sábado, novembro 25, 2006

A ingenuidade de Jaime Nogueira Pinto sobre o envolvimento do Irão na resolução do problema iraquiano

No Expresso de 25/11/2006, Jaime Nogueira Pinto teme uma saída à pressão dos militares americanos do Iraque e implora uma oportunidade para a "política" envolvendo a Síria e o Irão.

Give politics a chance!

(...) No Iraque, há 150.000 militares americanos, mais rapazes que homens, mais da ‘América profunda’ que das grandes cidades, na maioria soldados da ‘fiel infantaria’ e dos marines de que ninguém quer saber, desde que a ‘guerra’ se tornou ‘perdida’. Das centenas de correspondentes de há três anos, restam uma dúzia... Os oficiais vão, uma vez mais, ser os portadores das más novas e dos «body bags». Não há colonos: mas se a saída for à pressão, sunitas e shiitas vão bater-se ao carro armadilhado, à ‘kalash’, à faca, no caos das milícias meio-sectárias meio-crime organizado, pouco religiosas! Fora os ‘duros’ vão fazer esquecer a manipulação da «intelligence», a caução dada a charlatães e burlões como o sr. Chalabi. O Iraque, esse, ou vai reduzir-se a uma área fragmentada, uma espécie de super-Líbano dos anos 80, ou, mal menor, verá a ascensão de um dos generais do NIA - New Iraquian Army, (parece que há algumas brigadas capazes e Alá as conserve!) que conseguirá restaurar a ordem e segurança no que restar do país, repetindo um modelo ‘cesarista’; solução menos má mas nos antípodas da utopia do ‘novo Médio-Oriente’!

Será a altura de ‘dar’ à política uma «chance»? Por uma razão simples: os ‘argumentos’ dos Estados Unidos são mais poderosos perante os governos de Damasco, Teerão e Ramallah, que face a ‘guerrilheiros’ no terreno, no Iraque ou na Palestina. Foi assim na Guerra Fria com a União Soviética, patrono e patrão dos ‘terroristas’ de então e que os ‘controlou’ quando foi preciso. Agora pode resultar ou não, mas não há muitos mais caminhos.


Comentário:

Não obstante o ponderado optimismo de Jaime Nogueira Pinto, é de recear que a ocupação americana no Iraque se prolongue por décadas, e que a tentativa de chamar o Irão e a Síria para a mesa das negociações (que os EUA providenciarão para que se revele um fracasso), seja apenas um pretexto para invadir e ocupar também estes dois países.

No discurso do "Estado da União", Bush afirmou que as forças armadas americanas retirariam do Iraque à medida que as forças iraquianas se aguentassem sozinhas. Contudo esta afirmação é candidamente contrariada pelas bilionárias despesas do Pentágono na construção de 106 bases permanentes – incluindo seis super-bases de alta tecnologia – dentro do Iraque.

Haverá alguma razão para que os media dominantes norte-americanos não falem destas 106 bases, e porque é que o Congresso não debate os projectos de construção do Pentágono? A resposta mais simples é que o complexo mediático do governo considerou o assunto tabu porque revela a intenção dos EUA de ocupar o Iraque militarmente durante décadas.

Na realidade, a retórica de retirada de Bush é apenas propaganda. Estas super-bases militares têm outro objectivo que passa por lançar e supervisionar a próxima guerra contra o Irão, o vizinho mais rico em petróleo do Iraque.

8 comentários:

Mário Costa disse...

Se os americanos foram para o Iraque por causa do petróleo porque é que agora haveriam de sair? Há alguma coisa a correr mal? Morreram 3000 soldados e marines “de que ninguém quer saber”? E depois? Que é isso comparado com os milhões de barris de petróleo que já foram sacados e que se pretende continuar a sacar?

Pedro Soares disse...

Se os Estados Unidos retirarem as tropas do Iraque haverá uma maior pressão para que o governo iraquiano ponha a casa em ordem enquanto permite ao ocidente que se concentre em organizações terroristas e noutras zonas problemáticas que ameaçam a nossa segurança. Não faz sentido dedicar tantos recursos a um país e continuar a ignorar as ameaças crescentes que se multiplicam por todo o mundo.

Anónimo disse...

106 bases americanas permanentes no Iraque? A coisa parece estar para durar. O ouro negro é a grande maldição daqueles desgraçados.

Carlos Paiva disse...

Não acredito numa estratégia de abandonar precipitadamente o Iraque. Julgo que fará mais mal do que bem. Penso que a ameaça das tropas americanas saírem pode ser uma boa táctica para que as várias partes interessadas na estabilização do Iraque cheguem a um compromisso. Os americanos são necessários por enquanto.

Carlos Paiva disse...

Anonymous, onde é que desencantou as 106 bases americanas no Iraque? Nas mil e uma noites de Bagdade? Ou no programa do Bloco de Esquerda?

mirtilho disse...

Carlos Paiva, não precisa da Sherazade, pode encontrar essa informação em qualquer sítio.

Aqui, por ex, mas é apenas um entre muitos.


The U.S. controls 106 military bases across Iraq. Congress has budgeted $236 million for permanent base construction in FY2005.

http://www.ips-dc.org/iraq/quagmire/

antimater disse...

Eles que se entendam entre eles...
Nada há para lhes ensinarmos e qualquer mãozinha não vai limpa nem magnânima.

Que sabemos das nossas verdades?
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contradicoes disse...

Obviamente que enquanto Bush se mantiver no poder as tropas americanas não retirarão do Iraque. Estou no entanto convicto de que, após terminado e seu mandato e ascendendo à presidência dos EUA um democrata, de imediato elas sairão com o argumento de que houve uma mudança de administração e consequentemente de política internacional. E como a guerra civil já está instalada, vão exactamente continuar a verificar-se o número de mortes até agora registadas até que um dos contendores sunitas ou xiitas, vença a disputa do poder para assumir a governação do País.