quinta-feira, novembro 23, 2006

Vicente Jorge Silva - O triunfo das teorias da conspiração

O triunfo das teorias da conspiração

Diário de notícias - Quarta, 27 de Setembro de 2006

Segundo o respeitável The New York Times, um relatório confidencial dos 16 serviços secretos dos Estados Unidos, produzido ao longo dos últimos dois anos, conclui que a invasão do Iraque provocou um alastramento do fundamentalismo islâmico, do terrorismo internacional e das ameaças à segurança interna da América. Há duas ou três coisas verdadeiramente extraordinárias nessa conclusão.

A primeira é que uma rede tão extensa de entidades secretas levou dois anos a diagnosticar o que um qualquer observador sensato e não padecendo de cegueira ideológica aguda já se apercebera há, pelo menos, dois anos atrás. A segunda é o contraste demasiado flagrante entre a conclusão dos 16 serviços secretos e a doutrina oficial vigente na Casa Branca, o que suscita infinitas perplexidades sobre como é possível que o eixo principal da política externa dos Estados Unidos assente num equívoco de tal magnitude sem precedentes. Daí decorre uma terceira coisa extraordinária: se a comunidade dos serviços secretos conclui exactamente o contrário do que é defendido pela Administração da única superpotência planetária, esse divórcio ameaça conduzir a uma situação catastrófica de descrédito e erosão global da autoridade americana.

Face a tudo isto, é possível colocar hipóteses mais ou menos loucas: admitir, por exemplo, que os serviços secretos -16, ainda por cima - não servem rigorosamente para nada, ou que a política de segurança e hegemonia imperial americana pode prescindir, contra toda a evidência, das actividades, informações ou diagnósticos desses serviços - e fazer o oposto do que eles concluem. A partir daqui, a Casa Branca domesticaria radicalmente a CIA e demais agências, transformando-as em meros apêndices propagandísticos da sua política e mergulhando-as no mesmo autismo suicidário que levou a KGB a não pressentir a implosão do império soviético. Resta um cenário alternativo, à medida das célebres teorias da conspiração: os serviços secretos aparecem como uma espécie de quinta coluna ou inimigo interno, apostados em derrubar o poder político legítimo (como já se viu, aliás, em tantas ficções cinematográficas e televisivas).

As especulações delirantes fazem parte do imaginário americano, como são as de um recente e muito impressionante documentário "conspirativo" sobre o 11 de Setembro: Loose Change, de Dylan Avery, exibido há dias na 2 Mas, para já, a Casa Branca encarregou-se de desvalorizar o relatório dos serviços secretos ou a forma "tendenciosa" e "truncada" como foi publicitado pelo The New York Times. Depois, é sempre possível atribuir subrepticiamente às secretas a velha responsabilidade por grosseiros erros de análise e falta de perspectiva política (invocando até as falhas clamorosas que a CIA e outras agências evidenciaram antes e depois do 11 de Setembro).

Só que, desta vez, as costas largas das secretas já não parecem ser tão largas como eram para carregar sobre elas o aventureirismo missionário da Administração Bush. Em todo o caso, se o conjunto dos serviços de informações subscreve em peso um relatório que põe radicalmente em xeque a intervenção no Iraque - considerando-a responsável pela expansão do terrorismo -, isso não pode deixar de provocar um curto-circuito mortífero na credibilidade da Casa Branca. Quando os índices de confiança da população americana em George W. Bush caíram para níveis históricos a dois meses de eleições cruciais, esta revelação ameaça converter definitivamente Bush naquele pato coxo a que se referia, há tempos, The Economist.

Se a política iraquiana dos Estados Unidos acabou - conforme reconhecem os 16 serviços secretos americanos - por funcionar como aliada objectiva da irradiação do terrorismo, não é de surpreender que o terreno seja hoje particularmente propício às teorias conspirativas. É o caso, precisamente, de Loose Change, onde se manipulam as perturbadoras incongruências oficiais, os fios misteriosos e os buracos inexplicados do 11 de Setembro (e eles não faltam, aliás, no ataque ao Pentágono e no próprio desabamento das Torres Gémeas) para "demonstrar" que tudo não passou de uma tenebrosa conspiração da América contra si própria - como se a Al-Qaeda ou Ben Laden nunca tivessem existido ou fossem criações virtuais dos sinistros poderes ocultos americanos.

No entanto, depois da fantasia grosseira das "armas de destruição maciça" no Iraque e do palco que ali foi oferecido ao terrorismo, não será compreensível o fascínio mórbido por conspirações loucas e absurdas? Não serão elas eventualmente mais imaginativas e excitantes do que as mentiras toscas, a imbecilidade ideológica ou a incompetência militar e política - tão inverosímil que parece "conspirativa" - da Administração Bush?


Comentário:

«...as perturbadoras incongruências oficiais, os fios misteriosos e os buracos inexplicados do 11 de Setembro (e eles não faltam, aliás, no ataque ao Pentágono e no próprio desabamento das Torres Gémeas)...»

«... as mentiras toscas, a imbecilidade ideológica ou a incompetência militar e política - tão inverosímil que parece "conspirativa" - da Administração Bush?»

É perceptível a vontade de Vicente Jorge Silva em gritar o óbvio a plenos pulmões. Já faltou mais.

18 comentários:

Pedro Soares disse...

Além de não me rever no pensamento de Vicente Jorge Silva, não é precisamente dos
periodicistas que mais prezo e politicamente considero-o sofrível no panorama português. As concepções que perfilha sobre os actuais acontecimentos mundias, são-me de todo indiferentes.

Lidador disse...

Estou em crer que quando VJS se refere em tom tão encomiástico a Dylan Avery, ignora por completo que se trata de um teenager cujas competências na matéria se resumem a fazer truncagens de manipulações de imagens.

Claro que é muito mais excitante ver um filme cheio de especulações e omissões óbvias do que ler os volumosos relatórios técnicos cheios de acrónimos intragáveise cerrado jargão técnico.

É também muito mais fácil e apelativo ler o Dan Brown do que estudar História.

Vicente Jorge da Silva lá vai dizendo que as teorias da conspiração são loucas e absurdas, mas, como é evidente, nenhum sofocleto reparou nisso.
A falácia é sempre a mesma: pescar apenas as "evidências" que estão de acordo com a crença entranhada e ignorar tudo o resto.
Como dizia Sagan, estamos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição.

Sofocleto disse...

Lidador,

Você diz que Vicente Jorge Silva "se refere em tom tão encomiástico a Dylan Avery" e que "Vicente Jorge da Silva lá vai dizendo que as teorias da conspiração são loucas". Em que ficamos? Loucas ou geniais?


Quanto aos «volumosos relatórios técnicos cheios de acrónimos intragáveis e cerrado jargão técnico», estes são demasiado omissos em relação ao edifício nº 7 do WTC:

«Em qualquer caso, a Comissão do 11/Set, talvez devida a esta admissão pelo FEMA, evitou o problema simplesmente não mencionando o facto de que este edifício (nº7) entrou em colapso.»

«Esta foi uma das mais espantosas omissões da Comissão. De acordo com a teoria oficial, o edifício 7 demonstrava, ao contrário da convicção universal anterior ao 11/Set, que grandes edifícios com estrutura de aço podiam entrar em colapso a partir de incêndios autónomos (fire alone), mesmo sem terem sido batidos por um avião. Esta demonstração deveriam ter significado que os códigos de construção e prémios de seguros para edifícios com estrutura de aço em todo o mundo precisariam ser alterados. E mesmo assim a Comissão do 11/Set, ao preparar o seu relatório de 571 páginas, não dedica uma única frase a este histórico evento.»

Anónimo disse...

As teorias da conspiração não merecem respeito nenhum! São obra de maníacos negacionistas, tal como outros que acreditam religiosamente que o Holocausto nunca existiu.

Anónimo disse...

"O radicalismo islâmico, ao contrário de se encontrar em retirada, metastizou-se e espalhou-se pelo globo".

in Trends in Global Terrorism: Implications for the United States, National Intelligence Estimate


Depois de tanta mentira, tanta trapalhada, tanta incapacidade para encobrir as próprias pegadas, já mesmo só por inércia continuam a negar o óbvio. É que se pararem caem para o lado.

mirtilho

O-Lidador disse...

Caro Sofocleto, não sei quantas vezes já lhe indiquei o site do NIST, para que possa colher informação. Infelizmente, o meu amigo prefere repetir a nauseam as mesmas tolices, citar os mesmos tontos, repoltrear-se nas mesmas inanidades.

Pela enésima vez (talvez desta vez o meu amigo se deia ao trabalho de ler, caso não tenha a cabeça muito ocupada com a repetição de mantras), sobre o WTC-7, o que NIST diz é :

“ With the release and dissemination of the report on the WTC towers in October 2005, the investigation of the WTC 7 collapse resumed. Considerable progress has been made since that time, including the review of nearly 80 boxes of new documents related to WTC 7, the development of detailed technical approaches for modeling and analyzing various collapse hypotheses, and the selection of a contractor to assist NIST staff in carrying out the analyses. It is anticipated that a draft report will be released by early 2007.

The current NIST working collapse hypothesis for WTC 7 is described in the June 2004 Progress Report on the Federal Building and Fire Safety Investigation of the World Trade Center Disaster (Volume 1, page 17, as well as Appendix L), as follows:

An initial local failure occurred at the lower floors (below floor 13) of the building due to fire and/or debris-induced structural damage of a critical column (the initiating event) which supported a large-span floor bay with an area of about 2,000 square feet;
Vertical progression of the initial local failure occurred up to the east penthouse, and as the large floor bays became unable to redistribute the loads, it brought down the interior structure below the east penthouse; and
Triggered by damage due to the vertical failure, horizontal progression of the failure across the lower floors (in the region of floors 5 and 7 that were much thicker and more heavily reinforced than the rest of the floors) resulted in a disproportionate collapse of the entire structure.
This hypothesis may be supported or modified, or new hypotheses may be developed, through the course of the continuing investigation. NIST also is considering whether hypothetical blast events could have played a role in initiating the collapse. While NIST has found no evidence of a blast or controlled demolition event, NIST would like to determine the magnitude of hypothetical blast scenarios that could have led to the structural failure of one or more critical elements”

Aguarde portanto, com evangélica paciência, sem espingardar e sem se atolar mais no ridículo.

Trata-se de engenheiros de estruturas...sabem certamente mais que putos de 19 anos em apoplexias de acne mental.

Se calhar Sagan tinha razão.

Sofocleto disse...

«This hypothesis may be supported or modified, or new hypotheses may be developed»

Que remédio senão aguardar com evangélica paciência. Explicar o inexplicável é complicado, mesmo para o NIST.

Carlos Paiva disse...

Os editorialistas cá da praça, quando têm pouco para comunicar -- sendo remunerados à página -- aprontam uma fábula incoerente, sem oportunidade nem interesse de modo a perfazer duas linhas obrigatórias num qualquer periódico. Embora não faltem assuntos importantes para esclarecer, e são muitos, já nada de relevante os interessa. Acontece que os editorialistas estão esgotados, não pelo que esclarecem, mas pelo que engendram. Vicente Jorge Silva está na equipa dos extenuados.

Mário Costa disse...

Boaventura de Sousa Santos:

Um ano depois da sua ocorrência, não é possível analisar as causas do 11 de Setembro sem analisar as suas consequências. No entanto, a este respeito ocorre uma disjunção perturbadora. Um ano depois, o 11 de Setembro é tão misterioso nas suas causas como transparente nas suas consequências. Enquanto as perguntas "por que ocorreu?" e "como foi possível que ocorresse?" continuam a desafiar a imaginação e a capacidade analítica dos cientistas sociais e dos comentadores políticos, as consequências estão à vista de todos. Em 11 de Setembro de 2002 o mundo é mais injusto, mais violento, mais inseguro, mais opaco, menos democrático.

http://www.ces.uc.pt/opiniao/bss/056.php

Mário Costa disse...

Boaventura de Sousa Santos:

No pólo oposto destas teorias, estão aquelas para quem as causas dos ataques residem exclusivamente em Bin Laden e no seu grupo, a Al Quaeda, nos seus objectivos e nos seus métodos. Só eles os poderiam levar a cabo e, logicamente, se eles forem eliminados, os ataques não se repetirão e o problema estará resolvido. Esta última teoria é muito próxima da interpretação oficial do 11 de Setembro.

http://www.ces.uc.pt/opiniao/bss/056.php

O-Lidador disse...

O Boaventura não é aquele esquerdóide enfunado que vai para os fóruns sociais discutir em pobreza, mas com as respeitáveis nádegas alapadas nos assentos da classe executiva?

Ah, pois!

Citar o Boaventura, é asneira segura.
E a quem o Boaventura cita, não se deve dar muita guita.

Adriana M. disse...

As teorias da conspiração são uma tristeza, assim como considero repulsivas as pessoas que as difundem.

Sofocleto disse...

Lidador, não o sabia um poeta! Para quado uma ode às armas de destruição maciça de Saddam?

Adrana, também considero repulsivas as pessoas que difundem teorias de conspiração. Sobretudo quando são mal amanhadas!

augustoM disse...

Na América, nunca se sabe quem manda, são tantos a querem mandar, e actuarem por conta própria, pequenos impérios dentro do Império.
Um abraço. Augusto

mirtilho disse...

"Sobretudo quando são mal amanhadas!"

E pensar que até às eleições dos furinhos mecanográficos havia a convicção de que para aquelas bandas não se brincava em serviço!

Balhamedeus! Pior é impossível. Parece que fazem de propósito para serem apanhados com a boca na botija.

Anónimo disse...

http://youtube.com/watch?v=stVmEmJ666M
http://youtube.com/watch?v=1d0XEHahJ2Q
http://youtube.com/watch?v=T_Fm3Zc7D8I
http://youtube.com/watch?v=lpckijMVe3I

vejam este debate dos produtores do Loose Change VS Popular Machanics(os que defendem a versão oficial), transmitido pelo canal Democracy Now no passado 11 de setembro, dia em que houve grandes manifestações pró "inside job", e que os media não quiseram dar importancia (porque será?)

Rouxinol disse...

Lidador:

"An initial local failure occurred at the lower floors"
Já expliquei aqui porque é que isto é falso. O edifício faz o "kink" depois de cairem as penthouses cá em cima.

"it brought down the interior structure below the east penthouse"

Cá está a contradição, eles dizem que a penthouse que vemos ser derrubada na imagem é resultado de uma falha estrutural numa das colunas principais, isto representaria uma fenda no edifício que não é visível.

"NIST has found no evidence of a blast or controlled demolition event"
Cá está a maravilhosa ciência a funcionar =) Não há quaisquer evidências, nem as explosões laterais, nem o facto de o edifício ter sido reduzido a pó, nem sequer o facto de ter caido em queda livre...nada!!

"Trata-se de engenheiros de estruturas...sabem certamente mais que putos de 19 anos em apoplexias de acne mental."
Se um matemático doutorado te disser que 2+2 são 5. O que é que tu lhe respondes?

És tão ceginho, tão pateta...triste infeliz. Tu nem nos estás a tentar convencer, deves estar a tentar convencer-te a ti mesmo.

O-Lidador disse...

Caro rouxinol, a minha pessoa é certamente muito interessante de discutir, mas creio que não é esse o assunto.

Quanto à sua questão, nenhum matemático doutorado me diz seriamente que 2+2=5.
Por isso é que é matemático.
Quem me diz que 2+2=5, não é obviamente um matemático, mas um charlatão.

É por isso que tenho esta estranha tendência a não acreditar nele.

Por isso, o meu caro passarão pode chilrear o que bem lhe aprouver, pode fazer "análises" tão profundas como a que acaba de fazer, mas a sua opinião sobre o assunto é igual à minha sobre a táctica do Manchester United: meros treinadores da bancada.

Se se acha mais qualificdo que os engenheiros do NIST, não perca mais tempo e vá já para os EUA ensinar engenharia de estruturas aos pobres ignorantes.

Já agora, o que é um "ceginho"?