Henrique MonteiroJornal Expresso - 29 de Setembro de 2001 (
17 dias depois do 11 de Setembro)
As boas consciênciasAS BOAS consciências europeias estão preocupadas com um eventual ataque dos EUA como retaliação dos atentados de 11 de Setembro.
As boas consciências temem que o ataque seja dirigido contra incertos e faça vítimas inocentes. Já temeram, aliás, que esse ataque fosse a 12, a 13, a 14, ou 15 de Setembro, e até ficaram um pouco desconcertadas
porque George W. Bush não mostrou, afinal, ser o «cowboy» irresponsável que as boas consciências diziam ser. Mas, como as boas consciências têm sempre razão, fica a saber-se que Bush não atacou porque está bem aconselhado. Por ele - as boas consciências sabem isto de fonte certa -, teria atacado o mundo inteiro e o Afeganistão em particular logo no dia seguinte, sem passar cartão a ninguém e espalhando um terror ainda mais maléfico do que aquele que atingiu os EUA.
As boas consciências são precavidas e desconfiadas em relação aos EUA, nação que, como se sabe, tem atrás de si um passado muito suspeito. Em relação à França ou à Alemanha e de um modo geral à Europa as boas consciências não são tão vigilantes. Por exemplo, a França pode contemporizar com células terroristas da ETA instaladas no seu país, apesar dos esforços da Espanha para uma maior cooperação antiterrorista, porque a França... enfim, é a França, um país culto, ao contrário dos Estados Unidos, que são todos «cowboys» que nem sabem beber vinho e acham o McDonald's uma especialidade gastronómica.
Numa palavra, os americanos não são gente em quem se confie, salvo quando a Europa é ameaçada, seja pelo Kaiser, seja por Hitler, seja pelos soviéticos. Aí sim, eles fazem falta e convém que ajudem os europeus a preservar a sua enorme cultura e bom gosto.
Por isso é natural que as boas consciências desconfiem dos EUA e não lhes dêem o direito de retaliar. A retaliação, como se sabe, pode trazer vários inconvenientes à Europa, nomeadamente pode fazer com que os terroristas se lembrem de alguns alvos no Velho Continente. À excepção dos ingleses (outro povo de comerciantes sem cultura, apenas úteis para resistir à barbárie de Hitler), as boas consciências europeias temem que a sua vida sofra incómodos.
Até porque - sustentam as mesmas boas consciências - os EUA vão cometer erros. Não se lembram dos danos colaterais? E erros é uma coisa que as boas consciências não toleram. Não podem admitir erros na retaliação.
Exigem provas, passadas em cartório, em como apenas os verdadeiros responsáveis pela barbárie de 11 de Setembro serão castigados.
As boas consciência não querem perceber que isto é uma guerra. Uma guerra nova, prolongada e difícil, e que em todas as guerras há erros e vítimas inocentes (as primeiras, foram as quase 7000 que pereceram nos EUA). E esta guerra a que o mundo livre foi (é) obrigado pela barbárie do terror não será excepção. Haverá erros e injustiças, pelo simples facto de que haverá acção.
Só que as boas consciências cometeriam erros bem mais graves: o de viverem contemporizando com o terror, sacrificando a liberdade e a segurança de todos nós.
Comentário:É difícil não sentir um arrepio ao relembrar as palavras premonitórias de um grande jornalista e, cinco anos passados, actual director do mais influente semanário português.
Também eu, armado em boa consciência, (mea culpa), desconfiei dos EUA. Também eu (mea culpa), sustentei que iriam haver danos colaterais. Também eu (mea culpa), exigi provas, passadas em cartório, de que seriam os verdadeiros responsáveis pela barbárie de 11 de Setembro que seriam castigados. Também eu (mea culpa), cometi o erro de contemporizar com o terror.
Mas Monteiro tem razão:
basta de contemporizações. Vamos apurar responsabilidades. Sejam terroristas de espada ou de pluma. Tão assassinos uns como outros.