Terça-feira, Julho 08, 2008

Lóbi das obras públicas, o grande financiador dos partidos do ‘centrão'

Miguel Sousa Tavares

Expresso 05/07/2008

«Manuela Ferreira Leite tem toda a razão, quando denuncia a inutilidade de obras públicas que não são essenciais, que não obedecem a uma estratégia conhecida de desenvolvimento, que são lançadas quando se enfrenta uma crise e se tenta a todo o custo conter o défice, e quando a factura é remetida para os nossos filhos. E tem toda a coragem, quando ousa enfrentar o lóbi das obras públicas, que é o grande financiador dos partidos do ‘centrão’. Caiu-lhe em cima a CIP e a AICCOP, uma das associações do sector, justamente alarmadas.

Diz o presidente desta última que "compete à iniciativa privada assumir-se como motor de desenvolvimento e o que nós pedimos é que o Estado crie as condições para se iniciar um novo ciclo de investimento". Eu traduzo, para o caso de ainda haver alguém que não perceba: eles são iniciativa privada para os devidos fins de respeitabilidade e estatuto; mas só são iniciativa se o Estado lhes garantir as empreitadas e os negócios e só são privados para colherem os lucros, ficando os riscos para o Estado. É assim como se o merceeiro da esquina dissesse: ‘Se o Estado me garantir que compra todo o «stock» que eu não conseguir vender, eu garanto a minha iniciativa privada de comerciante’.»


Comentário:

Como se a Manuela tivesse vontade de enfrentar o lóbi das obras públicas! Como se a Manuela, tal como o Sócrates, não fizesse parte do tal centrão que é financiado pelo dito lóbi.

O Sócrates e a Manuela estão para o lóbi das obras públicas, como o Bush e a Hillary estão para o lóbi militar-industrial americano. Meros "public relations representing business".
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Segunda-feira, Junho 16, 2008

Mário Lino brinda as Mota Engis com 40 mil milhões de euros

Miguel Sousa Tavares: «Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»


Diário Económico Online/Lusa - 20/05/2008:

O ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Mário Lino, afirmou estimar que o plano de investimento em infra-estruturas para os próximos dez anos vá aumentar o nível de actividade no sector da construção de sete para 11 mil milhões de euros por ano.

(...) Os projectos de investimento em grandes infra-estruturas lançados pelo Governo para os próximos 10 anos ascendem a quase 40 mil milhões de euros.

(...) "Estamos perante uma situação que é urgente mudar radicalmente e é nesse sentido que temos vindo a trabalhar arduamente, afrontando muitas vezes incompreensões só justificáveis por preconceitos contra o que se tem, inapropriadamente designado por 'política do betão', e por obstáculos só justificáveis por quem põe interesses particulares, nomeadamente politico-partidários, à frente dos interesses do país", afirmou.



Comentário:

Quando um quinto dos portugueses (1,8 milhões) tem emprego precário, quando existem dois milhões de pobres em Portugal, quando se contam por várias centenas de milhares o número de desempregados no nosso país, «os mesmos de sempre» voltam a apostar em «obras» criminosamente inúteis e dispendiosas.
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Terça-feira, Junho 03, 2008

Como se lança um concurso para um TGV no valor de 1.450 milhões de euros no começo de um Europeu de Futebol

Enquanto as televisões apontam as suas câmaras para a carreira da selecção nacional de futebol no Euro 2008, o governo aproveita para lançar elefantes brancos abjectamente dispendiosos e inúteis que vão endividar o país por gerações:



Media Manipulation (Wikipedia):

Manipulação Mediática consiste num tipo de relações públicas no qual os políticos criam uma imagem ou uma argumentação que favorece os seus interesses particulares. Tais tácticas incluem o uso de falácias lógicas e técnicas de propaganda, e envolvem muitas vezes a supressão de informação ou pontos de vista, induzindo outras pessoas ou grupos de pessoas a parar de ouvir determinados argumentos, ou simplesmente desviando-lhes a atenção para outro lado.

Desvio de atenções graças a um acontecimento especial (Distraction by phenomenon): é uma estratégia arriscada mas efectiva pela qual o público pode ser distraído por longos períodos de um assunto importante por outro assunto que ocupa mais tempo nos meios de comunicação. Quando a estratégia resulta, pode-se ter uma guerra ou outro evento mediático desviando a atenção de comportamentos reprováveis ou de menor honestidade por parte dos líderes.





Miguel Sousa Tavares (Expresso 07/01/2006)

«Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos [Ota e TGV], [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita.»

«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»
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Quarta-feira, Maio 14, 2008

Miguel Sousa Tavares - "Sr. Sócrates, chega de jogadas feitas na sombra"


Miguel Sousa Tavares (Expresso 10/05/2008)

Por favor, não governem mais!

«(...) E quem sentiu a necessidade urgente de mais auto-estradas a rasgar todo o interior já deserto, de um novo aeroporto para Lisboa, de um TGV de Lisboa para Madrid, outro do Porto para Vigo e de uma nova ponte sobre o Tejo para o servir? Quem foi que andou a gritar “gastem-me o dinheiro dos meus impostos a fazer auto-estradas, pontes, aeroportos e comboios de que não precisamos”? Porque razão, então, o lóbi das obras públicas, os engenheiros, projectistas, banqueiros e advogados que os assessoram, mais a ilusão keynesiana do primeiro-ministro, nos hão-de impingir o que não pedimos?

Fomos nós, porventura - ou os autarcas, os especuladores imobiliários e os empresários do turismo - que reclamámos a legislação de excepção dos Projectos PIN para dar cabo da costa alentejana e do que resta do Algarve? Foi nossa a decisão que a Comissão Europeia classificou como uma batota para contornar as normas de protecção ambiental e ordenamento do território?

Fomos nós que reclamámos a privatização da electricidade para depois a pagarmos muito mais cara ou que, inversamente, protegemos até ao limite o monopólio da PT nos telefones fixos, em troca de termos o pior e o mais caro serviço telefónico da Europa?

Fomos nós que nos revoltámos contra o queijo da Serra feito em mesas de mármore, a galinha de cabidela ou o medronho da Serra de Monchique? É em nome da nossa vontade e da nossa cultura que o «ayatollah» Nunes e a sua ASAE aterrorizam e enfurecem meio país?

Fomos nós que estabelecemos uma sociedade policial contra os fumadores, que quisemos encher Lisboa de radares para controlar velocidades impossíveis e ajudar a fazer da caça à multa o objectivo principal da prevenção rodoviária?

Fomos nós que concordámos em que os agricultores fossem pagos para não produzir, os pescadores para não pescar, as empresas para fazer cursos de formação fantasmas ou inúteis, alguns escritores para terem ‘bolsas de criação literária’ para escrever livros que ninguém lê, os privados para gerir hospitais públicos com o dobro dos custos?

Fomos nós que aceitámos pagar por caças para a Força Aérea que caem todos sem nunca entrar em combate, helicópteros que não voam por falta de sobressalentes, submarinos que não servem para nada, carros de combate que avariam ao atravessar uma poça de água?

Fomos nós que decretámos que o Euro-2004 era “um desígnio nacional” e, para tal, desatámos a construir estádios habitados por moscas, onde jogam clubes que vegetam na segunda divisão ou se aguentam na primeira sem pagar aos jogadores, ao fisco e à Segurança Social? E é a nossa vontade colectiva que anda a animar uns espíritos inspirados que já por aí andam a reclamar um Mundial de Futebol ou mesmo uns Jogos Olímpicos?

Ah, e a regionalização, essa eterna bandeira de almas ingénuas ou melífluas, que confundem descentralização com jardinização? Esse último disparate nacional que falta fazer e com o qual nos ameaçam ciclicamente com o argumento de que está na Constituição, embora nós já tenhamos respondido, clara e amplamente, que dispensamos a experiência, muito obrigado?

Será que não se pode acalmar um bocadinho os nossos esforçados governantes? Pedir-lhes que parem com os “projectos estruturantes”, os “desígnios nacionais”, os “surtos de desenvolvimento”, os PIN, os aeroportos, pontes e auto-estradas, que deixem de se preocupar tanto com o que comemos, o que fumamos, o que fazemos em privado e o que temos de fazer em público? Eu hoje já só suspiro por um governo que me prometa ocupar-se do essencial e prescindir do grandioso: um governo que prometa apenas tentar que os hospitais públicos funcionem em condições dignas e que não haja filas de espera de meses ou anos para operações urgentes, que os professores e alunos vão à escola e uns ensinem e outros aprendam, que os tribunais estejam ao serviço das pessoas e da sua legítima esperança na justiça e não ao serviço dos magistrados ou dos advogados, que as estradas não tenham buracos nem a sinalização errada, que as cidades sejam habitáveis, que a burocracia estatal não sirva para nos fazer desesperar todos os dias. Um governo que me sossegue quanto ao essencial, que jure que não haverá leis de excepção nem invocados “interesses nacionais” que atentem contra o nosso património: a língua, a paisagem, os recursos naturais.

Mas não há dia que passe que não veja o eng.º Sócrates a inaugurar ou a lançar a primeira pedra de qualquer coisa. E encolho-me de terror perante esta saraivada de pedras, que ora ajuda a roubar mais frente de rio a Lisboa, ora entrega mais uma praia a um empreendimento turístico absolutamente necessário para o “desenvolvimento”, ora lança mais uma obra pública inútil e faraónica destinada a aliviar-me ainda mais do meu dinheiro para o dar a quem não precisa. Vivo no terror dos sonhos, dos projectos, das iniciativas de governantes, autarcas e sábios de várias especialidades. Apetece dizer: “Parem lá um pouco, ao menos para pensar no que andam a fazer!”

Além de mais, já não percebo muito bem o que justifica tanto frenesim. Já temos tudo o que são vias de transporte concessionado para as próximas gerações: auto-estradas, pontes, portos, aeroportos (só falta o comboio, mas os privados não são parvos, vejam lá se eles querem ficar com o negócio prometidamente ruinoso do TGV!). Já temos tudo o que é essencial privatizado (só falta a água e palpita-me que não tarda aí mais esse ‘imperativo nacional’). É verdade que ainda faltam alguns Parques Naturais, Redes Natura e REN por urbanizar, mas é por falta de clientes, não por falta de vontade de quem governa. Já faltou mais para chegarmos ao ponto em que os governos já não terão mais nada para distribuir. Talvez então se queiram ocupar dos hospitais, das escolas, dos tribunais. Valha-nos essa esperança.»


Comentário: Mas é o próprio Miguel Sousa Tavares que, numa lógica desassombrada, assenta uma forte machadada na esperança de um período de obras menos faraónicas, menos inúteis e menos ruinosas:

Miguel Sousa Tavares (Expresso 07/01/2006): «Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos [Ota e TGV], [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita.»

«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»
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Quinta-feira, Abril 24, 2008

O Sr. Silva e o Jardim além-mar plantado



Texto de Miguel Sousa Tavares (Expresso 19/04/2008)

Cavaco no estrangeiro

«Os relatos da longa visita de Cavaco Silva à Madeira - uma semana inteira, que a agenda divulgada está longe de justificar - deixaram-me a estranha sensação de que o Presidente está de visita a um país estrangeiro: uma espécie de Palop, só que um Palop muito especial onde pagamos um alto preço por a bandeira nacional ainda flutuar onde o governo local consente.

A visita começou mal antes mesmo de começar. Primeiro, porque foi antecedida de uma outra da segunda figura do Estado - essa anémona política que é Jaime Gama - que resolveu entronizar o dr. Jardim como símbolo supremo da vida democrática: o presidente do Parlamento nacional propondo como exemplo alguém que trata o parlamento regional como um lugar onde coabitam um bando de eunucos às suas ordens e “um bando de loucos” que se atreve a pôr em causa os ensinamentos do querido líder. Depois, porque antes mesmo de embarcar, já Cavaco tinha feito divulgar um comunicado anunciando ao que ia: elogiar a ‘obra’ do dito líder. E, enfim, porque, à partida, já o Presidente sabia que a sua agenda era determinada pelo dr. Jardim e de acordo com os seus desejos: estava afastado da Assembleia Regional, para que os “loucos” não envergonhassem a Região; estava afastado das traseiras da obra de sucesso do querido líder, onde entre 20 a 30% da população vivem abaixo do limiar de pobreza e em condições que deveriam obrigar o Presidente da República a perguntar alto e bom som para onde foi o dinheiro, além dos túneis e viadutos para encher o olho; e, finalmente, porque apenas lhe era consentido - e ele aceitou - receber a oposição representada no parlamento regional em “encontros informais”, no hotel onde Sua Excelência se hospedava, tal qual como receberia amigos ou conhecidos locais. E Cavaco Silva - o “sr. Silva” de Alberto João Jardim - aceitou tudo isto, muito mais do que é normal aceitar numa visita ao estrangeiro.

A visita de Cavaco à Madeira é uma nódoa que não sairá tão cedo, um momento de vergonha e capitulação que veio manchar uma Presidência até aqui pacífica, louvada e isenta de riscos. Mas, na primeira vez em que tinha de correr riscos políticos e assumir-se como representante primeiro da nação portuguesa, Cavaco Silva mostrou a massa de que é feito. E deixou muitas saudades de Presidentes com coragem e capazes de distinguir aquilo que, às vezes, é essencial e de que não há forma de fugir. Tivemos dois desses: Eanes e Mário Soares. Cavaco não tem esse instinto democrático inato: é um democrata por educação, não por natureza. Já o sabíamos, mas foi penoso ter de o recordar e logo a pretexto desta fantochada interminável e menor que é a longa chantagem de trinta anos que o dr. Jardim exerce sobre os órgãos de soberania e a política portuguesa.

O que eu gostava que um Presidente da República do meu país fosse fazer à Madeira era que, em lugar de se juntar ao coro dos elogios à ‘obra’ do dr. Jardim, tivesse um elogio para os portugueses que, trabalhando e pagando impostos ao longo de trinta anos, contribuíram para que a ‘obra’ se fizesse e para que o dr. Jardim fosse sucessivamente reeleito à conta disso. Que tivesse a coragem de resgatar a dívida de gratidão que a Madeira tem para com Portugal e que tem sido paga pelo dr. Jardim com intermináveis insultos e provocações, como se fosse nosso dever pagar e calar em troca do privilégio de a Madeira continuar portuguesa. Gostava que o Presidente explicasse aos madeirenses que ser português não é o resultado de uma conta de merceeiro, em que se pesa o deve e o haver e em que se reivindicam todos os direitos e se exige isenção de todos os deveres. E que, a continuar por este caminho, chegará o dia em que os portugueses vão exigir, não a “autonomia sem limites” de que falava o infeliz Luís Filipe Menezes, mas sim a independência da Madeira: a independência declarada por Portugal, entenda-se; não a independência declarada pela Madeira. Que chegará o dia em que os portugueses se vão perguntar por que é que hão-de continuar a sustentar o poder, os negócios e o exibicionismo mediático daquelas figuras patibulares que esperavam Cavaco no aeroporto do Funchal. A mim, se me perguntarem se quero continuar a pagar impostos para sustentar esta ‘autonomia’ da Madeira, representada e usufruída por aquela gente, eu respondo já que não. Que vão à vida deles e que arranjem quem lhes pague as contas, porque a mim nunca me pagaram para ser português nem eu aceitaria.

Cavaco Silva deveria ter mais cuidado, mais sensibilidade política e mais noção de Estado ao afirmar que “nenhum português contesta hoje a autonomia regional”. Qual autonomia: a que custa 60, a que custa 90 ou a que custa 120 milhões por ano?

Eu faço parte de um grupo, só aparentemente minoritário, dos que não acham o dr. Alberto João Jardim “engraçadíssimo”. Não lhe acho mesmo piada nenhuma. Portugal já não é, felizmente, aquela tristíssima gente que vimos nas reportagens televisivas desta semana à espera da comitiva dos drs. Cavaco e Jardim. Aquilo é o Portugal no seu pior - inculto, ignaro, subserviente perante o poder, mendicante, reverente, alimentado a ‘sopas de cavalo cansado’ e vendendo o voto por um chafariz. E também não sou sensível àqueles supostos esgares de humor de Cavaco Silva, debitando banalidades grandiloquentes, quando desce ao ‘povo’, protegido por um eterno esquadrão de gorilas que jamais dispensa. Acho tudo aquilo uma fantochada, o Américo Tomás revisitado num país que eu desejo para sempre defunto e sepultado.

Esta viagem de Cavaco à Madeira serviu para me explicar, se eu não soubesse já, a razão pela qual jamais votei ou votarei neste homem. Porque, ao contrário do que ele parece pensar, não é o cargo que está ao serviço dele, mas ele que deveria estar ao serviço do cargo. E não esteve.
»


Comentário:

Mas o Expresso não gosta de deixar assim maltratados os seus políticos favoritos por escritorzecos tão «out of the main stream».

Para compensar o mau génio de Sousa Tavares, o jornalista do Expresso João Garcia, o das fotografias e dos comentários do «Altos & Baixos», não faz a coisa por menos: dá um Alto a um cúmplice de genocídio e um Altíssimo a uma nódoa presidencial:

João Garcia: «Cavaco Silva Presidente da República - O "sr. Silva" deve estar a ter uma das visitas de Estado mais divertidas desta República. Surpreendido com o dislate sobre o "bando de loucos", o chefe de Estado não tem perdido a oportunidade para elogiar o bom senso, a dignidade, a moderação, a serenidade e a sobriedade das diferentes personalidades com que se cruza na Madeira. Só se tem esquecido do líder».

Garcia coloca ainda, para contraste, as caras de Menezes e de Avelino Ferreira Torres na secção dos «Baixos». Em vão! Nódoa por nódoa, assassino por assassino, os «Baixos» pecam apenas por ingenuidade e benevolência.

Tal pasquim, tal «democracia», tal merda.
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Quarta-feira, Abril 16, 2008

O CEO não pode esperar



Miguel Sousa Tavares - Expresso 12/4/2008

E por que não uma ponte?

«Confesso que não tinha pensado muito no assunto, talvez porque, tendo gasto demasiado tempo e atenções a perceber bem o que era o embuste do aeroporto da Ota ou o luxo do TGV não me sobrou igual atenção e disponibilidade para olhar mais de perto a questão da nova ponte sobre o Tejo. Resolvida, parcialmente bem, a questão do novo aeroporto de Lisboa (eu faço parte do restrito número dos que ainda não estão convencidos da necessidade de novo aeroporto), resolvida, como mal menor ou bem inútil, a megalomania do TGV, aí está, por acréscimo e decorrente das duas decisões anteriores, a nova ponte sobre o Tejo.»

«Escutando e lendo o que se dizia sobre o assunto, concluí que a discussão versava apenas sobre a sua melhor localização: o Governo queria Chelas-Barreiro, a CIP queria Beato-Montijo, e alguns outros, a que se veio juntar o líder do PSD, queriam Algés-Trafaria. E foi só quando o Governo apresentou a sua “decisão final” por Chelas-Barreiro (já se percebera que, tendo cedido no aeroporto, não iria ceder na ponte, por uma questão de imagem de autoridade), que eu comecei a olhar melhor para os fundamentos da decisão e, de súbito, me assaltou a pergunta: para que serve a nova ponte

«Vejamos: a ponte será rodoviária, com seis faixas de rodagem, e ferroviária, com duas faixas para o TGV e outras duas para comboios normais. Olhemos então para cada uma destas utilidades.»

«A utilidade rodoviária é incompreensível: a Vasco da Gama, inaugurada há dez anos, está muito longe, longíssimo, do limite da sua capacidade e não será o trânsito do novo aeroporto de Alcochete que a irá esgotar. A necessidade de fazer uma nova estrutura rodoviária para uma procura que não existe é, aliás, uma tendência que se vem acentuando no lançamento de uma teia de auto-estradas, anunciadas com orgulho pelo Governo ou de paternidade reclamada pela oposição. Há dias, um casal estrangeiro meu amigo, que tinha acabado de conhecer a A-2 e a A-6 num dia de semana, comentava comigo que nunca, em lado algum, tinha visto auto-estradas tão boas e tão desertas, ao que eu respondi que nós éramos um país bem mais rico do que as estatísticas económicas mostravam: um terço da população activa, com crise ou sem ela, viaja compulsivamente para destinos exóticos distantes, no Verão, no Natal e na Páscoa; temos 1,5 fogos por habitante e continuamos desenfreadamente a construir segundas habitações no que resta de litoral ou interior ainda disponível; temos mais de um automóvel por família e mais de um telemóvel por habitante; e temos auto-estradas para todo o lado e algumas sem portagens, que fazem corar de inveja esses casos de sucesso económico sem auto-estradas nem TGV que são a Irlanda, a Suécia, a Noruega, a Dinamarca. Logo, a nova travessia rodoviária do Tejo em Lisboa (ainda no ano passado se inaugurou mais uma, em Santarém) é inútil para as necessidades existentes. Mas é, sem dúvida, muito útil para as necessidades a criar.»

«Se eu vivesse no Barreiro - ou no Montijo ou na Trafaria - de certeza que acharia brilhante a ideia de me fazerem uma ponte à porta de casa e ligada a Lisboa: em vez de vir de barco, vinha de carro. Mas aí, justamente, é que está o gato: a nova ponte, segundo o estudo do LNEC, terá um tráfego de 65.000 carros/dia em cada sentido, dos quais apenas uma parte será roubada à ponte 25 de Abril. Assim, mais uns 40.000 carros chegarão todos os dias a Lisboa, ajudando a congestionar uma das saídas da cidade, já hoje congestionada ao final do dia, e tratarão de ajudar a entupir mais ainda o trânsito no centro e a agravar a situação caótica do estacionamento. Ou seja: não servindo para resolver um problema que não existe, a nova ponte vai, por si só, criar um problema novo. Não deixa de ser notável que o presidente da Câmara, António Costa (que mantém teimosamente em vigor a demagógica proibição de circulação de carros na Baixa, aos domingos) a única coisa que tenha a dizer sobre isto é que espera receber parte das receitas das portagens: consente que durante cinco dias da semana haja mais 40.000 carros na cidade e, aos domingos, dá uma de politicamente correcto!»

«Mas a nova ponte vai servir também para comboios. Para comboios normais e para o TGV Lisboa-Madrid. E aqui é que as coisas se tornam ainda mais chocantes: o TGV Lisboa-Madrid, confessado pela própria secretária de Estado dos Transportes, é uma obra cujo investimento nunca será recuperado - é a fundo perdido - e cuja exploração “dificilmente será rentável”. Isto é, os custos da sua exploração serão inferiores às receitas e pela simples razão de que não há clientes que justifiquem o TGV: é uma obra reconhecidamente inútil à partida e que só vai para a frente porque Sócrates, à semelhança de todos os outros construtores que o antecederam, acha que “Portugal não pode ficar fora da rede europeia de alta velocidade”. Parece que é uma questão de prestígio patriótico. Vamos, pois, ter uma ponte para servir um TGV que não serve para nada, a não ser para perder dinheiro do Estado. Se isto não consegue escandalizar os portugueses, já nada mais conseguirá.»

«Resta a utilidade de servir comboios normais que servirão o novo aeroporto. Independentemente de eu ainda não estar convencido também da necessidade do novo aeroporto, acredito que, sendo uma coisa necessária, a outra também seja e que esta é a melhor solução para tal. Mas, sendo assim, a nova ponte poderia ser simplesmente uma ponte ferroviária de duas vias para comboios normais. Seguramente que teria muito menos impactos ambientais e paisagísticos sobre as vistas de Lisboa, minimizaria em muito os danos à navegação do estuário do Tejo de que se fala e, certamente, não custaria os 1.700 milhões de euros anunciados pelo Governo - e que, se tivermos sorte e conforme é de costume, acabarão por ser apenas o dobro. Além de mais, evitava-se ainda uma factura extra e não contabilizada, que é o custo da indemnização a pagar à Lusoponte, concessionária da ponte Vasco da Gama. Pois que se descobriu agora que anteriores governos, decerto assessorados por excelentes advogados, garantiram à Lusoponte, não só a prorrogação do prazo da concessão na vigência do contrato, mas ainda a exclusividade das receitas das travessias do Tejo, sob pena de indemnização. É verdade, sim, houve quem, em nome do Estado português, cedesse a uma entidade privada o direito exclusivo à cobrança de portagens na travessia de um rio - coisa jamais vista desde o feudalismo medieval

«E assim, meditando no assunto, cheguei a esta conclusão, seguramente absurda: a nova ponte Chelas-Barreiro não serve para nada. Isto é, serve para alimentar o lóbi das obras públicas, o mais poderoso do país, e a crença de que o Estado deve ser o motor da economia e o maior cliente da mal chamada iniciativa privada, deste modo desmentindo na prática todas as anunciadas apostas de José Sócrates na qualificação, nas novas tecnologias e na investigação como instrumentos de transformação e modernidade do país. Esta é a mesma velha política de sempre e uma das raízes mais fundas do nosso atraso económico e da perversão da nossa democracia.»
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Sábado, Abril 12, 2008

Lá dentro, no «inner circle» do poder, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos




Miguel Sousa Tavares (Expresso 07/01/2006)

«Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos [Ota e TGV], [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita.»

«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre.»


TSF Online: Um estudo da consultora PriceWaterCoopers indica que o preço da ligação em alta velocidade Lisboa-Porto-Madrid disparou para os 11 mil milhões de euros, mais 40,6 por cento que os 8 mil milhões de euros previstos em 2004.



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Quarta-feira, Abril 02, 2008

Iraque - a incorrigível ingenuidade de Pacheco Pereira



Miguel Sousa Tavares - Expresso 29/3/2008

Reescrevendo a história

Faz hoje oito dias, José Pacheco Pereira escreveu no ‘Público’ o primeiro de dois anunciados artigos onde procede à sua defesa, do director do ‘Público’ e de outros mais que caíram na esparrela montada pela Administração Bush no Iraque, cinco anos atrás. Por causa da amizade e admiração que sempre tive pelo José Pacheco Pereira, não vou deixar em claro aquilo que chega a ser uma indecente alteração das coisas e um notável exercício de transferência de responsabilidades autorais. Servido pelo seu habitual brilhantismo, o veredicto que ele extrai é capaz de impressionar esquecidas gentes: eles, os defensores da invasão do Iraque pelos «marines», são perseguidos, por “delito de opinião”, por uma “pequena turba, alimentada pelo silêncio de muitos” que exige contra aqueles “punição, censura, opróbio, confissão pública de crime”. E é a essa maioria silenciosa que Pacheco Pereira apela para que percebam que os que não viram na invasão do Iraque um momento empolgante da luta pela liberdade é porque foram movidos “pelo antiamericanismo militante, por razões puramente ideológicas e, acima de tudo, por uma ignorância militante” que os leva a achar que “os factos contam pouco” e são facilmente substituídos por “meias verdades e muitas falsidades”. Comecemos então pelos factos e pelas verdades indesmentíveis e passemos depois à ignorância.

Os factos são que, a seguir ao Vietname, o Iraque é já a segunda guerra mais longa de todo o longo cadastro de guerras travadas pelos Estados Unidos no estrangeiro, e não se vê o fim para ela - pela razão simples e elementar de que não se sabe e nunca se soube qual era o fim pretendido para a guerra, fora os pretextos inventados e fabricados para a desencadear. Facto é que morreram já quatro mil americanos e 200.000 civis no Iraque. Facto é que a economia do Iraque está arruinada e que o país produz hoje 20% da sua capacidade extractiva de petróleo, o que contribuiu para que o preço do barril de crude passasse em cinco anos de 35 para mais de cem dólares. Facto é que, apesar do derrube da ditadura de Saddam e da realização de eleições vagamente democráticas (as primeiras e provavelmente últimas por muitos e bons anos), o Iraque não consegue estabelecer um poder civil credível e capaz e é virtualmente ingovernável - no dia em que os americanos se retirarem, o Irão abocanhará a parte xiita, a Turquia a parte curda e o resto do país será resolvido pelas armas entre as três etnias principais. Nem Pacheco Pereira é capaz de dizer o que podem os Estados Unidos fazer agora no Iraque.

Ora, isto aconteceu justamente devido à ignorância e à ganância. A ganância dos que forneceram e armaram os destruidores do Iraque e dos que vieram atrás para a “reconstrução” - empresas como a General Dynamics, a Grumman, a McDonnell/Douglas, a Halliburton, etc., cujos lucros dispararam entre 50 a 200% desde que a guerra começou. E a total ignorância de um «comander-in-chief» (George W. Bush), célebre, entre outras coisas, por julgar que o Kosovo ficava na Ásia e que o Brasil não tinha negros. Não deixa de ser surpreendente que alguém tão preocupado com a manipulação das informações e da opinião pública, como Pacheco Pereira, não tenha tido a serenidade de espírito suficiente para perceber a operação de manipulação montada por Bush - e que não era assim tão difícil de perceber. Basta conhecer um pouco da forma como funciona o marketing político americano e de como se forma uma opinião pública movida por raciocínios maniqueístas primários, para entender qual a íntima razão que levou Bush para o Iraque: porque ele queria absolutamente comprar uma guerra, uma guerra que lhe desse a ele, falhado em tudo - na carreira académica, militar e nos negócios - a vaidade de poder proclamar “sou um Presidente em guerra”. E, nessas coisas, os americanos obedecem cegamente a uma regra de patriotismo idiota: “pelo meu país, com razão ou sem ela”. Basta que um Presidente se anuncie em guerra para que todos cerrem fileiras atrás, mesmo que o seu gesto mais corajoso seja o de aparecer de surpresa às tropas em guerra no «Thank’s giving», carregando ao alto um peru de doze quilos… que depois se descobre ser de plástico.

Claro que pessoas que embarcaram nisto, como Pacheco Pereira, podem sempre usar o eterno argumento do “não sabíamos”. Não sabiam que para justificar a «casus belli», Bush e Blair chegaram ao despudor de fabricar supostas provas de que Saddam apoiava a Al-Qaeda e escondia um poderoso arsenal de armas de destruição maciça... Bem, alguns não saberiam, outros talvez: Durão Barroso jurou ter visto “provas” das armas de Saddam, mas a prova de que não viu provas é que as armas não existiam - logo, ou se deixou enganar como um papalvo ou mentiu quando disse isso. Mas Pacheco Pereira deixou-se enganar porquê? Porque quis. Talvez por americanismo primário militante.

Quando Colin Powell mostrou na reunião decisiva do Conselho de Segurança fotografias e documentos que atestariam a construção de depósitos de armas nucleares e químicas no Iraque e a presença de elementos da Al-Qaeda, Dominique de Villepin, então ministro dos Estrangeiros da França, respondeu-lhe tranquilamente que essas “provas” eram velhas e tinham já sido cabalmente denunciadas como “falsificação grosseira”. E Powell calou-se, incomodado (mais tarde veio dizer que também ele fora enganado pela Casa Branca e pelo Pentágono). E quando El Baradei, presidente da Agência Internacional de Energia Nuclear, e Hans Blix, encarregado da ONU para o desarmamento do Iraque, vieram dizer que não tinham encontrado nada e precisavam de mais umas semanas para confirmar se existiam ou não armas e, mesmo assim, Bush forçou a invasão sem esperar, sem mandato da ONU e sem apoio dos Aliados, à excepção de Blair, Barroso, Berlusconi e Aznar, Pacheco Pereira também não desconfiou de nada? A guerra era assim tão urgente que não podia esperar duas ou três semanas?

Tudo isto tem a importância que tem e que se lhe quiser atribuir. Eu não atribuo uma importância por aí além ao facto de ter feito parte da “pequena turba” que a tempo previu o desastre que se preparava no Iraque. Mas, já que José Pacheco Pereira parece viver tão incomodado com o seu erro de análise ao ponto de pretender reescrever a história, então convém lembrar que o mundo é hoje infinitamente pior do que era antes da invasão do Iraque e por causa dela; que o terrorismo islâmico é hoje uma causa alimentada pela invasão do Iraque e com muitos mais militantes; que a razão profunda para tal - a questão palestiniana - está agora muito mais longe de uma solução do que então; que morreram 200.000 iraquianos e quatro mil soldados americanos convocados pelo seu Presidente para combater uma ameaça que ele sabia não existir; e que tão cedo nenhuma opinião pública estará disposta a ver morrer soldados para enfrentar uma outra ameaça, essa sim real.

Deus me livre de querer a ‘punição’ ou a ‘censura’ de Pacheco Pereira. Mas, já que fala nisso, também não acho que aqueles que, fazendo opinião, ajudam a formar as dos outros, possam passar por cima de tudo o que escrevem com a insustentável leveza de apostar sempre na falta de memória alheia. E, se bem me lembro, já são várias as vezes que José Pacheco Pereira embarca nos grandes embustes planetários: o «bug» do milénio, o terrorismo do antrax, as armas do Saddam e a “pandemia” da gripe das aves. Caramba, Zé! Que o mundo vai acabar, vai. Mas a seu tempo.



Comentário (no Resistir.info - por Michel Chossudovsky):

Os planeadores militares do Pentágono estão agudamente conscientes do papel central da propaganda de guerra. Engendrada pelo Pentágono, pelo Departamento de Estado e pela CIA, já foi lançada uma Campanha de medo e desinformação (CMD) [fear and disinformation campaign (FDC)] . A grosseira distorção da verdade e a sistemática manipulação de todas as fontes de informação constituem uma parte integral do planeamento de guerra.

Um certo número de agências governamentais e unidades de inteligência — com ligações ao Pentágono — estão envolvidas em várias componentes da campanha de propaganda. As realidades são viradas de cabeça para baixo. Actos de guerra são apregoados como "intervenções humanitárias" destinados a uma "mudança de regime" e à "restauração da democracia".

A componente mais poderosa da Campanha de Medo e Desinformação (FDI) fica com a CIA, a qual secretamente subsidia autores, jornalistas e medias críticos por meio de uma teia de fundações privadas e organizações de frente patrocinadas pela CIA.

Iniciativas de desinformação encoberta, sob os auspícios da CIA, também são canalizadas através de vários "procuradores" (proxies) de inteligência em outros países. Desde o 11 de Setembro elas resultaram em disseminação diária de informação falsa referente a alegados "ataques terroristas". Em virtualmente todos os casos relatados (na Grã Bretanha, França, Indonésia, Índia, Filipinas, etc) dizem que os "supostos grupos terroristas" têm "ligações ao Al Qaeda de Osama bin Laden", sem naturalmente admitir o facto (amplamente documentado por relatórios de inteligência e documentos oficiais) que a Al-Qaeda é uma criação da CIA.


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Quinta-feira, Março 27, 2008

Quem quer que controle o volume de dinheiro em qualquer país é senhor absoluto de toda a sua indústria e comércio

"Whoever controls the volume of money in any country is absolute master of all industry and commerce." - James A. Garfield, President of the United States


Os Bancos Centrais injectam triliões nos bolsos dos Senhores do Dinheiro




Miguel Sousa Tavares - Expresso 22/3/2008

A cor (suja) do dinheiro

Parece que, afinal, as notícias de que a Santa Sé teria declarado como novo pecado mortal ser-se rico demais eram ligeiramente exageradas. A Santa Sé não disse tanto - aliás, não se atreveu a relembrar o que está escrito no Novo Testamento há dois mil anos sobre o camelo e o buraco da agulha. Bem o podia ter feito, que vinha mesmo a calhar, agora que o mundo vive na iminência de uma recessão económica global e grave, causada pelo excesso de ganância dos muito ricos.

Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal americana, lembrou-se agora de avisar que vem aí a maior recessão económica dos últimos sessenta anos. Pena que não se tenha lembrado de avisar antes, quando, do alto do seu imenso poder de controlo e influência sobre o governo federal e o sistema financeiro americano, assistiu tranquilamente ao crescimento da ‘bolha imobiliária’ nos Estados Unidos, à ganância de banqueiros de vão de escada (escudados em bancos mais poderosos e supostamente mais responsáveis), incentivando os consumidores a recorrerem desenfreadamente ao crédito e assim manterem os preços especulativos do imobiliário. E quando assistiu também, sem uma palavra, aos esforços perseverantes do sr. Bush para derreter os excedentes orçamentais herdados de Clinton e voltar a endividar os Estados Unidos até ao tutano, para melhor satisfazer a sua clientela de amigos e correligionários com interesses no petróleo, na indústria de armamento ou na ‘reconstrução civil’ do Iraque.

E é pena, porque há centenas ou milhares de milhões de pessoas no mundo inteiro que agora vão pagar a factura dos lucros episódicos da banca e dos amigos de Bush, para quem a destruição e posterior ‘reconstrução’ do Iraque foi um negócio de mão cheia. Com o dólar em queda livre, a Europa vai pagar o reequilíbrio da balança comercial e do défice americano: excelentes empresas portuguesas, a cuja capacidade de reconversão e de inovação deve Portugal muito da recuperação do défice, vão agora ver todo o seu esforço comprometido pela concorrência desleal dos produtos americanos, vendidos mais baratos apenas porque o dólar implodiu. Pior ainda (sem, ao menos, terem a protecção de um espaço comum e uma moeda comum forte) estão os países emergentes do Terceiro Mundo, como a Índia ou a China, cujo esforço titânico para arrancar da miséria biliões de pessoas vai agora esbarrar com as dificuldades de exportação e com o preço do barril de petróleo, que não têm, a escalar todos os dias, na proporção em que o dólar vai descendo e devido a essa descida.


Milhares de pessoas em todo o mundo vão ser devolvidas à mais infame miséria de que se tinham conseguido erguer para pagar as aventuras da Halliburton, do sr. Dick Cheney, do sr. Donald Rumsfeldt e dos amigos do Texas desse completo cretino que é o Presidente dos Estados Unidos da América. Mas, mesmo nos Estados Unidos, e como seria de esperar, são os pobres que vão pagar a factura do desgoverno dos milionários: vinte ou trinta milhões de americanos estão condenados a virar «homeless» a curto prazo, se medidas como a que propôs a candidata e senadora Clinton (seis meses de moratória para a execução de qualquer hipoteca sobre casas) não forem adoptadas de emergência.

Os Estados Unidos vão precisar de injectar biliões de dólares de dinheiros públicos para evitar a falência em série do sistema financeiro e, por arrasto, de todo o sistema empresarial. O que lhes poderá evitar a repetição de 29 é que agora a economia é global e eles esperam poder evitar a falência de um Estado já altamente endividado através das trocas comerciais: vendem ao mundo inteiro mais barato e não compram nada de volta porque, com o euro a 1,60 dólares, ninguém consegue vender nada aos americanos. Ou seja: provocaram a crise e agora somos nós que temos de a pagar. Eis a demonstração prática da frase do Hamlet: “a loucura dos poderosos não pode passar sem vigilância”. Espero que alguém se lembre de escrever isto no caixão do sr. Greenspan.

Obviamente, devia haver lições a extrair deste cenário de catástrofe e das razões para ele. Entregue a si próprio, após a queda do muro de Berlim, o capitalismo internacional parece que fez questão de confirmar que tudo o que de pior os marxistas tinham dito dele ao longo de um século só pecava por defeito. Só pode ser uma comédia histórica ver a Igreja Católica (decerto impressionada pelo exemplo indecente dos irmãos da Opus Dei no nosso tão católico BCP e outros) insinuar que ser escandalosamente rico é capaz de ser pecado mortal, e ver o Partido Comunista da China declarar que “ser rico é glorioso e revolucionário”. O mundo está de pernas para o ar. Pois está, mas há lições a extrair.

Marx dizia que o dinheiro faz dinheiro e esse era o pecado original do capitalismo. Em contraponto, os capitalistas juravam que o dinheiro produz riqueza e, entre os dois, os sociais-democratas propuseram que o dinheiro criasse então riqueza e que o Estado tributasse essa riqueza - “de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades”. Mas tudo isso foi antes da globalização.

Agora o que vemos é que, dos cem homens tidos como os mais ricos da Alemanha, quarenta tinham uma conta secreta numa «off-shore» do Liechtenstein, para fugirem ao fisco (também lá estão alguns portugueses, mas desconhece-se se o Governo se vai atrever a pedir os seus nomes à chanceler Merkel e agir em conformidade). Razão tinha o nº 1 da lista da ‘Forbes’, Warren Buffet, quando disse que doava um bilião de dólares para assistência social se houvesse um só presidente de banco americano que lhe conseguisse provar que pagava uma taxa mais alta de imposto que a sua secretária. (Já agora é interessante constatar que todos os bilionários do mundo - Buffet, Bill Gates, Carlos Slim, etc. - são conhecidos também pela sua veia filantrópica. E quantos milionários nossos conhecemos que financiem uma ala de hospital, um programa de saúde, um laboratório ou Faculdade na Universidade, um prémio literário ou artístico, um bairro social, um parque natural? Pior ainda é quando olhamos para a lista da ‘Forbes’ e constatamos que os grandes milionários portugueses que lá figuram devem a sua fortuna a relações íntimas com o poder, aqui ou em Angola, ou a simples especulação bolsista, sem que dêem ao país qualquer contrapartida de valor).


Tarde e a más horas outra vez, Alan Greenspan vem dizer que espera que a crise ensine que o sistema financeiro não pode continuar em auto-regulação. Infelizmente, não é certo que, mesmo agora, os governos aprendam a lição. Eles acham que o sistema financeiro é tão importante que não se lhe pode tocar nem com uma flor. E um dia, como agora sucedeu em Inglaterra e nos Estados Unidos, acordam em sobressalto e correm a meter dinheiro dos contribuintes para evitar a falência dos bancos - enquanto os seus administradores se retiraram com reformas escandalosas em paga do bonito serviço que deixaram. É verdade que a economia não é uma ciência certa. Mas a ética nos negócios e o decoro são-no: têm regras que todos conhecemos.
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Segunda-feira, Março 03, 2008

Qual o lugar próprio para o principal impulsionador de um «projecto» que lesou o país em centenas de milhões de contos


Em 1995, José Sócrates tornou-se membro do Primeiro Governo de António Guterres, ocupando o cargo de secretário de Estado-adjunto do Ministro do Ambiente. Dois anos depois, tornou-se ministro-adjunto do primeiro-ministro, com a tutela do Desporto. Foi, nessa qualidade, que Sócrates se tornou no principal impulsionador da realização, em Portugal, do EURO 2004. Por ter sido um dos governantes com a tutela do Euro 2004 - quando foi ministro-adjunto do primeiro-ministro, durante o I Governo de António Guterres -, Sócrates foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

Público (4/2/2005) - A 12 de Fevereiro de 2005 António José Seguro lembrou as responsabilidades de Sócrates na realização do Euro-2004: "Hoje, como no Euro-2004, houve um homem que lançou a semente, a semente de uma força que ninguém pode parar. Esse homem chama-se José Sócrates, futuro primeiro-ministro de Portugal", acentuou.


Despesismo desportivo, desígnio nacional - No blogue Anti-Tuga

Carta do cidadão Fernando Conceição publicada pelo PÚBLICO de 7 Novembro 2005

"Já lá vai um ano depois do que se profetizava ser um desígnio nacional para mostrar ao mundo a modernidade de Portugal - o Euro 2004. Desde então é inequívoco, em jogos normais da SuperLiga e amigáveis, que muitos dos lugares ficam por preencher e não terão a mínima rendibilidade no futuro. De todos os estádios, só os de Lisboa e Porto apresentam níveis minimamente satisfatórios.

O estádio de Leiria custou 80 milhões de euros, mas os próximos 20 anos serão marcados por uma dívida de 600 mil euros, a que acresce um milhão de euros só em custos de manutenção anuais. Mesmo junto ao estádio existe uma pequeníssima escola que, pelo excesso de alunos, tem de ter dois turnos, e muitas aldeias, circundantes ainda não sabem o que é saneamento básico.

O estádio de Aveiro, cujo clube está na divisão de honra, recebe semanalmente três mil pessoas, quando muitas famílias vivem ainda no limiar da pobreza.

Em Guimarães, o antigo presidente da câmara utilizava o estádio em cartazes de campanha eleitoral - o estádio, em si, só tem utilidade para um único clube, com 16 mil espectadores de média.

Em Coimbra, também o estádio será pago nos próximos20 anos, em tranches nada suaves de dois milhões de euros.

O estádio de Braga, com um custo real 100 por cento acima do incialmente previsto, só tem capacidade para futebol e o clube apenas paga mil euros de renda, enquanto abunda a poluição no rio da cidade.

Como é do conhecimento geral, o estádio do Algarve é o exemplo geral mais destrambelhado de todos: custou 66 milhões, com duas equipas do escalão mais baixo do futebol a jogar e 600 mil euros anuais de dívida à banca. Para além de se encontrar no meio de um descampado, só encheu cinco vezes (Euro incluído), enquanto as populações do Algarve esperam por um hospital central.

Depois de um nacionalismo fingido (alguém viu mais alguma bandeira hasteada após o torneio?), criaram-se verdadeiros buracos negros na economia nacional. E a verosímil candidatura de Portugal à realização dos Olímpicos de 2016 roça o escandaloso, porque à excepção dos estádios de Leiria e Coimbra, nenhum dos outros dispõe de pista junto ao relvado.

O mesmo José Sócrates que agora pede sacrifícios e garante que "o pior ainda não passou", foi o mesmo que impulsionou esta candidatura ao Euro, que se torna ainda mais incompreensível quando se sabe que quatro estádios seriam suficientes. Onde está o estádio municipal de Lisboa e do Porto? Foram as rivalidades que ditaram estádios diferentes ou a teimosia e o despesismo terceiro-mundistas? Porquê tanta falta de planeamento?

E convém lembrar que foram José Sócrates, Gilberto Madaíl, Carlos Cruz, entre outros, que contribuíram para esta cruz pesada que carregaremos até 2025. Certo é que suaremos mais que Sócrates numa qualquer maratona, mas podemos sempre pedir asilo, fugir pelo aeroporto da Ota ou por uma estação de TGV, porque quando chegarmos podemos sempre anunciar uma candidatura autárquica na esquadra mais próxima."


Miguel Sousa Tavares (Público - 09 Dez 2005)

"Por que é que a Holanda e a Bélgica, bem mais prósperos que Portugal, organizaram em conjunto o Euro 2000 e apenas precisaram de sete estádios, dos quais dois novos, e nós, organizando sozinhos, precisámos de dez estádios, dos quais oito novos?"


Com efeito, O Euro 2000, o anterior Campeonato Europeu de Futebol, realizado no ano de 2000, teve como anfitriões a Bélgica e a Holanda, responsabilidade esta que foi, pela primeira vez, partilhada por duas nações. O campeonato foi disputado em 8 cidades diferentes, 4 na Holanda e 4 na Bélgica.

E quanto ao Euro 2008, o futuro Campeonato Europeu de Futebol, a realizar no ano de 2008, os organizadores, Áustria e Suíça, anunciaram que o torneio será disputado em apenas sete estádios, três na Suíça e quatro na Áustria.

Por que é que a Holanda e a Bélgica, bem mais prósperos que Portugal, organizaram em conjunto o Euro 2000 e apenas precisaram de sete estádios, dos quais dois novos, e Portugal, organizando sozinho o Euro 2004, precisou de dez estádios, dos quais oito novos? E porque é que a Áustria e Suíça, igualmente bem mais prósperos que Portugal, vão organizar também em conjunto o Euro 2008, aproveitando estádios existentes?


No Diário de Notícias e no Correio da Manhã:

- Mais de mil milhões de euros de investimento público total (no Euro 2004).

- Tribunal de Contas (TC) questiona se o elevado montante de apoios públicos ao campeonato organizado por Portugal no Verão de 2004 não poderia ter tido uma utilização mais eficiente noutras áreas de relevante interesse e carência pública.

- Tribunal de Contas refere que os novos estádios do Euro 2004 estão sobredimensionados, o que pode ser constatado pelas baixas taxas de ocupação, da ordem dos 20 a 35%.

- O dinheiro investido neste espectáculo de grande escala não teve grande retorno. Quase seis meses depois do Euro 2004, alguns estádios onde foram investidos milhões de euros para receber a prova estão «às moscas». Dos recintos do Euro2004, só os dos «três grandes» tiveram sucesso comercial.

- Numa auditoria desenvolvida pelo Tribunal de Contas junto dos estádios de Guimarães, Braga, Leiria, Coimbra, Aveiro, Loulé e Faro, ficou claro que as autarquias se endividaram para os próximos 20 anos.

- As sete autarquias que receberam jogos do Euro 2004 contraíram empréstimos bancários no valor global de 290 milhões de euros para financiar obras relacionadas com o campeonato.

- Na sequência destes empréstimos, as câmaras terão que pagar juros no montante de 69,1 milhões de euros, nos próximos 20 anos, refere o relatório de auditoria do Tribunal de Contas.



Excertos de uma entrevista a Sócrates pelo Acção Socialista (19/5/2004):

Sócrates - "O Governo aprendeu. Começou por ter as maiores dúvidas e reservas quanto ao Euro 2004, a fazer-lhe críticas muito pueris, próprias de quem não percebeu nada do que estava em causa. O Euro 2004 não é um torneio de futebol, é muito mais do que isso. É um grande acontecimento que projecta internacionalmente o nosso país".

Sócrates - "Nós definimos como orientação que Portugal devia ser um país capaz de realizar grandes eventos desportivos internacionais".

Sócrates - "Pois, mas a construção dos dez estádios não um odioso, é bem necessário ao país. Portugal tinha que fazer este trabalho. É também uma das críticas mais infantis que tenho visto, a ideia de que se Portugal não tivesse o Euro não tinha gasto dinheiro nos estádios. Isso é uma argumentação própria de quem é ignorante.

Sócrates - "Ouvi recentemente responsáveis pelo Euro dizerem que é já claro, em relação ao que o Estado gastou e ao que recebeu, que estamos perante um grande sucesso económico."


Comentário:

Será aceitável que num país, dos mais pobres da Europa, se invistam centenas de milhões de contos e se endividem câmaras por dezenas de anos em estádios de futebol que «estão às moscas», quando existe tanta pobreza, tanto desemprego, tanta precariedade entre a juventude e tanta falta de infra-estruturas ao nível mais básico?

Países consideravelmente mais ricos que o nosso unem-se para organizar campeonatos conjuntos e limitam-se a fazer obras de remodelação em estádios existentes. Portugal, bastante mais pobre, constrói de raiz oito estádios de futebol e organiza sozinho um europeu de futebol.

Não há ninguém que mereça responder em tribunal por este crime terrívelmente lesivo do Estado? Não há ninguém que deva ser preso?
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Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

O sequestro do Estado Português pelos Bancos e pelos Grandes Empreiteiros




Rui Mateus em "Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido, 1996"

"Para além da ausência de regras que permitam, pela via individual, o acesso do cidadão à actividade política, não existem regras idóneas de financiamento dos partidos nem de transparência para os políticos. Um pouco à semelhança dos pilares morais do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa, de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus governantes e dos seus magistrados se tratasse de algo suspeito, de algo subversivo."


João Cravinho (Revista Visão – 4/10/2007)

"Um dos nossos grandes problemas é a corrupção de Estado, a apropriação de órgãos vitais de decisão ou de preparação da decisão por parte de lóbis. [...] Não pode estar a promover-se uma pseudo-economia de mercado, em que o Estado serve de muleta aos grandes e até aos pequenos negócios. Muitos acham que deve ser essa a originalidade do neoliberalismo à portuguesa. [...]"


Miguel Sousa Tavares (Jornal Expresso 07/01/2006)

"Todos vimos nas faustosas cerimónias de apresentação dos projectos da Ota e do TGV, [...] os empresários de obras públicas e os banqueiros que irão cobrar um terço dos custos em juros dos empréstimos. Vai chegar para todos e vai custar caro, muito caro, aos restantes portugueses. O grande dinheiro agradece e aproveita«Lá dentro, no «inner circle» do poder - político, económico, financeiro, há grandes jogadas feitas na sombra, como nas salas reservadas dos casinos. Se olharmos com atenção, veremos que são mais ou menos os mesmos de sempre."


Fernando Madrinha (Jornal Expresso - 1/9/2007)

[...] Não obstante, os bancos continuarão a engordar escandalosamente porque, afinal, todo o país, pessoas e empresas, trabalham para eles. [...] Remetem-nos para uma sociedade cada vez mais vulnerável e sob ameaça de desestrutruração, indicam-nos que os poderes do Estado cedem cada vez mais espaço a poderes ocultos ou, em qualquer caso, não sujeitos ao escrutínio eleitoral. E dizem-nos que o poder do dinheiro concentrado nas mãos de uns poucos é cada vez mais absoluto e opressor. A ponto de os próprios partidos políticos e os governos que deles emergem se tornarem suspeitos de agir, não em obediência ao interesse comum, mas a soldo de quem lhes paga as campanhas eleitorais.
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Sábado, Dezembro 22, 2007

As fracturas dialécticas de Menezes

Expresso - 22/12/2007

Luís Filipe Menezes tem em Nicolas Sarkozy um modelo inspirador e propõe-se, como ele, avançar propostas fracturantes que não deixem ninguém indiferente. "Faço a aposta radical de, em meia dúzia de meses, liberalizar a legislação laboral (...) e desmantelar de vez o enorme peso que o Estado tem e que oprime as pessoas", afirma o líder do PSD em entrevista ao Expresso, onde esclarece que continua defensor do Estado Social, mas na versão "Estado possível".

Consigo, as funções do Estado seriam encurtadas. "O Estado deve sair do ambiente, das comunicações, dos transportes, dos portos e, na prestação do Estado Social, deve contratualizar com os privados e acabar com o monopólio na saúde, educação e segurança social", afirma o líder social-democrata. Acusando o PSD de andar, há 12 anos, sem conseguir demarcar-se verdadeiramente do PS nestes sectores, Menezes propõe-se fazer rupturas...

(...) Luís Filipe Menezes não esconde que gerir a imagem com profissionalismo é uma prioridade. Esta semana fechou com a agência de comunicação de António Cunha Vaz um acordo que custará ao partido "25 a 30 mil euros por mês".


Jornal Sol - 23/11/2007:

«As dívidas são legais» , afirmou o líder social-democrata e presidente da Câmara Municipal de Gaia, Luís Filipe Menezes, numa reacção aos dados do Tribunal de Contas revelados quinta-feira que apontam a sua autarquia como aquela que mais se endividou na banca ao longo dos últimos dois anos.

O município liderado por Luís Filipe Menezes (PSD) contraiu 18 empréstimos no período em análise, no valor global de 74,5 milhões de euros.

(...) Luís Filipe Menezes disse, contudo, compreender que o queiram «atacar» e que alguns «agentes políticos» tentem «exacerbar» os números apurados pelo Tribunal de Contas.

«É a dialéctica normal do confronto político» , sustentou.


Miguel Sousa Tavares (Expresso 11/11/2007) - «... o pacto de dez anos proposto por Luís Filipe Menezes a José Sócrates, quanto às grandes obras públicas, é uma proposta indecorosa. Traduzida por miúdos, quer dizer o seguinte: "Independentemente de saber quem vai ganhar as eleições nos próximos dez anos, vamos pôr-nos de acordo em satisfazer os nossos comuns clientes e financiadores, para que eles tenham a segurança de saber que, seja quem for, os seus negócios estão seguros com qualquer um de nós"


Comentário:

Tal como Menezes se inspira em Sarkozy, também os portugueses, para lidar com os políticos honestos cá do burgo, deviam igualmente inspirar-se na França, em termos de propostas fracturantes:

From Wikipedia, the free encyclopedia: A fracture is the separation of a body into two, or more, pieces under the action...

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Domingo, Dezembro 16, 2007

Viva Sócrates, viva a presidência portuguesa, viva a frontalidade do Expresso

Henrique Monteiro - Expresso 16/12/2007

O orgulho de Portugal

«Nesta, que foi a última presidência portuguesa da União Europeia (...) simbolicamente, Portugal voltava aos destinos que dele fizeram uma nação decisiva há 500 anos

«Contra todas as expectativas, não só a presidência portuguesa se saiu bem de todas as iniciativas, como conseguiu surpreender pelo rigor com que as organizou.»

«Como muitos afirmam, é cedo para avaliar o real impacto destas iniciativas. Porém, à presidência exigia-se que congregasse esforços, quebrasse o gelo ou articulasse vontades. E nesse aspecto, José Sócrates, Luís Amado e todos os que colaboraram para o sucesso da presidência (sem esquecer Durão Barroso) merecem o nosso reconhecimento

«O Expresso, com a mesma frontalidade com que os critica, manifesta-lhes o orgulho que sentiu no papel de Portugal na Europa e no mundo nestes últimos seis meses.»


Miguel Sousa Tavares (no mesmo jornal):

«Vivemos dias de verdadeiro circo político. Eu sei que esta é a época dos circos descerem à cidade, mas ao menos que tragam leões e trapezistas, elefantes e malabaristas, e não este estendal de vazio e demagogia que por aí tem andado à solta entre os nossos queridos dirigentes europeus.»

«José Sócrates tem vivido noutro planeta - lá onde ele é um grande estadista e onde, de braço dado com Durão Barroso, representou uma Europa onde já ninguém se revê, o lugar do menor denominador comum da política. No fim-de-semana passado tivemos a Cimeira UE-África e a pomposa ‘Declaração de Lisboa’ - coisa ‘histórica’ para Sócrates, que se vê a fazer História a cada passo, e na realidade uma Magna Carta de inutilidades e hipocrisias


Comentário:

Qual destas duas frontalidades, a de Henrique Monteiro ou a de Sousa Tavares, já que opostas, apresentará um coeficiente menor de enviesamento?

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Sábado, Dezembro 08, 2007

Cimeira União Europeia-África ou como as multinacionais sacam tudo o que podem sacar

Miguel Sousa Tavares – Jornal Expresso 08/12/2007

Excerto sobre a Cimeira União Europeia-África:

«Para que serve este imenso ‘bazaar’? Principalmente, para nada, como dizem os alentejanos. Tudo o que havia a discutir e a assinar, como a tão desejada por Sócrates ‘Declaração de Lisboa’, já está acordado e escrito. Mas os grandes do mundo precisam e adoram estas oportunidades mediáticas e, afinal de contas, um fim-de-semana em Lisboa, com dois banquetes e um concerto com a Marisa e a Cesária Évora pelo meio, nem é nada desagradável: os europeus aproveitam para ver sol e os africanos para ver mundo e mandarem as «madames» às compras. Não é Paris nem Londres, mas sempre é um país hospitaleiro, que gosta de receber bem e cuja política externa não incomoda ninguém e se contenta em que lhe dêem coisas inócuas e que soam bem, como a ‘Declaração de Lisboa’

«Em concreto, a cimeira vai custar umas dezenas de milhões de euros aos portugueses, a Europa rica vai dar à África miserável 1,2 mil milhões de euros até 2010 - dos quais, como de costume, apenas cerca de 10% chegarão ao destino e terão utilidade concreta. Destarte, a Europa sacode os seus problemas de consciência, como um pai que passa um cheque ao filho ‘com problemas’ e não se preocupa mais com o assunto. Mas os produtos agrícolas de África - a sua melhor hipótese de sair da miséria - continuarão fechados aos mercados europeus para proteger a sagrada PAC e os agricultores ricos da França e outros mais e o comércio em geral continuará a ser ditado por relações de desigualdade e batota. A Europa continuará a dar peixes, mas não a ensinar a pescar. Quanto à África e aos seus ditadores de opereta, com as mãos manchadas de um sangue que não sai e os bolsos atulhados de dinheiro roubado às suas populações, limita-se a estender a mão a mais uma esmola e a agradecer a oportunidade de reconhecimento internacional por que a diplomacia portuguesa tanto se esforçou nos últimos meses.»

«Esta é a triste história das relações da Europa com África de há cinco décadas para cá: os governos europeus dão umas esmolas e, em troca, avançam a seguir as multinacionais que sacam tudo o que podem sacar e enchem as contas bancárias dos governantes africanos na Suíça. Quando as cenas de miséria do continente negro se começam a tornar outra vez incómodas nas televisões ocidentais, convoca-se nova cimeira com os corruptos e dá-se-lhes mais uma esmola para aliviar as consciências ou produz-se mais uma grandiosa Declaração de Lisboa ou de Reiquejavique para enganar os tontos. Mas nunca os ricos se atrevem a exigir aos pobres que roubem menos e que matem menos - isso estragaria os negócios. Assim, a ‘Declaração de Lisboa’ não deixará, certamente, de conter uma referência ‘muito forte’ aos direitos humanos e à democracia, a qual será tranquilamente apoiada por gente estimável como Mugabe, do Zimbabwe, José Eduardo dos Santos, de Angola, ou Omar Bongo, do Gabão - que, juntos, perfazem oitenta e oito anos de poder, de arbitrariedades de toda a ordem e de negócios, mais uma sempre bem-vinda e inestimável factura de hotel em Lisboa.»


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Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Governo mal informado ou desGoverno mal amanhado?

Como é sabido, o apoio destes três cavalheiros ao aeroporto da Ota tem sido incondicional.



Expresso - 12.05.2007: «A NAER, empresa que lidera o projecto do novo aeroporto na Ota, recebeu instruções precisas do primeiro-ministro, José