a pegar nos livros proibidos que o pai tinha na sua biblioteca. Impressionou-se com um, em particular O Socialismo Reformista, de Edward Bernstein, um dos autores sociais-democratas de quem o pai era adepto. Da obra de Bernstein, Sócrates ainda hoje tem na ponta da língua uma citação "A democracia é o reino do compromisso".

A biblioteca de Pinto de Sousa era um oásis. "Eu encomendava livros do estrangeiro através da Seara Nova", conta o pai do actual líder do PS. Apesar do fascínio pela social-democracia, o pai procurava ler tudo e o seu Zé "lia o que queria dos livros que estavam nas estantes. Ele lia com bastante sofreguidão", recorda o progenitor. "Nunca o condicionei, sempre fui muito tolerante e dei-lhe grande liberdade".

A exaltação dos tempos revolucionários aumentou no jovem Sócrates a sofreguidão por leituras políticas e debates. "No liceu e nos cafés, só se falava de política", recorda Jorge Patrão, o amigo de infância que levou Sócrates a filiar-se na JSD.

Jorge inscreveu-se em Junho de 74, Zé seguiu-o poucos meses depois, inebriado pela social-democracia do nome do partido. O comunismo é que nunca os encantou. "O nosso modelo eram as sociedades nórdicas como alternativa aos regimes marxistas, porque valorizávamos mais a iniciativa privada", conta Jorge Patrão.

Mesmo miúdo, José Sócrates já discutia política com sangue na guelra. "Sempre foi muito teimoso e adorava uma boa discussão, um bom debate. Ele sempre teve sentido de competição, mas tinha bom perder e bom ganhar", relata o amigo Jorge.

Nas intermináveis discussões sobre democracia, experiências políticas e modelos de sociedade, também participava Luís Patrão, irmão mais velho de Jorge, que estudava Direito em Coimbra. Nas férias, Luís trazia relatos da cidade dos estudantes que aguçavam nos outros o bichinho da política. Falava-lhes do que ouvia nas aulas de Vital Moreira e de Gomes Canotilho, apresentava-lhes outros livros e outros autores. "Julgo que essas conversas também foram importantes para os despertar para uma consciência reformista", considera Luís Patrão, que, anos mais tarde, seria chefe de gabinete de António Guterres, em São Bento, e actualmente desempenha a mesma função na sede do PS ao lado do amigo Sócrates.

Nas conversas de café, até às tantas, o jovem Zé já demonstrava algumas das características que hoje lhe conhecemos a combatividade, o verbo fácil, a boa memória para citações. "Tinha uma cultura geral acima da média e estava bem preparado para o debate político", conta Jorge Patrão. E vontade de ir para o terreno. Em 75, Sócrates andou ao lado de Pedro Roseta, cabeça de lista do PSD por Castelo Branco nas eleições para a Assembleia Constituinte.

Em Dezembro de 75, Patrão e Sócrates foram ao congresso de Aveiro, o primeiro e último do PSD em que participaram. Para eles, a referência partidária nem era Sá Carneiro, que pouco lhes dizia, mas Emídio Guerreiro, o rosto da ala esquerda do partido. Mas nesse congresso Guerreiro bateu com a porta e, com ele, saíram mais uns quantos militantes. Entre eles, os dois "jotas" da Covilhã. Na semana a seguir ao congresso, Jorge e José comunicaram ao PSD local que abandonavam a militância. Fernando Pinto de Sousa, presidente da concelhia social-democrata, nem queria acreditar.

25 de Novembro em Coimbra

Pouco depois da ruptura com o PSD, José Sócrates saiu da Covilhã para ir estudar para Coimbra. Com 17 anos, o rapaz pouco conhecia do mundo. Costumava ir duas vezes por ano (na Páscoa e no Verão) em peregrinação familiar a Vilar de Maçada, Trás-os Montes, a terra paterna, de onde Sócrates também é natural, segundo a informação do seu BI (de facto, o líder socialista nasceu no Porto, a 6 de Setembro de 1957, mas o pai fez questão de o registar na sua aldeia transmontana). Para além da Serra da Estrela, das serras de Trás-os-Montes e do que havia pelo meio, José Sócrates pouco tinha visto quando fez as malas e se meteu no Fiat 127 de Luís Patrão, para iniciar o bacharelato em Engenharia Civil.

Foi no dia 25 de Novembro de 1975 que Sócrates fez as quatro horas de viagem até Coimbra. Mal chegaram à cidade, mergulharam na efervescência do PREC. "Quando chegámos a Coimbra, fomos logo para uma manifestação de apoio ao 25 de Novembro, que nem sabíamos bem o que era", conta Luís Patrão, que já era, por essa altura, dirigente da Associação Académica.

Estabilizada a situação e passado o frenesim do PREC, Sócrates dedicou-se mais aos estudos que às políticas. Estava divorciado do PSD e ainda longe de se enamorar do PS, apesar das investidas dos irmãos Jorge e Luís Patrão, ambos já militantes socialistas.

A passagem de José Sócrates por Coimbra tem pouca história. Sócrates não sabia o que queria ser, nem pensava muito nisso, e engenharia civil parecia-lhe um curso tão bom como outro qualquer. A opção teve mais a ver com a influência do pai do que com a tendência do filho e os três anos de bacharelato cumpriram-se com eficácia, mas sem particular brilho.

Sócrates era um bom aluno desde a escola primária, embora pouco dedicado. "Era muito distraído e irrequieto", conta o pai. "Nunca o via a estudar, em casa nunca abria um livro da escola, e fazia sempre o mínimo indispensável. Preferia jogar bilhar com os amigos. Mas ele assimilava a matéria toda e tinha sempre bons resultados, por isso" Jorge Patrão confirma que o amigo "foi sempre um bom aluno, mas nunca foi marrão". Continuou a ser assim em Coimbra.

O ás do engate

Joaquim Valente, um dos amigos que Sócrates fez na sua turma do ISEC (Instituto Superior de Engenharia de Coimbra), conta que "o puto não era marrão, quase não precisava de estudar, mas era o mais inteligente da turma".

À semelhança da generalidade dos colegas, Sócrates era pouco praticante das primeiras aulas da manhã - essas horas eram preciosas para recuperar sono, caso na noite anterior tivesse ido com os amigos a uma boîte. A discoteca da moda era o Etc, o bar era o Triana e Sócrates por lá andava, com o seu grupo de amigos.

A saída de Sócrates junto do público feminino era considerável. O rapaz, que era um apaixonado por poesia, declamava-lhes poemas e "levava-as com a conversa", conta outro companheiro desses tempos, que pediu para não ser identificado. "Quando chegávamos a um bar, nós íamos beber e ele ia engatar", recorda o mesmo amigo. "Era um sucesso!"

José Sócrates nunca foi homem de excessos, nem quando tinha idade para isso. Bebia com moderação, ficava até às tantas à conversa com os amigos à volta dos copos de cerveja e uísque, mas passava para a água ou Coca-Cola quando os outros ainda estavam a aquecer a garganta. "Era moderado nos hábitos, mas experimentou o que tinha que experimentar", conta um colega de aventuras. Não morre ignorante, isso é certo. Aos 20 anos fez as primeiras férias no estrangeiro (três semanas na vindima em França) e, nas viagens seguintes, conforme já contou em entrevistas, não deixou de visitar os coffee-shops de Amesterdão. Foi um jovem do seu tempo, como costuma dizer.

Quando voltou à Covilhã, em 1981, Sócrates já tinha complementado o bacharelato com a licenciatura, em Lisboa. Entrou para os quadros da câmara municipal e filiou-se na Juventude Socialista e no PS pela mão do amigo Jorge Patrão. Seguia com entusiasmo a guerra entre o soaristas e o ex-Secretariado, torcendo pelo lado de António Guterres, homem com origens no Fundão, concelho vizinho da Covilhã.

Em 1983, quando acontece o congresso da federação de Castelo Branco, Sócrates quer ser delegado, mas um desentendimento com os "representantes oficiais" do ex-Secretariado na Covilhã leva-o a promover, com Jorge Patrão, uma lista autónoma, apoiada na JS local. A mobilização dos "jotas" deu frutos foi a lista mais votada.

Protegido de Guterres

Com 21 delegados, a Covilhã era o concelho com mais peso no congresso da federação e Guterres viu aí o seu cavalo de Tróia para conquistar a distrital de Castelo Branco. Só faltava ter um candidato. Guterres nunca tinha visto Sócrates mais gordo, mas apostou nele.

O primeiro passo para a vitória foi conseguir o pleno na sua terra. Para isso, Sócrates puxou pela tradicional rivalidade com Castelo Branco e convenceu os delegados afectos à ala soarista que já era tempo da federação ser dirigida por alguém da Covilhã. Com 21 votos garantidos, Guterres pegou em Sócrates pela mão e apresentou-o a tutti quanti pelas secções de Castelo Branco. Venceram o congresso por dois votos. Nesse dia, Sócrates foi admitido no famoso sótão onde Guterres e companhia conspiravam contra Soares.

Edite Estrela, guterrista incondicional, conheceu-o por essa altura. A fama precedia-o "Lembro-me de me terem falado nele por causa do resultado de Castelo Branco. O que mais me impressionou foi o seu carácter determinado, lutador. Tinha uma grande força anímica e uma formação política sólida." Edite, que com os anos se tornou uma das melhores amigas de Sócrates, não hesita em considerá-lo "um dos nossos políticos mais cultos".

Os primeiros embates eleitorais de Sócrates como líder federativo, as legislativas e as autárquicas de 1985, foram uma hecatombe, já se escreveu. Mas os tempos eram outros, e os partidos eram menos adeptos das chicotadas psicológicas. Com duas enormes derrotas em cima, José Sócrates não se demitiu da distrital de Castelo Branco, nem foi demitido. Sabia o que queria e para o conseguir só precisava de aguentar. Dez anos depois, o PS já tinha triplicado os votos em Castelo Branco, distrito onde continua a ser, de longe, o partido mais votado.

Sócrates não esqueceu na política do que aprendeu a esquiar não desanimar com os primeiros trambolhões. Ele nunca desanimou, garante o homem que o ensinou a aguentar-se em cima dos esquis no início dos anos 80. Foi José Hermínio, dono duma loja de artigos desportivos no centro da Covilhã, quem pela primeira vez levou "o Zé" para a Serra Nevada, onde confirmou a têmpera do amigo: "Ele caía e levantava-se logo. Ele continuou, continuou, até começar a tomar o jeito. O Zé sempre teve muita força de vontade e capacidade para aprender".

Hoje o esqui é um dos desportos de eleição de Sócrates e um dos seus escapes favoritos. Mas, de todos os desportos que praticou ao longo da vida, a esgrima terá sido o mais útil a Sócrates. Nem o fôlego da natação, nem o músculo da maratona, nem a vertigem do esqui, nem a visão de jogo do bilhar o prepararam tão bem para a política como os treinos com o florete. Na Federação de Esgrima da Associação Académica de Coimbra, na segunda metade dos anos 70, o jovem Zé aprendeu bem a lição que hoje lhe pode ser útil na política a subtileza dos movimentos, a frieza da espera, a rapidez de reflexos, a força do ataque, a acuidade dos sentidos.
Reviravolta de 180 graus

O estágio de Sócrates para a política de primeira divisão foi feito no Parlamento, onde chegou em 1987. Apesar de não se ter distinguido por uma oratória reluzente ou por invulgares capacidades de trabalho parlamentar, Sócrates tem no currículo, nesses anos, algumas intervenções importantes, que não se cansa de referir quando fala do seu passado. Foi ele o primeiro deputado a levar ao hemiciclo a questão da sida. Foi também ele, com o amigo Armando Vara, quem apresentou o projecto de lei que permitiu a divulgação de sondagens durante as campanhas eleitorais.

Esse trabalho discreto, aliado a uma boa relação com os jornalistas e um sentido agudo da agenda mediática e dos temas emergentes permitiram-lhe alguns brilharetes. Em 1988, o Expresso elegeu-o "deputado-revelação". Sócrates tinha 30 anos, movia-se bem no aparelho do PS, era simpático e bem parecido mas continuava a ser visto em São Bento como um produto do aparelho socialista.

Enquanto a carreira política de Sócrates se ia solidificando, a sua vida pessoal foi marcada por dois acontecimentos. Em 1988 morreu num acidente a sua irmã mais velha, Ana Maria. A tragédia marcou-o para sempre. "Fez diminuir o meu interesse pela vida", confessou mais tarde o líder do PS. Em 1993, casou-se, apadrinhado pelos amigos Laurentino Dias e Edite Estrela. Desse casamento, que entretanto acabou, Sócrates tem dois filhos José Miguel e Eduardo.

É nesses primeiros anos da década de 90 que o pai lhe diagnostica "uma reviravolta de 180 graus no seu comportamento ele era terrivelmente desorganizado, sem tempo para cumprir os seus deveres do dia-a-dia, mas passou a ser metódico e organizado. Foi uma mudança radical e inesperada, para meu espanto e grande alegria."

Apesar do esforço de organização e método, Sócrates evitou passos em falso, como o negócio em que entrou com o amigo Vara numa empresa de distribuição de combustíveis. Em 1990 os dois deputados do PS tornaram-se sócios da Sovenco - Sociedade de Venda de Combustíveis, com outros três parceiros, um dos quais, anos depois, havia de dar pano para mangas nos jornais Virgílio de Sousa, condenado a prisão por um processo de corrupção no centro de exames de condução de Tábua. A aventura empresarial de Sócrates foi curta (menos de um ano) e literalmente para esquecer: no ano passado, quando a revista Focus desenterrou esse episódio, o socialista jurou que estava a ouvir falar dessa empresa "pela primeira vez". Só após algum esforço de memória se lembrou que tinha sido sócio.

Quase ministro...

José Sócrates levou muitos anos a livrar-se do preconceito de ser um "Guterres boy". Quando Guterres ganhou as eleições, em 1995, e o levou para o Governo, a escolha foi entendida como um prémio de bom comportamento para um dos seus fiéis. Quando fez o balanço do primeiro ano do governo de Guterres, o Expresso, o mesmo jornal que uns anos antes tinha escolhido Sócrates como "deputado-revelação", não escondia a surpresa com o desempenho do político da Covilhã "Jovem quadro socialista, que ninguém levava muito a sério, [Sócrates] foi premiado com a Secretaria de Estado do Ambiente, pelo apoio incondicional a Guterres, assumindo aos poucos uma visibilidade que rivaliza com a da ministra."

O primeiro ano de Sócrates no Governo conseguiu uma notável unanimidade na imprensa. Escrevia o DN "Ter empenhamento, ideias e capacidade, além de muita experiência política, foram precisamente os trunfos de José Sócrates, neste momento a figura emblemática do ministério [do Ambiente]". E o Público "Só José Sócrates, aquele de quem menos se esperava, surpreendeu pela positiva [no Ministério do Ambiente]".

Foi ainda durante a liderança de Jorge Sampaio que Sócrates tomou conta da área do Ambiente no PS. O partido não tinha porta-voz para esse sector e Guterres, que então era o patrão da estrutura socialista, sugeriu que o seu amigo da Covilhã podia dar conta do recado. Sócrates pouco sabia do assunto, mas não deixou escapar a oportunidade - percebeu que era uma área de futuro, uma preocupação emergente na sociedade e que lhe podia dar projecção, tal como tinha acontecido com Carlos Pimenta, do PSD. Assumiu o encargo, estudou dossiês, falou com quem sabia do assunto. Quando Guterres promoveu os Estados Gerais, para o ataque final ao cavaquismo, Sócrates tinha o trabalho feito o PS apresentava uma política de Ambiente avalizada por algumas sumidades do sector.

Até seria natural se fosse Sócrates o escolhido para ministro do sector. Depois da vitória eleitoral, Guterres conversou com o seu amigo e ambos concordaram que o Ambiente devia ser entregue a alguém com outro currículo, talvez mesmo de fora do partido. Por enquanto, Sócrates seria apenas secretário de Estado, tal como António Costa, Armando Vara ou António José Seguro, todos "compagnons de route" da sua geração. Assim, quando Elisa Ferreira foi convidada para ministra do Ambiente, Guterres comunicou-lhe que a aceitação do cargo implicava a aceitação de Sócrates como secretário de Estado.

Elisa era uma outsider, que mal conhecia o primeiro-ministro e não tinha experiência política. O seu número dois, pelo contrário, tinha acesso directo a Guterres, de quem era amigo pessoal, e na biografia já contava muito anos de política. Os desentendimentos entre a ministra e o secretário de Estado começaram logo na delegação de competências e as desconfianças mútuas nunca foram superadas enquanto Elisa e Sócrates coabitaram no ministério da Rua do Século. Dez anos depois, a ex-ministra desvaloriza os incidentes, à luz do "excelente trabalho" que ambos fizeram. "Nunca houve um conflito factual, que se possa chamar assim", diz. Mas reconhece que "era natural que [Sócrates] tivesse a ambição de ascender ao lugar que eu ocupava, como, aliás, acabou por acontecer. É nesse enquadramento que eu entendo as notícias que saíam sobre alegados conflitos."

Curiosamente, na recente disputa interna pela liderança do PS, o texto mais duro sobre Sócrates foi escrito por Fernando Freire de Sousa, marido de Elisa Ferreira e, também ele, secretário de Estado no primeiro Governo de Guterres. Chamou a Sócrates "o único ministro entertainer da nossa história", "um produto programado e tenso" que, "com toda a sua ambição, não regateia o uso do inacreditável para lhe servir os fins".

Como secretário de Estado do Ambiente, José Sócrates demonstrou que era mais do que um fiel de Guterres alcandorado pela máquina partidária. Destacou-se pela determinação com que enfrentou lobis e tomou decisões emblemáticas, sobretudo na área da defesa do consumidor, território quase inexplorado que o governante agarrou com as duas mãos. Obrigou a poderosa Portugal Telecom a aceitar a facturação detalhada, impôs a actualização automática dos prémios do seguro automóvel, obrigou à devolução das cauções dos telefones e da electricidade e introduziu os autocolantes "Publicidade? Não obrigado", contra a propaganda não endereçada nas caixas de correio. Na área dos resíduos, ditou o fim das lixeiras e impulsionou políticas de reciclagem.

... e mesmo ministro

Em 1997, quando Guterres o convidou para ministro adjunto do primeiro-ministro, Sócrates tinha acumulado um capital político impensável apenas dois anos antes. O inesperado abandono do governo por parte de António Vitorino obrigou o primeiro-ministro a dar pastas ministeriais a dois dos quadros socialistas que tinham ficado na segunda linha na formação do Executivo António Costa e José Sócrates. O primeiro ficou com os Assuntos Parlamentares, o segundo mudou-se para São Bento, como adjunto de Guterres.

No primeiro andar da residência oficial de São Bento, o primeiro-ministro e o ministro-adjunto trabalhavam porta com porta. Nunca estiveram tão próximos como nesses dois anos em que Sócrates se tornou um dos principais conselheiros de Guterres. É claro que Vitorino, mesmo fora do governo, continuava a ser ouvido; Jorge Coelho também, mas as suas novas tarefas de ministro da Administração Interna davam-lhe menos vagar para a política pura. No rol dos conselheiros mis próximos de Guterres incluíam-se ainda Guilherme d'Oliveira Martins e Pina Moura, mas nenhum estava na porta ao lado. Para falar com Sócrates, bastava a Guterres entrar-lhe no gabinete ou chamá-lo e era comum fazer tanto uma coisa como outra.

Estavam tão próximos que Guterres sabia sempre quando a vida corria mal ao seu ministro era sempre que este levantava a voz com os seus colaboradores. José Sócrates sempre ferveu em pouca água e ai de quem não esteja à altura das suas expectativas ou o contrarie sem que este lhe reconheça razão. Solta-se então o "animal feroz" de que falou na sua célebre entrevista ao Expresso.

"Ele é superfrontal e nunca terá uma úlcera, porque diz tudo o que pensa", afirma Maria Rui, sua assessora de imprensa e confidente há oito anos. Esta ex-jornalista, que conhece Sócrates como poucas pessoas, assegura que o chefe não tem mau feitio. A questão é outra, diz "Quando ele berra tem sempre razão".

O próprio já reconheceu numa entrevista que é "um osso duro de roer". Mas assegura que aprendeu as vantagens da temperança com o seu amigo primeiro-ministro. "Algumas vezes vim a verificar que uma atitude mais prudente de Guterres se tinha mostrado mais adequada do que uma certa impulsividade minha", confessou ao DNA.

Luís Patrão admite que o amigo "é absolutamente cioso das suas opiniões e da necessidade de as executar", e Edite Estrela reconhece que o candidato a primeiro-ministro "é transmontano no sentido de antes quebrar que torcer. Não contemporiza e é pouco flexível". Mas quase todos os seus amigos sublinham que Sócrates não é teimoso, é antes "determinado". Quase todos, menos um, Jorge Patrão, que aponta a "teimosia desmesurada" como o seu maior defeito.

Sócrates gosta pouco de ser apenas um homem de bastidores. Em São Bento, para além das tarefas de coordenação do Governo, fez questão de manter algumas áreas sectoriais continuou com a pasta da defesa do consumidor, a que acrescentou a juventude, o desporto e a política de combate à droga. Foi nestes dois pelouros que Sócrates mais se distinguiu. No desporto, entre vários brilharetes, lançou a candidatura de Portugal à organização do Euro 2004. A ideia, que a princípio parecia megalómana, provou ter pernas para andar, muito à conta do empenhamento pessoal do ministro. "Não tenho a menor dúvida de que, sem ele, dificilmente Portugal teria ganho. Para a decisão da UEFA contou muito o empenhamento do Governo português através do ministro José Sócrates", testemunha Pedro Silva Pereira, actual braço-direito do líder socialista, que o acompanha desde os tempos da Secretaria de Estado do Ambiente.

Na área do combate à droga, Sócrates lançou algo de inédito no País uma política integrada para a toxicodependência, que aposta- va na redução de riscos (nomeadamente através da vulgarização da substituição por metadona e do alargamento da troca de seringas) e na despenalização do consumo.

Apesar do trabalho feito nestes sectores, o activo político de que Sócrates mais se orgulha hoje é na área do Ambiente, à qual voltou depois das eleições de 1999, já como ministro. Aprovou o Programa Polis de recuperação urbana, completou a Rede Natura, deixou pronto o Plano Nacional das Bacias, o Plano de Ordenamento da Orla Costeira e o Plano Nacional da Água e travou a construção de um grande empreendimento turístico no Meco. Mas não conseguiu impor a co-incineração, uma batalha em que não torceu, mas também não levou a sua adiante.

"Quero, posso e mando"

A decisão de co-incinerar resíduos industriais perigosos nas cimenteiras de Souselas e Maceira era, à partida, polémica, mas o estilo buldozer com que Sócrates a quis impor comprometeu qualquer hipótese de sucesso. Contra ele, teve as populações dos concelhos escolhidos, claro, mas também os ambientalistas, que em tempos se tinham encantado com ele, e até os socialistas de Coimbra, capitaneados pelo tonitruante Manuel Alegre. Do deputado socialista, ficaram palavras duras acusou-o de "prepotência política" e até comparou o seu estilo "quero, posso e mando" com o autoritarismo de Cavaco.

Do lado dos ambientalistas, o embate também deixou mossa. A Quercus chegou a romper relações com o ministro do Ambiente, depois duma reunião em que Sócrates mal começou a ser contrariado, aumentou o volume de voz. Os jornalistas que estavam na sala ao lado da reunião lembram-se ainda hoje do tom exaltado com que Sócrates respondia às objecções dos ambientalistas. Ficou o caldo entornado. "O ministro queria mostrar que era muito determinado, tinha pressa de tomar decisões e tornou-se intransigente", recorda Francisco Ferreira, da Quercus. Longe iam os tempos em que Sócrates era um solícito secretário de Estado do Ambiente. "Nessa fase, ele pegou em dossiês decisivos e conseguiu marcar a diferença com uma postura de grande abertura. Ouvia e tinha em conta as diferentes opiniões. Quando passou a ministro, mudou, deixou de ouvir quem estava em desacordo".

Não é bem assim, diz quem trabalha com Sócrates. Segundo Pedro Silva Pereira, o líder socialista ouve muito quando está a formar opinião. "Ele é um político com convicções, mas que é capaz de as testar no confronto com outras opiniões. Ouve muita gente com pontos de vista diferentes, mas quando toma uma decisão, é determinado na execução." O porta-voz do PS assegura que Sócrates só decide quando está seguro da argumentação. "Ele é muito exigente consigo próprio, prepara-se bastante antes de decidir e antes de falar, acha que isso é condição para o exercício competente da política."

Que Sócrates se prepara antes de falar, ficou claro nos debates semanal com Pedro Santana Lopes, aos domingos, na RTP. Uns anos antes tinha-se estreado como político-comentador na SIC, a convite dos amigos Emídio Rangel e Margarida Marante. Nessa primeira experiência, tinha como interlocutores Paulo Portas e Daniel Proença de Carvalho. O advogado guarda desse convívio semanal na SIC uma boa impressão do socialista "Aparecia muito bem preparado sobre todos os temas, levava sempre um dossiêzinho e muitos apontamentos, nunca se deixava apanhar desprevenido. Não era um improvisador, mas também não ficava em dificuldades se surgisse algo inesperado".

Homem de sorte

Quando Rangel se transferiu para a RTP, convidou Sócrates para fazer frente a Santana. O PSD já estava no Governo, Santana era presidente da Câmara de Lisboa e Sócrates era deputado da oposição.

O socialista não deixou escapar a oportunidade com o PS debilitado, podia mostrar-se ao país. O Ambiente tinha-lhe dado alguma notoriedade e, sobretudo, uma preciosa rede de cumplicidades entre os autarcas e as estruturas locais do PS, mas a televisão é que o faria entrar em casa do povo. Ao longo da semana, ia tomando notas e ouvindo recomendações de amigos e, ao domingo, passava a manhã a preparar o argumentário para defrontar Santana.

Deu-se bem com a experiência. Passou a ser um dos rostos mais conhecidos do PS e, dentro do partido, que se ia afundando no processo Casa Pia, uma mão cheia de entusiastas ia passando a mensagem de que "o Sócrates" é que era o homem certo para suceder a Ferro Rodrigues. Enquanto Fernando Serrasqueiro, Mota Andrade, Ascenso Simões, Laurentino Dias, tudo gente influente nas bases, iam fazendo passar a boa-nova, enquanto José Lello, Jaime Gama e Pina Moura iam dando fôlego à alternativa, Sócrates mantinha uma prudente distância. Ia percorrendo estruturas locais do PS, na qualidade de membro da direcção de Ferro e em nome da unidade socialista. Quando Ferro caiu, tudo estava preparado e só a resistência de Manuel Alegre impediu que Sócrates percorresse uma passadeira vermelha.

Jorge Sampaio obrigou-o a medir forças com Santana Lopes mais cedo do que esperava. E hoje é José Sócrates quem recusa alimentar o gosto do seu oponente por frente-a-frentes televisivos. O socialista, como é seu hábito, estudou bem a lição - vem nos livros que quem está em vantagem não se coloca no mesmo plano do adversário nem lhe dá a mão. O erro, a existir, foi de Santana, mas não por falta de bons conselhos. Antes de começarem os debates dominicais com Sócrates, Einhart da Paz, o brasileiro que trata da imagem do líder do PSD, tentou demovê-lo. "Você está criando um monstro", alertou o publicitário. Santana não lhe deu ouvidos.

8 comentários:

xatoo disse...

esta é boa,
"ainda hoje tem na ponta da língua uma citação "A democracia é o reino do compromisso"
já falou com os 100 mil professores e com a ministra, um por um; agora só falta falar com a policia. Não tardará muito, pq não sei se já repararam: estamos em pleno reinado do cavaquismo reloaded

Zorze disse...

Caro Diogo, está de parabéns por este excelente artigo histórico. Mostra toda a Mesologia profissional de Sócrates. O seu crescimento e sobrevivência na selva política nacional.
Vê-se que houve trabalho de fundo. Repito está muito bom.

Um abraço,
Zorze

http://extrafisico.blogspot.com

contradicoes disse...

Como sempre o meu amigo, não aborda nada com superficialidade e este texto é bem demonstrativo disso. Mas o que mais ressalta é que sendo o caro Diogo um crítico das medidas que este político adopta na sua governação, não teve a mínima relutância em nos brindar com este excelente texto através do qual nos dá a conhecer o percurso político deste líder que muito jovem se iniciou na actividade por influência de seu pai na JSD e depois optou por militar no PS.
Um abraço
Raul

Anónimo disse...

grande ZÉ SOCRATES.bem hajas,pelos teus feitos!quais os teus segredos?como consegues?nao te deixes enganar pelo o povo,caso contrario,deixas de ser o eleito e o soberano desta nação.o importante é não dar treguas,fica na ofensiva,controla todos os meios de comunicaçao,e todas as indentidades.terás poder absoluto.usa e abusa.esses que se auto titulam de cidadoes,sao meras cobaias.viva o crime,assim podemos viver fora da rotina,sempre aquelas novelas das 21 horas...
é verdade ZÉ,quero te fazer uma pergunta?o teu banco é em alcochete?reparei que fizeste um deposito recentemente,e que depósito!mas o maior ainda esta para se realizar,não é?aeroporto e tgv...e mais ainda,aqueles tlim tlim,que aquele amigo...magalhães...lembrei me do nome...tambem podera,deixaste de ser o representante de uma naçao para seres vendedor...grande ZÉ.isso é que amor a camisa...
ZÉ não te maço mais,um abraço.espero um dia,te lembres de mim,como fizeste aquele amigo teu...os das beiras,aquele das aguas ou da etar,ou sei lá o nome verdadeiro...mas tu sabes.um abraço...

Anónimo disse...

"O castigo por não participares na política, é acabares por ser governado por quem te é inferior" - Platão

Há quatro anos, por circunstâncias diversas, não fui votar, e por coincidência (ou não), já fui muito castigado!!! Quando é que este senhor que não faz outra coisa senão servir-se a si e aos seus amigos, se retira sem deixar rasto?

Ze do Talho disse...

"O castigo por não participares na política, é acabares por ser governado por quem te é inferior" - Platão

Há quatro anos atrás, por circunstâncias diversas, não votei, e por coincidência (ou talvez não), não tenho (como quase todos) deixado de ser castigado! Sr. Sócrates, em nome da decência, da dignidade e do respeito pela nossa Pátria e pelos Portugueses, retire-se da política e não volte!

Anónimo disse...

Sabem que mais? O homem é AZEDOOO que se farta! Qualquer lelo "governava" melhor que ele. Pelo menos em termos económicos eramos capazes de nos safarmos. Pois no meu entender os "lelos" não deixariam os chinocas andar por aí. Vivam os Lelos.

Anónimo disse...

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