segunda-feira, janeiro 22, 2007

A OTA, o TGV, o Sócrates, as construtoras e os bancos

Porque é que os BANCOS que estes cavalheiros dirigem, têm garantidos desde já negócios milionários para a próxima década?








Porquê, Sr. Sócrates?




Miguel Sousa Tavares - Jornal Público - 9 de Dezembro de 2005

Delírios de rico em terra de pobres

Depois da Ota, o TGV. A febre dos "grandes projectos" tomou definitivamente conta do país e traz numa roda-viva de entusiasmo sem limites o Governo, as construtoras e os bancos: o primeiro apresenta "obra" e os outros têm garantidos desde já negócios milionários para a próxima década - desde que, como foram adiantando os nossos empresários, o Governo não se esqueça de, sem violar a legislação concorrencial comunitária, apresentar "regras flexíveis" que permitam às nossas empresas ser parte determinante do negócio.

Primeiro que tudo, o que impressiona nisto são os custos. A Ota vai custar, segundo as estimativas do Governo, 3,1 mil milhões de euros, e o TGV Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid 7,6 mil milhões. Se, porém, considerarmos as inevitáveis derrapagens que qualquer, qualquer empreitada pública sempre tem por definição, se considerarmos que o custo público da Ota vai ser sob a forma de venda da ANA ou de abdicação das receitas aeroportuárias por várias décadas, e se levarmos em conta os juros do financiamento bancário, estaremos mais perto da verdade provável se falarmos num custo conjunto nunca inferior a 12 mil milhões de euros. É simplesmente astronómico.

Depois, impressiona esta largueza de vistas, sobretudo quando comparada com outros países, bem mais ricos e desenvolvidos, onde não existem estes cíclicos impulsos faraónicos. Pergunto-me como é que um país que tem como dois hospitais centrais principais, nas duas maiores cidades, o S. João no Porto e o S. José em Lisboa - onde parece não haver sequer dinheiro para tampas de retrete nas casas de banho - já fez coisas como Sines, Cabora Bassa, Alqueva, Euro 2004. Tudo investimentos megalómanos, "desígnios nacionais" como lhes chamaram, e "elefantes brancos", como merecem ser chamados. Por que é que a Holanda e a Bélgica, bem mais prósperos que Portugal, organizaram em conjunto o Euro 2000 e apenas precisaram de sete estádios, dos quais dois novos, e nós, organizando sozinhos, precisámos de dez estádios, dos quais oito novos? Por que é que, em vez do grande Alqueva, gigante adormecido e majestático, não se fizeram antes uma série de médias e pequenas barragens que cobrissem todo o Alentejo e Algarve e retivessem toda a água que inutilmente escorre para o mar? Por que é que Málaga tem um aeroporto que actualmente movimenta o mesmo número de passageiros que a Portela mas que cresce o dobro desta anualmente, com apenas uma pista contra as duas da Portela e ocupando 320 hectares contra os 520 da Portela, e só espera rever as suas condições no ano 2020? Por que é que nenhum país do Norte da Europa, e países tão extensos e tão ricos como a Suécia, a Noruega, a Finlândia, sentiu até hoje a necessidade imperiosa de se dotar de um TGV?

Cinquenta anos depois do mítico "Foguete", equipado com velhas locomotivas Fiat, os moderníssimos Alfa-Pendular demoram somente dez minutos a menos a fazer o Porto-Lisboa. Entretanto, gastaram-se décadas a desmantelar linhas interiores transformando o transporte rodoviário num próspero negócio privado com tremendos custos públicos. Entretanto, gastaram-se 600 milhões de euros para fazer apenas 30 quilómetros de linha compatível com o comboio pomposamente baptizado de pendular, antes de desistir e abandonar o projecto. Entretanto, nada se fez para começar a substituir a linha de bitola ibérica pela de bitola europeia nos percursos internacionais, constituindo, esta sim, a verdadeira causa de marginalidade de Portugal no domínio dos transportes e, uma vez mais, uma excelente oportunidade de negócio para o transporte TIR. Entretanto, dezenas de administrações, raramente nomeadas pela sua competência e antes pela sua dedicação partidária, acumularam prejuízos autenticamente escabrosos na CP, sem que jamais alguém fosse responsabilizado. E agora dizem-nos que tudo se resolve com um TGV para o Porto e outro para Madrid.

Sem dúvida que é urgente uma ligação ferroviária Lisboa-Porto em tempo compatível com os dias de hoje, quanto mais não seja para pôr fim à situação de oligopólio concertado que faz da ligação aérea entre estas duas cidades talvez a milha aérea mais cara do mundo. A questão está em saber se, em lugar da Alta Velocidade (AV), cuja construção tem custos assustadores, incluindo até a construção de duas novas pontes sobre o Tejo, não seria suficiente e mais à medida das nossas necessidades e possibilidades a construção de uma linha de Velocidade Elevada (EV), que tem custos incomparavelmente mais baixos e que, no final, gastaria apenas cerca de 25-35 minutos a mais do que os 75 minutos previstos na ligação em AV. Será mesmo imperioso passarmos directamente do oito para o oitenta?

Já quanto ao TGV para Madrid, façam por esquecer toda a propaganda associada: trata-se simplesmente de uma imposição de Madrid, que assim, tal como já sucedeu com a A6, coloca cá, mais depressa e mais baratos, os produtos que esmagam a nossa insípida concorrência. É um TGV para servir Madrid e a única boa notícia, entre os planos divulgados pelo Governo, é que ao menos houve o bom senso de congelar, espera-se que definitivamente, os projectos liquidatários de levar a nossa submissão ao ponto de construir também as linhas Porto-Vigo, Aveiro-Salamanca e Faro-Huelva, que, num acesso de diplomacia "construtiva", Durão Barroso se tinha comprometido com Aznar a levar por diante.

O esquema do Governo é este: a UE pagará entre 20 a 30 por cento dos custos de construção do TGV - os tais 7,6 mil milhões, com a nova ponte Chelas-Barreiro. O resto ficará por conta dos contribuintes portugueses e representa um custo não amortizável em vida das próximas gerações. Aliás, nem há, tecnicamente, forma de o amortizar, visto que os lucros da exploração das linhas ficarão para os privados, em troca da aquisição dos próprios comboios. O Lisboa-Porto é um negócio de lucro garantido à partida: com uma duração de 75 minutos entre as duas cidades, só um idiota é que se lembrará de ir de avião ou de carro. Mais incerto é o negócio Lisboa-Madrid. Para atrair os privados, o Governo estima que haja anualmente cinco milhões de passageiros a circular no TGV de e para Madrid. O número parece, desde logo, absurdo: haverá mesmo 13.700 passageiros por dia a viajar entre Madrid e Lisboa de comboio? Se considerarmos que as estatísticas europeias revelam que o TGV entre duas cidades absorve em média metade de todo o tráfego de passageiros existente no total dos meios de transporte, isso implica a existência de mais de 27 mil pessoas a viajar diariamente entre as duas cidades. Alguém acredita?

Por outro lado, é interessante comparar aqui os números da propaganda do Governo ao TGV com as da propaganda à Ota. Porque a ideia que fica é que estamos perante o clássico dilema do cobertor que ou destapa a cabeça ou destapa os pés. Se, na propaganda do TGV, se sustenta que haverá anualmente cinco milhões de utentes da linha Lisboa-Madrid, é forçoso concluir que o Governo, e logicamente, está a prever que essa ligação "seque" por completo as alternativas aérea e rodoviária. Ou seja, a esmagadora maioria dos passageiros entre as duas cidades optará pelo TGV. Logo, esses cinco milhões devem ser abatidos ao "congestionamento" imaginado para a Portela. E aos cinco milhões devemos acrescentar os 555 mil que actualmente voam entre o Porto e Lisboa. Somando uns e outros, temos que metade do actual trânsito da Portela (dez milhões e meio por ano) desapareceria automaticamente assim que o TGV entrasse ao serviço nas duas ligações. Conclusão: ou o TGV para Madrid assenta em previsões delirantes, que o tornam inútil, ou a Portela não está em vias de ficar saturada e inútil é a Ota.

13 comentários:

Edu disse...

Às vezes fico assim meio irritado com certas "pontificações" do Miguel Sousa Tavares (ao fim e ao cabo perdoáveis porque o homem é brilhante) mas neste caso concordo 1000% com o raciocínio e as conclusões dele.

luikki disse...

só pelo e para o lucro dos "distintos cavalheiros" a ota tem justificação....

xatoo disse...

Quem anda a construir a Ota não são os portugueses - é a burguesia transnacional a quem a nossa burguesiazita vendeu a quinta para servir de plataforma giratória para exploração das neo-"nossas" Áfricas e Brasil
Já pelo TGV sou a favor - presume-se que estejamos embarcados na mesma nau da Europa?
ou não estamos?
Se calhar somos apenas uma excrecência da Base das Lajes,,,

DLM disse...

Já viu que desta vez não bufou de odio e não cuspiu insultos aos estados unidos? Está um passo mais próximo da cura

Sofocleto disse...

Xatoo,

O TGV é o maior roubo que se vai fazer a este país, mais absurdo e dezenas de vezes mais caro que os estádios do Euro 2004.

1 – Estudos já efectuados indicam que as distâncias mínimas e máximas para um TGV variam entre os 400 km e os 900 km. O Lisboa-Porto não cumpre este requisito. E com as paragens intermédias previstas (Ota, Leiria, Coimbra, Aveiro), o TGV nem teria espaço nem tempo para acelerar.

2 – Faltando pouco para terminar as obras da linha do Norte de modo a ter, de facto, um pendular de velocidade alta (220 km/h), não faz qualquer sentido construir uma linha de milhares de milhões de contos para poupar 26 minutos de viagem. Seríamos aliás o único país do mundo com duas linhas paralelas de grande velocidade: AV - alta velocidade (330 km/h) e VA - velocidade alta (220 km/h). Isto no país mais pobre da Europa.

3 – Para Madrid não existe tráfego que justifique um TGV (330 km/h). O lógico seria ter um pendular de velocidade alta (220 km/h). A diferença de tempos entre os dois comboios na parte portuguesa seria apenas de 18 minutos.

4 - O TGV NÃO nos liga à Europa. Ninguém irá para Paris, Milão ou Lion de TGV, viagens que demorariam cerca de doze horas. Outras capitais – Viena, Berlim ou Copenhaga seriam uma eternidade.

5 - Não é por acaso que os países mais avançados da Europa não têm TGVs (330 km/h), mas sim comboios de velocidade alta (220 km/h). Nos Estados Unidos, com grandes cidades separadas por grandes distâncias, também não existem TGVs.

6 – O crescimento exponencial dos voos «low cost» arrumam de vez com os TGVs, permitindo viagens extremamente baratas para todas as distâncias. Vejam-se os preços para Madrid, Barcelona e para o resto da Europa. Os «low cost» também arrumam a OTA. Com menores exigências tornam perfeitamente viáveis as pistas de Alverca, Montijo e Tires.

a.castro disse...

Nos últimos dias tenho visto nos telejornais indivíduos que me lembro bem de os ter visto como membros dos governos anteriores. Esses fulanos podem até ter sido imcompetentes a governar, mas uma coisa nunca falha: logo que saem do Governo são colocados a comandar as maiores empresas. Nos casos da OTA e TGV vai ser a mesma coisa. Para esses "empreendimentos indispensáveis" o Governo não se importa de gastar dinheiro, porque vai roubá-lo aos contribuintes. E depois já tem mais uns "jobs for the boys"...boys esses que estão ansiosamente à espera para encher o bandulho (fui ao dicionário conferir e essa palavra existe, por isso não me podem prender. Diz assim: parte mais larga do estômago dos ruminantes.)

Lidador disse...

Alguma vez teríamos de estar de acordo Sofocleto.
Também acho que o TGV é um investimento faraónico e desnecessário.

Aliás nem sei como é que países miseráveis como a Irlanda, a Austria, a Suécia, a Noruega, etc, conseguem sobreviver sem TGV.

A diferença é que eu acho que a culpa disso é a irracionalidade económica do Estado.
Como nos saca demasiado dinheiro dos impostos, tende a malbaratá-lo em obras de "regime", que ficarão para a "posteridade".

Eu tenho a certeza que utilizaria melhor a parte que me foi e vai continuar a ser sacada. Por exemplo, para viajar mais vezes até Madrid, ajudando a criar uma procura que estimula a oferta das "low cost".

Infelizmente, temos um estado com tiques comunistas, que ainda pensa que a economia se molda com planos quinquenais.

Sofocleto disse...

Lidador,

É com prazer que constato que estamos de acordo de que o TGV não passa de um mamute branco pago a peso de ouro.

O que nos separa neste assunto é que, onde você vê um governo com tiques comunistas a malbaratar o nosso dinheiro em planos quinquenais, eu vejo um governo constituído por indivíduos a soldo dos bancos (sem o apoio dos quais nunca teriam chegado a cargos de poder), e para quem o acto de governar significa transferir o dinheiro dos bolsos dos portugueses para os cofres do poder financeiro monopolista.

Não é por acaso que este poder financeiro paga 11% de IRC (em vez de 25%), que faz aprovar obras faraónicas onde vai buscar 1/3 em juros e tem o beneplácito governamental para levar a cabo mil outras aldrabices.

augustoM disse...

Quem quer continuar no poder tem de agradar aos poderosos, o resto que se lixe.
Um abraço. Augusto

O-Lidador disse...

Lá está, o Sofocleto em vez de tentar compreender as perversões de um sistema em que o Estado se mete em asssuntos em que não se devia meter, prefere aparelhar-se de D. Quixote e ir à procura de conspiradores moinhos de vento.

Ainda não percebeu que os moinhos de vento, fazem sempre o mesmo estejam onde estiverem: giram com o vento...
É por isso que se chamam moinhos de vento.
São úteis para muitas coisas.

O que não devia acontecer, era que fosse o Estado a soprar o vento, ainda por cima com o fôlego que nos tira todos os meses.

Aí é que está o problema.

Quanto aos moinhos, alguém tem de moer o cereal...

inominável disse...

para qualquer incauto, diria que o Lidador e o Sofoclto tinham lavado o cesto das suas diferenças até às próximas vindimas...

xatoo disse...

Sofocleto
quando os combustiveis ficarem escassos e a custos exorbitantes, (a actual crise é já por causa disso), as low-costs mudam de designação para "high-costs"; e o TGV já passa a a ter clientes.
Por isso é que eu disse que concordava com o TGV, mas apenas para Madrid, para nos ligar à Europa, que já usa essa bitola.
Portanto, essa assumpção assim de caras pelas low-costs não é assim tão linear

Sofocleto disse...

Xatoo,

Os TGVs (330 km/h) gastam mais 50% de energia do que os pendulares (220 km/h). Como a maior parte da energia eléctrica que se consome provém do petróleo, os TGVs passam de high-costs para super-high-costs.

Principais fontes da energia consumida no mundo:

39% - Petróleo
27% - Carvão
24% - Gás Natural
7% - Nuclear
3% - Hidroeléctrica

Ainda por cima, os TGVs implicam infraestruturas caríssimas feitas de raiz, que os aviões não precisam, porque o comboio vai por terra e o avião vai pelo ar. Pior, os TGVs espanhóis não levam mercadorias, apenas passageiros. Por último, O TGV não nos liga à Europa, porque ninguém vai gastar 12 horas de TGV de Lisboa a Paris enquanto de avião demora apenas duas horas.

O futuro do transporte de passageiros a médias e longas distâncias está decididamente nos aviões. Onde se vai de ter de poupar radicalmente é no transporte rodoviário. Quanto aos comboios, tal como fazem os países nórdicos, os pendulares (220 km/h) de passageiros e mercadorias são a solução mais lógica.